domingo, 23 de março de 2014

Relações Internacionais Contemporâneas: Visões Brasileiras

Vivi um grande dilema para avaliar a obra “Relações Internacionais Contemporâneas: Visões Brasileiras”, compêndio de artigos organizado pelos Profs. Carlos Maurício Ardissone e André Luis Prudência Sena, publicado pela Editora Appris, de Curitiba, no ano de 2013. A obra contém 329 páginas, é organizada por um amigo pessoal – Carlos Maurício, também autor de um dos artigos – e, além disso, tem um texto da minha lavra. Ou seja, como analisar algo com impessoalidade sendo tão pessoal?



Buscando ser ético e ao mesmo tempo não fugir da missão que me auto foi imposta ao criar o Proximideas, resolvi encarar o desafio com a seguinte estratégia – apontando para vocês o que são os problemas enfrentados por organizadores de obras coletivas, como é o caso. André e Carlos Maurício, quase que com certeza, envoltos nas diversas temáticas que dizem respeito às Relações Internacionais, tentaram ser o mais plurais possíveis, com o objetivo de alcançar toda a gama dos principais temas com que discutem corriqueiramente com seus pares do meio acadêmico.

Tal fato se percebe pela distribuição de áreas temáticas exposta no livro:

Ø  Ciência Política e Teoria das Relações Internacionais (2 artigos);                        Carlos Maurício Ardissone
Ø  Comércio Internacional (2 artigos);
Ø  Segurança Internacional (3 artigos);
Ø  Integração Regional e Direito Comunitário (2 artigos);
Ø  Temas da Agenda Internacional Contemporânea (2 artigos);
Ø  Estudos de Nações (3 artigos);
Ø  Políticas Públicas e Relações Internacionais (1 artigo).                             

     

Poderia se depreender a partir da distribuição quantitativa de textos que os aspectos vinculados à Segurança Internacional e Estudos de Nações teriam maior relevo. A meu ver não foi esse o caso – que pode de toda forma ser desmentido pelos organizadores, mas aqui vai o meu olhar externo. Acredito que o maior volume de produções em relação a estes temas tenha colaborado para a necessidade de serem incorporados em maior quantidade à obra. O que não necessariamente significa dizer que são ou não são mais valiosos que os outros temas abordados.


  André L. P. Sena
É claro que, por exemplo, no meu caso específico, em que colaborei com a última seção – Políticas Públicas e Relações Internacionais – senti falta de um diálogo com uma outra experiência que não a minha exposta. Mas isso não diminui o tema. Por outro lado, em Estudos de Nações, André Luis Prudêncio Sena, um dos organizadores e autor direto do artigo denominado “Povo Palestino: uma Identidade Nacional em Construção” (275-284), fez muito mais um libelo, juntando poesia e política, em favor da análise de um processo – e não de seu resultado, pois não podemos dizer que a questão Palestina se encontra “resolvida” – do que necessariamente fez um artigo dito “científico”. E nem mesmo por isso também o valor do texto pode ser diminuído.

Analisando com calma cada uma das seções da obra, posso lhes dar minhas seguintes impressões:

Ø          A primeira - Ciência Política e Teoria das Relações Internacionais - foi extremamente beneficiada pelo texto de Amado Cervo, “Conceitos em Relações Internacionais” (17-38), verdadeira base para todos que querem se aprofundar no campo dos grandes debates teóricos de RI – “Existem três paradigmas de Estado, afirma: o hobbesiano, que vê os outros como inimigos, o lockeano, que os vê como rivais, e o kantiano, que os vê como amigos” (1);
Ø         Na seção relativa à Comércio Internacional por vezes o jargão jurídico prejudica a leitura, mas se faz necessário para alcançar um público específico. Talvez o texto de Mirna Larissa Wachhotz – “As Relações Brasil-China: o Caso Etanol” (75-98) pudesse ser melhor aproveitado numa obra totalmente voltada para uma análise do grande Dragão Asiático, mas pelo equilíbrio dos artigos entende-se sua presença neste ponto;
Ø      Na seção sobre Segurança Internacional ganha destaque o artigo “A Pretensão Brasileira por uma Cadeira Permanente no Conselho de Segurança da Onu”, de Fabio Koifman (145-184), grande levantamento histórico da aludida pretensão (2);
Ø         Em Integração Regional e Direito Comunitário fica clara a pretensão dos organizadores em expor duas experiências distintas – o tal diálogo necessário, que apontei acima como algo ausente na última seção. Seria esta, também, mais uma seção voltada mais para os amantes do Direito. Talvez a formação advocatícia de Carlos Maurício tenha contribuído para tal característica;
Ø         Em Temas da Agenda Internacional Contemporânea chama atenção particularmente o artigo de Lauro Parente, “Relações Internacionais num Mundo Midiatizado”, contextualizando a criação dos grandes conglomerados internacionais e sua agenda formadora de opinião, algo às vezes esquecido nesse mundo inundado de informações via internet;
Ø        Por último, em Estudos de Nações, os três países que serviram de pauta – Palestina, Paraguai e Angola – têm suas histórias particulares de luta por melhores condições de vida para suas populações. Porém, talvez fosse interessante ter textos sobre outros grupos de países, representantes daqueles ditos “desenvolvidos”. Porém, dado o limite de uma obra, e ser este um campo que poderia gerar milhares de livros, se entende como operacionalmente necessário um viés de escolha. E por que não privilegiar os não comumente privilegiados?

Obviamente não posso analisar a seção que consta apenas do meu próprio artigo, além do que já comentei acima. Feitas estas considerações, posso dizer que como obra introdutória o livro serve para que os estudantes de RI possam ter uma noção do quão vasto é o mundo que têm a sua frente, a grande variedade de escolhas e caminhos que poderão eleger. Tendo em vista isso, podemos dizer que os organizadores foram bem sucedidos em seu intento. Porém, sem dúvida, não é uma obra para leigos.

    1. Referências a “Thomas Hobbes (1588-1679) foi teórico político, filósofo e matemático inglês. Sua obra mais evidente é ‘Leviatã’, cuja ideia central era a defesa do absolutismo e a elaboração da tese do contrato social. Hobbes viveu na mesma época que outro teórico político, John Locke [1632-1704], que era defensor dos princípios do liberalismo, ao passo que Hobbes pregava um governo centralizador. Fonte: http://www.e-biografias.net/thomas_hobbes/ . Já Immanuel Kant [1724-1804] buscou fundamentar na razão os princípios gerais da ação humana, elaborando as bases de toda a ética moderna. Fonte: http://educacao.uol.com.br/biografias/immanuel-kant.jhtm

     2. Acho tal pretensão ilusória. Em que pese o bom senso dizer que o Conselho de Segurança das Nações Unidas não ser mais representativo do mundo plural em que vivemos no que diz respeito a sua composição de membros permanentes, estes criarão toda ordem de obstáculos para manter o seu poder. E sua influência econômica somente facilitará essa tarefa. Uma ilusão, enfim, imaginar que isso um dia seja mudado. Seria necessária uma hecatombe para isso ocorrer, algo que nenhum de nós deseja. Em tempos de Criméia, é bom que isso seja dito.

segunda-feira, 3 de março de 2014

O Drible

A indústria do entretenimento cunhou um grupo de produções para o cinema voltadas para o público dito feminino como “água com açúcar”. Seriam aquelas comédias românticas, em que o casal, em meio a um roteiro lotado de desencontros, com cenas hilárias, ao final do filme se reúne e vivem felizes para sempre – pelo menos até uma possível continuação. Porém, o livro o qual vamos dissecar - “O Drible”, de Sérgio Rodrigues – Ed. Companhia das Letras – 2013 – 218 págs. - é a antítese total do que falamos acima. Pode ser conceituado como um livro para machos.

Sergio Rodrigues

“O Drible” retrata a tentativa, tempestuosa, de reatamento de relações entre um pai e um filho afastados há mais de 20 anos. O pai, um ex-cronista esportivo, obcecado por futebol, encontra-se nas últimas. O filho, revisor de livros de auto-ajuda, em meio a sua auto-comiseração, não consegue perdoar o pai em relação a uma infância e juventude doídas. Contando desta forma parece mais um grande dramalhão mexicano. Porém o modo como a estória é conduzida por Sérgio Rodrigues requer um olhar – e um conhecimento – mais afeito aos amantes do futebol, pelas referências colocadas.

Fora este aspecto, ainda temos aquele ar de revisão das modas e costumes dos anos 50 e 60, onde o machismo na sua perversa face tem toda a sua força moldada no linguajar que traz a mulher como um ser-objeto dos desejos dos homens, que “passam a régua” em todas aquelas que demonstram o mínimo interesse. Tal elo a ligar pai e filho, além dos seus personagens coadjuvantes – mas nem tanto, como Peralvo, aquele que seria maior que o Pelé – traz em seu bojo o segredo escondido a sete-chaves, que só fica claro nas últimas vinte páginas do livro.
 
[Neto – o filho, no caso] “Orgulhava-se de ter um método – o Método – e de atingir taxas de sucesso razoáveis para um cara que não era bonito, embora não fosse feio. O Método era um passo a passo de olhares demorados, simpatia, elogios, dedos se roçando ao pegar o comprovante do cartão de crédito, dia após dia, sem pressa, para dar àquelas caixas de supermercado e atendentes de café com metade da sua idade tempo de entender que ali estava um homem-feito de classe média que (...) podia lhes abrir (...) as portas de um mundo (...)” – Pág. 67.

O suspense bem tramado pelo autor prende o leitor com maestria, em que pese por vezes nos perdermos, junto com o personagem central, nos devaneios que ora atiram para a nascente ditadura, ora para a imagem de fantasmas futebolísticos que se entrechocam tentando explicar o porquê das coisas. Faz parte da trama. Uma abordagem mais direta talvez secaria a fonte cedo demais do que se estava por apresentar.

De toda forma, o livro se apresenta como algo de difícil deglutição pelo sexo feminino, podendo, portanto ter dificuldades para alcançar esse naco de público, em que pese o tom novelesco que por vezes assume. Não consigo imaginar uma menina que não se entedie com os longos trechos dedicados aos paralelismos futebolísticos – até mesmo por desconhecimento histórico dos fatos ali discorridos. Por outro lado, para aqueles fascinados pelo esporte bretão – com ou sem apelos dúbios – é um livro que satisfaz plenamente. Mas é um livro para fortes, pois fortes são as tintas carregadas com que se apresentam o futebol, o ambiente jornalístico, a paixão, a traição, o sexo, as drogas, a política, a vingança que atravessam os anos – da década de 50 até os dias de hoje. Que a partida se inicie para aqueles que têm coragem.

OBS1 – Sensacional a passagem em que Murilo filho (o pai, no caso) relaciona a decadência do futebol com a decadência do rádio como meio maior de transmissão do jogo – “E como obrigar a narração radiofônica a ficar sóbria estava fora de questão, restava reformar a realidade. Foi assim que o futebol brasileiro virou o que é: em grande parte por causa do esforço sobre-humano que os jogadores tiveram que fazer para ficar à altura das mentiras que os radialistas contavam. (...) A televisão é um veículo desprovido de imaginação que condena as peladas chinfrins a serem só peladas chinfrins, nada mais que peladas chinfrins (...)” – Págs. 61/62.

OBS2 – O racismo, tema que volta e meia surge nos campos de futebol mundo afora, também é tratado como um pano de fundo da estória contada, atingindo a tudo e a todos os personagens, como a demonstrar a hipocrisia da sociedade brasileira em relação ao assunto. Em dado momento Murilo Filho, o pai, “reagia contando às gargalhadas a história de Robson, precursor de Michael Jackson, um jogador negro do Fluminense que ao ser entrevistado por Mario Filho [jornalista, irmão de Nélson Rodrigues, e que dá nome ao estádio mais conhecido como Maracanã] sobre a existência de preconceito racial no futebol confirmou tudo dizendo: ‘Olha, seu Mario, eu já fui preto e sei o que é isso’”. (Pág. 155).

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A Menina que Roubava Livros

Quando iniciamos a leitura de uma obra literária múltiplas são as entradas, iscas que se nos apresentam como o que nos prenderá até o final da narrativa. Em “A Menina que Roubava Livros”, de Markus Zusak – Ed. Intrínseca, 2010 – 480 págs – três foram esses ganchos, com um bônus que nos é indicado logo de início. Primeiramente, os ganchos:

·         A História e a Estória

Os três últimos livros – incluindo este – de ficção tem algum tipo de vínculo com a Segunda Guerra Mundial. Em “Inverno do Mundo”, de Ken Follet, esta se apresenta quase como que o personagem principal, servindo o entrelaçar da estória de cinco famílias como pano de fundo para que o leitor perceba com clareza como o ser humano pode ser tão cruel consigo próprio. Em “Sob a Redoma”, de Stephen King, o conflito entre moradores de uma pequena cidade sitiada de modo estranho no interior dos Estados Unidos por vezes remete a como o totalitarismo e o populismo, veias maiores daquela época por vezes citada, poderiam ser ressuscitados anos depois, prejudicando o convívio entre iguais, como uma sombra ou um zumbi que renasce dos mortos.

Estória – [...] narrativa em prosa ou verso, fictícia ou não, com o objetivo de divertir e/ou instruir o ouvinte ou o leitor;
História – [...] conjunto de conhecimentos relativos ao passado da humanidade, segundo o lugar, a época, o ponto de vista escolhido [...] – Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa – Ed. Objetiva – 2004.
 
Porém, na obra de Markus Zusak, australiano com origens européias, a estória de Liesel, a protagonista, uma criança amante das letras, apresenta pinceladas de amor e candura em meio à terrível luta pela sobrevivência numa Alemanha nazista. Ou seja, a Segunda Guerra não esconde o que tem de pior, mas o livro demonstra como as pessoas seguiram suas vidas em meio àquele caos e terror em que muitos de nós, gerações posteriores, não temos a mínima idéia da profundidade da cicatriz marcada, e vemos de repente o resgate desta memória, nos dando um tapa, nos emocionando, e ao mesmo tempo informando que na vida estamos num ciclo de vitórias e derrotas, grandes ou pequenas, mas que aquelas, quando vêm – e muitas vezes podem estar imersas no gosto pela literatura – são como uma brisa que nos dá o ar que necessitamos.

          Markus Zusak


- Jesus, Maria...
Ela o disse em voz alta, com as palavras distribuídas por uma sala repleta de ar frio e livros. Livros por toda parte! Cada parede era provida de estantes apinhadas, mas imaculadas. Mal se conseguia ver a tinta. Havia toda sorte de estilos e letras diferentes nas lombadas dos livros, pretos, vermelhos, cinzentos, de toda cor. Era uma das coisas mais lindas que Liesel Meminger já tinha visto. (Pág. 123)

·         O cinema

Li esta obra justamente quando sua adaptação chega às telas dos cinemas. Porém, tenho como princípio que o livro sempre é melhor que o filme. Existem sentimentos que dificilmente são transpostos da obra literária para a telona, por melhor que seja o roteiro adaptado. Como transpor, para citar dois exemplos, as pequenas notas nas quais a narradora principal – da qual falarei mais adiante – coloca o andamento da estória sob um olhar todo peculiar, que no caso do cinema passa a ser diretamente vinculado à ótica do telespectador? Por exemplo (pág. 37):

UMA DEFINIÇÃO NÃO ENCONTRADA
NO DICIONÁRIO
Não ir embora: ato de confiança e amor,
comumente decifrado pelas crianças

E como eu poderia me sentir mais tocado pela visão do roteirista do que pelo sentimento gerado a partir do trecho que demonstra a forte relação entre pai e filha, fazendo me lembrar da minha própria pequena:

Na cama, leu com o pai, que percebeu haver algo errado. Era a primeira vez que se sentava com ela em um mês, e isso a consolou, nem que fosse um tantinho. De algum modo, Hans Hubermam sempre sabia o que dizer, quando ficar e quando deixá-la sozinha. Talvez Liesel fosse a única coisa em que ele era realmente perito. (...) Fazia alguns dias que o pai não se barbeava, e a cada dois ou três minutos esfregava os pelos prurientes. Seus olhos de prata estavam foscos e calmos, levemente calorosos, como sempre ficavam quando se tratava de Liesel. (...) Por alguns momentos, ela observou o seu rosto. Depois, se tornou a deitar, encostou-se nele, e juntos, os dois dormiram, bem nos arredores de Munique (...).
Pág. 235.

Toda a poesia expressa neste relacionamento, viva na imaginação do leitor, não pode encontrar algo igual, por melhor que seja o roteirista. Além disso, o filme já teria um precedente que talvez o sobrepuje, que é “A Vida é Bela”, de Roberto Begnini (1998). Neste um judeu, Guido, interpretado pelo próprio diretor, narra ao seu pequeno filho as desventuras pelas quais vivem na Segunda Guerra Mundial, fantasiando o suficiente para que o mesmo não seja tocado pelo horror que os circunda¹.





·         O Valor da Amizade

Chamou a minha atenção, ao ver o trailer do filme no cinema, que a protagonista era acompanhada por um menino em suas peripécias. Ao ler o livro encontro este rico personagem, Rudy Steiner, um contraponto a uma menina introspectiva que vê a vida se descortinar aos poucos, com grande ajuda de seu amigo. A amizade para mim é um bem maior. Ela nos auxilia a dar saltos sobre os piores obstáculos. É claro que aqui me remeto à amizade verdadeira, aquela que está presente nos piores momentos. E que momento poderia ser pior do que em meio a uma guerra? O fascínio do menino pelo fenômeno Jesse Owens – atleta negro norte-americano vencedor de 4 provas na Olímpiada de 1936, em Berlim, em pleno domínio nazista – apenas serve a mim como um atrativo a mais, como a cereja do bolo sobre um personagem tão influente na trajetória, à espera de um beijo ansiado.

Liesel (Sophie Nelisse) e Rudy (Nico Liersch)²
 
Os dois dobraram algumas esquinas até chegar à rua Himmel, e Alex [Steiner] disse:
- Filho,você não pode sair por aí se pintando de preto, escutou?
Rudy estava interessado e confuso. (...)
- Por que não, papai?
- Porque eles o levam embora.
- Por quê?
- Porque você não deve querer ser como os negros, nem como os judeus, nem como qualquer um que... que não seja nós.
- Quem são os judeus?
- Conhece aquele meu freguês mais antigo, o Sr. Kaufmann? Da loja onde compramos seus sapatos?
- Sim.
- Bom, ele é judeu.
- Eu não sabia. A gente tem que pagar para ser judeu? Precisa de uma licença?
- Não, Rudy. (...) É como ser alemão ou católico.
- Ah. O Jesse Owens é católico?
- E eu sei lá! (...)
- Eu só queria ser como o Jesse Owens, papai.
- Eu sei, meu filho, mas você tem um lindo cabelo louro e olhos azuis grandes e seguros. Devia ficar feliz com isso, está claro?
Mas não havia nada claro. Rudy não compreendeu coisa alguma (...). Dois anos e meio depois, a Sapataria Kaufmann foi reduzida a vidros quebrados e todos os calçados foram jogados num caminhão, dentro de suas caixas. (Pág. 56)

E o bônus a que citei no início? Trata-se justamente da qualidade da narradora eleita. A própria Morte. Esta se apresenta como participativa, na medida exata de suas intensas tarefas naquela época – como se não fosse o sempre. Mas, mais do que isso, desmistificando um pouco a visão de sua perversidade, mas sim como alguém que realmente se importa em facilitar as coisas, já tão complicadas por si só, levando-se em conta que tem que lidar com os seres humanos em seus últimos momentos – ou até, nos seus piores momentos, por vezes. Misericordiosa, dedicada ao seu ofício, mas se deixando tocar pelo sentimento que gira em torno, ela passa a ser uma parceira do leitor no olhar cândido sobre a estória que está sendo narrada.

O que eu diria no fim disto tudo? “A Menina que Roubava Livros” é uma estória de amor entre pai e filha, entre amigos, entre a leitora e as palavras. Em que pese triste, é uma bela estória, que merece ser lida por trazer em seu bojo o que de pior e o que de melhor o ser humano tem a oferecer.

      (2) http://livrosetsurus.blogspot.com.br/2013/08/primeiras-fotos-menina-que-roubava.html 


domingo, 26 de janeiro de 2014

O Poder do Hábito

Não, não se trata de uma obra sobre a força da Igreja Católica em nossa sociedade. O livro de Charles Duhigg – O Poder do Hábito: por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios – Rio de Janeiro – Ed. Objetiva – 2012 – 407 págs. – fala daquelas pequenas atitudes que tomamos que com o passar do tempo passam a ser tão costumeiras que nem notamos, ou seja, os hábitos de cada um. “Os hábitos, dizem os cientistas, surgem porque o cérebro está o tempo todo procurando maneiras de poupar esforço” (pág. 35).

Como premiado repórter investigativo do New York Times, Charles Duhigg tomou a precaução de checar fontes e conferir informações. Tal fato encontra-se fartamente ilustrado na seção de Notas, ao final do livro, correspondendo a praticamente 25% do trabalho. Ao se ler a obra percebe-se o quão necessário foi este cuidado, uma vez que ele lida com questões delicadas, algumas de foro pessoal, outras que atingem grandes instituições, em ambos os casos, todos zelosos por resguardar sua imagem.

A estrutura do livro está assim dividida:              

Parte Um – Os Hábitos dos Indivíduos;
Parte Dois – Os Hábitos de Organizações Bem-Sucedidas;
Parte Três – Os Hábitos de Sociedades.

Meu interesse maior estava voltado para a Parte Dois, pois entendo ser extremamente útil ter conhecimento de teorias que possam ajudar na gestão de indivíduos, algo que facilita sobremaneira o relacionamento interpessoal no trabalho.

Vamos observar com cuidado a trajetória do autor em cada uma das seções A Parte Um apresenta as bases da teoria que ele defenderá. Seria como na Faculdade de Contabilidade – apresenta-se o que lhe dá suporte logo no primeiro período. O restante do tempo são variações sobre o mesmo tema. Nesse contexto, ele disserta sobre a dinâmica do que ele chama “o loop do hábito”, que se circunscreve no tripé “Deixa / Rotina / Recompensa”. Explicando sumariamente, os hábitos são formados a partir de 3 tempos: o tempo da deixa, ou gatilho que o aciona / a rotina propriamente dita, ou seja, o hábito em ação / e a recompensa que advém do mesmo, aquela cenoura tão ansiada pelo coelho que faz com que o loop se inicie. Ex.: o prazer que um café no meio da tarde lhe proporciona, dando o gás necessário para se seguir adiante.

Além de apresentar as bases da teoria, a Parte Um se presta muito mais para aqueles leitores que buscam tratar de problemas – ou maus hábitos – adquiridos individualmente. Seria algo muito mais chegado para a cultura da chamada “auto-ajuda”. Este aspecto é reforçado por um apêndice do livro – entre as págs. 287 e 298 – no qual o autor dá uma “receita” contendo 4 passos para mudar determinados hábitos. A meu ver, esta seção era desnecessária, enfraquecendo o valor do livro, que até então tinha sua riqueza justamente em ilustrar a teoria com farta produção de casos reais, sem se deixar levar pelo lado estritamente comercial. De toda forma trechos focados em exemplos esportivos – minha praia, digamos assim – fez com que o meu interesse se mantivesse vivo enquanto leitor mesmo nesta seção:

“A maioria dos times de futebol americano não são times de verdade. São só caras que trabalham juntos”, me disse um terceiro jogador daquele período. “Mas nós viramos um time. A sensação era incrível. O treinador era a faísca, mas a coisa ia além dele. Depois que ele voltou, a sensação era de que realmente acreditávamos uns nos outros, como se soubéssemos jogar juntos de um jeito que não sabíamos antes” (pág. 105).

Na Parte Dois, que realmente me interessava, são apresentados casos vinculados à Alcoa – e como a sua cultura de valorização da segurança no trabalho agiu transversalmente levando a empresa a uma grande revolução interna que gerou resultados esplendidos em todos os campos; do Starbucks e sua política de autonomia para seus gestores, a partir da valorização de suas idéias, cultura esta que pode mudar a vida inclusive de um rapaz problemático que não se encontrava em nenhum trabalho (1); a crise no Rhode Island Hospital, a partir do caso de insucesso de uma cirurgia por uma aparente negligência, e como esta se transformou numa oportunidade para uma mudança de hábito; e em como estamos inseridos numa sociedade em que somos monitorados – e por conseqüência nossos hábitos – todo o tempo, gerando valor para empresas que coletam dados e os vendem para outras empresas bem utilizá-los em favor de identificar o cliente na melhor hora de favorecê-lo a uma compra, citando o crescimento da empresa Target.

A riqueza da Parte Dois, além de atingir o que eu imaginava, estava justamente no fato de que o autor, sabiamente, buscou exemplos nos mais diversos cenários, reforçando sua teoria de que o poder do hábito se encontra presente em todos os campos (2). E daí vamos à surpreendente Parte Três, voltada para os hábitos – e sua formação – na sociedade. Confesso que daí não sabia o que esperar.

A Parte Três é dividida em duas seções, uma explicando como se deu a explosão da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e como uma Igreja Protestante se consolidou perante seus fiéis. Confesso que após a leitura deste trecho não me senti tão convicto sobre a validade da teoria em sua aplicação. Isto se reforçou com a segunda seção, que se debruçou sobre o que ele chamou “A Neurologia do Livre Arbítrio”. Nas notas a inquietude dos cientistas, cautelosos em não afirmar categoricamente que uma determinada atitude foi tomada em função de um hábito consolidado, é tão contundente que tal sentimento de dúvida a mim ficou mais claro. Propalar que um hábito de uma sociedade – o que poderia ser lido como a sua cultura intrínseca – foi formado por uma série de gatilhos que respeitariam o loop do hábito me pareceu forçoso demais. Existem inúmeras variáveis a serem consideradas, típicas da humanidade existente em cada um de nós que somadas, geram um sentimento de grupo. Tanto que o próprio autor colocou que existem outras condições a serem respeitadas:           


 - Um movimento começa devido aos hábitos sociais de amizade e aos laços fortes entre conhecidos próximos.
 - Ele cresce devido aos hábitos de uma comunidade a os laços fracos que unem vizinhanças e clãs.
 - E ele perdura porque os líderes de um movimento dão aos participantes novos hábitos que criam um novo senso de identidade e um sentimento de propriedade. (pág. 231)

Quando um teórico começa a adaptar sua teoria para que esta abranja cada vez mais outros cenários que se apresentam, ele enfraquece seu discurso. Seria como se a teoria, na prática da vida, fosse outra. Dessa forma, posso dizer que minha convicção quanto a utilidade do livro – apoio à gestão de indivíduos num ambiente profissional – se mostrou verdadeira. Mas será que esta minha veia crítica é uma questão de hábito?

(1)     “Para empresas e organizações, essa descoberta tem implicações enormes. O simples ato de dar aos empregados um senso de autonomia – uma sensação de que estão no controle, de que têm autoridade legítima para tomar decisões – pode aumentar radicalmente o grau de energia e foco que eles dedicam ao emprego” (pág. 165).

(2)     “Ou pensemos num jovem executivo aspirante a vice-presidente que, com um telefonema discreto para um cliente importante, poderia frustrar a venda e sabotar o departamento de um colega, tirando-o do páreo para a promoção. O problema da sabotagem é que, mesmo que seja boa para você, ela geralmente é ruim para a empresa. Por isso, na maioria das empresas surge uma regra tácita: você pode ser ambicioso, mas se jogar pesado demais, seus colegas vão se unir contra você. Por outro lado, se você se concentrar em alavancar o próprio departamento, em vez de solapar seu rival, com o tempo você provavelmente receberá atenção” (pág. 176).

domingo, 19 de janeiro de 2014

Sob a Redoma



“Apurado e vigoroso desde o início (...) difícil de deixar de lado”. – New York Times. Esta frase se encontrava na capa de “Sob a Redoma”, de Stephen King – Ed. Objetiva – Rio de Janeiro, 2012 – 954 págs. Sei, como todos vocês, que é usual no mercado editorial utilizar-se de críticas positivas para turbinar a vendagem de algumas obras. Mas não há como negar que nesta ficção daquele que ficou conhecido como mestre do terror esta frase é fidedigna ao sentimento gerado sobre o leitor.



King relata nesta estória como uma pequena cidade do interior do Maine, Chester's Mill – região que ele conhece muito bem, por viver numa delas, Bangor no caso – poderia sobreviver estando isolada do resto do mundo por uma redoma translúcida que surgiu do nada, mais que de repente. A partir daí os personagens passam a viver uma estranha experiência, como se misturassem dois filmes – “Footloose – Ritmo Louco” (1984, refilmado em 2011) e “A Onda” (1981, nos EUA e refilmado em 2008, na Alemanha)[1].

Em “Footloose” um adolescente se muda para uma cidade do interior dos EUA junto com sua mãe. Ele enfrenta uma série de dificuldades para se adaptar ao modo de vida local, ditado pelo pastor da igreja que lá existe e que, entre outras coisas, proíbe a dança em locais públicos. Neste contexto é apresentado com detalhes como aquele ambiente – o interior norte-americano – é propenso a uma série de preconceitos que se encontra arraigada na cultura branca, protestante e anglo-saxônica (WASP) por lá cultivada, a ponto de toda uma comunidade se deixar levar por uma liderança equivocada.

Precisamos escutar o discurso dele? Não. Amanhã à noite escutaremos Big Jim  [2] e já basta. Além disso, todos sabemos como são essas coisas: as duas maiores especialidades dos Estados Unidos são os demagogos e o rock and roll, e já ouvimos bastante dos dois em nossas vidas. [pág. 720]

Por outro lado, em “A Onda” é registrado o experimento realizado pelo professor Ron Jones, nos Estados Unidos. Este propõe aos seus alunos uma experiência de duas semanas para verificar se seria possível o surgimento de um regime fascista naquele país. Para tanto ele passa, paulatinamente, a estabelecer uma série de regras de conduta que aos poucos vão envolvendo os participantes num modo de vida autoritário, como se este fosse a melhor forma de conduzir as coisas, inclusive com a criação de um emblema próprio que, em determinado momento, passou a ornar os braços dos estudantes. “Rusty [3] foi embora. Só quando chegou à ladeira da praça da Cidade percebeu que Toby e Petra usavam braçadeiras azuis” (pág. 628).

Pois bem, na obra de King, a partir do surgimento da redoma, o meio-ambiente ideal para exacerbar as características acima apontadas surge. A população da cidade do interior se vê num momento de crise, em que facilmente se apegaria a uma liderança forte que a conduzisse rumo a uma saída. Como lidar com as pequenas crises – que se transformam em grandes – se não se tem a perspectiva de se escapar para o mundo exterior? “O Rennie não está vendo a longo prazo, nem os policiais. Só se preocupam com quem manda na casinha da árvore. Esse tipo de pensamento é como um desastre prestes a acontecer” (págs. 644 e 645). Todos os preconceitos que estavam escondidos sob uma manta de normalidade passam a aflorar, algumas vezes naturalmente, outras vezes insuflados por aqueles que têm interesse de que a crise se instale de maneira a consolidar o seu poder sobre a comunidade. “- Ele cochichou essa parte – disse, aceitando a xícara que Piper [4] lhe deu – É como se aquela porra tivesse virado a Gestapo agora. Desculpe a expressão” – Pág. 643.

O livro realmente é daqueles “grudentos”. A seqüência de suspense e ação prende o leitor de tal maneira que o deixa sem fôlego em determinados momentos. O próprio autor, em nota no final do livro aponta, citando um dos seus colaboradores, assim o aponta: “Nan Graham preparou os originais do livro (...). Tentei escrever um livro que mantivesse o pedal no fundo o tempo todo. Nan entendeu isso e, sempre que eu aliviava, ela punha o pé em cima do meu e berrava: (...) ‘Mais depressa, Steve! Mais depressa!’”.

Mas estamos falando de um livro de mais de 900 páginas. Você poderia se perguntar se isso, esta sensação de “sem fôlego”, é realmente possível? Eu digo para vocês que é. Toda a estória se passa em menos de uma semana, demonstrando como o desespero pode tomar conta das pessoas rapidamente. Porém, a impressão que tive ao final foi de que, aos 45 do segundo tempo, ele desacelerou, talvez por ter entendido que a principal mensagem que queria passar já havia sido dada, não havia mais a necessidade de “pisar fundo” para que o leitor, inteligente como é, a percebesse. E para mim esta mensagem era de celebração da vida, em que pese todos os horrores pelos quais passamos. De como um pequeno grupo de pessoas podia fazer a diferença uns para os outros, mesmo nas piores circunstâncias, mesmo com as perdas já ocorridas. Recomendo!

OBS 1 – o livro se presta ainda a um humor peculiar, como se soltássemos uma piada para desanuviar o momento carregado. Por exemplo, o livro tem como característica ter seus capítulos narrados pelos diferentes personagens, a partir de sua própria ótica. E um desses personagens é um cão: “Naquela manhã ele estava sendo ignorado. Julia e a outra mulher [5] – a que era dona da casa, porque o cheiro dela estava por toda parte, principalmente na vizinhança do quarto onde os seres humanos vão deixar as fezes e marcar território (...)”. Pág. 623.

OBS 2 - aparentemente já estava sendo filmada uma série baseada neste livro, porém cercada de críticas por alterar substancialmente alguns aspectos do livro. A acompanhar - http://literatortura.com/2013/12/conheca-sob-a-redoma-serie-baseada-na-obra-de-stephen-king/ .


[2] Jim Rennie, dono de uma revenda de automóveis usados e pastor de uma das Igrejas protestantes locais, além de segundo vereador da cidade, mas líder local, uma vez que o primeiro vereador, Andy Sanders, é uma marionete em sua mão.

[3] Rusty Everett, enfermeiro-assistente do hospital da cidade, alçado a posição de médico após o início da crise da Redoma e com a morte do único médico então existente, Dr. Haskell.

[4] Piper Libby, pastora da outra igreja protestante local, que se une aos “rebeldes” após tomar conhecimentos dos abusos iniciados pela nova força policial da cidade.


[5] Respectivamente Horace, um cão da raça corgi, pertencente à Julia Shumway, proprietária e editora do jornal local, que naquele momento se encontrava na casa de Andrea Grinnel, terceira vereadora, que estava em recuperação, por iniciativa própria, da dependência de drogas contra dores musculares, a fim de que pudesse se contrapor ao poder político de Big Jim Rennie.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

INVERNO DO MUNDO

Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.
Winston Churchill (1874-1965) – Primeiro-Ministro Britânico durante a Segunda Guerra Mundial

Uma afirmação que vem subjacente ao segundo livro da Trilogia do Século, de Ken Follett, cujo primeiro volume se chamou “Queda de Gigantes” e se passava durante a Primeira Guerra Mundial, é a de que o Capitalismo e a Democracia são valores que andam entrelaçados. Este segundo volume, que se chama “Inverno do Mundo” – Ed. Arqueiro, 880 págs – São Paulo, 2012 - se passa durante a Segunda Guerra Mundial, período no qual tal colocação encontrava facilmente eco entre as grandes massas, uma vez tendo sido derrotado o Nazi-facismo, experiência política extrema rumo a um governo ditatorial, vivida pela Alemanha durante as décadas de 30 e 40 do século passado.



Sabemos, passados mais de 60 anos, que tal assertiva não é necessariamente verdade. Após a derrocada da União Soviética (URSS), no final dos anos 80, cada vez mais se percebe que o Capitalismo é um modo de viver que se adapta às circunstâncias, quaisquer que sejam os Governos e suas respectivas matizes. Desde a China comunista, incluindo até mesmo à Cuba de Fidel Castro, que incentiva o turismo, encontram-se maneiras de se fazer o capital girar, fazendo com que a economia se movimente em torno de um desenvolvimento que se afasta cada vez mais da chamada utopia socialista.

Porém esta constatação na obra de Follett é deixada de lado em favor do discurso simplista de que para se ter Democracia há que se abraçar o Capitalismo – principalmente na parte final do livro, quando Volodya Pechkov, um dos principais personagens, agente do Exército Vermelho, tem que ir aos Estados Unidos (EUA) pela primeira vez para cooptar um cientista alemão para ser espião da URSS, e fica deslumbrado com o que encontra. Tal assertiva faz parte daquele universo apontado no final do post anterior, do chamado Soft Power. São, por assim dizer, os americanos exportando sua maneira de enxergar o mundo por intermédio de diversos meios, principalmente de sua influência cultural perante os demais povos.

O trem atravessou rapidamente quilômetros e mais quilômetros de ricas terras agrícolas, fábricas imponentes que cuspiam fumaça e imensas cidades com arranha-céus arrogantes. A União Soviética era maior, mas, tirando a Ucrânia, praticamente só tinha florestas de pinheiros e estepes geladas. Volodya nunca imaginara que pudesse existir uma riqueza naquela escala.
E não era só riqueza. Durante vários dias, alguma coisa o vinha incomodando, algo estranho em relação à vida nos Estados Unidos. Finalmente percebeu o que era: ninguém tinha pedido seus documentos (...). Isso lhe proporcionava uma perigosa euforia de liberdade. Ele podia ir a qualquer lugar! – pág. 802

Tirando esta contextualização um tanto quanto exagerada, a estória das 5 famílias – russa, norte-americana, inglesa, galesa e alemã - que o autor narra, percorrida durante o século XX – o terceiro volume está previsto para ser lançado ainda este ano, narrando a trajetória durante a Guerra Fria – tem todos os ingredientes que prendem o leitor – drama, paixão, aventura e suspense. Follet é um mestre do gênero e consegue prender a atenção de quem acompanha suas linhas do início ao fim.



Muito do que eu poderia dizer em termos estilísticos já foi comentado por mim no outro blog de minha autoria – www.leopideas.blogspot.com.br , Fevereiro/2012 - quando do lançamento do primeiro volume: “novela mexicana”, “mais Dallas impossível”, “serve para instigar e introduzir (...) o leitor no universo de um dos mais importantes períodos da História” – porém, o equilíbrio de visões tão presente e meritório naquela ocasião claramente pende para um dos lados neste segundo capítulo. Será que como Fukuyama uma vez pregou, Follett também acredita que a História terminou? (1)

À parte todo este aspecto político, não fica a dúvida, após se ler as duas primeiras obras da Trilogia, que o homem em guerra apresenta o seu lado mais sombrio com todas as forças. Atitudes inimagináveis são adotadas em favor de uma causa, sem se pesar as conseqüências e possíveis traumas gerados naqueles que se transformam não em seus beneficiários, mas sim vítimas. Talvez o principal recado deixado para o leitor é de que devemos fazer de tudo para evitar que alcancemos um ambiente que propicie que a barbárie entre os homens prevaleça e que tenhamos que nos matar uns aos outros para alcançar os objetivos que pretendemos para nossa sociedade. Ou seja, que não existam mais “invernos” na História da Humanidade, mas sim uma primavera infindável pela frente, desde que para isso sejamos pessoas de atitude, como os personagens de Follett, evitando a passividade diante das mazelas que vivemos. Talvez isso soe ingênuo num mundo ainda cheio de conflitos armados em todos os continentes, mas se não cultivarmos essa esperança, o que nos restaria? A Democracia, muito mais que o sistema econômico – até mesmo porque, na minha visão, esta é uma discussão já ultrapassada – é o que devemos buscar.


(1)   No verão de 1989, a revista americana National Interest publicava um ensaio teórico – mais exatamente de filosofia da História – do intelectual nipo-americano Francis Fukuyama sobre os sinais – até então simplesmente anunciadores – do fim da Guerra Fria, cujo título estava destinado a deslanchar um debate ainda hoje controverso: ‘The End of History?’”- http://mundorama.net/2010/01/21/o-fim-da-historia-de-fukuyama-vinte-anos-depois-o-que-ficou-por-paulo-roberto-de-almeida/

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Poder e Conhecimento na Economia Global

“[...] a fonte do poder na estrutura do conhecimento é a capacidade de desenvolver e adquirir conhecimento novo e negar acesso ao que se detém, combinada com a capacidade de controlar os canais pelos quais o conhecimento é comunicado” – GANDELMAN, 2004 – pág. 279.

Propriedade privada, propriedade comum e propriedade intelectual (PI). A obra de Marisa Gandelman, “Poder e Conhecimento na Economia Global – o regime internacional da propriedade intelectual, da sua formação às regras de comércio atuais”, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro – 2004 – 317 págs. - gira em torno do eixo formado pelos conceitos que suportam estes três tipos de relacionamentos entre os criadores, suas obras e a sociedade em que estão inseridos.



O livro, baseado na dissertação de Mestrado em Relações Internacionais da autora, defendida em maio de 2002, foi resultado de uma extensa pesquisa, na qual a mesma teve a oportunidade de mesclar as teorias em torno da propriedade em si com o desenvolvimento internacional da temática relacionada à PI. Em meio às inúmeras obras visitadas pela autora dois especialistas surgem como os que incutiram maior influência nas idéias e conclusões alcançadas ao final: Susan Strange, por intermédio das obras “Cave! Hic dragons: a critique of regime analysis” e “States and Markets” e C. B. Macpherson, em “Property, Mainstream and Critical Positions”.

Na jornada empreendida por Gandelman muito úteis serão ao leitor a trajetória histórica da regulamentação internacional da PI em dois de seus principais campos – patentes e direitos de autor. A propriedade intelectual protege uma vasta gama de direitos gerados a partir da inventividade do homem. Além dos dois supracitados temos marcas, indicações geográficas – quem já tomou Champagne entende do que eu estou dizendo -, desenhos industriais, topografia de circuitos integrados, softwares, belas artes, etc. “A propriedade intelectual, em outras palavras, é um direito de propriedade privada sobre os produtos da mente humana” (pág. 114). Para um leigo na matéria específica, mas com um relativo domínio das teorias de Relações Internacionais (RI), será como navegar num novo mundo que se descortina com grande potencial para estudos posteriores. Para aqueles que conhecem PI, será o aumento de seu conhecimento em nível de detalhe sobre o tema em questão, observado sob uma nova ótica, a internacionalista. Estes, portanto, são os dois públicos alvos da autora, ambos nos quais estou inserido.

Tendo isso em mente faria duas críticas ao texto em termos de desenvolvimento – uma delas está diretamente relacionada ao viés adotada ex-ante pela pesquisadora; e outra na qual ela não tem “culpa”, digamos assim, pois foi prejudicada pelo timing histórico. Gandelman inicia sua dissertação abordando a Teoria dos Regimes. Tal fato já aponta para uma não-conformidade com o status quo vigente. Ao querer questionar como a sociedade atual lida – ou seja, o regime em voga – ela já induz um entendimento por parte do leitor de que este não deve ser adequado. Certamente as leituras de Strange e Macpherson influenciaram por esse tipo de abordagem. “Para Macpherson, a propriedade [...] é produto de circunstâncias históricas particulares e tem sua origem no surgimento da sociedade de mercado capitalista” (pág. 119). Mas o seu erro não está no fato de ter adotado uma determinada linha de pensamento. Todos têm o direito de pregar por uma determinada linha, porém numa obra que se diz científica, e que deveria pautar pela isenção de idéias a priori, o equívoco está em não explicitar isso desde o principio.

Por este caminho a autora acaba chegando à conclusão de que se faz necessário, para o bem da humanidade, que a PI deixe de ter seu desenvolvimento enquanto matéria pautada pelo incentivo à propriedade privada para focar na necessidade de se mudar o sistema em favor do estabelecimento desta como uma propriedade comum. Sabemos que tal discussão traz em seu bojo um antigo debate entre o que antes era conhecido como “esquerda e direita”, conceitos a meu ver deslocados no tempo, uma vez que os interesses econômicos não observam matizes políticas de nenhuma ordem, e tal dicotomia já se encontra ultrapassada no tempo. Ora, um país pode ter um Governo de “esquerda” que não necessariamente não deixará de buscar proteger os anseios de sua indústria nacional, que muitas vezes são pela proteção de sua propriedade privada. E quando isso se dá? Na medida em que o contexto em que tal “estrutura de poder” claramente é voltada para ser maximizada em favor daqueles que o detém. E se aqueles que o possuem são os que poderão fazer com que sua economia se movimente, que empregos sejam gerados e oportunidades abertas para toda a população, que Governo se oporia? Volto a dizer: teses que indiquem um retorno ao antigo debate entre o “capitalismo” e o “comunismo” se perdem no tempo, uma vez que o navegar do mundo atual já foi redirecionado para outras paragens. O que se busca atualmente é sim, como fazer com que o sistema seja mais igualitário, porém sem o radicalismo de alterá-lo em seu cerne. Propriedade Intelectual terá como força motriz, sempre, a propriedade privada. Ela pode ser privada, de propriedade de um Governo ou de uma Empresa, mas será privada. E mesmo em ambos os casos deverá ser um privilégio temporário, em favor da sociedade.



Em relação ao segundo erro, este não pode nem mesmo ser chamado assim. A autora foi prejudicada por estar, quando da escrita da dissertação, ainda em meio ao início de um debate de como a PI poderia dar conta de novos direitos. Um grande acerto de Gandelman foi observar a tendência desta em absorver, cada vez mais, outros tipos de “direitos” que até então não alcançava, como que numa ampliação de seu escopo de atuação (1). E essa tendência se dá justamente por conta de algo muito comum a todas as sociedades – a busca pela manutenção de um modelo, de uma lógica de atuação que valida um cenário vencedor. A “ampliação do conceito de propriedade (...) tem a função de manter uma determinada configuração de distribuição de forças na estrutura da economia política internacional” (pág. 227). Se este status quo, como dito acima, demonstra falhas, cabe a iniciativa de seus membros em alterá-lo de modo a que estas possam favorecer a todos de maneira mais igualitária. E foi isso que ocorreu em 2004, ou seja, dois anos após a defesa da dissertação aqui analisada.

Naquele ano, o Brasil, acompanhado de mais 12 países, teve a iniciativa de apresentar, perante a Assembléia Geral da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI – www.wipo.int), agência especializada das Nações Unidas, um documento denominado “Agenda para o Desenvolvimento”. Este prega que a propriedade intelectual não é um fim em si mesmo, mas um instrumento para o desenvolvimento socioeconômico dos países. A própria autora antecipou este movimento ao caracterizar uma crise de regime como sendo “quando o hegemônico está em decadência, passa a dar prioridade aos seus interesses particulares, em detrimento da promoção do bem coletivo que é a estabilidade da ordem” (pág. 45).

Desse modo o Governo Brasileiro não tentava mudar o sistema em si, mas como ele vinha sendo conduzido, tentando aproximá-lo para as teses defendidas pelos países em desenvolvimento, reflexo de algo que ocorria, pelo menos, desde a década de 70 do século passado, quando a Organização da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD) liderou a redação de um estudo sobre o relacionamento entre PI e transferência de tecnologia que não era necessariamente bem visto pela própria OMPI, que “(...) não só discordava da crítica que o estudo fazia ao sistema internacional de proteção às patentes, como não acreditava na necessidade de tais mudanças apontadas em favor dos países em desenvolvimento” (pág. 192). Tal acontecimento político-diplomático gerou uma série de desdobramentos, mas o maior deles, a meu ver, foi justamente consolidar a possibilidade de se alterar o status-quo preservando o que ele tinha de melhor em benefício do povo brasileiro. Talvez, quem sabe, esse seja o “modo suave” de se alterar o sistema, atuando por dentro do mesmo, numa nova versão, um pouco mais hard do que a pregada por outro especialista, Joseph Nye, em sua emblemática obra “O Paradoxo do Poder Americano” (2). Quem viver, verá.

(1)       Um dos exemplos desta tendência é a discussão em torno de como proteger os Conhecimentos Tradicionais. Entendem-se como tais àqueles gerados no seio de comunidades indígenas, ribeirinhas, etc, os quais vêm sendo explorados sem ter o devido reconhecimento e retorno para aqueles que são os legítimos proprietários originais. A tentativa de adequação desta nova propriedade enquanto privada, uma vez que ela parte de um berço comunitário – não existe um dono único – traz dificuldades para os especialistas na matéria. Talvez uma solução para tal dilema seja o devido entendimento de que “propriedade privada” não significa necessariamente excluir a “propriedade comum” e vice-versa.


(2) Editora UNESP, São Paulo – 2002 – 293 pgs. Nye defende que um dos instrumentos de poder americano é o chamado “poder suave” (soft power). Os EUA, ao influenciarem o mundo com sua cultura, por intermédio de seus filmes, músicas, etc, fariam com que, pouco a pouco, outras sociedades e Governos ambicionassem ter o seu mesmo nível de qualidade de vida, pautando suas decisões pelas teses norte-americanas.