sábado, 28 de fevereiro de 2026

COMECE PELO PORQUÊ

Se existe um gênero que sofre de certo preconceito é aquele denominado “Livros de Auto-Ajuda”. Porém, Simon Sinek, autor da obra “Comece pelo Porquê” subverte essa lógica, quando ele mesmo, em determinado momento, aponta que seu intento é que uma determinada pessoa – seu leitor – ajude as outras pessoas. Interessante observar que isso, de certa forma, está no cerne do que seria o chamado “trabalho voluntário”. A partir do momento que alguém busca fazer o bem para outrem, o sentimento de retorno acaba sendo tão benéfico para o próprio praticante do voluntariado que este é quem acaba sendo, emocionalmente e mentalmente, ajudado.

Como está descrito na orelha de seu livro – a edição a qual tive acesso é da Editora Sextante (RJ), publicada em 2018 a partir da obra original, surgida em 2009, tendo 256 páginas – “Simon Sinek tornou-se mundialmente conhecido ao popularizar o conceito do porquê em sua primeira TED Talk, que foi ao ar em 2009, e está entre as três mais populares, com mais de 50 milhões de visualizações. É fundador da Start With Why, instituição dedicada a produzir ferramentas e recursos para inspirar pessoas (...)”. Isso tudo, após ter saído de um processo de depressão pelo aparente desalinhamento de expectativas em relação à uma carreira construída na área de marketing.

Simon Sinek e sua primeira obra escrita

Meu interesse por sua(s) obra(s) – as quais esta resenha é apenas primeira de um grupo total de 4 livros que lerei dele – se deu após ter visto uma série de declarações, entrevistas e pequenas palestras do autor que pareceram apontar justamente para uma necessidade da qual buscava para bem entender como seguir auxiliando as pessoas no meu trabalho a alcançarem seu máximo potencial, isso tanto àqueles que encontram-se hierarquicamente acima de mim, quanto em relação à equipe da qual sou responsável. O que veremos, portanto, daqui em diante, são os principais achados os quais encontrei nessa primeira jornada a partir desse livro, dividido por tópicos principais.

Depressão nos dias atuais

“Os americanos estão sofrendo de úlceras, depressão, hipertensão arterial, ansiedade e câncer em níveis recorde. (...) Os ganhos de curto prazo (...) estão, na verdade, destruindo nossa saúde” – pág. 44.

É claro que Sinek desenvolve sua teoria a partir do seu contexto particular, que são os Estados Unidos da América. É nesse sentido que ele fez tal declaração acima. Mas é óbvio que ela serve de testemunho do modelo social adotado por grande parte da civilização humana a partir do advento do capitalismo. Todos hoje em dia buscam seu conforto (e o de sua família) baseado em ganhos financeiros que dão sustentabilidade ao seu padrão de vida. Nesse sentido o autor prega que houve uma perda do que seria o verdadeiro nexo de nossa existência – o que nos faz sentir prazer naquilo em que atuamos a maior parte do tempo, no transcorrer do trabalho? O que nos inspira? Ou, nas palavras dele, o que nos faz feliz para ir ao trabalho?

Em determinado momento, ele próprio havia perdido esse sentimento. E a situação pela qual ele passava é recorrente, infelizmente, nos dias de hoje. Mas no caso dele, serviu como mola propulsora para encontrar uma solução, uma saída. Ele não se satisfez com o seu estado de ânimo. E com isso conseguiu identificar qual seria sua missão – ou o seu Porquê... Mas vejamos como ele se descreveu quando estava no fundo do poço:

“A depressão me fez ficar paranoico. Estava convencido de que ia ficar sem o negócio. Estava convencido de que ia ser despejado do meu apartamento. Tinha certeza de que todos os que trabalhavam para mim não gostavam de mim e que meus clientes sabiam que eu era uma fraude. Achava que todas as pessoas que eu conhecia eram mais inteligentes do que eu. Achava que todas as pessoas eram melhores que eu. E toda a energia que me restava para sustentar o negócio era canalizada para me escorar e fingir que estava me saindo bem” – págs. 228/229.

A partir desse ponto, ele conseguiu gerar algo que o transcendeu – e que ajuda a inspirar pessoas a serem melhores líderes.

Liderança é inspirar

“Liderança exige que as pessoas fiquem com você nos bons e nos maus momentos. Liderança é a capacidade de mobilizar pessoas não apenas para um único evento, mas por muitos anos” – pág. 39.

A coincidência de percepção em relação a minha pessoa parte dessa premissa acima. Sempre que busquei lidar com meus colegas de trabalho tratei de apresentar a eles o que me satisfaz na qualidade de servidor público. Categoria por vezes tão maltratada – naquele eterno círculo vicioso no qual os maus exemplos acabam fazendo que os bons profissionais paguem por um estereótipo incutido na mente da população – estamos aqui por uma vocação – servir ao povo que tão duramente paga seus impostos na expectativa de receber melhores serviços e condições de vida em sociedade. Para mim, mais particularmente ainda, trabalhando na área de relações internacionais, significa ainda defender os interesses do povo brasileiro em negociações com representantes de outros Governos, tentando um equilíbrio em que todos possam sair ganhando de alguma forma e, contribuindo assim, para um mundo melhor. Isso é o que me inspira.

A partir dessa lógica, a luta é por me cercar de pessoas que tenham a mesma percepção. E isso tem sido contínuo em todos os anos de minha vida. Fico feliz ao perceber que, mesmo aqueles que não seguiram comigo nessa jornada, levaram essa mensagem para outros postos que vieram a ocupar. E se não levaram, eu posso ter falhado na transmissão desse sentimento ou estas pessoas tinham outros objetivos em mente que não se casavam com os meus. E cada um seguiu sua própria trajetória.

De todo modo, o que tento é fazer com que aqueles que estejam comigo sejam felizes no que fazem, quaisquer que sejam suas funções, pois:

“Quem acorda feliz para ir ao trabalho é um profissional mais produtivo e mais criativo. Voltam para casa mais felizes e têm famílias mais felizes. Tratam melhor colegas, clientes e consumidores. Funcionários inspirados contribuem para companhias mais fortes e economias mais robustas” – pág. 17. 

Crença no que faz

“O objetivo de uma empresa não deveria ser fazer negócio com qualquer um que simplesmente quer aquilo que você tem a oferecer. Deveria ser se concentrar em pessoas que acreditam no que você acredita” – pág. 92.

Na sequência do que foi dito na seção anterior, o líder deve pautar sua trajetória por identificar tais pessoas para sua equipe. Fica naturalmente muito mais fácil lidar com um time que trabalha na mesma sintonia e que acredita naquilo que está sendo proposto do que remar contra a maré com pessoas que entendem de maneira diversa. O trabalho de convencimento é uma constante. Mas pode ser que ao final seja percebido por uma das partes que não existe um alinhamento de expectativas. E aí é melhor separar para que cada um siga o seu caminho. Nesse processo, é importante que as pessoas sejam autênticas, no sentido de serem verdadeiras, de modo a que ambos possam bem compreender com o quê ou com quem estão lidando e se esse “projeto” terá futuro.

“Ser autêntico não é requisito para o sucesso, mas passa a ser se você quiser que o sucesso seja duradouro. (...) Autenticidade é quando você diz e faz coisas em que efetivamente acredita” – pág. 81.

Porém, é importante também ser transparente quanto aos benefícios a serem auferidos, ainda mais se se tem como perspectiva as linhas temporais para os alcançar – ou seja, quais são as expectativas de cada um a curto, médio e longo prazos. Muitas vezes a satisfação não é obtida por uma ascensão hierárquica ou por um aumento financeiro - o que pode sempre ajudar, mas não deve ser o eixo central de nossa atuação, sob o risco de um constante sentimento de decepção. É como no futebol – ao se iniciar o campeonato todas as equipes envolvidas têm o mesmo objetivo: serem campeões. Mas somente uma delas alcançará esse intento. Ter isso claro serve para realçar em como você deseja viver sua jornada. Você se valorizará apenas se a meta final for alcançada? E como você se vê durante toda essa trajetória? Não há nenhum prazer nos seus atos durante seus dias de trabalho? Um exemplo dado por Sinek, para mim, é a síntese de como devemos apresentar os fatos para quem virá compor uma equipe:

[CONTEXTO – Viagem à Antártida – Expedição liderada pelo inglês Ernst Shackleton]

“Quando você preenche os quadros de uma organização com gente que se encaixa nela, que acredita naquilo em que você acredita, o sucesso é consequência natural. E como foi que Shackleton achou essa incrível tripulação? Com um simples anúncio no The Times de Londres.

‘Precisa-se de homens para uma jornada arriscada. Salários baixos, muito frio, longos meses no escuro total, perigo constante, retorno seguro duvidoso. Honra e reconhecimento em caso de sucesso.’

(...) Shackleton só contratou gente que acreditava no que ele acreditava. (...) Quando funcionários se identificam com sua causa, eles garantem o seu sucesso. E não vão trabalhar duro e buscar soluções inovadoras por você; farão isso por eles mesmos” – págs. 104/105.

Todos são importantes

“Não se esqueça de que um PORQUÊ é apenas uma crença, o COMO são as ações que empreendemos para realizar essa crença, e os O QUÊs são os resultados dessas ações. Não importa quão carismático ou inspirador seja o líder, se não houver na organização pessoas inspiradas para tornar aquela visão realidade e para construir uma infraestrutura com sistemas e processos, então, no melhor dos casos, reinará a ineficácia e no pior, o resultado será o fracasso” – pág. 150.

Na linha do que falamos anteriormente, a partir do momento em que você constitui uma equipe não pode incorrer no erro de prometer que todos ascenderão em determinado momento. Mas deve-se procurar criar um ambiente em que todos acreditem e enxerguem sua importância na consecução dos resultados. E isso deve ser de tal modo satisfatório, que todos os membros comprem a ideia – e tenham o sentimento – de que fazem parte de algo maior, não importando a posição (ou os projetos) que ocupam. Sem eles, nada seria possível.

“Em quase todo caso de uma pessoa ou organização que inspirou outras pessoas e realizou grandes coisas existe essa parceria especial entre PORQUÊ e COMO. Bill Gates, por exemplo, pode ter sido o visionário que imaginou um mundo com um PC em cada mesa, mas Paul Allen construiu a companhia. (...) Steve Jobs era o pregador da rebeldia, mas Steve Wozniak é o engenheiro que fez a Apple funcionar. Jobs teve a visão, Woz fez os produtos. É a parceria entre uma visão de futuro e o talento para realizá-la que faz uma organização ser grande” – pág. 154.

É dessa forma que Sinek exemplifica em sua obra a importância de cada um. Muitas vezes os líderes carismáticos acabam levando a fama por sua obra. E as pessoas não percebem que existem outros elementos que fizeram aquilo possível. O segredo do sucesso é como essas pessoas – gestores ou funcionários – se enxergam a si próprios. Se eles não se importarem em ser a face mais duradoura de uma estrutura – e não necessariamente a principal estrela de uma constelação – desde que essa sirva aos seus propósitos de vida, talvez aí tenhamos atingido de fato a realização em cada um de nós. E sem carregar o ônus de ter que ficar prestando contas para terceiros por ser uma pessoa pública.

E o que esses “seres iluminados” deveriam fazer em relação àqueles que trabalham com eles – e muitas vezes por eles? Demonstrar que acreditam nas mesmas coisas. E que estas irão gerar um bem comum a todos. E assim estes funcionários serão agentes multiplicadores de tal crença.

“Padrões mais elevados são difíceis de manter. Exige a disciplina de falar constantemente sobre ele e lembrar a todos POR QUE a companhia existe. Requer que cada um na organização seja responsável por COMO fazer as coisas – pelos valores e pelos princípios que a guiam” – pág. 160.

Qual é a sua marca? Ou, nas palavras do autor, o seu porquê?

E assim Simon Sinek passa a sua mensagem – e provavelmente sua empresa ganha um bom dinheiro por isso. Mas não é isto que vem ao caso. O importante, na qualidade de leitor, é verificar se o que ele prega, e o que afirma ser o seu porquê, transformar o mundo num lugar melhor para se viver, é algo que serve de fato aos seus propósitos, mesmo que seu porquê pessoal – ou de sua equipe – seja diverso, mas que no fim das contas transforme a todos em profissionais felizes e, por consequência, em seres humanos melhores. E ele coloca isso de maneira bem prática, ao identificar como isso se reflete nas empresas e em sua face mais visível para a sociedade em que estão inseridas – sua marca:

“(...) valor é percepção, não cálculo, e essa é a razão pela qual as companhias fazem tanta questão de investir em sua marca. Mas uma marca forte, como todos os outros fatores intangíveis que contribuem para a percepção de valor, começa com um claro senso de PORQUÊ” – pág. 205.

Aqui ele tenta demonstrar que uma marca forte se constitui, na visão do consumidor, a partir do momento em que ela entrega o que propõe. E não necessariamente o que ela gera de lucro para seus proprietários e/ou acionistas. Isso é uma consequência natural de uma marca que se estabeleça como forte a longo prazo. Será que cada um de nós está nesse caminho.

Sobre a qualidade do livro em si

Para fechar essa resenha, temos que apontar nosso pensamento quanto à qualidade do livro enquanto obra literária. É claro que se temos um instrumento que serve para a pregação de uma filosofia, é natural que a repetição de elementos, tal qual um mantra, seja esperado. Se o leitor não tem muita paciência, ele acaba se cansando com uma retórica, mesmo que simples e bem didática, que tenha tal característica. Até acho que é por isso que o livro é relativamente pequeno (menos de 300 páginas), ou seja, para evitar esse risco. Os exemplos utilizados também são poucos – e pelo menos um deles faz mais sentido no contexto norte-americano. Porém, acredito – e pelos trechos acima por mim destacados, abordando empresas mundialmente conhecidas e que estão no imaginário de todos – creio que Sinek foi bem-sucedido em seu objetivo.

É fácil compreender o que ele deseja passar – ainda mais para mim que já tinha, intuitivamente, um pensamento muito similar. Desse modo, ele cumpre com o que se propõe, e isso eu creio ser uma qualidade. Resta saber se você, enquanto leitor, está disposto a dar essa oportunidade. Ou se prefere seguir por outro caminho. E aviso logo a todos que eu deixei alguns elementos constitutivos e teóricos do que foi apresentado na obra de fora. Assim, esta minha avaliação, apesar de longa, não foi um spoiler completo. Mas um resumo daquilo que mais me tocou. Espero que tenham gostado.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Clube do Crime das Quintas-Feiras

Ao adquirir o livro “O Clube do Crime das Quintas-Feiras”, de Richard Osman – Ed. Intrínseca (2021) – 400 págs – não imaginava de que antes de lê-lo, em meio à busca por filmes ou séries mais “família” para assistirmos todos juntos aqui em casa, acabaria topando com a obra adaptada pela produtora Netflix ainda em 2025, com grandes astros e estrelas, tais como Helen Mirren e Pierce Brosnan, entre muitos outros. Dessa forma, não me recordando que tinha sua versão original em minha estante para ler em momento futuro, acabei por ver sua versão audiovisual antes de tal ação, o que contraria normalmente minha regra pessoal de ouro.


Pois bem... Nada como uma ação desavisada para, por vezes, confirmar uma teoria. E esta seria a de que a obra escrita entrega muito mais elementos atrativos do que a adaptada para as telas. Creio que por limitações específicas de um meio em relação a outro, mas principalmente porque quando estamos falando de um livro, temos aí por detrás a mente de um autor que busca aguçar a imaginação dos seus leitores, incluindo elementos e detalhes para fisgá-los e manter o interesse na estória – ainda mais tendo em vista que hoje em dia são muitas as alternativas concorrentes buscando esse mesmo consumidor de conteúdo.

Nada disso deve ser surpreendente para o autor. Afinal, Richard Osman originalmente é produtor e apresentador de televisão na Grã-Bretanha. Ou seja, ele conhece da matéria e o que está em jogo quando ele decidiu buscar nas palavras escritas outro meio para expor suas ideias por intermédio de seus personagens. E o que Osman entrega é algo muito saboroso e leve. A estória se passa num asilo de alto nível localizado na Inglaterra, nos dias de hoje. Nele, um pequeno grupo de “habitantes” se dedica a desvendar crimes do passado, deixados de lado pela força policial e tidos como insolúveis.

Este é constituído (observar o grupo na primeira foto acima) por Elizabeth, ex-espiã (Helen Mirren); Ron, ex-sindicalista (Pierce Brosnan); Ibrahim, psicólogo (Ben Kingsley); e Joyce, a caloura, ex-enfermeira e cozinheira de mão cheia (Celia Imrie). Eles têm a cumplicidade, meio a contragosto, dos detetives Chris e Donna, que se veem incapazes de suplantar o conhecimento “amador” dos septuagenários do clube. O desenrolar se dá a partir do momento em que um dos proprietários do estabelecimento é assassinado. Posteriormente outros crimes acontecem e/ou são resgatados do passado, mesclando estórias de outros personagens secundários, todos colegas de asilo ou que vivem nas redondezas do estabelecimento.

Na comparação entre o livro e o filme, obviamente os roteiristas buscaram simplificar a trama, até mesmo invertendo um pouco a ordem da aparição dos acontecimentos criminosos a serem desvendados. O que no filme é um gancho para a apresentação dos personagens, no livro se trata de um arremate final de menor importância. A personagem Joyce, que no filme é uma coadjuvante, no livro é uma das principais narradoras, tendo capítulos de seu diário entremeando o desenrolar da estória.

Feitas essas considerações de caráter técnico, no que diz respeito ao livro, ele é altamente recomendável para o lazer, para apreciar um bom enredo policial, acompanhado de muitos risos pelo bom tom cômico que o autor consegue colocar para personificar o relacionamento daqueles idosos abusados e senhores de si quanto a como conduzir uma investigação, de certa forma desdenhando dos meios oficiais para fazê-lo. Além disso, as viradas são constantes, principalmente no terço final da obra, que é quando ela mais claramente se diferencia de sua adaptação cinematográfica. E, mesmo que pareça contraditório da minha parte, minha sugestão é que assistam primeiro o filme e depois leiam o livro. Porque se o fizerem na ordem inversa, pode ser que se decepcionem com o primeiro, desperdiçando um que pode vir a ser um bom momento em família. E nada os impedirá que, posteriormente, se dediquem à leitura, já sabendo que muitas novidades enriquecedoras ainda lhe serão apresentadas.

domingo, 9 de novembro de 2025

América Latina, lado B

 Ao adquirir a obra “América Latina, lado B”, do autor Ariel Palacios, publicada pela editora Globo Livros (2024 – 448 págs) as primeiras coisas que me vieram a cabeça foram a inteligência e a rapidez de raciocínio - além do amplo arsenal de cultura geral – do autor, reconhecido jornalista e correspondente da Globo, instalado em Buenos Aires, Argentina, há muitos anos. O acompanho mais detidamente quando de suas entradas nos telejornais da supracitada rede de televisão, inclusive naquelas dedicadas a esportes - ocasião em que ele já expos ser torcedor do Londrina, clube da cidade homônima do Paraná da qual é originário. 


A obra não decepciona nesse sentido. Sempre com o humor afiado, 
Palacios destrincha uma série de acontecimentos bizarros ocorridos nos diversos países que nos avizinham na América Latina – nem todos com fronteiras terrestres, mais ao sul, mas incluindo também todos aqueles que compõem o cinturão que chega até o grande irmão do Norte. Estes acontecimentos remontam a alguns séculos passados, mas ganham maior fulgor quando associados a épocas mais recentes - século XX em diante – pois dessa forma se aproximam senão de uma realidade vivida diretamente por nós, mas seguramente por nossos pais, avós ou bisavós. Ou seja, fatos que estão latentes em nossas experiências genéticas, das quais lemos nos livros de História primeiro como algo distante e, posteriormente, com a percepção do quanto estes mesmos elementos compuseram nossos traços como povo.
 

Palacios logo em seu início indica que o livro se dedica aos nossos vizinhos – e não a nós mesmos. Isso porque os brasileiros são os maiores sabedores de sua própria desgraça, quando nos atemos aos políticos por nós eleitos, dos quais pouco nos orgulhamos, salvo honrosas exceções. Dessa forma, a intenção do autor é trazer à luz para os leitores tupiniquins fatos ocorridos dos quais muitas vezes não damos tanta importância, por serem alocados em terras outras que não as nossas, como se isso nunca fosse nos atingir – o que sabemos ser uma falácia. 

Desse modo, ao terminar o livro, entre risos nervosos de comédias dramáticas, imaginamos o quanto estamos imersos naquilo que se cunhou realismo fantástico, tão em voga na literatura latino-americana. Não fôssemos nós atores coadjuvantes dessa peça de nossas vidas, por vezes imaginando que podemos alterar uma tendência irrefreável de horrores, talvez, ao menos, para seguirmos adiante, alcancemos a capacidade de rir de nossas desgraças e tornar tudo em seu entorno mais leve. 

Creio ser essa a grande lição que fica desta obra: sabermos ter a clarividência de que o inferno são os outros, tendo, porém, a consciência de que cada ato nosso, se realizado de maneira equivocada, somente tornarão mais agudos os problemas nos quais estamos inseridos e nos encaminharão para um teatro de terror contínuo. Cabe a nós, nesse sentido, buscar a melhor maneira de tomarmos decisões que tenham como objetivo, ao menos, alterar o final desta peça. E, durante essa jornada, que saibamos nos divertir, ao menos. Abaixo, uma pequena amostra dessa pérola que nos foi lançada, sobre o final da ditadura paraguaia de Alfredo Stroessner: 

Em 1989, seu próprio consogro, o general Andrés Rodríguez, preparou o golpe para derrubar Stroessner. O plano era pegar o ditador na casa de sua amante, Estela Legal, de forma a evitar um massacre no palácio presidencial ou na residência oficial. No dia 2 de fevereiro, os chefes da rebelião decidiram antecipar o golpe foram até o quarteirão da casa da amante de Stroessner e ficaram esperando que ele entrasse ali. O ditador chegou às 8 horas da noite. Um dos rebeldes, o coronel Díaz Delmás, tentou avisar as tropas pelo walkie-talkie, mas o aparelho não funcionava, de forma que ele demorou algum tempo para dar a informação aos companheiros, que chegaram em três caminhões. A ordem era derrubar o portão dos fundos e entrar disparando, mas Delmás viu que os caminhões passavam direto pela casa. Desesperado, correu atrás deles e um dos motoristas lhe confessou: “Não tínhamos o endereço correto...”. [pág. 250]. 

 

terça-feira, 22 de abril de 2025

A MENTE MORALISTA

 

Confúcio, quando questionado se existe uma única palavra que possa guiar a vida de alguém, respondeu: “Não deveria ser reciprocidade? O que você não deseja para si mesmo, não faça aos outros” (pág. 354)

Ao receber o livro de Jonathan Haidt – “A Mente Moralista” – Editora Alta Books, 2020 – 448 págs - pensei eu: que bom momento para ler algo assim. Isso, mesmo sem ter me debruçado ainda em suas palavras ou análise, somente pautado pelo subtítulo então presente – Porque as pessoas boas são segregadas por política e religião. Aos que estão no meu convívio sabem que, já há algum tempo, sou um grande crítico desses tempos de polarização desmesurada, da perda da capacidade de diálogo entre as pessoas que possuem visões distintas sobre diversos aspectos da vida. Minha esperança estava então centrada, ao iniciar meu mergulho na visão do autor, ganhar argumentos que pudessem consolidar o meu debate pela retomada da capacidade do ser humano de conviver, ou ao menos de tolerar, (com) o lado contrário.



“Esse livro explicou por que as pessoas se segregam por causa de política e religião. (...) a explicação é que nossas mentes foram projetadas para a justiça de grupo. Somos criaturas profundamente intuitivas, cujos sentimentos instigam nosso raciocínio estratégico. Isso dificulta – mas não impossibilita – a conexão com aqueles que vivem em outras matrizes, que muitas vezes são construídas em diferentes configurações dos alicerces morais disponíveis” (grifo nosso). (pág. 340)


Posso dizer que minha jornada, lendo o raciocínio construído por Haidt, foi bem-sucedida. Mas antes de levar vocês a um extrato (ou diversos) do que ele me apresentou preciso antes qualificá-lo. Tal como se encontra na orelha do livro, Jonathan Haidt “é professor (...) de Liderança Ética da Stern School of Business da Universidade de Nova York. Obteve seu doutorado em psicologia social pela Universidade da Pensilvânia em 1992 e depois lecionou na Universidade da Virgínia até 2011”. Mas essa apresentação protocolar, para o meu anseio maior, ainda não era suficiente. E eu obtive elementos que me interessaram durante a leitura, os quais basicamente foram 2 centrais: por opção política, ele se considera um eleitor do Partido Democrata, portanto mais voltado ao que convencionamos como esquerda. E ele teve uma experiência que o propiciou compreender uma outra visão de mundo, diferente do americano médio – inclusive dos próprios democratas – ao fazer parte de sua pesquisa numa sociedade com valores completamente distintos – na Índia.

Esses dois elementos acompanham a todo momento o texto, uma vez que ele, apesar de sua visão política, chegou à conclusão que àqueles à esquerda do espectro político, em que pese o discurso baseado em pautas do que convencionamos chamar de “politicamente correto”, têm muito mais dificuldades em dialogar do que o grupo estabelecido à direita, perdendo assim ótimas oportunidades para bem compreender boas ideias e projetos, se deixando levar, efetivamente, pelos sentimentos e não usando o raciocínio lógico e prático necessário muitas vezes para desenvolver uma boa administração. O que é extremamente interessante, repito, dado ele ser claramente um votante do Partido Democrata.

“Eu havia escapado de minha mentalidade partidária anterior (rejeite primeiro, faça perguntas retóricas depois) e comecei a pensar em políticas liberais e conservadoras como manifestações de visões profundamente conflitantes, mas igualmente sinceras, de uma boa sociedade. Era bom estar livre da raiva partidária. E uma vez que não estava mais com raiva, não estava comprometido a chegar à conclusão que a raiva moralista exige: nós estamos certos, eles estão errados. Pude explorar novas matrizes morais, cada uma apoiada por suas próprias tradições intelectuais. Parecia um tipo de despertar” (grifo nosso – pág. 115)

Sendo um acadêmico, devotado à pesquisa sobre a psicologia social, ele se viu assim aberto a ouvir as diferentes perspectivas. Não foi obviamente algo agradável, pois no relato de seus experimentos, baseados em entrevistas, ouviu de tudo um pouco, colocações muitas vezes desagradáveis e extremistas, de ambos os lados. Mas era importante, para testar suas hipóteses, passar por esse tipo de situação. Ele esmiuça, assim, cada um desses aspectos durante o texto, ilustrando e trazendo vivacidade ao leitor, que passa a incorporar aquela experiência como se assim tivesse participado dela, fazendo-nos refletir sobre nossos próprios (pre)conceitos.

Ele dividiu as pessoas basicamente em três grupos – liberais, como sendo aqueles mais à esquerda (eleitores do Partido Democrata, em sua maioria); conservadores, mais à direita (eleitores do Partido Republicano); e libertários, defensores máximos da liberdade do indivíduo em relação ao Governo. Seriam, grosso modo, a direita mais radical, na qual não é aceito nenhum tipo de intervenção governamental em suas vidas. Estes seriam, então, os grupos que seriam pauta de sua análise a partir da identificação dos princípios morais que seriam apresentados em sua argumentação teórica.

Em determinado momento ele chega à conclusão que “cinco bons candidatos a receptores do paladar da mente moralista são cuidado, justiça, lealdade, autoridade e pureza”. (pág. 135) – grifo nosso. Esses cinco elementos, serão, portanto, aqueles que serão observados em seu grau de importância para os diferentes grupos, foco de sua pesquisa. Mas até alcançar essa percepção, o início do livro retrata sua caminhada. Ou seja, somos testemunhas da construção de seu raciocínio. Um dos seus primeiros achados é a supremacia do sentimento sobre o raciocínio lógico. Ou seja, por mais que queiramos tomar uma decisão isenta de quaisquer paixões, isso é impossível. É inerente ao ser humano ser guiado por estas últimas, influenciando diretamente sua visão objetiva de mundo.

No início do livro ele aponta para algo no que acredita deveria ser algo a pautar nossas ações morais: “(...) a moralidade envolve tratar bem os indivíduos” (pág. 11). Ele busca ainda avançar ao indicar teóricos clássicos que influenciaram sua análise, tal como: “(...) David Hume (...) escreveu em 1739 que ‘a razão é, e só pode ser, escrava das paixões; e só pode pretender ao papel de servir e obedecer a elas’” (pág. 26). Porém, ele se viu diante de um dilema ético: como seria a definição e o uso da verdade para as pessoas? Ora, o que aparentemente era verdadeiro para uns, não era para outros, e isso está diretamente vinculado às matrizes morais que elas “obedeceriam” ou buscariam.

Sob a lógica do autor, “é melhor ser do que parecer virtuoso” (pág. 77). Porém, “não teria sido mais adaptativo para nossos ancestrais descobrir a verdade, a verdadeira verdade sobre quem faz o quê e por que, em vez de usar todo esse poder cerebral apenas para encontrar evidências em apoio ao que eles queriam acreditar? Isso depende do que você acha mais importante para a sobrevivência dos nossos ancestrais: verdade ou reputação” (pág. 75) – grifo nosso. O capital reputacional, dessa forma, é o que nos guia no dia a dia. Não queremos nos dar ao trabalho de avaliar as opções de maneira objetiva, mas sim de balizar e procurar argumentos que validem, ex ante, no que acreditamos. Não damos, assim, oportunidade para nós mesmos em ouvir algo que seja distinto de nossos próprios pré-conceitos. “Os cientistas cognitivos franceses Hugo Mercier e Dan Sperber (...) dizem, ‘argumentadores habilidosos... não estão atrás da verdade, mas de argumentos que sustentem seus pontos de vista’.” (pág. 95). Ou seja, infelizmente “nosso pensamento moral é muito mais parecido com um político que angaria votos do que com um cientista que busca a verdade”. (págs. 81-82).

Outro ponto teórico relevante para o autor é a capacidade ação do ser humano quando inserido num grupo – e em como isso, naturalmente, baliza a consolidação de princípios morais. Lembro aqui que o campo de pesquisa do autor é a chamada psicologia social. Assim sendo, abordar como tal enxerga a dinâmica dos indivíduos inseridos num grupo é relevante para chegar a conclusões em quaisquer estudos nessa área acadêmica. Em que pese o autor ter ponderado, em alguns momentos, que essa abordagem “grupal”, digamos, ter sido relegada em determinado momento da História a um segundo plano junto aos seus pares, tendo sido resgatada somente mais recentemente.

Sobre este aspecto ressalto os seguintes achados:

·         “Quando os grupos competem, o grupo coeso e cooperativo geralmente vence”. (pág. 207);

·         “(...) a felicidade vem do meio. Ela resulta do relacionamento correto entre nós e os outros, nós e nosso trabalho, e nós e algo maior”. (pág. 261);

·         “Os sistemas morais são conjuntos interligados de valores, virtudes, normas, práticas, identidades, instituições, tecnologias e mecanismos psicológicos evoluídos que trabalham juntos para suprimir ou regular o interesse próprio e possibilitar sociedades cooperativas”. (pág. 289); e

·         “Capital social refere-se a um tipo de capital que os economistas haviam ignorado completamente: os laços sociais entre os indivíduos e as normas de reciprocidade e confiabilidade que surgem desses laços”. (pág. 311).

Ora, se maior coesão acaba favorecendo um determinado grupo, para que este saia vitorioso de um embate, é natural que os laços que unem seus membros sejam fortalecidos. Dessa forma, a lógica de atuação em grupo retroalimenta uma única visão, dificultando que seus membros possam ter um olhar aberto ao contraditório. Nessa fase do livro, portanto, o autor sedimenta cada vez mais a sua conclusão final. Conclusão esta voltada à pergunta base, a qual voltamos a salientar – “Por que pessoas boas são segregadas por política e religião?”.

O papel da religião também é abordado pelo autor, porém como mais um elemento simbólico da capacidade de agregação em torno de teses comuns. Haidt não discute a fé em seu livro. Não é esse o seu escopo. Mas sim a religião como fenômeno social. Nas palavras dele:

“Ao longo deste livro, argumentei que as sociedades humanas em larga escala são conquistas quase milagrosas. Tentei mostrar como nossa complicada psicologia moral coevoluiu com nossas religiões e outras invenções culturais (como tribos e agricultura) para nos levar aonde estamos hoje. Argumentei que somos produtos da seleção multinível, incluindo a seleção de grupo, e que nosso ‘altruísmo paroquial’ faz parte do que nos torna grandes jogadores de equipe. Precisamos de grupos, amamos grupos e desenvolvemos nossas virtudes em grupos, mesmo que eles necessariamente excluam os não membros. Se eliminarmos todos os grupos e dissolvermos toda a estrutura interna, destruímos seu capital moral” (grifo nosso). (pág. 328).

O capital moral citado acima é definido por ele como o “grau em que uma comunidade possui conjuntos interligados de valores, virtudes, normas práticas, identidades, instituições e tecnologias que se combinam bem com os mecanismos psicológicos evoluídos e, assim, permitem à comunidade suprimir ou regular o egoísmo e possibilitar a cooperação” (pág. 313).

Um Olhar sobre Direita e Esquerda

Já no terço final do livro, estabelecidas as bases de sua argumentação, o autor se encaminha para algo espinhoso, que são suas visões após toda a consolidação dos elementos que ele identificou com suas pesquisas: como qualificar o posicionamento de ambos os espectros políticos convencionais, à luz das dificuldades por eles apresentadas em enxergar o outro lado? Abaixo transcrevo suas principais percepções:

·         “Todo mundo se preocupa com justiça, mas existem dois tipos principais. Para a esquerda, a justiça implica igualdade, mas, para a direita, ela é proporcionalidade – as pessoas devem ser recompensadas proporcionalmente pelo que contribuem, mesmo que isso garanta resultados desiguais”. (pág. 147;

·         “Quando alguns membros de um grupo contribuem muito mais do que os outros – ou ainda pior, quando alguns não contribuem com nada -, a maioria dos adultos não quer ver os benefícios distribuídos igualmente”. (pág. 195);

·         “(...) No entanto, se estiver tentando mudar uma organização ou uma sociedade e não considerar os efeitos de suas mudanças no capital moral, está procurando encrenca. Acredito que esse seja o ponto cego fundamental da esquerda. Ele explica por que as reformas liberais com frequência saem pela culatra, e por que as revoluções comunistas geralmente acabam em despotismo[1]. É a razão pela qual acredito que o liberalismo – que fez muito para trazer liberdade e igualdade de oportunidades – não é suficiente como filosofia de governo. Tende a exagerar, mudar as coisas demais com rapidez excessiva e reduzir inadvertidamente o estoque de capital moral. Por outro lado, embora os conservadores façam um trabalho melhor em conservar o capital moral, geralmente deixam de perceber certas classes de vítimas, não limitam as predações de certos interesses poderosos e não veem a necessidade de mudar ou atualizar as instituições com o passar do tempo” (págs. 313-314);

·         “Penso que os liberais estão certos quando afirmam que uma das principais funções do governo é defender o interesse público contra as corporações e sua tendência a distorcer os mercados e impor externalidades a outras pessoas, principalmente aos menos capazes de se defender judicialmente (como pobres, imigrantes ou animais de fazenda). Mercados eficientes exigem regulamentação governamental. Mas, às vezes, os liberais vão longe demais – na verdade, em geral são automaticamente antinegócios, o que é um erro do ponto de vista utilitarista. Mas é saudável para uma nação estar em um constante cabo de guerra, um debate contínuo entre yin e yang sobre como e quando limitar e regular o comportamento corporativo”. (pág. 319);

·         “As pessoas não cooperam bem em grandes grupos quando percebem que muitos outros são parasitas sociais. Portanto, nações comunistas ou fortemente socialistas frequentemente recorrem à crescente utilização de ameaças e força para obrigar a cooperação. Os planos de cinco anos raramente funcionam tão bem quanto a mão invisível”. (pág. 391); e

·         “Acredito que os libertários estejam certos em muitos pontos (...). / Minha pequena lista de pontos adicionais: (1) o poder corrompe; portanto devemos ter cuidado em concentrar o poder em qualquer mão, incluindo as do governo; (2) liberdade ordenada é a melhor receita para florescer nas democracias ocidentais; (3) os Estados ‘babás’ e cuidados ‘do berço ao túmulo’ infantilizam as pessoas e as fazem se comportar com menos responsabilidade, exigindo ainda mais proteção do governo”. (págs. 323 e 391).

Aqui cabe uma ponderação, ao olhar os pontos por ele elencados. Não podemos nunca nos esquecer de que ele está imerso na cultura norte-americana. E esses aspectos por ele identificados são muito claros da filosofia dos Estados Unidos como povo. Não vai aqui um questionamento se é bom ou ruim, mas sim que é interessante contextualizar de como isso influencia seu olhar em termos de sociedade, segundo os valores cultuados ao norte do Rio Grande.

Conclusão

Ao final de tudo, o livro é um grande achado. Nos faz refletir sobre quais elementos em nosso dia a dia influenciam nossa tomada de decisão e nossa visão de mundo. Porém, para mim a maior mensagem é a respeito da nossa (falta de) capacidade de nos desapegarmos de tudo que está pré-estabelecido em nossas mentes – seja por influência social, grupal, religiosa e até mesmo genética (preferi não enfatizar muito este ponto em minha resenha, mas ele existe e é abordado pelo autor no livro, com achados surpreendentes) – para ampliar nossa capacidade de escuta e diálogo. Hoje em dia, as pessoas falam e não querem ouvir. A humanidade caminha rumo à barbárie, a meu ver, se seguirmos nessa toada. Ou, como Haidt ressaltou em seu livro, de maneira enfática, como verão abaixo, por pelo menos 3 vezes – a moralidade agrega e cega. A pergunta que fica é: como podemos sair deste ciclo vicioso e nos tornarmos pessoas melhores?

·         “Matrizes morais unem as pessoas e as cegam à coerência, ou até mesmo à existência, de outras matrizes. Dificultam que as pessoas considerem a possibilidade de que realmente exista mais de uma forma de verdade moral ou mais de uma estrutura válida para julgar as pessoas ou administrar uma sociedade”. (pág. 117);

·         “A moralidade agrega e cega. Isso não é apenas algo que acontece com as pessoas do outro lado. Todos somos sugados para comunidades morais tribais. Nós nos agrupamos em torno de valores sagrados e, em seguida, compartilhamos argumentos post hoc sobre porque estamos tão certos e ‘eles’ estão tão errados. Achamos que o outro lado é cego à verdade, à razão, à ciência e ao senso comum, mas na verdade todo mundo fica cego ao falar sobre seus objetos sagrados”. (pág. 333); e

·         “A moralidade agrega e cega. Ela nos une a equipes ideológicas que lutam entre si como se o destino do mundo dependesse do nosso lado vencer cada batalha. Isso nos cega ao fato de que cada equipe é composta de pessoas boas que têm algo importante a dizer”. (pág. 335).

 



[1] Ver nota mais abaixo, transcrita da página 391.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Escravidão Volume III

 

Termino finalmente o périplo por essa longa jornada que nos foi apresentada por Laurentino Gomes. O autor, nesse Volume III da trilogia “Escravidão” – editora Globo Livros – 592 páginas em sua 1ª edição, publicada em 2022 – traça a reta “final” deste fenômeno histórico relatando os fatos ocorridos desde a independência do Brasil, em 1822, até a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. Além disso, os anos imediatamente seguintes são descritos nos últimos capítulos, de modo a que nós leitores tenhamos a exata noção do não compromisso pelo Governo Brasileiro com a inserção daquele grupo de seres humanos que se viu, de repente, sob nova condição ao olhar do outro. Tal postura contribuiu, e muito, para o estado de coisas que permanece até hoje.

 


Mas estamos aqui para fazer uma análise não sobre o tema em si, o qual o autor discorreu longamente durante tantas páginas distribuídas pelos três livros por nós abordados. Mas sim sobre o mérito e a forma de apresentação literária realizada pelo mesmo. Nas resenhas realizadas sobre os dois volumes anteriores já havíamos identificado que, tanto como riqueza como fraqueza, poderia ser entendido a exposição de um quantitativo enorme de dados. Não imaginamos que Laurentino tenha empreendido tarefa de tal envergadura para gerar livros somente para consulta, mas também para que pudessem ser objeto de leitura e reflexão.

 

Em que pese o lado da fraqueza ter sido muito por mim ressaltado quando do último post, com a resenha realizada na metade deste ano, imaginávamos que talvez algo de diferente pudéssemos ter quando da conclusão. Isso não foi de todo alcançado no Volume III. A prosa utilizada muitas vezes ainda se “perde” num grande cabedal de informações. Porém também existem momentos nos quais nos vemos enredados por temas que nos entusiasmam. Algo similar ao que dissemos sobre a exposição da história de Chica da Silva, no volume II, salvo engano.

Chamou-nos atenção, por exemplo, que o autor traçou, logo no início do Volume III, uma linha clara de transparência quanto ao seu entendimento explícito de que seu trabalho vinha a expor um genocídio, e não menos do que isso, e que os leitores, por mais românticas que fossem as palavras que se seguiriam, não deveríamos nunca nos esquecer disso. Na página 36, já na Introdução, ele se utiliza de duas definições retiradas de dicionários, um de língua inglesa – Webster’s Third New International Dictionary of the English Language – e um em português – Dicionário Escolar do Professor (Francisco da Silveira Bueno, 1963). Na primeira coloca-se o genocídio como sendo “O uso de medidas deliberadas e sistemáticas (como morte, injúria corporal e mental, impossíveis condições de vida, prevenção de nascimento), calculadas para o extermínio de um grupo racial, político ou cultural ou para destruir a língua, religião ou a cultura de um grupo”. Na segunda tal ato é categorizado como “Recusa do direito de existência a grupos humanos inteiros, pela exterminação de seus indivíduos, desintegração de suas instituições políticas, sociais, culturais, linguísticas e de seus sentimentos nacionais e religiosos”.

Dito isto, destacamos então alguns personagens por ele ressaltados como sendo símbolos de uma época. No capítulo 2 deste volume ele descortinou aquele que teria sido o Comendador Joaquim José de Sousa Breves. “Conhecido como o ‘Rei do Café’, Sousa Breves foi também o maior senhor de escravos do Brasil em todos os tempos. Suas senzalas chegaram a concentrar 6 mil homens, mulheres e crianças em regime de cativeiro. Dono de navios negreiros, envolveu-se no tráfico ilegal de africanos, desembarcados clandestinamente em praias e portos do litoral fluminense sob o olhar cúmplice das autoridades locais. (...) Em resumo, Sousa Breves caberia por inteiro na moldura de um retrato da aristocracia rural escravocrata brasileira no século XIX. Fazendeiros, senhores de engenho, pecuaristas e produtores de café, donos de latifúndio que se estendiam pelas profundezas do Brasil, foram o alicerce da monarquia brasileira. (...) Sousa Breves sintetizou essa trajetória como ninguém, mas não chegou a ver a mudança de regime. Morreu em 30 de setembro de 1889, seis semanas antes da Proclamação da República, desgostoso com o fim da escravidão e com os rumos do próprio Império, os dois pilares da brasilidade que ajudara a sustentar ao longo daquele século. Feita a Abolição, suas fazendas entraram em ruína” (págs. 62-63).

Esses trechos acima são apenas parte de um capítulo inteiro dedicado a esse personagem, algo do que sentimos falta para melhor ilustrar o impacto do que estava sendo exposto ao leitor. Tal abordagem, durante este terceiro volume, somente voltaria a ser utilizada já perto do seu final, nos últimos 4 capítulos. Naquele denominado “Maré Branca” são narradas as trajetórias dos norte-americanos, confederados do Sul dos EUA, derrotados na Guerra Civil ocorrida naquele país justamente por conta do embate com o Norte que defendia o fim da escravidão, que viriam a aportar aqui no Brasil, numa tentativa de colonizar novas terras, muitas vezes sob o beneplácito de governos locais. Desta iniciativa restaram hoje cidades como Americana e Santa Bárbara D’Oeste, no interior de São Paulo (páginas 463-478).

Já os três capítulos seguintes, não por coincidência os 3 últimos da obra, narram os momentos imediatamente anteriores à Abolição no Brasil – “Pânico” (479-490) é o título do antepenúltimo – quanto o momento em si, no penúltimo capítulo denominado “Isabel”, aí focando na figura da Princesa Isabel (491-514) e sua relação com Pedro II, seu pai, aparentemente um monarca que se submeteu aos escravocratas, apesar de ser favorável ao término da escravidão; e por último, o após o advento da Lei Áurea, “O Dia Seguinte” (515-534), com o impacto gerado sobre a estrutura vigente à época, e em como isso acabou se revertendo em benefício da classe dominante que emergiria após o surgimento da República.

Luiz Gama
Não posso me esquecer, no entanto, em que pese o que foi dito acima, de três joias apresentadas no meio do livro – são os capítulos denominados respectivamente “Os Abolicionistas”, “O Precursor” e “A Conversão” (páginas 367-418). Neles Laurentino nos dá detalhes de figuras muitas vezes esquecidas, mas deveras importantes para o término da escravidão no Brasil. Seriam eles os baianos Luiz Gama, André Rebouças e Castro Alves, do fluminense José do Patrocínio, do pernambucano Joaquim Nabuco e do paulista Antônio Bento. Especial ênfase é dada a Luiz Gama, personagem central do capítulo denominado “O Precursor”. Figura por mim desconhecida, como também o fato, citado durante esses 3 capítulos, de que o Ceará foi então a primeira província a abolir a escravidão no País. Luiz Gama é assim descrito: “(...) arauto, precursor e abridor de caminhos que levariam ao fim da escravidão (...). Morreu em 24 de agosto de 1882, seis anos antes da Lei Áurea. Foi chorado por multidões que acompanharam o cortejo fúnebre pelas ruas de São Paulo, incluindo milhares de homens e mulheres negros que, graças a ele, tinham obtido a liberdade e alcançado justiça nos tribunais” (pág. 385).

Diria então para vocês que, mesmo tendo minhas ressalvas na dinâmica proposta por Laurentino para seu trabalho, dado que os muitos dados acabam soterrando o espaço dado a figuras como as citadas acima, que por si só valeriam obras dedicadas exclusivamente aos mesmos, pelo menos a trilogia nos serve como um alerta, grandiloquente, do ponto a que o ser humano pode chegar para subjugar seu semelhante. Que nós não possamos nunca deixar isso acontecer, sabedores que somos que, infelizmente, tal praga ainda persiste em alguns lugares do mundo. Aqui no Brasil mesmo, práticas abusivas de trabalho no interior do País, podem ser classificadas dessa forma. Minha sugestão é que tenham acesso e leiam os três livros, mas como alternativa busquem ter uma leitura em paralelo para melhor dar andamento ao seu gosto pela literatura, talvez uma ficção mais leve ou algo que uma abordagem diferenciada, mais direta, que auxilie o entendimento da obra.