sábado, 28 de fevereiro de 2026

COMECE PELO PORQUÊ

Se existe um gênero que sofre de certo preconceito é aquele denominado “Livros de Auto-Ajuda”. Porém, Simon Sinek, autor da obra “Comece pelo Porquê” subverte essa lógica, quando ele mesmo, em determinado momento, aponta que seu intento é que uma determinada pessoa – seu leitor – ajude as outras pessoas. Interessante observar que isso, de certa forma, está no cerne do que seria o chamado “trabalho voluntário”. A partir do momento que alguém busca fazer o bem para outrem, o sentimento de retorno acaba sendo tão benéfico para o próprio praticante do voluntariado que este é quem acaba sendo, emocionalmente e mentalmente, ajudado.

Como está descrito na orelha de seu livro – a edição a qual tive acesso é da Editora Sextante (RJ), publicada em 2018 a partir da obra original, surgida em 2009, tendo 256 páginas – “Simon Sinek tornou-se mundialmente conhecido ao popularizar o conceito do porquê em sua primeira TED Talk, que foi ao ar em 2009, e está entre as três mais populares, com mais de 50 milhões de visualizações. É fundador da Start With Why, instituição dedicada a produzir ferramentas e recursos para inspirar pessoas (...)”. Isso tudo, após ter saído de um processo de depressão pelo aparente desalinhamento de expectativas em relação à uma carreira construída na área de marketing.

Simon Sinek e sua primeira obra escrita

Meu interesse por sua(s) obra(s) – as quais esta resenha é apenas primeira de um grupo total de 4 livros que lerei dele – se deu após ter visto uma série de declarações, entrevistas e pequenas palestras do autor que pareceram apontar justamente para uma necessidade da qual buscava para bem entender como seguir auxiliando as pessoas no meu trabalho a alcançarem seu máximo potencial, isso tanto àqueles que encontram-se hierarquicamente acima de mim, quanto em relação à equipe da qual sou responsável. O que veremos, portanto, daqui em diante, são os principais achados os quais encontrei nessa primeira jornada a partir desse livro, dividido por tópicos principais.

Depressão nos dias atuais

“Os americanos estão sofrendo de úlceras, depressão, hipertensão arterial, ansiedade e câncer em níveis recorde. (...) Os ganhos de curto prazo (...) estão, na verdade, destruindo nossa saúde” – pág. 44.

É claro que Sinek desenvolve sua teoria a partir do seu contexto particular, que são os Estados Unidos da América. É nesse sentido que ele fez tal declaração acima. Mas é óbvio que ela serve de testemunho do modelo social adotado por grande parte da civilização humana a partir do advento do capitalismo. Todos hoje em dia buscam seu conforto (e o de sua família) baseado em ganhos financeiros que dão sustentabilidade ao seu padrão de vida. Nesse sentido o autor prega que houve uma perda do que seria o verdadeiro nexo de nossa existência – o que nos faz sentir prazer naquilo em que atuamos a maior parte do tempo, no transcorrer do trabalho? O que nos inspira? Ou, nas palavras dele, o que nos faz feliz para ir ao trabalho?

Em determinado momento, ele próprio havia perdido esse sentimento. E a situação pela qual ele passava é recorrente, infelizmente, nos dias de hoje. Mas no caso dele, serviu como mola propulsora para encontrar uma solução, uma saída. Ele não se satisfez com o seu estado de ânimo. E com isso conseguiu identificar qual seria sua missão – ou o seu Porquê... Mas vejamos como ele se descreveu quando estava no fundo do poço:

“A depressão me fez ficar paranoico. Estava convencido de que ia ficar sem o negócio. Estava convencido de que ia ser despejado do meu apartamento. Tinha certeza de que todos os que trabalhavam para mim não gostavam de mim e que meus clientes sabiam que eu era uma fraude. Achava que todas as pessoas que eu conhecia eram mais inteligentes do que eu. Achava que todas as pessoas eram melhores que eu. E toda a energia que me restava para sustentar o negócio era canalizada para me escorar e fingir que estava me saindo bem” – págs. 228/229.

A partir desse ponto, ele conseguiu gerar algo que o transcendeu – e que ajuda a inspirar pessoas a serem melhores líderes.

Liderança é inspirar

“Liderança exige que as pessoas fiquem com você nos bons e nos maus momentos. Liderança é a capacidade de mobilizar pessoas não apenas para um único evento, mas por muitos anos” – pág. 39.

A coincidência de percepção em relação a minha pessoa parte dessa premissa acima. Sempre que busquei lidar com meus colegas de trabalho tratei de apresentar a eles o que me satisfaz na qualidade de servidor público. Categoria por vezes tão maltratada – naquele eterno círculo vicioso no qual os maus exemplos acabam fazendo que os bons profissionais paguem por um estereótipo incutido na mente da população – estamos aqui por uma vocação – servir ao povo que tão duramente paga seus impostos na expectativa de receber melhores serviços e condições de vida em sociedade. Para mim, mais particularmente ainda, trabalhando na área de relações internacionais, significa ainda defender os interesses do povo brasileiro em negociações com representantes de outros Governos, tentando um equilíbrio em que todos possam sair ganhando de alguma forma e, contribuindo assim, para um mundo melhor. Isso é o que me inspira.

A partir dessa lógica, a luta é por me cercar de pessoas que tenham a mesma percepção. E isso tem sido contínuo em todos os anos de minha vida. Fico feliz ao perceber que, mesmo aqueles que não seguiram comigo nessa jornada, levaram essa mensagem para outros postos que vieram a ocupar. E se não levaram, eu posso ter falhado na transmissão desse sentimento ou estas pessoas tinham outros objetivos em mente que não se casavam com os meus. E cada um seguiu sua própria trajetória.

De todo modo, o que tento é fazer com que aqueles que estejam comigo sejam felizes no que fazem, quaisquer que sejam suas funções, pois:

“Quem acorda feliz para ir ao trabalho é um profissional mais produtivo e mais criativo. Voltam para casa mais felizes e têm famílias mais felizes. Tratam melhor colegas, clientes e consumidores. Funcionários inspirados contribuem para companhias mais fortes e economias mais robustas” – pág. 17. 

Crença no que faz

“O objetivo de uma empresa não deveria ser fazer negócio com qualquer um que simplesmente quer aquilo que você tem a oferecer. Deveria ser se concentrar em pessoas que acreditam no que você acredita” – pág. 92.

Na sequência do que foi dito na seção anterior, o líder deve pautar sua trajetória por identificar tais pessoas para sua equipe. Fica naturalmente muito mais fácil lidar com um time que trabalha na mesma sintonia e que acredita naquilo que está sendo proposto do que remar contra a maré com pessoas que entendem de maneira diversa. O trabalho de convencimento é uma constante. Mas pode ser que ao final seja percebido por uma das partes que não existe um alinhamento de expectativas. E aí é melhor separar para que cada um siga o seu caminho. Nesse processo, é importante que as pessoas sejam autênticas, no sentido de serem verdadeiras, de modo a que ambos possam bem compreender com o quê ou com quem estão lidando e se esse “projeto” terá futuro.

“Ser autêntico não é requisito para o sucesso, mas passa a ser se você quiser que o sucesso seja duradouro. (...) Autenticidade é quando você diz e faz coisas em que efetivamente acredita” – pág. 81.

Porém, é importante também ser transparente quanto aos benefícios a serem auferidos, ainda mais se se tem como perspectiva as linhas temporais para os alcançar – ou seja, quais são as expectativas de cada um a curto, médio e longo prazos. Muitas vezes a satisfação não é obtida por uma ascensão hierárquica ou por um aumento financeiro - o que pode sempre ajudar, mas não deve ser o eixo central de nossa atuação, sob o risco de um constante sentimento de decepção. É como no futebol – ao se iniciar o campeonato todas as equipes envolvidas têm o mesmo objetivo: serem campeões. Mas somente uma delas alcançará esse intento. Ter isso claro serve para realçar em como você deseja viver sua jornada. Você se valorizará apenas se a meta final for alcançada? E como você se vê durante toda essa trajetória? Não há nenhum prazer nos seus atos durante seus dias de trabalho? Um exemplo dado por Sinek, para mim, é a síntese de como devemos apresentar os fatos para quem virá compor uma equipe:

[CONTEXTO – Viagem à Antártida – Expedição liderada pelo inglês Ernst Shackleton]

“Quando você preenche os quadros de uma organização com gente que se encaixa nela, que acredita naquilo em que você acredita, o sucesso é consequência natural. E como foi que Shackleton achou essa incrível tripulação? Com um simples anúncio no The Times de Londres.

‘Precisa-se de homens para uma jornada arriscada. Salários baixos, muito frio, longos meses no escuro total, perigo constante, retorno seguro duvidoso. Honra e reconhecimento em caso de sucesso.’

(...) Shackleton só contratou gente que acreditava no que ele acreditava. (...) Quando funcionários se identificam com sua causa, eles garantem o seu sucesso. E não vão trabalhar duro e buscar soluções inovadoras por você; farão isso por eles mesmos” – págs. 104/105.

Todos são importantes

“Não se esqueça de que um PORQUÊ é apenas uma crença, o COMO são as ações que empreendemos para realizar essa crença, e os O QUÊs são os resultados dessas ações. Não importa quão carismático ou inspirador seja o líder, se não houver na organização pessoas inspiradas para tornar aquela visão realidade e para construir uma infraestrutura com sistemas e processos, então, no melhor dos casos, reinará a ineficácia e no pior, o resultado será o fracasso” – pág. 150.

Na linha do que falamos anteriormente, a partir do momento em que você constitui uma equipe não pode incorrer no erro de prometer que todos ascenderão em determinado momento. Mas deve-se procurar criar um ambiente em que todos acreditem e enxerguem sua importância na consecução dos resultados. E isso deve ser de tal modo satisfatório, que todos os membros comprem a ideia – e tenham o sentimento – de que fazem parte de algo maior, não importando a posição (ou os projetos) que ocupam. Sem eles, nada seria possível.

“Em quase todo caso de uma pessoa ou organização que inspirou outras pessoas e realizou grandes coisas existe essa parceria especial entre PORQUÊ e COMO. Bill Gates, por exemplo, pode ter sido o visionário que imaginou um mundo com um PC em cada mesa, mas Paul Allen construiu a companhia. (...) Steve Jobs era o pregador da rebeldia, mas Steve Wozniak é o engenheiro que fez a Apple funcionar. Jobs teve a visão, Woz fez os produtos. É a parceria entre uma visão de futuro e o talento para realizá-la que faz uma organização ser grande” – pág. 154.

É dessa forma que Sinek exemplifica em sua obra a importância de cada um. Muitas vezes os líderes carismáticos acabam levando a fama por sua obra. E as pessoas não percebem que existem outros elementos que fizeram aquilo possível. O segredo do sucesso é como essas pessoas – gestores ou funcionários – se enxergam a si próprios. Se eles não se importarem em ser a face mais duradoura de uma estrutura – e não necessariamente a principal estrela de uma constelação – desde que essa sirva aos seus propósitos de vida, talvez aí tenhamos atingido de fato a realização em cada um de nós. E sem carregar o ônus de ter que ficar prestando contas para terceiros por ser uma pessoa pública.

E o que esses “seres iluminados” deveriam fazer em relação àqueles que trabalham com eles – e muitas vezes por eles? Demonstrar que acreditam nas mesmas coisas. E que estas irão gerar um bem comum a todos. E assim estes funcionários serão agentes multiplicadores de tal crença.

“Padrões mais elevados são difíceis de manter. Exige a disciplina de falar constantemente sobre ele e lembrar a todos POR QUE a companhia existe. Requer que cada um na organização seja responsável por COMO fazer as coisas – pelos valores e pelos princípios que a guiam” – pág. 160.

Qual é a sua marca? Ou, nas palavras do autor, o seu porquê?

E assim Simon Sinek passa a sua mensagem – e provavelmente sua empresa ganha um bom dinheiro por isso. Mas não é isto que vem ao caso. O importante, na qualidade de leitor, é verificar se o que ele prega, e o que afirma ser o seu porquê, transformar o mundo num lugar melhor para se viver, é algo que serve de fato aos seus propósitos, mesmo que seu porquê pessoal – ou de sua equipe – seja diverso, mas que no fim das contas transforme a todos em profissionais felizes e, por consequência, em seres humanos melhores. E ele coloca isso de maneira bem prática, ao identificar como isso se reflete nas empresas e em sua face mais visível para a sociedade em que estão inseridas – sua marca:

“(...) valor é percepção, não cálculo, e essa é a razão pela qual as companhias fazem tanta questão de investir em sua marca. Mas uma marca forte, como todos os outros fatores intangíveis que contribuem para a percepção de valor, começa com um claro senso de PORQUÊ” – pág. 205.

Aqui ele tenta demonstrar que uma marca forte se constitui, na visão do consumidor, a partir do momento em que ela entrega o que propõe. E não necessariamente o que ela gera de lucro para seus proprietários e/ou acionistas. Isso é uma consequência natural de uma marca que se estabeleça como forte a longo prazo. Será que cada um de nós está nesse caminho.

Sobre a qualidade do livro em si

Para fechar essa resenha, temos que apontar nosso pensamento quanto à qualidade do livro enquanto obra literária. É claro que se temos um instrumento que serve para a pregação de uma filosofia, é natural que a repetição de elementos, tal qual um mantra, seja esperado. Se o leitor não tem muita paciência, ele acaba se cansando com uma retórica, mesmo que simples e bem didática, que tenha tal característica. Até acho que é por isso que o livro é relativamente pequeno (menos de 300 páginas), ou seja, para evitar esse risco. Os exemplos utilizados também são poucos – e pelo menos um deles faz mais sentido no contexto norte-americano. Porém, acredito – e pelos trechos acima por mim destacados, abordando empresas mundialmente conhecidas e que estão no imaginário de todos – creio que Sinek foi bem-sucedido em seu objetivo.

É fácil compreender o que ele deseja passar – ainda mais para mim que já tinha, intuitivamente, um pensamento muito similar. Desse modo, ele cumpre com o que se propõe, e isso eu creio ser uma qualidade. Resta saber se você, enquanto leitor, está disposto a dar essa oportunidade. Ou se prefere seguir por outro caminho. E aviso logo a todos que eu deixei alguns elementos constitutivos e teóricos do que foi apresentado na obra de fora. Assim, esta minha avaliação, apesar de longa, não foi um spoiler completo. Mas um resumo daquilo que mais me tocou. Espero que tenham gostado.

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