Se existe um gênero que sofre de certo preconceito é aquele denominado “Livros de Auto-Ajuda”. Porém, Simon Sinek, autor da obra “Comece pelo Porquê” subverte essa lógica, quando ele mesmo, em determinado momento, aponta que seu intento é que uma determinada pessoa – seu leitor – ajude as outras pessoas. Interessante observar que isso, de certa forma, está no cerne do que seria o chamado “trabalho voluntário”. A partir do momento que alguém busca fazer o bem para outrem, o sentimento de retorno acaba sendo tão benéfico para o próprio praticante do voluntariado que este é quem acaba sendo, emocionalmente e mentalmente, ajudado.
Como está descrito na
orelha de seu livro – a edição a qual tive acesso é da Editora Sextante (RJ),
publicada em 2018 a partir da obra original, surgida em 2009, tendo 256 páginas
– “Simon Sinek tornou-se mundialmente conhecido ao popularizar o conceito do
porquê em sua primeira TED Talk, que foi ao ar em 2009, e está entre as três mais
populares, com mais de 50 milhões de visualizações. É fundador da Start With
Why, instituição dedicada a produzir ferramentas e recursos para inspirar
pessoas (...)”. Isso tudo, após ter saído de um processo de depressão pelo
aparente desalinhamento de expectativas em relação à uma carreira construída na
área de marketing.
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| Simon Sinek e sua primeira obra escrita |
Meu interesse por sua(s) obra(s) – as quais esta resenha é apenas primeira de um grupo total de 4 livros que lerei dele – se deu após ter visto uma série de declarações, entrevistas e pequenas palestras do autor que pareceram apontar justamente para uma necessidade da qual buscava para bem entender como seguir auxiliando as pessoas no meu trabalho a alcançarem seu máximo potencial, isso tanto àqueles que encontram-se hierarquicamente acima de mim, quanto em relação à equipe da qual sou responsável. O que veremos, portanto, daqui em diante, são os principais achados os quais encontrei nessa primeira jornada a partir desse livro, dividido por tópicos principais.
Depressão nos dias atuais
“Os
americanos estão sofrendo de úlceras, depressão, hipertensão arterial,
ansiedade e câncer em níveis recorde. (...) Os ganhos de curto prazo (...)
estão, na verdade, destruindo nossa saúde” – pág. 44.
É claro que Sinek
desenvolve sua teoria a partir do seu contexto particular, que são os Estados
Unidos da América. É nesse sentido que ele fez tal declaração acima. Mas é óbvio
que ela serve de testemunho do modelo social adotado por grande parte da civilização
humana a partir do advento do capitalismo. Todos hoje em dia buscam seu conforto
(e o de sua família) baseado em ganhos financeiros que dão sustentabilidade ao
seu padrão de vida. Nesse sentido o autor prega que houve uma perda do que seria
o verdadeiro nexo de nossa existência – o que nos faz sentir prazer naquilo em
que atuamos a maior parte do tempo, no transcorrer do trabalho? O que nos inspira?
Ou, nas palavras dele, o que nos faz feliz para ir ao trabalho?
Em determinado momento,
ele próprio havia perdido esse sentimento. E a situação pela qual ele passava é
recorrente, infelizmente, nos dias de hoje. Mas no caso dele, serviu como mola
propulsora para encontrar uma solução, uma saída. Ele não se satisfez com o seu
estado de ânimo. E com isso conseguiu identificar qual seria sua missão – ou o
seu Porquê... Mas vejamos como ele se descreveu quando estava no fundo do poço:
“A
depressão me fez ficar paranoico. Estava convencido de que ia ficar sem o
negócio. Estava convencido de que ia ser despejado do meu apartamento. Tinha
certeza de que todos os que trabalhavam para mim não gostavam de mim e que meus
clientes sabiam que eu era uma fraude. Achava que todas as pessoas que eu
conhecia eram mais inteligentes do que eu. Achava que todas as pessoas eram
melhores que eu. E toda a energia que me restava para sustentar o negócio era
canalizada para me escorar e fingir que estava me saindo bem” – págs. 228/229.
A partir desse ponto, ele
conseguiu gerar algo que o transcendeu – e que ajuda a inspirar pessoas a serem
melhores líderes.
Liderança é inspirar
“Liderança
exige que as pessoas fiquem com você nos bons e nos maus momentos. Liderança é
a capacidade de mobilizar pessoas não apenas para um único evento, mas por
muitos anos” – pág. 39.
A coincidência de percepção
em relação a minha pessoa parte dessa premissa acima. Sempre que busquei lidar
com meus colegas de trabalho tratei de apresentar a eles o que me satisfaz na
qualidade de servidor público. Categoria por vezes tão maltratada – naquele
eterno círculo vicioso no qual os maus exemplos acabam fazendo que os bons
profissionais paguem por um estereótipo incutido na mente da população – estamos
aqui por uma vocação – servir ao povo que tão duramente paga seus impostos na
expectativa de receber melhores serviços e condições de vida em sociedade. Para
mim, mais particularmente ainda, trabalhando na área de relações
internacionais, significa ainda defender os interesses do povo brasileiro em negociações
com representantes de outros Governos, tentando um equilíbrio em que todos
possam sair ganhando de alguma forma e, contribuindo assim, para um mundo
melhor. Isso é o que me inspira.
A partir dessa lógica, a
luta é por me cercar de pessoas que tenham a mesma percepção. E isso tem sido contínuo
em todos os anos de minha vida. Fico feliz ao perceber que, mesmo aqueles que
não seguiram comigo nessa jornada, levaram essa mensagem para outros postos que
vieram a ocupar. E se não levaram, eu posso ter falhado na transmissão desse
sentimento ou estas pessoas tinham outros objetivos em mente que não se casavam
com os meus. E cada um seguiu sua própria trajetória.
De todo modo, o que tento
é fazer com que aqueles que estejam comigo sejam felizes no que fazem,
quaisquer que sejam suas funções, pois:
“Quem acorda feliz para ir ao trabalho é um profissional mais produtivo e mais criativo. Voltam para casa mais felizes e têm famílias mais felizes. Tratam melhor colegas, clientes e consumidores. Funcionários inspirados contribuem para companhias mais fortes e economias mais robustas” – pág. 17.
Crença no que faz
“O
objetivo de uma empresa não deveria ser fazer negócio com qualquer um que
simplesmente quer aquilo que você tem a oferecer. Deveria ser se concentrar em
pessoas que acreditam no que você acredita” – pág. 92.
Na sequência do que foi
dito na seção anterior, o líder deve pautar sua trajetória por identificar tais
pessoas para sua equipe. Fica naturalmente muito mais fácil lidar com um time
que trabalha na mesma sintonia e que acredita naquilo que está sendo proposto
do que remar contra a maré com pessoas que entendem de maneira diversa. O
trabalho de convencimento é uma constante. Mas pode ser que ao final seja
percebido por uma das partes que não existe um alinhamento de expectativas. E aí
é melhor separar para que cada um siga o seu caminho. Nesse processo, é importante
que as pessoas sejam autênticas, no sentido de serem verdadeiras, de modo a que
ambos possam bem compreender com o quê ou com quem estão lidando e se esse “projeto”
terá futuro.
“Ser
autêntico não é requisito para o sucesso, mas passa a ser se você quiser que o
sucesso seja duradouro. (...) Autenticidade é quando você diz e faz coisas em
que efetivamente acredita” – pág. 81.
Porém, é importante também
ser transparente quanto aos benefícios a serem auferidos, ainda mais se se tem
como perspectiva as linhas temporais para os alcançar – ou seja, quais são as
expectativas de cada um a curto, médio e longo prazos. Muitas vezes a satisfação
não é obtida por uma ascensão hierárquica ou por um aumento financeiro - o que
pode sempre ajudar, mas não deve ser o eixo central de nossa atuação, sob o
risco de um constante sentimento de decepção. É como no futebol – ao se iniciar
o campeonato todas as equipes envolvidas têm o mesmo objetivo: serem campeões. Mas
somente uma delas alcançará esse intento. Ter isso claro serve para realçar em
como você deseja viver sua jornada. Você se valorizará apenas se a meta final
for alcançada? E como você se vê durante toda essa trajetória? Não há nenhum
prazer nos seus atos durante seus dias de trabalho? Um exemplo dado por Sinek,
para mim, é a síntese de como devemos apresentar os fatos para quem virá compor
uma equipe:
[CONTEXTO – Viagem
à Antártida – Expedição liderada pelo inglês Ernst Shackleton]
“Quando você preenche os
quadros de uma organização com gente que se encaixa nela, que acredita naquilo
em que você acredita, o sucesso é consequência natural. E como foi que
Shackleton achou essa incrível tripulação? Com um simples anúncio no The
Times de Londres.
‘Precisa-se
de homens para uma jornada arriscada. Salários baixos, muito frio, longos meses
no escuro total, perigo constante, retorno seguro duvidoso. Honra e
reconhecimento em caso de sucesso.’
(...) Shackleton só
contratou gente que acreditava no que ele acreditava. (...) Quando funcionários
se identificam com sua causa, eles garantem o seu sucesso. E não vão trabalhar
duro e buscar soluções inovadoras por você; farão isso por eles mesmos” – págs.
104/105.
Todos são importantes
“Não
se esqueça de que um PORQUÊ é apenas uma crença, o COMO são as ações que
empreendemos para realizar essa crença, e os O QUÊs são os resultados dessas
ações. Não importa quão carismático ou inspirador seja o líder, se não houver
na organização pessoas inspiradas para tornar aquela visão realidade e para
construir uma infraestrutura com sistemas e processos, então, no melhor dos
casos, reinará a ineficácia e no pior, o resultado será o fracasso” – pág. 150.
Na linha do que falamos
anteriormente, a partir do momento em que você constitui uma equipe não pode
incorrer no erro de prometer que todos ascenderão em determinado momento. Mas
deve-se procurar criar um ambiente em que todos acreditem e enxerguem sua
importância na consecução dos resultados. E isso deve ser de tal modo satisfatório,
que todos os membros comprem a ideia – e tenham o sentimento – de que fazem
parte de algo maior, não importando a posição (ou os projetos) que ocupam. Sem
eles, nada seria possível.
“Em
quase todo caso de uma pessoa ou organização que inspirou outras pessoas e
realizou grandes coisas existe essa parceria especial entre PORQUÊ e COMO. Bill
Gates, por exemplo, pode ter sido o visionário que imaginou um mundo com um PC
em cada mesa, mas Paul Allen construiu a companhia. (...) Steve Jobs era o
pregador da rebeldia, mas Steve Wozniak é o engenheiro que fez a Apple
funcionar. Jobs teve a visão, Woz fez os produtos. É a parceria entre uma visão
de futuro e o talento para realizá-la que faz uma organização ser grande” –
pág. 154.
É dessa forma que Sinek
exemplifica em sua obra a importância de cada um. Muitas vezes os líderes carismáticos
acabam levando a fama por sua obra. E as pessoas não percebem que existem outros
elementos que fizeram aquilo possível. O segredo do sucesso é como essas
pessoas – gestores ou funcionários – se enxergam a si próprios. Se eles não se
importarem em ser a face mais duradoura de uma estrutura – e não
necessariamente a principal estrela de uma constelação – desde que essa sirva
aos seus propósitos de vida, talvez aí tenhamos atingido de fato a realização
em cada um de nós. E sem carregar o ônus de ter que ficar prestando contas para
terceiros por ser uma pessoa pública.
E o que esses “seres
iluminados” deveriam fazer em relação àqueles que trabalham com eles – e muitas
vezes por eles? Demonstrar que acreditam nas mesmas coisas. E que estas irão
gerar um bem comum a todos. E assim estes funcionários serão agentes
multiplicadores de tal crença.
“Padrões
mais elevados são difíceis de manter. Exige a disciplina de falar
constantemente sobre ele e lembrar a todos POR QUE a companhia existe. Requer
que cada um na organização seja responsável por COMO fazer as coisas – pelos
valores e pelos princípios que a guiam” – pág. 160.
Qual é a sua marca? Ou,
nas palavras do autor, o seu porquê?
E assim Simon Sinek passa
a sua mensagem – e provavelmente sua empresa ganha um bom dinheiro por isso.
Mas não é isto que vem ao caso. O importante, na qualidade de leitor, é verificar
se o que ele prega, e o que afirma ser o seu porquê, transformar o mundo num
lugar melhor para se viver, é algo que serve de fato aos seus propósitos, mesmo
que seu porquê pessoal – ou de sua equipe – seja diverso, mas que no fim das
contas transforme a todos em profissionais felizes e, por consequência, em seres
humanos melhores. E ele coloca isso de maneira bem prática, ao identificar como
isso se reflete nas empresas e em sua face mais visível para a sociedade em que
estão inseridas – sua marca:
“(...)
valor é percepção, não cálculo, e essa é a razão pela qual as companhias fazem
tanta questão de investir em sua marca. Mas uma marca forte, como todos os
outros fatores intangíveis que contribuem para a percepção de valor, começa com
um claro senso de PORQUÊ” – pág. 205.
Aqui ele tenta demonstrar
que uma marca forte se constitui, na visão do consumidor, a partir do momento
em que ela entrega o que propõe. E não necessariamente o que ela gera de lucro
para seus proprietários e/ou acionistas. Isso é uma consequência natural de uma
marca que se estabeleça como forte a longo prazo. Será que cada um de nós está
nesse caminho.
Sobre a qualidade do
livro em si
Para fechar essa resenha,
temos que apontar nosso pensamento quanto à qualidade do livro enquanto obra
literária. É claro que se temos um instrumento que serve para a pregação de uma
filosofia, é natural que a repetição de elementos, tal qual um mantra, seja esperado.
Se o leitor não tem muita paciência, ele acaba se cansando com uma retórica,
mesmo que simples e bem didática, que tenha tal característica. Até acho que é
por isso que o livro é relativamente pequeno (menos de 300 páginas), ou seja,
para evitar esse risco. Os exemplos utilizados também são poucos – e pelo menos
um deles faz mais sentido no contexto norte-americano. Porém, acredito – e pelos
trechos acima por mim destacados, abordando empresas mundialmente conhecidas e que
estão no imaginário de todos – creio que Sinek foi bem-sucedido em seu objetivo.
É fácil compreender o que
ele deseja passar – ainda mais para mim que já tinha, intuitivamente, um
pensamento muito similar. Desse modo, ele cumpre com o que se propõe, e isso eu
creio ser uma qualidade. Resta saber se você, enquanto leitor, está disposto a
dar essa oportunidade. Ou se prefere seguir por outro caminho. E aviso logo a
todos que eu deixei alguns elementos constitutivos e teóricos do que foi
apresentado na obra de fora. Assim, esta minha avaliação, apesar de longa, não
foi um spoiler completo. Mas um resumo daquilo que mais me tocou. Espero
que tenham gostado.







