sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O Retorno do Rei

- Não tenha medo – disse Aragorn. – Cheguei a tempo, e chamei-o de volta. Agora está cansado, e triste, além de ter sofrido um ferimento como o da Senhora Éowyn, quando ousou atacar aquela criatura mortal. Mas esses males podem ser reparados, num espírito tão forte e alegre como o dele. Não poderá se esquecer de sua tristeza, porém esse sentimento não vai escurecer o coração dele, mas trazer-lhe sabedoria. (página 184)

Sempre existirá a perspectiva de uma volta por cima para aqueles que lutam para o lado do bem. Este é o gancho central de O Retorno do Rei, o livro que fecha a trilogia que vem sendo por nós aqui analisada, a tão famosa O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien. Como toda obra que se propõe um desfecho para uma longa estória, esta sinaliza para o enfrentamento final dos grandes dilemas levantados durante seu transcurso. Triunfará o bem sobre o mal? Sabemos que sim – OK, existem obras literárias que terminam de forma ambígua neste aspecto, mas nunca me pareceu aqui o caso – porém que dissabores os protagonistas terão que passar para alcançar o triunfo? Alguém perecerá em meio ao caminho percorrido? Qual o preço a ser pago?

Estas são as principais aflições que atingem os leitores. De resto, batalhas, poemas, um breve espaço para uma ilação romântica, e temos então o fechamento dessa epopeia de longo curso tramada pelo escritor britânico. No entanto, me permito a expor algumas críticas a partir de uma pergunta-chave:

Valeu a pena a leitura de uma obra de tão longo curso, dado sua adaptação cinematográfica?

Tenho por princípio achar que sempre vale a pena ler o original antes de buscar a película adaptada (1). Por motivos simples, muitas vezes por mim explanados: o livro é uma experiência muito mais rica que o filme, pois nele projetamos nosso imaginário em meio às palavras e aos cenários construídos pelo escritor. Nossos anseios, nossas inquietações, aparecem sob a forma dos personagens, protagonistas e antagonistas, mesclados com a gênese da bravura e do destemor de enfrentar os perigos que a vida ali retratada se apresenta. Na verdade somos os heróis de nossas próprias histórias.

Nesse caso específico se acentuou esta minha visão. Vi apenas o primeiro filme da trilogia, e sua adaptação se revelou tremendamente falhar em diversos aspectos, alterando diálogos, introduzindo personagens inexistentes em determinado momento, etc. Porém, acredito que a obra poderia ser de menor porte – ou volume, como queiram – preservando ainda assim muito de seu valor enquanto narrativa.

Já coloquei minha inquietude, em post anterior, quanto ao uso contínuo de poemas em meio a narrativa, dada a peculiaridade de que os personagens tinham por hábito recitar canções pelos mais diversos motivos – melancolia com tempos passados, exaltação da batalha presente, esperança quanto aos rumos futuros, entre outros. Tal ferramenta acabava por ocupar um espaço demasiado grande e quebrando a dinâmica de desenvolvimento da estória em si.

Além disso, neste último volume, Tolkien, como bom acadêmico, nos brinda com nada mais nada menos do que 6 apêndices – das letras A a F, indo da página 417 a 565 – versando sobre aspectos técnicos da construção dos idiomas criados pelo próprio autor para serem símbolos de cada um dos povos ali representados. Obviamente que para um linguista como Tolkien esta deve ter sido uma parte deveras importante de seu trabalho, de modo a demonstrar sua capacidade de domínio da área pela qual militava. Porém, para o leitor, acaba sendo um desperdício de tempo. Enfim, confesso que pulei alguns dos apêndices (2).

Sam, por Sean Austin - para quem não
se lembra, um dos Goonies
De todo modo, sem querer parecer contraditório, alguns destes mesmos apêndices se demonstraram interessantes dado que esclarecem o passado e o futuro dos principais personagens. Aliás, a este respeito, devo lhes dizer que para mim, em que pese Frodo ser o mais conhecido – papel que alavancou a carreira do ator Elijah Wood – tenho a impressão que na obra escrita, pelo menos, o principal deles é o seu fiel escudeiro, Sam Gamge, o Jardineiro, interpretado nas telas por Sean Astin. O que não deixa de ser uma bela sacada de Sir Tolkien, caso seja verdade, esconder o protagonismo do personagem dito coadjuvante.

(1)               Existem exceções, como a quadrilogia sueca Millenium, cujos 3 primeiros livros são de autoria de Stieg Larsson. A primeira estória - “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” - eu vi antes em formato de filme. Pior, adaptada do original sueco para versão americana! Shame on me! Mas eu adorei!!! Tanto que comprei os outros 3 livros.

(2)               Os ditos apêndices estão assim divididos:

A – Anais dos Reis e Governantes – 417 a 487. As últimas 40 páginas são interessantes, relatando, como disse acima, passado e presente dos principais personagens;
B – O Conto dos Anos – 488 a 512 - discorre, de maneira resumida, cronológica, os principais acontecimentos das 3 eras – ao final da trilogia, se inicia a 4ª era;
C – Árvores Genealógicas – 513 a 517 – dados sobre a geração das famílias dos principais personagens;
D – Calendário do Condado – 518 a 528 – como se podem contar os dias na Terra Média e entre os seus diversos povos. Facilmente pulável – como o fiz;
E – Escrita e Ortografia – 529 a 547 – como se constituíram os diversos idiomas presentes na obra, contando inclusive com tabelas para os alfabetos e números. Igualmente pulável, a não ser que você seja um nerd hard;
F – As Línguas e os Povos da Terceira Era – 549 a 565 – se o apêndice anterior lidava com a escrita, este lida com a fonética dos idiomas criados. Extremamente pulável!!!!

Perdão pelos neologismos. Deve ser influência de Tolkien! É bem provável que os apêndices, em especial os 3 primeiros, sejam melhor aproveitados pelos fãs de do autor que leram O Hobbit e Silmarillion, tal os vínculos destas estórias com a que foi descrita em O Senhor dos Anéis. Ah, e respondendo a pergunta, livros sempre valem a pena, ainda mais os clássicos. Agora estou apto a criticar os filmes. Até a próxima aventura!

OBS – e olha que eu esqueci de dizer que ainda tem os mapas!!!

Obras citadas:
 
Silmarillion - O Silmarillion, relata acontecimentos de uma época muito anterior ao final da Terceira Era, quando ocorreram os grandes eventos narrados em O Senhor dos Anéis. São lendas derivadas de um passado remoto, ligadas às Silmarils, três gemas perfeitas criadas por Fëanor, o mais talentoso dos elfos. Tolkien trabalhou nesses textos ao longo de toda a sua vida, tornando-os veículo e registro de suas reflexões mais profundas.

O Hobbit - Bilbo Bolseiro é um hobbit que leva uma vida confortável e sem ambições. Mas seu contentamento é perturbado quando Gandalf, o mago, e uma companhia de anões batem à sua porta e levam-no para uma expedição. Eles têm um plano para roubar o tesouro guardado por Smaug, o Magnífico, um grande e perigoso dragão. Bilbo reluta muito em participar da aventura, mas acaba surpreendendo até a si mesmo com sua esperteza e sua habilidade como ladrão!

Millenium – vem da Suécia uma das mais bem sucedidas séries dos últimos anos: a trilogia Millenium, de Stieg Larsson, jornalista e ativista político muito respeitado em seu país. Além de receberem críticas entusiasmadas, (...) alcançaram o topo de vendas em diversos países (...). Um dos segredos de tanto sucesso é a forma original com que Larsson engendra a trama, conduzindo-a por variados aspectos da vida contemporânea: do universo muitas vezes corrupto do mercado financeiro à invasão de privacidade, da violência sexual contras as mulheres aos movimentos neofacistas e ao abuso de poder de modo geral (a). Larsson veio a falecer pouco depois de entregar os originais dos 3 primeiros livros. Um quarto livro foi lançado recentemente, escrito por outro autor – A Garota na Teia de Aranha – por David Lagercrantz, numa tentativa de seguir com sucesso. A conferir.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

As Duas Torres

Respeitando o anseio de um dos meus (poucos) assíduos leitores, fiz um trabalho de investigação – nada que dois cliques no buscador na internet não resolvam – sobre a vida de Sir John Ronald Reuel Tolkien. Encontrei alguns fatos significativos que trazem luz sobre as possíveis influências sobre suas obras, em especial a trilogia Senhor dos Anéis, a qual está, neste post, em análise sobre o segundo livro – As Duas Torres – Ed. Martins Fontes – São Paulo – 2002 – 502 págs.

·         Tolkien foi um renomado linguista, sendo especialista em Inglês e Linguagem Nórdica antiga;
·         O Senhor dos Anéis, e em especial a partir do segundo livro – As Duas Torres, aqui mencionado e dissecado – recebeu sim influência da guerra, mas da I Guerra Mundial, da qual Tolkien participou como soldado:

J. R. R. Tolkien lutou na Primeira Guerra Mundial em uma das batalhas mais intensas e agressivas desse período, conhecida como Batalha de Somme. Muitas das privações que Frodo e Sam passaram no caminho até Mordor refletem um pouco dos horrores que Tolkien viveu nos confrontos reais nas trincheiras. Vários de seus amigos morreram na época ao seu lado, o que fez com que essas tragédias inspirassem algumas das coisas que vemos em "O Senhor dos Anéis", "O Hobbit" e "O Silmarillion".

·         Sua especialidade em línguas o auxiliou a criar as linguagens utilizadas em seus livros, voltado para o uso dos povos da chamada Terra Média:

(...) ele manteve seu cérebro exercitado ao desenvolver suas próprias línguas que utilizou nas obras (como os idiomas élficos que possuem suas próprias vertentes, o Quenya e o Sindarin). Inclusive, Tolkien escreveu poemas e músicas nessas línguas fictícias, como modo de agregar aspectos culturais a elas. Fonte: idem.

A Terra Média criada por Tolkien
Aliás, devo dizer que particularmente não gosto destes poemas inseridos em meio à narrativa. Ok, de modo geral sou refratário a musicais e que tais, daí talvez a minha insatisfação com tal estratagema. Porém, em termos de dar fluidez para a narrativa, realmente acho que eles não contribuem muito. Parecem um intervalo não pedido. Talvez, por isso, não surjam nos filmes baseados na obra de Tolkien. Aliás, de acordo ainda com este site que consultei “(...) recusou várias propostas para adaptar os livros e seus escritos no início – principalmente porque ele achou que essas adaptações não capturavam o escopo épico e nobre das histórias. É no mínimo curioso imaginar o que Tolkien acharia dos filmes dirigidos por Peter Jackson hoje...”.

Outro aspecto interessante é que um dos trechos relevantes nesse segundo livro – quando Frodo e Sam enfrentam uma mega-aranha, denominada Laracna - teria sido inspirado em uma experiência de infância, quando ele foi picado por um enorme aracnídeo na jardim de sua casa. Voltando ainda ao tema de domínio de idiomas, pode-se perceber como este aspecto era relevante para o autor britânico até mesmo para a conceito geral de suas obras:

Sam encarando Laracna


Enquanto desenvolvia O Senhor dos Anéis, se aprofundou ainda mais na sua paixão pelos idiomas. Logo cedo se tornou um grande conhecedor de grego e latim, e espanhol, posteriormente. Depois veio o italiano e o francês, que ele não gostava nem um pouco. Além do inglês, ele conhecia cerca de dezesseis outros idiomas (além daqueles criados por ele mesmo): grego antigo, latim, gótico, islandês antigo, sueco, norueguês, dinamarquês, anglo-saxão, médio inglês, alemão, neerlandês, francês, espanhol, italiano, galês. Mas a língua que mais o encantou foi mesmo o finlandês, e usou sua gramática, junto com a galesa, como base para as línguas que mais tarde apareceriam em seus livros, muitos nomes relatados nos seus livros foram tirados do idioma islandês, como Gandalf, por exemplo. Foi baseado nestas línguas que Tolkien começou a desenvolver seu mundo. Para ele, primeiro vinha a palavra, depois a história. Ele criou um mundo onde suas línguas pudessem ser aprendidas e faladas, e também criou diversas lendas e contos para rodeá-las, que serviriam para perpetuar as línguas que ele criara. (grifo nosso)

Por último, antes de partirmos para a análise do segundo livro propriamente dita, vimos com satisfação que nossa percepção de que Tolkien havia influenciado diversas obras que vieram posteriormente confirmadas pelo site indicado acima. Eles citam, dentre os livros dados como exemplo, a série Duna, de Frank Herbert, já por nós antecipados no post anterior. Além de Duna são mencionados “a fantasia de A Cor da Magia (de Terry Pratchett). Além dos recentes Ciclo da Herança (de Christopher Paolini) e Artemis Fowl (de Eoin Colfer), entre tantos outros”*. Confesso que destes só ouvi falar do último – Artemis Fowl.

Em relação ao segundo livro da trilogia Senhor dos Anéis – As Duas Torres – em agradou mais do que o primeiro – A Sociedade do Anel. A utilização de muitas cenas de batalha remetem diretamente aos melhores filmes do gênero capa e espada produzidos. De todo modo, o tom crescente, preparatório para a grande batalha entre as forças do bem e do mal – auge da trilogia que somente será alcançado no terceiro livro, O Retorno do Rei – é o tom presente.

A sociedade do anel, separada, é apresentada pela trajetória isolada de cada um dos seus membros, visando o seu reencontro somente ao final. Nesse sentido se entende o fato desta série ter se tornado um best seller que atravessa décadas. Sir Tolkien soube, ultrapassado o livro introdutório, criar um enredo que vai num típico crescente, prendendo a atenção do leitor à medida que as batalhas são travadas e os ganhos são obtidos a cada pequena vitória. Talvez o acadêmico professor tenha pautado sua narrativa seguindo justamente a lógica universitária – exposição de considerações para desenvolvimento dos argumentos. Resta-me saber se ele entrega o que promete. Assim que tiver terminado a leitura do terceiro livro darei conhecimento a vocês.

OBS.: Ainda não vi o segundo filme, por isso não sei dizer se estaria colocando uma leviandade. Minha esposa em particular já demonstrou seu desgosto quanto ao desenvolvimento da primeira película e não se mostra propensa a continuar assistindo os filmes tal a possibilidade de cenas mais sanguinárias. Enfrentarei com desvelo essa tarefa, apoiado pela minha filha.

*Obras citadas:

A Cor da Magia – Terry Pratchett - A Cor da Magia é o primeiro livro da cultuada série Discworld. A história relata as aventuras do mago Rincewind e do estranho turista Duasflor, tudo com muito bom humor. Nessa aventura, os personagens praticamente fazem um tour pelo disco, o que os leva a encontrar um grande herói, um terrível demônio e dragões, além de se aproximarem perigosamente da borda do mundo. Fonte: http://lelivros.pink/book/download-a-cor-da-magia-discworld-vol-1-terry-pratchett-em-epub-mobi-e-pdf/#forward

Ciclo da Herança – Christopher Paolini - Eragon é uma história repleta de ação, vilões e locais fantásticos, com dragões e elfos, cavaleiros, luta de espada, inesperadas revelações e uma linda donzela. Inspirado em J.R.R. Tolkien, que criou idiomas para os diálogos de seus personagens, Paolini utiliza o norueguês medieval para a linguagem dos elfos e inventa expressões específicas para os anões e os urgals, de modo a dar veracidade ao lendário reino de Alagaësia, onde a guerra está prestes a começar. O protagonista é um jovem de 15 anos que, ao encontrar na floresta uma pedra azul polida, se vê da noite para o dia no meio de uma disputa pelo poder do Império, na qual ele é a peça principal. A vida de Eragon muda radicalmente ao descobrir que a pedra azul é, na realidade, um ovo de dragão. Quando a pedra se rompe e dela nasce Saphira, Eragon é forçado a se converter em herói. Fonte: http://www.sobrelivros.com.br/info-ciclo-a-heranca-christopher-paolini/

                                        Artemis Fowl – Eoin Colfer - Esta é a história de um garoto diferente, Artemis - um anti-herói mal-humorado e pessimista que, com apenas 12 anos, é um gênio do crime. Artemis é o único  herdeiro do clã Fowl, uma lendária família de personagens do submundo, célebres na arte da  trapaça. 
Fonte: http://www.submarino.com.br/produto/186291/livro-artemis-fowl-edicao-economica

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A SOCIEDADE DO ANEL

Livro na edição de 2002
Vamos deixar uma coisa bem clara desde o início: eu não acredito em duendes. Dito isso, vamos à análise do primeiro volume daquela que é considerada a obra prima de J. R. R. Tolkien – a trilogia Senhor dos Anéis, no caso, a primeira parte da estória, denominada A Sociedade do Anel. O livro em questão o qual tive acesso foi publicado pela editora paulista Martins Fontes, no ano de 2002, contendo 578 páginas – contando os mapas ao final.

A trilogia trata da busca, por um grupo de representantes de diversos povos, pela destruição do chamado Um Anel, o que permitirá restaurar a paz ao retirar a possibilidade do poder mágico deste cair nas mãos de Sauron, o vilão máximo e criador do próprio anel. O pensamento imediato do leitor de primeira mão, ao saber que a obra foi desenvolvida em meio aos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial – a primeira publicação se deu em 1956 – é de vinculá-la ou buscar quaisquer alegorias àquele dramático evento da humanidade. Mas o próprio Tolkien desmistifica tal tese logo no prefácio, aliás, trecho deveras interessante que ocupa as 5 primeiras páginas e que permite um diálogo direto e franco entre o autor e seus leitores:
Tolkien

Quanto a qualquer significado oculto ou “mensagem”, na intenção do autor estes não existem. O livro não é nem alegórico nem se refere a fatos contemporâneos. (...) O capítulo crucial, “A sombra do passado”, é uma das partes mais antigas do conto. Foi escrito muito antes que o prenúncio de 1939 se tornasse uma ameaça de desastre inevitável, e desse ponto a história teria sido desenvolvida essencialmente na mesma linha, mesmo que o desastre tivesse sido evitado. Suas fontes são coisas que já estavam presentes na mente muito antes, ou em alguns casos já escritas, e pouco ou nada foi modificado pela guerra que começou em 1939 ou por suas sequelas. (pág. XIII – Prefácio).

Em que pese tal afirmação, dizer que o ser humano não é “influenciável” por evento de tal porte me parece um tanto quanto exagero. Tolkien pode ter lutado para preservar ao máximo sua obra original, ou o mote que ela se propõe, mas ele próprio, em suas palavras, ao afirmar que “e pouco (...) foi modificado” dá a entender que um valor de juízo distinto dele pode ser passível de aplicação neste caso, dependendo do ponto vista.

Mas digamos que o horror ali circunscrito, de ver povos distintos movidos pela sede de poder tomarem a iniciativa de se matarem uns aos outros, chegando ao ponto de um lunático – Saruman, o então Mago Branco - gerar criaturas para o seu próprio exército – os chamados orcs – não ter realmente tido nenhum tipo de influência da Segunda Guerra Mundial, o que poderia então ter sido a semente que fez germinar todo esse universo de fantasia na mente de Tolkien?

A crise da década de 30, iniciada com o crash de 1929, é uma boa pista. O público devia estar ansioso por um salvador, alguém que pudesse superar todas as dificuldades, com tenacidade e honestidade, com bons princípios, trazendo comida, diversão e felicidade – algo bem típico dos hobbits, pequeno povo e personagem central da estória, que teve sua gênese na obra anterior (O Hobbit) do próprio Tolkien. Nada melhor então do que gerar uma utopia (nos moldes de hoje, seria chamado de distopia, porém, levando-se em conta que um mago como Gandalf tem a resposta para tudo...) na qual diferentes seres se unem pelo bem comum numa chamada Sociedade do Anel (lembrem-se que a Sociedade das Nações veio antes da Segunda Guerra Mundial!).

Nesta sociedade personagens de diferentes matizes têm que saber ceder e contribuir para que o propósito para o qual foram instados seja alcançado. Temos Aragorn (ou Passolargo), herdeiro de um trono há muito esquecido; temos Boromir, de grande coragem e ansioso para ver sua terra liberta do prenúncio de uma derrota sangrenta numa guerra violenta; temos Legolas, representante dos elfos, povo sábio da floresta de grande sensibilidade para o “todo”; temos Gimli, representante dos anões, que a despeito de sua condição física, enfrenta todos os perigos de maneira destemida; temos os 4 hobbits – Frodo, Samwise, Pippin e Merry; e por último, o líder, talvez o grande protagonista da estória, o mago Gandalf.

Personagens como retratados no primeiro filme da trilogia:
Aragorn, Gandalf, Legolas, Boromir e Bilbo (ao fundo)
Sam, Frod, Merry, Pippin (hobbits) e Gimli (o anão, em frente a Boromir)
Mas para abordar o que realmente interessa numa resenha literária – a avaliação do crítico sobre a qualidade no desenvolvimento da estória, aquele aspecto que prende o leitor do início ao fim do livro – esqueçam tudo que eu descrevi acima, à exceção talvez dos nomes dos principais personagens, expostos no parágrafo anterior. Vou passar agora a relatar-lhes minha experiência enquanto leitor.

O livro demora a deslanchar, “a pegar no breu” como dizem alguns analistas esportivos quando querem falar que um campeonato está emocionante. No chamado Prólogo, em torno de 30 páginas são dedicadas a explicar o ambiente e os principais povos em que se encerra a estória, contando inclusive com notas de rodapé. Dessa forma temos seções com os seguintes títulos: A respeito dos hobbits / A respeito da erva de fumo / Sobre a organização do Condado / Sobre o Achado do Anel / Nota sobre os Registros do Condado. Destes, talvez o de maior interesse seja o penúltimo, que remete diretamente para um ponto central e motor de toda a estória – em como o Um Anel foi de fato parar no Condado dos Hobbits gerando todo o desenlace necessário para a própria necessidade de sua destruição. Nesta seção o autor faz o link direto com a obra anterior, ao mencionar “Como se narra em O Hobbit, um dia chegou à porta de Bilbo, o grande mago, Gandalf, o Cinzento, e treze anões (...). Com eles partiu, para sua grande surpresa, numa manhã de abril, no ano de 1341, de acordo com o Registro do Condado, na busca de grandes riquezas (...)” – pág. 15.

Esse cuidado de Tolkien, incluindo mapas da região descrita, e próprio zelo na narrativa, ao identificar a paisagem nos mínimos detalhes, criando toda uma geografia própria e uma historiografia política fictícia para um determinado ambiente, veio a influenciar – ou pelo menos a ter eco – em obras posteriormente publicadas por outros autores e que também tiveram grande repercussão – e vendagem. Podemos citar, a título de exemplo, a série Duna, de Frank Herbert, e Operação Cavalo de Tróia, de J. J. Benítez. Neste segundo me são de nada agradáveis memórias as extensas notas de rodapé com explicações ditas científicas sobre a estrutura tecnológica do aparato utilizado para viajar no tempo.

Dessa forma, cada autor buscou criar laços próprios com os leitores, tal qual uma imersão num mundo particular. Para aqueles mais chegados aos duendes, mais fácil se tornou esse processo inicial – o que não necessariamente é o meu caso. Em Duna, por outro lado, o cenário de ficção científica pura era mais atrativo para mim enquanto apreciador. Já em Operação Cavalo de Tróia o autor buscou mesclar tanto o histórico com o científico. E óbvio que o viés religioso – a estória se passa na época do surgimento de Jesus – turbinou a curiosidade de outra de legião de fãs.

Voltando ao Senhor dos Anéis e seu primeiro livro, ultrapassando-se os 8 primeiros capítulos do chamado Livro I passa-se a ter uma ação digna de tempos em que a velocidade dos desdobramentos de uma determinada narrativa são algo muito ansiado – para os mais velhos, vou fazer uma analogia pesada. Seria como se pouco mais de 1/3 do livro fosse passado no andamento típico da novela Pantanal, da extinta TV Manchete, e os 2/3 restantes tivessem o ritmo de um filme de ação e suspense, com enredo.

Em resumo, considerei o Prefácio escrito por Tolkien uma grande sacada para a criação de um laço direto entre o leitor e o autor, em que algumas verdades são ditas; o Prólogo relevante apenas pela seção Sobre o Achado do Anel; e que o terço inicial do livro poderia ser mais bem pensado em termos de dinâmica, muito lenta, podendo afastar uma determinada classe de leitores. Mas o segundo livro – As Duas Torres – me aguardava, com uma nova proposta. Este será o meu próximo post.

OBS.: respeitando algo pelo qual sempre prezei assisti o primeiro filme da trilogia apenas após ter lido o livro. E como em 99,9% dos casos considerei o livro superior ao filme. Porém, desta feita, se deveu muito mais pela adaptação mal feita do mesmo para sua versão para a telona. Uma personagem que somente se faz presente no segundo livro é transposta para o primeiro filme. Fora isso, diálogos não existentes no livro são inseridos no filme, dando uma versão diferente para a estória.

Ø  Sobre Operação Cavalo de Tróia – e o seu marketing de ser uma estória verídica (que já se encontra em seu 9º volume):
Em 1980, J.J.Benítez foi contactado por um Major da Força Aérea dos Estados Unidos que dizia ter em seu poder um documento ultra-secreto. Foi só depois de ter ganho a confiança do oficial que o escritor recebeu uma série de indicações enigmáticas que o levou aos manuscritos do Diário do Major. (...) O misterioso norte-americano relata em seus escritos os detalhes de uma operação secreta dos EUA, que, em 1973, transportou dois astronautas à Palestina de Jesus de Nazaré. O objetivo era bastante claro: conhecer em primeira mão a vida, a obra e o pensamento do Filho do Homem. Os protagonistas desta viagem são Eliseu, um piloto que durante os “saltos” ao passado permanece quase o tempo todo no módulo espacial instalado no monte das Oliveiras, e Jasão - o próprio Major -, que se torna testemunha ocular da Vida, Paixão, Morte, Ressurreição e “Ascensão” do Galileu. 

J.J.Benítez complementa a volumosa documentação deixada pelo Major com vasto material de pesquisa. A transcrição, por enquanto, está dividida em oito volumes, somando 4.500 páginas, com um total de 1.227 notas de rodapé, 14 mil fontes e mais de 3 mil informações sobre o Mestre. Esses números fazem da série Cavalo de Tróia a maior obra sobre a vida de Jesus de Nazaré, apresentado da forma mais humana e completa já realizada. Fonte: http://www.saraiva.com.br/cavalo-de-troia-1-jerusalem-4071256.html





Ø  Sobre a série Duna:

Duna é um romance de ficção científica escrito por Frank Herbert e publicado em 1965. É considerada uma das maiores obras de ficção científica de todos os tempos. Duna ganhou os prêmios Hugo e Nebula no ano de sua publicação. (...) Duna se passa em um futuro distante no meio de um império intergaláctico feudal em expansão, onde feudos planetários são controlados por Casas nobres que devem aliança à imperial Casa Corrino. O livro conta a história do jovem Paul Atreides, herdeiro do Duque Leto Atreides e da respectiva Casa Atreides, na ocasião da transferência de sua família para o planeta Arrakis, a única fonte no universo da especiaria melange. Em uma história que explora as complexas interações entre política, religião, ecologia, tecnologia e emoções humanas, o destino de Paul, sua família, seu novo planeta e seus habitantes nativos, assim como o destino do Imperador Padishah, da poderosa Corporação Espacial e da misteriosa ordem feminina das Bene Gesserit, acabam todos interligados em um confronto que mudará o curso da humanidade. A sequência de livros seria: Duna (lançado em 1984); Messias de Duna (1985); Os Filhos de Duna (1986); O Imperador-Deus de Duna (1986); Os Hereges de Duna (1986); e As Herdeiras de Duna (1987).

sábado, 16 de maio de 2015

POR QUE AS NAÇÕES FRACASSAM?


Livros acadêmicos. Teorias uma vez apresentadas buscam impactar os leitores de modo a solidificar seus autores numa determinada área. Este é o modus operandi usual. Porém, a obra de Daron Acemoglu & James Robinson, acadêmicos radicados nos Estados Unidos – MIT e Harvard respectivamente – “Por Que as Nações Fracassam – as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” – Ed. Elsevier – 2012 – 401 páginas – abusou de outro artifício, que pode ter sido involuntário, o da repetição.


Uma obra de 400 páginas – ok, as notas e fontes ocupam 40 páginas ao final do livro, ou seja, 10% do volume – na qual já deu o que tinha para dizer com um pouco mais da metade, corre o sério de risco de não alcançar outra parcela do público leitor. Aquela constituída pelos leitores curiosos sobre a matéria de Política Internacional e Economia, mas que não são catedráticos, que se cansam fácil da repetição de argumentos. Assim, o livro acaba se voltando para um determinado nicho, que teria paciência e vontade – porque não dizer – de encontrar uma falha na teoria apresentada. Ou existe algum meio mais vaidoso que a Academia?*

*Sim, existe. Academias de ginástica, o mundo fashion, críticos literários e de gastronomia, etc... Mas tinha que provocar...

A repetição acaba por surgir naturalmente em livros que possuem mais de um autor. Os debates entre os dois criadores em torno do tema acabam por suscitar um sem número de fatos e argumentos os quais balizam suas posições. Assim, se o texto não for bem negociado, acaba-se por se inserir todos os fatos, dados e arrazoados que ambos intuíram. E sabemos que num texto acadêmico o mais difícil é a edição do mesmo. O autor nunca fica satisfeito de cortar isso ou aquilo que para ele parece tão precioso e que deu tanto trabalho para pesquisar e identificar. Porém, o editor, ao olhar, verifica rapidamente que tal não contribui em termos de novidade e atração. Acontece que aqui o editor tem que lutar contra a vaidade de dois autores. Certamente tarefa dobrada e de maior dificuldade.

 
De todo modo, deve-se dizer que ambos atingiram seu intento ‘teórico’. “Uma teoria bem-sucedida (...) não procura reproduzir detalhes com fidelidade, mas proporciona uma justificativa útil e empiricamente bem fundamentada para uma gama de processos, ao mesmo tempo em que joga luz sobre as principais forças em ação” (pág. 332). Ambos elencaram uma série de fatos históricos e dispuseram ao serviço dos leitores suas conexões com a realidade atual da divisão mundial entre países desenvolvidos, em desenvolvimento e de menor desenvolvimento relativo. Passamos assim a compreender as raízes de tal divisão sob a ótica deles, porque esta permanece, tendo papel fundamental para tal dinâmica a Revolução Industrial – onde ela eclodiu e por que eclodiu em determinados países, a existência do que eles chamam de uma política e economia inclusivas, e o acaso, pois sem o acaso de determinadas situações, oportunidades não surgiriam para serem aproveitadas, oportunidades estas geradas e suportadas pela economia e estrutura políticas inclusivas, que acabaram por gerar a Revolução Industrial, e aí está formado o círculo virtuoso.

A inserção do acaso em sua teoria é uma espécie, assim, de porta de saída para críticas. Caso os críticos acabem por indicar falhas em sua teoria – ou até mesmo indicar que eles não apontaram nada de novo (Revolução Industrial como a raiz das diferenças é um “clássico”), eles sempre poderão argumentar que o acaso está aí para desequilibrar as coisas:

“(...) é impossível prever, com qualquer grau de certeza, qual será o estado de coisas daqui a 500 anos – o que não chega a caracterizar um ponto fraco da nossa teoria. O relato histórico que apresentamos até aqui indica que toda abordagem baseada no determinismo histórico – a partir da geografia, cultura ou mesmo outros fatores históricos – é inadequada. As pequenas diferenças e a contingência não fazem parte apenas de nossa teoria; fazem parte do desenrolar da história” (pág. 336).

Agora, como eles pontuam seus principais argumentos. Vamos tentar dissecá-los aqui abaixo.

Política e Economia

Cada sociedade funciona com um conjunto de regras econômicas e políticas criadas e aplicadas pelo Estado e pelos cidadãos em conjunto. As instituições econômicas dão forma aos incentivos econômicos: incentivos para buscar mais educação, para poupar e investir, para inovar e adotar novas tecnologias, e assim por diante. É o processo político que determina a que instituições econômicas as pessoas serão submetidas, e são as instituições políticas que ditam como funciona esse processo. Por exemplo, são as instituições políticas de uma nação que estabelecem a capacidade dos cidadãos de controlar os políticos e influenciar seu comportamento – o que, por sua vez, define se os políticos serão agentes dos cidadãos, ainda que imperfeitos, ou se terão a possibilidade de abusar do poder que lhes foi confiado, ou que usurparam, para fazer fortuna e agir em benefício próprio, em detrimento dos cidadãos. As instituições políticas incluem Constituições escritas – mas não se limitam a elas – e o fato de a sociedade ser uma democracia. Compreendem o poder e a capacidade do Estado de regular e governar a sociedade. É igualmente necessário considerar de forma mais ampla os fatores que determinam como o poder político se distribui na sociedade, sobretudo a capacidade de diferentes grupos de agir coletivamente em busca de seus objetivos ou impedir outros de atingirem os seus (pág. 32).

Ou seja, pela explicação dos autores dada acima, um país desenvolvido possui uma maturidade política elevada. Nada de novo até aqui, não!? E a angústia nos assola por um determinado momento. Eles mesmos fazem um contraponto sobre este domínio da Política sobre a Economia mais adiante, de maneira irônica: “A economia tradicionalmente ignora a política, mas compreendê-la é crucial para explicar as desigualdades do mundo. [Citação à Abba Lerner (1970)] A economia conquistou o título de Rainha das Ciências Sociais ao escolher como domínio problemas políticos já resolvidos” (pág. 54).

O Poder da Destruição Criativa, Inovação, Revolução Industrial e Propriedade Intelectual

Um dos principais argumentos utilizados pelos autores para justificar o diferencial entre o desenvolvimento atual dos países é a importância e a distribuição da riqueza em função da proteção da propriedade intelectual e o que esta proporciona como dividendos para seus criadores – nada a se estranhar, dada a origem dos mesmos – Estados Unidos:

O que mais chama atenção no registro de patentes nos Estados Unidos é o fato de que os autores dos pedidos vinham de todo tipo de extrato sociocultural e história de vida, não só do meio dos ricos e da elite. Muitos fizeram fortuna graças às suas patentes. Foi o caso de Thomas Edison (...), fundador da General Electric, até hoje uma das maiores empresas do mundo. Edison era o mais novo de sete irmãos. Seu pai, Samuel Edison, teve diversas ocupações, de serrador de sarrafos para telhados a alfaiate, passando por dono de taverna. Thomas teve pouca educação formal, mas sua mãe o ensinou em casa (pág. 24).

Ou seja, a segurança jurídica, obtida de sólidas instituições políticas e econômicas, geram oportunidades para todos os extratos sociais.

Não é coincidência que a Revolução Industrial tenha iniciado na Inglaterra, poucas décadas após a Revolução Gloriosa (1). Grandes inventores, como James Watt (que aprimorou o motor a vapor), Richard Trevithick (construtor da primeira locomotiva a vapor), Richard Arkwright (inventor de uma máquina de fiar algodão hidráulica) e Isambard Kingdom Brunel (construtor de vários navios a vapor revolucionários), puderam aproveitar as oportunidades econômicas geradas por suas ideias, confiando em que seus direitos de propriedade seriam respeitados, e tiveram acesso a mercados nos quais suas inovações poderiam ser vendidas e utilizadas de maneira rentável (pág. 81).

(1)     Revolução Gloriosa = nome dado pelo movimento ocorrido na Inglaterra entre 1688 e 1689 no qual o rei Jaime II foi destituído do trono britânico. Chamada por vezes de "Revolução sem sangue", pela forma deveras pacífica com que ocorreu, ela resultou na substituição do rei da dinastia Stuart, católico, pelos protestantes Guilherme (em inglês, William), Príncipe de Orange, da Holanda, em conjunto com sua mulher Maria II (respectivamente genro e filha de Jaime II).
Fonte: http://www.infoescola.com/historia/revolucao-gloriosa/

Porém, os próprios europeus são identificados como sendo um dos culpados pelo fato deste círculo virtuoso não ter se espraiado pelo restante do mundo, dado que tiveram tal possibilidade em relação às suas colônias e não o fizeram pelo interesse no extrativismo de suas economias – e manutenção de uma lógica perversa de exploração (ver página 96).

A desigualdade existente hoje no mundo se deve ao fato de que, durante os séculos XIX e XX, certos países lograram tirar proveito da Revolução Industrial e das tecnologias e métodos de organização por ela acarretados, ao passo que outros, não. A mudança tecnológica é apenas uma das forças motrizes da prosperidade, mas talvez seja também a mais crítica. Os países que não aproveitaram as novas tecnologias tampouco se aproveitaram de outros motores da prosperidade (pág. 210).

Como se pode então resumir a teoria apresentada?

Salvo raras exceções, os países ricos de hoje são aqueles que embarcaram no processo de industrialização e transformação tecnológica a partir do século XIX, e os pobres são aqueles que não seguiram esse caminho (pág. 234).

Como já colocamos acima, a obra é permeada de momentos em que os autores reforçam seus conceitos. A sua grande força, talvez, seja a abrangência histórica e geográfica de sua pesquisa – isso ficará mais claro na seção Curiosidades abaixo – e em como eles vinculam os fatos com os argumentos. Os autores transitam pela história de nações de todos continentes, literalmente, demonstrando um fôlego invejável para a coleta de dados.

“Este, muitas vezes, como (...) nos casos da Argentina, Colômbia e Egito, assume a forma de insuficiência da atividade econômica, em virtude da exploração dos recursos promovida pelos políticos, que tratam de esmagar todo e qualquer tipo de atividade econômica independente que possa vir a ameaçá-los e às elites econômicas. Em certos casos extremos, como no Zimbábue e em Serra Leoa, (...), as instituições extrativistas preparam o terreno para a total falência do Estado, pondo não só a lei e a ordem a perder, mas também mesmo os mais básicos incentivos econômicos. O resultado é a estagnação econômica e – como comprovam as histórias recentes de Angola, Camarões, Chade, República Democrática do Congo, Haiti, Libéria, Nepal, Serra Leoa, Sudão e Zimbábue – conflitos civis, migrações em massa, fomes e epidemias, tornando muitos desses países mais pobres hoje o que eram nos anos 1960” (pág. 289).

“As nações fracassam economicamente devido ao extrativismo de suas instituições [políticas e econômicas]. São elas que mantêm os países pobres na pobreza e os impedem de enveredar por um caminho de crescimento econômico.É o caso, hoje, na África, de lugares como o Zimbábue e Serra Leoa; na América do Sul, de países como Colômbia e Argentina; na Ásia, de lugares como Coreia do Norte e Uzbequistão; e, no Oriente Médio, de nações como o Egito. As diferenças entre esses países são evidentes. Alguns são de clima tropical,outros se encontram em latitudes temperadas. Alguns foram colônias britânicas; outros, do Japão, da Espanha e da Rússia. Apresentam as mais diversas histórias, idiomas e culturas. O que todos têm em comum são as instituições extrativistas. Em todos esses casos, a base dessas instituições é uma elite que estrutura as instituições econômicas de modo a locupletar-se e perpetuar o próprio poder, em detrimento da vasta maioria da população” (pág. 309).

OBS.: para nossa realidade sul-americana destaco a seção denominada ‘Quem é o Estado?’, entre as páginas 293 e 301, que disseca a situação gerada a partir do contexto sócio político na Argentina, Colômbia e Venezuela.

Porém, também acreditamos que estes poderiam ter poupado os leitores de tanta repetição. O livro poderia ter-se encerrado facilmente lá por sua metade, aonde os conceitos já estavam alicerçados e devidamente apresentados. Faltou, de fato, um pulso mais forte de um editor.

Mas então, o que é necessário para a mudança? Os autores pregam que “uma confluência de fatores, especialmente uma circunstância crítica aliada a ampla coalizão entre os que pressionam por reformas ou outras instituições existentes que sejam propícias, para que um país avance ao encontro de instituições mais inclusivas. Além disso, um toque de sorte é sempre fundamental porque a história sempre se desenrola de forma contingente” (pág. 330).

Curiosidades

·       Em 1534, os espanhóis (...) fundaram uma cidade na atual localização de Buenos Aires. Deveria ser um lugar ideal para os europeus. Buenos Aires, que literalmente significa ‘bons ares’, tinha um clima temperado e convidativo. A primeira temporada dos espanhóis por lá teve vida curta, porém. Afinal, eles não estavam atrás d de bons ares, mas de recursos para extrair e mão de obra para coagir. Os charruas e os querandís, contudo, não se mostraram nem um pouco cooperativos (pág. 7);
·       [Capitão John Smith] Foi o primeiro inglês a estar frente a frente com Wahunsunacock [rei da Confederação Powhatan- América do Norte], e foi nesse primeiro encontro que, segundo alguns relatos, a vida de Smith só foi salva graças à intervenção da jovem filha de Wahunsunacock, Pocahontas (pág. 15);
·       O último imperador da Etiópia, Ras Tafari, foi coroado Hailê Selassiê em 1930 (pág. 184);

·       [Botsuana] Hoje, possui a mais alta renda per capita da África subsaariana e encontra-se no mesmo patamar de países bem-sucedidos do Leste Europeu, como Estônia e Hungria, e das nações latino-americanas de maior êxito, como Costa Rica.

sábado, 11 de abril de 2015

Palavras do Papa Francisco no Brasil

Com a saída de Bento XVI a Igreja Católica, em seu processo de escolha de um novo papa, se viu diante de um cenário distinto das eleições anteriores: nesta o papa que “saía” passava a ter um papel importante na escolha de seu sucessor. A mim não cabe dúvida que o papa Francisco é resultado do trabalho prévio de Bento. Entenda-se trabalho prévio, inclusive a influência durante o Conclave.

Havia a necessidade então, não apenas de um reformador – faceta por demais exaltada em função de escândalos administrativos recorrentes na cúpula da Igreja – mas também de um comunicador. Foram encontrar então, num jesuíta argentino, a resposta para seus dilemas. Quem melhor para comunicar ao mundo, enfrentando adversidades internas e externas, o “novo” approach que o Catolicismo teria que passar a ter para encarar os dilemas da sociedade do século XXI? Isso sem se desfazer dos dogmas, mas sim buscando ajustar o discurso a uma realidade que já estava ficando distante das práticas então adotadas.

Tal clareza quanto a sua função fica explícita na obra pautada nos pronunciamentos oficiais do Papa Francisco em sua primeira missão oficial, para conduzir a Jornada Mundial da Juventude aqui no Brasil, no ano de 2013. “Palavras do Papa Francisco no Brasil” – Ed. Paulinas – 2013 – 160 páginas – indica cada um dos pilares de sua atuação.

Interessante observar, por exemplo, uma característica forte do comunicador. Para se fazer entender pelas massas, facilmente – o que era também uma preocupação clara de Jesus, ao utilizar as parábolas – o Papa Francisco faz uso amplamente de tripés. Ou seja, apresenta suas idéias divididas em três partes, fazendo com que o público fique atento e ansioso por compreender as mensagens e verificar quais seriam cada uma das três partes. Vou exemplificar.

24 de Julho de 2013 – Santa Missa na Basílica de Nossa Sra. Aparecida – “(...) valores que farão deles [dos jovens] construtores de um País e de um mundo mais justo, solidário e fraterno. (...) 3 simples posturas: conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus; viver na alegria”. E assim ele seguia suas palavras, explicando cada um dos três pontos elencados. Ele repetiu essa estratégia inúmeras vezes em seus discursos. Senão vejamos:

25 de Julho – Comunidade de Varginha (Manguinhos): Amor / Generosidade / Alegria;
25 de Julho – Festa de Acolhida dos Jovens (Copacabana): Bote fé / Bote amor / Bote esperança;
26 de Julho – Via Sacra com os Jovens (Copacabana): O que vocês terão deixado na Cruz? / O que terá deixado a Cruz de Jesus em cada um? / O que esta Cruz ensina para nossa vida?;
27 de Julho – Santa Missa com religiosos (Catedral de São Sebastião) – sobre aspectos da vocação: chamados por Deus / chamados a anunciar o Evangelho / chamados a promover a cultura do encontro;
27 de Julho, ainda, em encontro com políticos brasileiros (Teatro Municipal) – os políticos devem ter um olhar calmo, sereno e sábio. Para isso terão que respeitar 3 aspectos: originalidade de uma tradição cultural / responsabilidade solidária para construir o futuro / diálogo construtivo para encarar o presente;
27 de Julho – vigília de oração com os jovens (Copacabana) – o que significa ser um discípulo missionário: o campo como lugar onde se semeia / o campo como lugar de treinamento / o campo como obra de construção;
28 de Julho (domingo) – Santa Missa (Copacabana) – “Hoje, à luz da palavra de Deus (...), o que nos diz o Senhor?”: Ide / Sem medo / Para servir;
28 de Julho – encontro com a cúpula eclesiástica latino-americana – dentre um longo discurso, pautado por diversas orientações, encontramos também a tríade quando ele fala sobre “as tentações contra o discipulado missionário”: a ideologização da mensagem evangélica / o funcionalismo / o clericalismo.

À parte a estratégia do comunicador, como salientamos acima, ferramenta necessária para melhor entendimento da mensagem a que se quer passar, mais ainda, instrumento para prender a atenção da audiência, temos também aqui um importante simbolismo. Para aqueles que professam a fé católica são sabedores da força que possuem imagens tripartites: a Santíssima Trindade – para falar da maior de todas – e a constante repetição, em três partes, de palavras importantes durante o rito litúrgico, para enfatizar seu peso. Esta última é uma tradição trazida dos tempos antigos, quando ainda não havia o superlativo e se utilizavam desta repetição justamente para ressaltar a importância de uma determinada idéia.

Francisco assim veio preparado ao Brasil para apresentar seu cartão de visitas. Dois dos inúmeros textos são mais voltados para aspectos estratégicos de condução administrativa da Igreja – Encontro com o Episcopado Brasileiro – págs. 85-108; e Encontro com a Comissão de Coordenação do CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano – www.celam.org) – págs. 131-148. Porém, os demais são voltados ao povo, ao rebanho. E pela leitura de suas palavras parece ter atingido seu objetivo. Mas ele ainda terá grandes desafios pela frente. Aqui termino minha análise. Agora vou deixar vocês com algumas das idéias deste que vem se transformando num dos ícones deste nosso início de século:

Força de vontade para superar problemas: “Estendemos a mão a quem vive em dificuldade, a quem caiu na escuridão da dependência, talvez sem saber como, e digamos-lhe: você pode se levantar, pode subir; é exigente, mas é possível se você quiser. Queridos amigos, queria dizer a cada um de vocês (...): você é o protagonista da subida; esta é a condição imprescindível” (pág. 31).

Fé, amor e esperança: “bote fé e a vida terá um sabor novo, a vida terá uma bússola que indica a direção; bote esperança e todos os seus dias serão iluminados e seu horizonte já não será escuro, mas luminoso; bote amor e sua existência será como uma casa construída sobre a rocha, o seu caminho será alegre, porque encontrará muitos amigos que caminham com você” (págs. 54/55).

Solidariedade e Fraternidade: “(...) a solidariedade e a fraternidade são elementos que fazem nossa civilização verdadeiramente humana” (pág. 75).

Alerta aos políticos: “Que a ninguém falte o necessário e que se garanta a todos dignidade, fraternidade e solidariedade: este é o caminho proposto. Já na época do profeta Amós era muito freqüente a admoestação de Deus: ‘Vendem o justo por dinheiro, o pobre, por um par de sandálias. Esmagam a cabeça dos fracos no pó da terra e tornam penosa a vida dos oprimidos’ (Am 2, 6-7). Os gritos que pedem justiça continuam ainda hoje” (pág. 80).

A importância da existência de um Estado Laico: “A convivência pacífica entre as diferentes religiões se vê beneficiada pelo laicismo do Estado, que, sem assumir como própria nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença da dimensão religiosa na sociedade, favorecendo suas expressões mais concretas” (pág. 82).

Diálogo com o mundo atual: “Faz-nos bem lembrar estas palavras do Concílio Vaticano II: As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e atribulados, são também alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo (cf. GS, 1). Aqui reside o fundamento do diálogo com o mundo atual.

A resposta às questões existenciais do homem de hoje, especialmente das novas gerações, atendendo à sua linguagem, entranha uma mudança fecunda que devemos realizar com a ajuda do Evangelho, do Magistério e da Doutrina Social da Igreja. Os cenários e areópagos são os mais variados. Por exemplo, em uma mesma cidade, existem vários imaginários coletivos que configuram ‘diferentes cidades’. Se continuarmos apenas com os parâmetros da ‘cultura de sempre’, fundamentalmente uma cultura de base rural, o resultado acabará anulando a força do Espírito Santo. Deus está em toda parte: há de saber descobri-lo para poder anunciá-lo no idioma dessa cultura; e cada realidade, cada idioma tem um ritmo diferente” (págs.137-138).


Trabalhar o “hoje”: “O discipulado-missionário que Aparecida propôs às Igrejas da América Latina e do Caribe é o caminho que Deus quer para ‘hoje’. Toda a projeção utópica (para o futuro) ou restauracionista (para o passado) não é do espírito bom. Deus é real e se manifesta no ‘hoje’.” (págs. 142-143).