quarta-feira, 16 de julho de 2014

BELÍNDIA 2.0

Quando o célebre personagem de Dan Brown, Robert Langdon, um professor de simbiologia de Harvard, interpretado na telona por Tom Hanks, ganha notoriedade uma mensagem nos é passada: além da trama de suspense e ação em que está inserido, a curiosidade humana aguçada pelo mistério que se encontra por trás de antigos idiomas e imagens. Os símbolos são para nós, seres humanos, essenciais para nos identificarmos como grupo. Quando eles trazem em si uma carga de poder sua atração se multiplica.

Mas o que isso tem a ver com a obra de Edmar Bacha, “Belíndia 2.0”, editada pela Civilização Fronteira, em 2012 (459 págs)? Logo vocês entenderão. Vamos decifrar, então, o primeiro mistério, que está diretamente vinculado ao título. Para os iniciados, os economistas de plantão, esta é uma pergunta fácil. “Belíndia 2.0” se remete ao artigo que trouxe um grande reconhecimento ao autor, datado de 1974, denominado “O economista e o rei da Belíndia: uma fábula para tecnocratas”. Como o próprio autor afirma: “(...) o termo ‘Belíndia’ – junção de Bélgica com Índia – que ficou para a história, como uma sintética descrição do Brasil das clivagens sociais. (...) não requisito direitos de cunhagem do termo Belíndia. Ao que me lembre, ele apareceu num debate sobre distribuição de renda no auditório do IPEA* em 1972” (pág. 11).

O livro seria, assim, uma compilação dos principais artigos escritos pelo economista, “sócio fundador e diretor do Instituto de Estudos em Política Econômica da Casa das Garças (IEPE/CdG), no Rio de Janeiro” e que “foi membro da equipe econômica do governo, responsável pelo Plano Real. Foi também presidente do BNDES, do IBGE e da Anbid e consultor sênior do Banco Itaú BBA. Foi professor de economia da PUC-Rio, na EPGE/FGV, na UnB e na UFRJ, e professor-visitante das universidades de Columbia, Yale, Berkeley e Stanford. Foi também pesquisador do IPEA, na Universidade de Harvard e no MIT, além de consultor do Federal Reserve Bank of New York, das Nações Unidas e do Banco Mundial. (...) É bacharel em economia pela UFMG e Ph.D. em economia pela Universidade de Yale, EUA”. Ufa!

O livro inicia-se justamente pelo artigo supracitado e vai evoluindo, navegando pelos distintos mares do idioma conhecido como “economês”. E aí faço, finalmente, o link com o fictício Prof. Robert Langdon. Parte do charme e da atração do personagem está justamente no fato de que ele domina os idiomas longínquos, secretos, as caixas pretas deixadas pelas distintas civilizações. O “economês” se enquadra também nessa categoria. E incensados ao altar de celebridades são aqueles que traduzem tais idiomas para algo mais inteligível pelos meros mortais, pessoas como Bacha e Langdon. Porém, posso lhes dizer que este último é mais bem sucedido que o primeiro. Mas isto tem lá seus motivos.


      Tom Hanks, na pele de Robert Langdon e o economista Edmar Bacha: luta pelo esclarecimento das caixas pretas

Bacha não procura, nesta obra pelo menos, suavizar o “economês”. Como ele bebeu na fonte original, da qual foi o próprio autor, construiu uma compilação que verdadeiramente se presta para gravar na história sua contribuição intelectual para os diversos temas que afligiram o Brasil e o estudo da Economia em nosso país. Estão lá todos os grandes temas, a má distribuição de renda, a inflação (e o combate à), a influência do café, possíveis alternativas de políticas em seus mais diversos extratos, etc.

Para o meu gosto particular, sempre mais vinculado à Macroeconomia – digo que a Macroeconomia, diferentemente da Microeconomia, que é voltada para os dilemas específicos, é aquela que remete ao que se lê nos jornais pelo povo, o que efetivamente os afeta. Mas essa é a minha opinião. Existem aqueles que vão discordar – destaco quatro artigos em especial:

·         “O Plano Real: uma avaliação” (págs. 135-178);
·  “Repensando a agenda social”, assinado em conjunto com Simon Schwartzman (págs. 269-304);
·         “Política brasileira do café: uma avaliação centenária” (págs. 305-408);
·     “O ascenso recente nos preços das commodities e o crescimento da América Latina: mais do que vinho velho em garrafa nova?”, assinado com Albert Fishlow (págs. 409-438).

Ou seja, para o meu agrado, o livro ganhou vida apenas em sua segunda metade. Nas demais, imerso em equações, regressões e outros que tais, me pareceu realmente algo que não estimula os leigos à leitura. Os quatro artigos acima citados têm sua atratividade justamente porque brilham a luz de outras características.

O primeiro, “O Plano Real: uma avaliação” (2003), representa o registro de uma fase por mim vivida intensamente. O Plano Real, principal instrumento de estabilização da inflação em nosso país, surgiu justamente quando eu estagiava na área financeira e ainda entrava em meu último ano de Faculdade de Economia. O impacto da eliminação do dragão da inflação era, portanto, na minha mente, como se eu estivesse vivendo a História.

Em “Repensando a agenda social” (2011) os autores, Bacha e Schwartzman, propõem uma série de políticas para distintos temas, a saber: saúde, previdência, transferências de renda, educação e segurança. Eles colocam que “está, pois, na hora de desenvolver uma nova agenda social para o Brasil, que seja equânime, ao privilegiar o acesso dos mais pobres à seguridade social; realista, ao reconhecer a restrição orçamentária; e eficaz, ao lidar com a complexidade das tarefas à frente com uma gestão responsável e conseqüente dos recursos públicos” (pág. 272).

Já em “Política brasileira do café: uma avaliação centenária” (1992) o valor está vinculado ao caráter de registro histórico, associado a uma análise de cada fase da abordagem governamental quanto à administração da produção cafeeira brasileira com os objetivos de estabilização do câmbio e atração de divisas. Levando-se em conta que o artigo avalia cem anos – final do século XIX até o final do século XX – temos realmente um documento de grande valor para pesquisas futuras em mãos.

Por último, surge “O ascenso recente nos preços das commodities e o crescimento da América Latina: mais do que vinho velho em garrafa nova?” (2011). Este me atraiu por conta de seu viés internacionalista. Existe uma análise sucinta da trajetória adotada por quatro diferentes países sul-americanos em relação à sua dependência exportadora de determinadas commodities - Argentina (agrícolas); Chile (cobre); Venezuela (petróleo); e Brasil (variadas) – para a condução de sua política econômica e industrial de maneira geral, afetando diretamente seu grau de desenvolvimento.

Em resumo: não é um livro de leitura fácil para leigos. Talvez o melhor método para atacá-lo seria escolher, a dedo, os artigos que mais lhes atraem, deixando os demais para uso e suporte para futuros textos. Mas é claro que aí estou me referindo àqueles que se interessam pela produção acadêmica, o que acaba por limitar o seu escopo. Para os que gostam de leituras mais leves, não é a obra indicada.

*IPEA = Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – www.ipea.gov.br . O IPEA possui sedes em Brasília e no Rio de Janeiro.

OBS1 – Foram diversos os trechos, apêndices, etc, que pulei deliberadamente por se tratarem do mais puro economês, com suas fórmulas matemáticas e teorias econométricas que a mim não emocionam. Economia para mim, dissociada do fator humano e com variáveis congeladas, trata-se de mera fantasia. Tais trechos seriam: 124-133, em “O fisco e a inflação: uma interpretação do caso brasileiro”; 185-212, em “Uma interpretação das causas da desaceleração econômica do Brasil”; 242-247, em “Crédito, juros e incerteza jurisdicional: conjeturas sobre o caso do Brasil”; e 254-259, em “Além da tríade: como reduzir os juros?”;

OBS2 – Além dos aspectos do Plano Real em si, me atraiu a perspectiva de ter a visão de um insider no seu processo de implantação, enfrentando os diversos atores e tomadores de decisão envolvidos. Um exemplo disso foi o diálogo com o Fundo Monetário Internacional (FMI – www.imf.org), um dos organismos criados a partir de Bretton Woods para regular a economia internacional, mas que infelizmente encontra-se na esfera de influência dos países desenvolvidos, o que impede sua percepção ampliada das possibilidades e características presentes nos chamados países em desenvolvimento e emergentes:


“O fato do FMI, após longa negociação, não ter apoiado o programa não ajudou a melhorar as expectativas de sucesso. A equipe do Fundo desejava um ajuste fiscal muito mais profundo do que era factível e uma política monetária muito mais apertada do que parecia aconselhável. A equipe do Fundo também estranhava a proposta de uma reforma monetária em dois estágios, não conseguindo ver como a inflação poderia sofrer uma queda abrupta com a introdução da nova moeda se as posturas fiscal e monetária não seriam tão diferentes daquelas observadas na antiga moeda – com a postura fiscal sendo medida pelo déficit operacional e a monetária pelo nível de taxas de juros reais” (pág. 141).

segunda-feira, 23 de junho de 2014

1789

Após a leitura de “1565”, do mesmo autor deste “1789”, Pedro Doria, lançado pela Editora Nova Fronteira no corrente ano, com 272 páginas, cresce a expectativa do leitor com mais um prazer escondido nas palavras que descrevem um cenário e um acontecimento histórico. Naquela primeira obra o descortinar de um Rio de Janeiro nascente, com seus fundadores e desbravadores. Já neste último, a busca por uma imersão no imaginário dos inconfidentes.



Não fui desapontado. Mais uma vez me deleitei com a narrativa apresentada, como se estivesse vendo os acontecimentos à minha frente. Diria a vocês que para aqueles que têm o prazer de viver nas paragens de Minas Gerais – viu Rejane Ritter – este livro servirá como um guia para os tempos de outrora. Para aqueles que ainda não visitaram a terra do ouro, serve para uma breve introdução na cultura que por lá encontrará, gente simples, que tem em suas raízes a tão conhecida mistura entre branco, negro e índio, porém, diferentemente do Rio, que tem o mar a se refestelar em sua frente, houve um cenário de batalha pela terra e pelo que dela podia se extrair, não havendo distração neste objetivo – que não seja pelo amor das Marílias.

Fui avançando nas páginas procurando referências, aqueles pontos que seriam objeto de grande curiosidade e que talvez fossem o veio pelo qual eu deveria seguir a narrativa. A primeira que mexeu com a minha memória foi a respeito das Entradas – tão conhecida palavra que se fixou a partir da expressão “Entradas e Bandeiras”. As bandeiras sabemos que se referem aos bandeirantes, bastiões da abertura de caminhos entre a mata daquele novo país, muitas vezes com violência, muitas vezes pelo puro interesse, sem um pingo sequer de censo cívico de estar fazendo história. Eram outros tempos, e isso vira e mexe Pedro Doria nos lembra, que talvez não devam ser julgados pelos parâmetros de hoje. À reboque, ainda, uma ligeira explicação sobre outra expressão famosa, “Secos e Molhados”.

As Entradas, o imposto sobre circulação de mercadorias, eram pagas quando o produto entrava ou saía de uma capitania. (...) As Entradas eram cobradas de acordo com o peso da mercadoria. Havia uma taxa específica por escravo, outra para cada cabeça de gado, uma terceira pelo quilo de molhados (comida), e ainda um valor pelo quilo de secos (outros produtos).
Pág. 78

Uma economia nascente, sobrevivendo a partir do tacão de uma Metrópole distante, que cobrava seu quinhão da produção obtida a partir do suor de escravos, quer seja na lavoura, quer seja na mineração. Essa miscelânea de coisas teve inúmeras leituras, algumas delas foram transpostas para o nosso tempo via telenovelas, o que não deixou de ser uma romantização daqueles anos. O que falar, por exemplo, de Chica da Silva?

Chica da Silva nasceu no arraial do Milho Verde, não longe de Tejuco, entre 1731 e 1735. Sua mãe era uma escrava africana e o pai, português. Não nasceu Chica da Silva: nasceu Francisca Parda. Assim davam o nome aos escravos. Se vinham da África, ao prenome incluía-se a região de origem: Antônio Mina, Maria da Angola, da Guiné. Quando nascidos no Brasil, os sufixos geográficos eram substituídos por designação de pele. Crioula, Mulata, Parda ou Cabra. As Cabras tinha sangue índio e negro. As Crioulas eram negras. As Pardas, tinham o tom de pele mais claro e as Mulatas, mais escuro. Já na maneira de chamar negavam a escravos e escravas sua identidade.
Pág. 101

Mas o autor não se deteve em Chica da Silva mais do que o necessário. Nesse caso, uma ilustração de que personagens havia aos baldes naquela terra, naqueles tempos. Porém, seu norte era a Inconfidência, e o seu guia maior havia de ser Tiradentes. Há muito sabemos que as imagens que nos chegaram nesse longínquo século XXI são idealizadas. Tiradentes não foi enforcado com longos cabelos e barba brancos. Ele também não era o belo senhor, retratado pelos militares com suas vestes oficiais. Sim era, um militar, mas era feio. Sim, foi enforcado, mas estava barbeado e com os cabelos curtos. Cada imagem foi gerada com um objetivo – o militar para demonstrar sua retidão, reconhecida pelos ideais da República; o barbado uma evangelização daquele que seria o Apóstolo primeiro de nossa Independência. Porém, o autor faz a devida humanização deste personagem, sem lhe tirar o lustro.



Em 21 de abril de 1792, um homem grisalho, barbeado, generoso, corajoso, apaixonado, inconseqüente, ególatra, beberrão, verborrágico, ressentido, subiu derrotado os mais de vinte degraus à forca e pediu três vezes ao carrasco que lhe fosse breve. Tinha os olhos fixos num crucifixo.
Pág. 243

Não foi um personagem solitário. Fez sua história com seus coadjuvantes, homens que tiveram distintos motivos para se envolver na empreitada da Inconfidência, razões estas que vocês descobrirão no decorrer do livro. É de se perceber, pela sua estrutura, que na verdade Doria cria o cenário para nos apresentar suas conclusões – meio que nos abrindo os olhos para a incrível novela lida – ao final, no epílogo iniciado na página 243. Mas o epílogo não seria nada não se estivéssemos sentimentalmente envolvidos com a narrativa presente nas 242 páginas anteriores. Apresenta ainda um resumo das sentenças de todos os condenados, estudantes, políticos, contrabandistas, militares, religiosos e poetas. Interessante observar como construíram seu ideário:

Suas idéias de liberdade eram cosmopolitas, ultrapassavam fronteiras, mas foi em locais específicos que estes homens se reuniam. (...) O processo não foi de imediato, tampouco veio sem traumas. Mas ao romper o elo entre uma instituição e a outra nas mentes de todos [referência ao Estado e a Religião na época do Iluminismo], a ilusão que sustentava o sistema desapareceu. E esses livros, essas idéias, não ficaram trancados nos salões de Paris. (...) No Rio, em Salvador, em Vila Rica. E, neles as mesmas idéias européias eram exploradas com paixão. Um ajudava o outro a desenvolver raciocínios. Livros eram passados de mão em mão. Na casa do advogado Cláudio Manuel da Costa, do ouvidor Tomás Antônio de Gonzaga, na do contratador João Rodrigues de Macedo, também na do tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, (...). Alvarenga Peixoto conta de ter passado na casa do tenente-coronel “para entregar um livro e tirar outro da sua livraria”.
Págs. 124-126.


Ah, as letras, agente da revolução das idéias. Essa riqueza de conhecimento que se agrega ao que antes estava desvirtuado por uma visão que serviu apenas como introdução para este universo, construída a partir dos livros de História da escola e pelas telenovelas de época. É por isso que eu sempre digo: o livro é melhor.

domingo, 27 de abril de 2014

BATTLE ROYALE

- Compreendo – Shogo murmurou, e olhou para baixo. – Bem, os bons nem sempre são salvos, e este jogo não é exceção. Mas tenho inveja daqueles que seguem sua consciência, mesmo cometendo erros e sendo rejeitado pelos outros. (pág. 200).

Quando Tarantino passou a chocar o mundo do cinema com sua leitura violenta do mundo que nos cerca, apresentada de maneira nua e crua na telona, muitos pensaram que seria mais um cineasta que se limitaria a poucos filmes, tal sua restrição em termos de visão. Porém, ele seguiu em frente, produzindo obras e mais obras que passaram a ter um público fiel. O sangue espirrando em seus roteiros, no que parecia ser apenas um retorno aos filmes típicos de Charles Bronson e Chuck Norris, na verdade sempre trouxe mensagens embutidas, escondidas aos olhos do espectador menos atento. A mais simples dela é justamente a ode a uma década por alguns considerada cafona, mas que marcou uma geração, como os anos 70.

Além disso tudo que citei acima, Tarantino passou a influenciar uma geração de artistas. Tive acesso recentemente a uma obra de ficção japonesa chamada Battle Royale, de Koushun Takami – Ed. Globo – 2014 – 663 págs. Nesta, um grupo de 42 estudantes, que vivem num país facista, chamado República da Grande Ásia Oriental – uma paródia ao Japão – participam de um programa que ocorre anualmente e que elege, de maneira aleatória, uma turma qualquer do 9º ano do ensino fundamental (estamos falando de adolescentes de 15 anos), para participar de uma espécie de jogo mortal, em que eles são confinados num determinado lugar, até que somente reste 1. Mas as eliminações não se dão como no Big Brother, por votação, mas sim pelo assassinato de seus oponentes.



Uma vez, disse Shuya Nanahara: “Vivemos sob um regime fascista bem-sucedido. Em que outra parte do mundo há algo tão malévolo?”. Ele tinha razão, o país era louco. Não apenas aquele jogo absurdo: qualquer um que mostrasse o menor sinal de resistência ao governo era eliminado na hora. O sistema não perdoava nem mesmo os inocentes. Por isso, todos continuavam intimidados pela sombra do governo, obedecendo totalmente às suas políticas, e viviam tendo como consolo somente as pequenas felicidades da vida diária. (pág. 214).

Antes que vocês cuspam no chão com asco de uma estória com essa proposta, devo sinalizar algumas coisas: primeiro, que o livro gera um enorme suspense, com recursos interessantes até mesmo em termos gráficos – a ilha onde se passa é dividida em quadrantes, que se tornam proibidos de transitar à medida que passa o jogo. Existe um mapa na contracapa para que os leitores mais desatentos possam acompanhar este desenvolvimento. O autor ainda coloca, ao final de cada capítulo, quantos estudantes restam, dando ritmo à narrativa. E existe ainda vilão detestável – o Sr. Sagamochi – que é quem conduz o programa. Todos os elementos, portanto, de um show que prende atenção estão ali colocados. Postos os preconceitos de lado, os mesmos que se vêem enredados por uma boa estória com espiões da Guerra Fria ficariam motivados a não largar o livro até a última página.



O leitor recebe uma série de avisos sobre o potencial explosivo da obra. O autor, Koushun Takami, é assim apresentado – “(...) nasceu em 10 de Janeiro de 1969 [meu contemporâneo, portanto]. (...) Formado em literatura pela Universidade de Osaka, trabalhou como repórter de política e economia. Deixou o jornalismo para se dedicar a literatura, mas não lançou nenhuma obra além de Battle Royale, que foi desclassificada na fase final do prêmio Japan Grand Prix Horror Novel pelo seu conteúdo polêmico” (grifo nosso). Apesar disso, foi um livro que vendeu mais de 1 milhão de exemplares no Japão e Tarantino “declarou que (...) é a história que ele sempre quis filmar” (1). Curiosa ainda é a dedicatória do autor: “Dedico este livro a todas as pessoas que amo. Embora duvide que elas me agradeçam por isso”.

Devo acrescentar, porém, que apesar de toda mídia girar, aparentemente, em torno da violência ali inserida – o que me parece um apelo muito fácil às mentes dos consumidores ávidos por este tipo de “entretenimento” – a obra apresenta outros aspectos que nos fazem refletir. Não se deve esquecer, por exemplo, que é um autor japonês, contemporâneo, buscando expor as mazelas da sociedade em que vive. Os estereótipos em torno dos japoneses e da juventude retratada nos mangás (2) se faz presente. “Eu sou quem eu sou. E você é você. Mesmo que eu seja bom no basquete ou com computadores, ou popular com as garotas, não é isso que determina o valor de uma pessoa” (pág. 253). Na verdade, no decorrer da leitura fica fácil imaginar os adolescentes japoneses, protagonistas, com seus risos de lado, aquele comportamento contido de algumas meninas. E como jovens do mundo inteiro, que têm também seus romances, desejos, expectativas, sonhos de uma vida sem fim, mas que de repente se vêem confrontados com o ponto final bem próximo. “Pensando nisso, uma sensação gélida lhe correu espinha abaixo. ‘Morrer? Eu? Eu vou morrer?’” (pág. 268).Como eles reagiriam sob pressão, estando tão despreparados para o que a vida lhes reserva?

Outro aspecto é a caracterização e crítica da sociedade em que estamos inseridos. Existe até mesmo descrições, tanto do Japão quanto da China – esta última minha interpretação, pois no texto não são esses os países designados literalmente – que estão próximos, obviamente, do pensamento padrão ocidental. Exemplos:

  Ø  Japão – palavras de um dos protagonistas sobre a República da Grande Ásia Oriental: “Acho que o atual sistema praticado por este país cabe como uma luva aos seus cidadãos. Em outras palavras, sua subserviência aos superiores. Algo do tipo ‘maria vai com as outras’. Dependência de outros e mentalidade de grupo. Conservadorismo e passividade. Se lhe mostram algo que certamente é para o bem público, com motivo nobre, mesmo que seja delação, eles sentem que estão fazendo algo bom. (...) Ou seja, não há lugar para orgulho nem ética. E ninguém pensa por si. Seguimos ordens sem refletir. Isso me enoja” (pág. 245);
  Ø  China – o vilão descreve a República da Grande Ásia Oriental: “Este é um país maravilhoso. Não há no mundo nação mais próspera que a nossa. Bem, existem restrições a viagens ao exterior, mas nosso produtos industriais para exportação são insuperáveis. Nosso PIB per capita é o mais elevado do planeta e isso não é invenção da mídia governamental. E nossa prosperidade existe apenas em virtude de uma população unificada sob um governo central poderoso. Certo grau de controle sempre é necessário. De outra forma declinaríamos à categoria de nação de terceiro mundo, como o império americano. Você sabe disso, não? Aquele país está em turbulência por causa de muitos problemas, como drogas, violência e homossexualidade. Eles vivem de glórias passadas, mas é só uma questão de tempo até se esfalecerem” (pág. 643).

Dessa forma a República da Grande Ásia Oriental poderia ser qualquer país que tivesse tais características. Porém minha percepção se voltou para estes dois acima.

O anseio por fugir para os Estados Unidos também está lá, a terra onde tudo pode, num contraste com um país em que tudo é proibido. Ora, este não é o primeiro autor – e talvez com mais autoridade por ser nipônico – a afirmar que na sociedade japonesa se vive uma opressão latente, ainda mais sobre os jovens, que devem sempre buscar sua afirmação pela superioridade. Mas, lhes pergunto, isso seria uma característica exclusivamente oriental? Será que nós não estamos imersos na mesma roda-viva?

De todo modo, alguns de vocês já sabem que sou fã do Tarantino. Assim, é óbvio que para o meu gosto a obra satisfaz – o final poderia ser melhor, mas entendo que atingiu o objetivo de ser um tanto quanto diferenciado, como os filmes do cineasta americano tão citado nesta resenha. Mas tenho que ser sincero: há que ter estômago. E é como eu costumo dizer: vai encarar?

Battle Royale, o filme.

     (1)   “Em 2000 ganhou uma adaptação para o cinema com o ator Takeshi Kitano e a atriz Chiaki Kuriyama, de Kill Bill”. O livro é originalmente de 1999;
     
     A turma, em sua versão mangá



     (2)   A estagiária no meu trabalho mandou a curiosa mensagem ao meu telefone – “Eu li a versão mangá desse livro XD é muito bom!”. Ao que respondi: “Ainda tenho muito que aprender com a nova geração”.

domingo, 20 de abril de 2014

1565: ENQUANTO O BRASIL NASCIA


Ainda chove em fevereiro e março. Todos os anos.

Uma ode ao Rio de Janeiro. É isto que nos oferece que Pedro Doria em seu “1565 – Enquanto o Brasil Nascia”, Ed. Nova Fronteira – 2012 – 277 págs. Um exemplo disto, mais carioca impossível, é o dito que coloco na abertura desta resenha, exposto na página 137, mesma ponto em que ele indica se localizar o marco de criação da cidade: “Pelos cálculos de João da Costa Ferreira, em seu estudo do início do século XX sobre essa primeira distribuição de terras do Rio de Janeiro, a Casa de Pedra tem endereço. É no Flamengo, esquina das ruas Princesa Januária e Senador Eusébio”.

O Rio nasceu entre o Pão de Açúcar e o morro da Urca, e lá se isolaram os primeiros colonos. “Não há tempo nem oportunidade para recuarmos”, gritou Estácio de Sá aos homens em seu discurso de fundação que um notário registrou, “porque de um lado nos cercam estas penhas, e do outro, as águas do oceano; e pela direita e esquerda os inimigos, só podemos romper o cerco debandando-os.” (pág. 118).

Pedro Doria, jornalista, em seu pósfácio descortina sua inquietude com a ausência de uma obra que apontasse para os primórdios de tão importante localidade, tal sua força enquanto referência do Brasil. Somos, então, a partir de seu trabalho, imersos numa época em que o Rio de Janeiro ainda se formava, não passava de uma vila, e aos poucos, pela força de “portugueses, franceses, índios e negros”, alcança sua singularidade enquanto parâmetro para o desenvolvimento daquele país tão recente em sua história oficial.

O autor, imagens de época, e a capa de sua obra

Para pessoas como eu, que vivem e convivem, caminham entre as ruas do Centro do Rio de Janeiro pelo menos 5 dias por semana, é de um sabor imenso imaginar como se deu sua evolução. “Há um desnível na pista que desce uns palmos numa ladeira ligeira para chegar ao Paço Imperial – onde a Presidente Antônio Carlos muda o nome para Primeiro de Março. Ali, no desnível, o motorista acaba de atravessar o membro desaparecido da cidade. (...) O morro do Castelo ocupou uma área de 184.000 metros quadrados, o equivalente a 18 quarteirões do Rio atual, delimitado em suas partes mais extremas pelas ruas São José, Santa Luzia, México e pelo largo da Misericórdia” (pág. 149). Ficamos a ler as páginas do livro com as cabeças naquele tempo, tentando vislumbrar como seriam ruas e seus passantes, o modo de viver de um povo que tentava se estabelecer em terras hostis. Hostilidade esta natural, para povos indígenas que viviam em guerra pelo seu território, sendo os colonos portugueses e os invasores franceses apenas grupos adicionais neste tabuleiro imenso pela sobrevivência.

Impressionante o retrato que se traça, desmistificando aquela imagem de sobrepujança, pelo menos em seus primeiros 200 anos, da cultura portuguesa. Na verdade existia uma mescla muito grande entre brancos e índios, gerando a mestiçagem necessária para que a coexistência fosse possível. O tupi muitas vezes sendo o idioma corrente, até pela caminhar do desbravamento via bandeiras, adentro do país, ferramenta de contato com outros indígenas.

Somos também levados a compreender como uma família – os Sá, de Estácio, Mém, Salvador (pai e filho) e Martim – predominaram na política do Rio de Janeiro, até que a corte portuguesa percebesse que era chegado o momento de uma virada. Eles, porém, não deixaram de ser a amálgama que uniu gerações e gerações de lutadores e índios, esta última pelo respeito alcançado na luta ombro a ombro contra franceses e holandeses pela proteção da Guanabara.

Eu, niteroiense como sou, ainda vislumbro como um personagem ora coadjuvante, ora de peso, Araribóia, indígena que recebeu as terras de São Lourenço – futura Niterói – como pagamento pelo apoio prestado nas lutas acima citadas. Elas são, portanto, enquadradas no sentido de que este personagem, tão identificado com este lado da baía, tendo sido na verdade mais um daqueles que lutou pela prevalência do comando local e português no Rio de Janeiro. Até mesmo por isso está a olhar para a cidade maravilhosa.

Araí-boia quer dizer cobra da tempestade, nome de uma serpente aquática verde-escura. Era o nome de um índio temiminó que a história lembraria por Arariboia. (...) Porque era fidelíssimo aos portugueses, também excepcional guerreiro – e porque conhecia muito bem o lugar -, Mem de Sá aconselhou Estácio a não partir para a guerra sem ter Arariboia ao seu lado. Quando deixaram a Guanabara, naquele 2 de abril em 1563, Arariboia seguiu para São Vicente, onde foi batizado Martim Afonso. (...) A expulsão dos tamoios teria para Arariboia um gosto muito particular: era o seu retorno, a vitória após a derrota – sempre os conflitos entre franceses e portugueses encontrando paralelos entre as cizânias tupis. Afinal, assim como a maioria dos tamoios era tupinambá, os temiminós eram aliados dos tupiniquins. (págs. 112-113).

Este é o tipo de ensino de História que não vemos nos colégios. Nestes, nossas crianças têm apenas uma pequena semente do que poderão vir a explorar no futuro se tiverem curiosidade – lacuna esta suprida a contento por esta obra que ora avalio e avalizo. São dados aos nossos filhos pequenos nacos de uma vivência muito mais rica, com tramas políticas e de brutalidade, algumas até engraçadas pela ingenuidade e pela inexperiência de muitos que aqui aportaram como encarregados desta terra, jovens recém-saídos da adolescência que de repente se viam à frente de homens para lutar por um Brasil que ainda não tinha sua noção de país, mas que já demonstrava o quão guerreiro – e hospitaleiro - seu povo iria se tornar. Leitura a qual recomendo.

OBS.: De tão gosto me peguei pela prosa de Pedro Doria que mal posso esperar por ler seu próximo livro, “1789”.


Imagens extraídas de http://botequimcultural.com.br/1565-enquanto-o-brasil-nascia/

domingo, 23 de março de 2014

Relações Internacionais Contemporâneas: Visões Brasileiras

Vivi um grande dilema para avaliar a obra “Relações Internacionais Contemporâneas: Visões Brasileiras”, compêndio de artigos organizado pelos Profs. Carlos Maurício Ardissone e André Luis Prudência Sena, publicado pela Editora Appris, de Curitiba, no ano de 2013. A obra contém 329 páginas, é organizada por um amigo pessoal – Carlos Maurício, também autor de um dos artigos – e, além disso, tem um texto da minha lavra. Ou seja, como analisar algo com impessoalidade sendo tão pessoal?



Buscando ser ético e ao mesmo tempo não fugir da missão que me auto foi imposta ao criar o Proximideas, resolvi encarar o desafio com a seguinte estratégia – apontando para vocês o que são os problemas enfrentados por organizadores de obras coletivas, como é o caso. André e Carlos Maurício, quase que com certeza, envoltos nas diversas temáticas que dizem respeito às Relações Internacionais, tentaram ser o mais plurais possíveis, com o objetivo de alcançar toda a gama dos principais temas com que discutem corriqueiramente com seus pares do meio acadêmico.

Tal fato se percebe pela distribuição de áreas temáticas exposta no livro:

Ø  Ciência Política e Teoria das Relações Internacionais (2 artigos);                        Carlos Maurício Ardissone
Ø  Comércio Internacional (2 artigos);
Ø  Segurança Internacional (3 artigos);
Ø  Integração Regional e Direito Comunitário (2 artigos);
Ø  Temas da Agenda Internacional Contemporânea (2 artigos);
Ø  Estudos de Nações (3 artigos);
Ø  Políticas Públicas e Relações Internacionais (1 artigo).                             

     

Poderia se depreender a partir da distribuição quantitativa de textos que os aspectos vinculados à Segurança Internacional e Estudos de Nações teriam maior relevo. A meu ver não foi esse o caso – que pode de toda forma ser desmentido pelos organizadores, mas aqui vai o meu olhar externo. Acredito que o maior volume de produções em relação a estes temas tenha colaborado para a necessidade de serem incorporados em maior quantidade à obra. O que não necessariamente significa dizer que são ou não são mais valiosos que os outros temas abordados.


  André L. P. Sena
É claro que, por exemplo, no meu caso específico, em que colaborei com a última seção – Políticas Públicas e Relações Internacionais – senti falta de um diálogo com uma outra experiência que não a minha exposta. Mas isso não diminui o tema. Por outro lado, em Estudos de Nações, André Luis Prudêncio Sena, um dos organizadores e autor direto do artigo denominado “Povo Palestino: uma Identidade Nacional em Construção” (275-284), fez muito mais um libelo, juntando poesia e política, em favor da análise de um processo – e não de seu resultado, pois não podemos dizer que a questão Palestina se encontra “resolvida” – do que necessariamente fez um artigo dito “científico”. E nem mesmo por isso também o valor do texto pode ser diminuído.

Analisando com calma cada uma das seções da obra, posso lhes dar minhas seguintes impressões:

Ø          A primeira - Ciência Política e Teoria das Relações Internacionais - foi extremamente beneficiada pelo texto de Amado Cervo, “Conceitos em Relações Internacionais” (17-38), verdadeira base para todos que querem se aprofundar no campo dos grandes debates teóricos de RI – “Existem três paradigmas de Estado, afirma: o hobbesiano, que vê os outros como inimigos, o lockeano, que os vê como rivais, e o kantiano, que os vê como amigos” (1);
Ø         Na seção relativa à Comércio Internacional por vezes o jargão jurídico prejudica a leitura, mas se faz necessário para alcançar um público específico. Talvez o texto de Mirna Larissa Wachhotz – “As Relações Brasil-China: o Caso Etanol” (75-98) pudesse ser melhor aproveitado numa obra totalmente voltada para uma análise do grande Dragão Asiático, mas pelo equilíbrio dos artigos entende-se sua presença neste ponto;
Ø      Na seção sobre Segurança Internacional ganha destaque o artigo “A Pretensão Brasileira por uma Cadeira Permanente no Conselho de Segurança da Onu”, de Fabio Koifman (145-184), grande levantamento histórico da aludida pretensão (2);
Ø         Em Integração Regional e Direito Comunitário fica clara a pretensão dos organizadores em expor duas experiências distintas – o tal diálogo necessário, que apontei acima como algo ausente na última seção. Seria esta, também, mais uma seção voltada mais para os amantes do Direito. Talvez a formação advocatícia de Carlos Maurício tenha contribuído para tal característica;
Ø         Em Temas da Agenda Internacional Contemporânea chama atenção particularmente o artigo de Lauro Parente, “Relações Internacionais num Mundo Midiatizado”, contextualizando a criação dos grandes conglomerados internacionais e sua agenda formadora de opinião, algo às vezes esquecido nesse mundo inundado de informações via internet;
Ø        Por último, em Estudos de Nações, os três países que serviram de pauta – Palestina, Paraguai e Angola – têm suas histórias particulares de luta por melhores condições de vida para suas populações. Porém, talvez fosse interessante ter textos sobre outros grupos de países, representantes daqueles ditos “desenvolvidos”. Porém, dado o limite de uma obra, e ser este um campo que poderia gerar milhares de livros, se entende como operacionalmente necessário um viés de escolha. E por que não privilegiar os não comumente privilegiados?

Obviamente não posso analisar a seção que consta apenas do meu próprio artigo, além do que já comentei acima. Feitas estas considerações, posso dizer que como obra introdutória o livro serve para que os estudantes de RI possam ter uma noção do quão vasto é o mundo que têm a sua frente, a grande variedade de escolhas e caminhos que poderão eleger. Tendo em vista isso, podemos dizer que os organizadores foram bem sucedidos em seu intento. Porém, sem dúvida, não é uma obra para leigos.

    1. Referências a “Thomas Hobbes (1588-1679) foi teórico político, filósofo e matemático inglês. Sua obra mais evidente é ‘Leviatã’, cuja ideia central era a defesa do absolutismo e a elaboração da tese do contrato social. Hobbes viveu na mesma época que outro teórico político, John Locke [1632-1704], que era defensor dos princípios do liberalismo, ao passo que Hobbes pregava um governo centralizador. Fonte: http://www.e-biografias.net/thomas_hobbes/ . Já Immanuel Kant [1724-1804] buscou fundamentar na razão os princípios gerais da ação humana, elaborando as bases de toda a ética moderna. Fonte: http://educacao.uol.com.br/biografias/immanuel-kant.jhtm

     2. Acho tal pretensão ilusória. Em que pese o bom senso dizer que o Conselho de Segurança das Nações Unidas não ser mais representativo do mundo plural em que vivemos no que diz respeito a sua composição de membros permanentes, estes criarão toda ordem de obstáculos para manter o seu poder. E sua influência econômica somente facilitará essa tarefa. Uma ilusão, enfim, imaginar que isso um dia seja mudado. Seria necessária uma hecatombe para isso ocorrer, algo que nenhum de nós deseja. Em tempos de Criméia, é bom que isso seja dito.

segunda-feira, 3 de março de 2014

O Drible

A indústria do entretenimento cunhou um grupo de produções para o cinema voltadas para o público dito feminino como “água com açúcar”. Seriam aquelas comédias românticas, em que o casal, em meio a um roteiro lotado de desencontros, com cenas hilárias, ao final do filme se reúne e vivem felizes para sempre – pelo menos até uma possível continuação. Porém, o livro o qual vamos dissecar - “O Drible”, de Sérgio Rodrigues – Ed. Companhia das Letras – 2013 – 218 págs. - é a antítese total do que falamos acima. Pode ser conceituado como um livro para machos.

Sergio Rodrigues

“O Drible” retrata a tentativa, tempestuosa, de reatamento de relações entre um pai e um filho afastados há mais de 20 anos. O pai, um ex-cronista esportivo, obcecado por futebol, encontra-se nas últimas. O filho, revisor de livros de auto-ajuda, em meio a sua auto-comiseração, não consegue perdoar o pai em relação a uma infância e juventude doídas. Contando desta forma parece mais um grande dramalhão mexicano. Porém o modo como a estória é conduzida por Sérgio Rodrigues requer um olhar – e um conhecimento – mais afeito aos amantes do futebol, pelas referências colocadas.

Fora este aspecto, ainda temos aquele ar de revisão das modas e costumes dos anos 50 e 60, onde o machismo na sua perversa face tem toda a sua força moldada no linguajar que traz a mulher como um ser-objeto dos desejos dos homens, que “passam a régua” em todas aquelas que demonstram o mínimo interesse. Tal elo a ligar pai e filho, além dos seus personagens coadjuvantes – mas nem tanto, como Peralvo, aquele que seria maior que o Pelé – traz em seu bojo o segredo escondido a sete-chaves, que só fica claro nas últimas vinte páginas do livro.
 
[Neto – o filho, no caso] “Orgulhava-se de ter um método – o Método – e de atingir taxas de sucesso razoáveis para um cara que não era bonito, embora não fosse feio. O Método era um passo a passo de olhares demorados, simpatia, elogios, dedos se roçando ao pegar o comprovante do cartão de crédito, dia após dia, sem pressa, para dar àquelas caixas de supermercado e atendentes de café com metade da sua idade tempo de entender que ali estava um homem-feito de classe média que (...) podia lhes abrir (...) as portas de um mundo (...)” – Pág. 67.

O suspense bem tramado pelo autor prende o leitor com maestria, em que pese por vezes nos perdermos, junto com o personagem central, nos devaneios que ora atiram para a nascente ditadura, ora para a imagem de fantasmas futebolísticos que se entrechocam tentando explicar o porquê das coisas. Faz parte da trama. Uma abordagem mais direta talvez secaria a fonte cedo demais do que se estava por apresentar.

De toda forma, o livro se apresenta como algo de difícil deglutição pelo sexo feminino, podendo, portanto ter dificuldades para alcançar esse naco de público, em que pese o tom novelesco que por vezes assume. Não consigo imaginar uma menina que não se entedie com os longos trechos dedicados aos paralelismos futebolísticos – até mesmo por desconhecimento histórico dos fatos ali discorridos. Por outro lado, para aqueles fascinados pelo esporte bretão – com ou sem apelos dúbios – é um livro que satisfaz plenamente. Mas é um livro para fortes, pois fortes são as tintas carregadas com que se apresentam o futebol, o ambiente jornalístico, a paixão, a traição, o sexo, as drogas, a política, a vingança que atravessam os anos – da década de 50 até os dias de hoje. Que a partida se inicie para aqueles que têm coragem.

OBS1 – Sensacional a passagem em que Murilo filho (o pai, no caso) relaciona a decadência do futebol com a decadência do rádio como meio maior de transmissão do jogo – “E como obrigar a narração radiofônica a ficar sóbria estava fora de questão, restava reformar a realidade. Foi assim que o futebol brasileiro virou o que é: em grande parte por causa do esforço sobre-humano que os jogadores tiveram que fazer para ficar à altura das mentiras que os radialistas contavam. (...) A televisão é um veículo desprovido de imaginação que condena as peladas chinfrins a serem só peladas chinfrins, nada mais que peladas chinfrins (...)” – Págs. 61/62.

OBS2 – O racismo, tema que volta e meia surge nos campos de futebol mundo afora, também é tratado como um pano de fundo da estória contada, atingindo a tudo e a todos os personagens, como a demonstrar a hipocrisia da sociedade brasileira em relação ao assunto. Em dado momento Murilo Filho, o pai, “reagia contando às gargalhadas a história de Robson, precursor de Michael Jackson, um jogador negro do Fluminense que ao ser entrevistado por Mario Filho [jornalista, irmão de Nélson Rodrigues, e que dá nome ao estádio mais conhecido como Maracanã] sobre a existência de preconceito racial no futebol confirmou tudo dizendo: ‘Olha, seu Mario, eu já fui preto e sei o que é isso’”. (Pág. 155).

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A Menina que Roubava Livros

Quando iniciamos a leitura de uma obra literária múltiplas são as entradas, iscas que se nos apresentam como o que nos prenderá até o final da narrativa. Em “A Menina que Roubava Livros”, de Markus Zusak – Ed. Intrínseca, 2010 – 480 págs – três foram esses ganchos, com um bônus que nos é indicado logo de início. Primeiramente, os ganchos:

·         A História e a Estória

Os três últimos livros – incluindo este – de ficção tem algum tipo de vínculo com a Segunda Guerra Mundial. Em “Inverno do Mundo”, de Ken Follet, esta se apresenta quase como que o personagem principal, servindo o entrelaçar da estória de cinco famílias como pano de fundo para que o leitor perceba com clareza como o ser humano pode ser tão cruel consigo próprio. Em “Sob a Redoma”, de Stephen King, o conflito entre moradores de uma pequena cidade sitiada de modo estranho no interior dos Estados Unidos por vezes remete a como o totalitarismo e o populismo, veias maiores daquela época por vezes citada, poderiam ser ressuscitados anos depois, prejudicando o convívio entre iguais, como uma sombra ou um zumbi que renasce dos mortos.

Estória – [...] narrativa em prosa ou verso, fictícia ou não, com o objetivo de divertir e/ou instruir o ouvinte ou o leitor;
História – [...] conjunto de conhecimentos relativos ao passado da humanidade, segundo o lugar, a época, o ponto de vista escolhido [...] – Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa – Ed. Objetiva – 2004.
 
Porém, na obra de Markus Zusak, australiano com origens européias, a estória de Liesel, a protagonista, uma criança amante das letras, apresenta pinceladas de amor e candura em meio à terrível luta pela sobrevivência numa Alemanha nazista. Ou seja, a Segunda Guerra não esconde o que tem de pior, mas o livro demonstra como as pessoas seguiram suas vidas em meio àquele caos e terror em que muitos de nós, gerações posteriores, não temos a mínima idéia da profundidade da cicatriz marcada, e vemos de repente o resgate desta memória, nos dando um tapa, nos emocionando, e ao mesmo tempo informando que na vida estamos num ciclo de vitórias e derrotas, grandes ou pequenas, mas que aquelas, quando vêm – e muitas vezes podem estar imersas no gosto pela literatura – são como uma brisa que nos dá o ar que necessitamos.

          Markus Zusak


- Jesus, Maria...
Ela o disse em voz alta, com as palavras distribuídas por uma sala repleta de ar frio e livros. Livros por toda parte! Cada parede era provida de estantes apinhadas, mas imaculadas. Mal se conseguia ver a tinta. Havia toda sorte de estilos e letras diferentes nas lombadas dos livros, pretos, vermelhos, cinzentos, de toda cor. Era uma das coisas mais lindas que Liesel Meminger já tinha visto. (Pág. 123)

·         O cinema

Li esta obra justamente quando sua adaptação chega às telas dos cinemas. Porém, tenho como princípio que o livro sempre é melhor que o filme. Existem sentimentos que dificilmente são transpostos da obra literária para a telona, por melhor que seja o roteiro adaptado. Como transpor, para citar dois exemplos, as pequenas notas nas quais a narradora principal – da qual falarei mais adiante – coloca o andamento da estória sob um olhar todo peculiar, que no caso do cinema passa a ser diretamente vinculado à ótica do telespectador? Por exemplo (pág. 37):

UMA DEFINIÇÃO NÃO ENCONTRADA
NO DICIONÁRIO
Não ir embora: ato de confiança e amor,
comumente decifrado pelas crianças

E como eu poderia me sentir mais tocado pela visão do roteirista do que pelo sentimento gerado a partir do trecho que demonstra a forte relação entre pai e filha, fazendo me lembrar da minha própria pequena:

Na cama, leu com o pai, que percebeu haver algo errado. Era a primeira vez que se sentava com ela em um mês, e isso a consolou, nem que fosse um tantinho. De algum modo, Hans Hubermam sempre sabia o que dizer, quando ficar e quando deixá-la sozinha. Talvez Liesel fosse a única coisa em que ele era realmente perito. (...) Fazia alguns dias que o pai não se barbeava, e a cada dois ou três minutos esfregava os pelos prurientes. Seus olhos de prata estavam foscos e calmos, levemente calorosos, como sempre ficavam quando se tratava de Liesel. (...) Por alguns momentos, ela observou o seu rosto. Depois, se tornou a deitar, encostou-se nele, e juntos, os dois dormiram, bem nos arredores de Munique (...).
Pág. 235.

Toda a poesia expressa neste relacionamento, viva na imaginação do leitor, não pode encontrar algo igual, por melhor que seja o roteirista. Além disso, o filme já teria um precedente que talvez o sobrepuje, que é “A Vida é Bela”, de Roberto Begnini (1998). Neste um judeu, Guido, interpretado pelo próprio diretor, narra ao seu pequeno filho as desventuras pelas quais vivem na Segunda Guerra Mundial, fantasiando o suficiente para que o mesmo não seja tocado pelo horror que os circunda¹.





·         O Valor da Amizade

Chamou a minha atenção, ao ver o trailer do filme no cinema, que a protagonista era acompanhada por um menino em suas peripécias. Ao ler o livro encontro este rico personagem, Rudy Steiner, um contraponto a uma menina introspectiva que vê a vida se descortinar aos poucos, com grande ajuda de seu amigo. A amizade para mim é um bem maior. Ela nos auxilia a dar saltos sobre os piores obstáculos. É claro que aqui me remeto à amizade verdadeira, aquela que está presente nos piores momentos. E que momento poderia ser pior do que em meio a uma guerra? O fascínio do menino pelo fenômeno Jesse Owens – atleta negro norte-americano vencedor de 4 provas na Olímpiada de 1936, em Berlim, em pleno domínio nazista – apenas serve a mim como um atrativo a mais, como a cereja do bolo sobre um personagem tão influente na trajetória, à espera de um beijo ansiado.

Liesel (Sophie Nelisse) e Rudy (Nico Liersch)²
 
Os dois dobraram algumas esquinas até chegar à rua Himmel, e Alex [Steiner] disse:
- Filho,você não pode sair por aí se pintando de preto, escutou?
Rudy estava interessado e confuso. (...)
- Por que não, papai?
- Porque eles o levam embora.
- Por quê?
- Porque você não deve querer ser como os negros, nem como os judeus, nem como qualquer um que... que não seja nós.
- Quem são os judeus?
- Conhece aquele meu freguês mais antigo, o Sr. Kaufmann? Da loja onde compramos seus sapatos?
- Sim.
- Bom, ele é judeu.
- Eu não sabia. A gente tem que pagar para ser judeu? Precisa de uma licença?
- Não, Rudy. (...) É como ser alemão ou católico.
- Ah. O Jesse Owens é católico?
- E eu sei lá! (...)
- Eu só queria ser como o Jesse Owens, papai.
- Eu sei, meu filho, mas você tem um lindo cabelo louro e olhos azuis grandes e seguros. Devia ficar feliz com isso, está claro?
Mas não havia nada claro. Rudy não compreendeu coisa alguma (...). Dois anos e meio depois, a Sapataria Kaufmann foi reduzida a vidros quebrados e todos os calçados foram jogados num caminhão, dentro de suas caixas. (Pág. 56)

E o bônus a que citei no início? Trata-se justamente da qualidade da narradora eleita. A própria Morte. Esta se apresenta como participativa, na medida exata de suas intensas tarefas naquela época – como se não fosse o sempre. Mas, mais do que isso, desmistificando um pouco a visão de sua perversidade, mas sim como alguém que realmente se importa em facilitar as coisas, já tão complicadas por si só, levando-se em conta que tem que lidar com os seres humanos em seus últimos momentos – ou até, nos seus piores momentos, por vezes. Misericordiosa, dedicada ao seu ofício, mas se deixando tocar pelo sentimento que gira em torno, ela passa a ser uma parceira do leitor no olhar cândido sobre a estória que está sendo narrada.

O que eu diria no fim disto tudo? “A Menina que Roubava Livros” é uma estória de amor entre pai e filha, entre amigos, entre a leitora e as palavras. Em que pese triste, é uma bela estória, que merece ser lida por trazer em seu bojo o que de pior e o que de melhor o ser humano tem a oferecer.

      (2) http://livrosetsurus.blogspot.com.br/2013/08/primeiras-fotos-menina-que-roubava.html