quinta-feira, 14 de abril de 2016

O Último Trem de Hiroshima

A guerra é a situação extrema do ser humano. Nela, mais do que no nosso dia a dia, está latente a possibilidade de você morrer no segundo seguinte. O que esta noção provoca no ser humano? Que tipo de reação cada um de nós teria se vivesse tal situação? De que maneira podemos evitar chegar a tal ponto?

Charles Pellegrino, com o seu “O Último Trem de Hiroshima: os sobreviventes olham para trás” (Ed. Leya – São Paulo – 2010 – 432 págs) induz ao leitor tais reflexões. O autor, deste modo, responde a essas perguntas propondo-as no contexto de no que de pior a humanidade já fez a si própria – o lançamento das duas bombas atômicas ao final da Segunda Guerra Mundial sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Como se não bastassem os campos de concentração nazistas e todo o horror cometido no cotidiano de um enfrentamento bélico, optou-se pela “solução final” de modo a impor uma derrota ao adversário sem contestações.


Filosoficamente se poderia discutir se ceifar uma centena de milhar de vidas humanas não seria melhor do que dar continuidade a uma guerra de invasão – conforme previsto pelas Forças Armadas norte-americanas junto ao Japão naquele mesmo ano de 1945 – que poderia prolongar o conflito e trazer um número maior de baixas. Mas na verdade a pergunta crucial não é esta. A guerra em si carece de razoabilidade em existir. Mas o ser humano parece não entender este conceito cristalino, dado que em batalha estivemos desde o raiar da humanidade.

Pellegrino, desta forma, deixa com o seu trabalho o testemunho necessário desta irracionalidade que é a guerra, trazendo como argumentos a seu favor (ao nosso favor!!!) o impacto gerado com as imagens e histórias coletadas em quase 30 anos de pesquisa.
Charles Pellegrino
Autor dos livros que serviram a James Cameron como inspiração para Titanic e de pesquisas que impulsionaram o conceito em torno da série Jurassic Park, Pellegrino está em condições de levantar mais uma bandeira utilizando-se de sua influência perante os meios de comunicação de modo a que compreendamos de uma vez por todas que não existe outro caminho para a sobrevivência em paz no planeta Terra que não seja a cooperação entre todos, vizinhos, povos, cidades ou países. Para tanto ele navegou desde o pior que o ser humano pode representar, até chegar ao melhor que o homem pode fazer pelo seu próximo.

Orgulho, preconceito e cegueira – o pior do ser humano

Uma das primeiras imagens de como o homem pode ter sua ética e boa vontade deteriorada em favor do benefício próprio foi a identificação de que localidades próximas às duas cidades atingidas no início de agosto de 1945 impediam a migração dos sobreviventes para suas comunidades. “Na zona rural, durante o espaço de apenas algumas horas, os sobreviventes tinham sido convertidos em fugitivos, como as administrações locais faziam questão de deixar claro em anúncios feitos com megafones. Apelando para argumentações ou ocasionalmente apontando armas, as autoridades mandavam os andarilhos feridos de volta às piras e aos lugares onde a chuva negra caíra. Embora ainda não soubessem que tais venenos existiam, encaminhavam as pessoas à radiotividade” (pág. 60).

Essa é uma reação entre vizinhos, co-irmãos de uma mesma sociedade. Mas a humanidade infelizmente não se vê também como uma só. E quão mais distante se encontra do impacto gerado por suas ações, maior a probabilidade de atitudes selvagens para com o seu semelhante. “Uma solução que se ouvia com mais frequência era a de acabar com o Japão o mais rápido possível usando armas nucleares, e depois a Rússia, com a mesma força. A segunda bomba atômica ainda não tinha incendiado Nagasaki e diversos veteranos da primeira missão atômica já viam seus amigos lançarem o olhar para além do Japão, na direção da Rússia, e usar pela primeira vez a expressão ‘Nuke them’” (pág. 104) para expressar o desejo por um ataque atômico contra um inimigo.

O horror de tais medidas somente podem ser entendidas como a cegueira do ser humano em relação às consequências de seus próprios atos. A falta de compreensão do que ocorre no seu entorno, o orgulho ferido, acabam com a visão de que uma atitude deve ser tomada para evitar o pior. “Mesmo depois de o presidente norte-americano [Truman] revelar o segredo ao mundo, algumas horas mais tarde – O mundo verá que a primeira bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima, uma base militar -, o ministro da Guerra [japonês, Anami] se recusava a aceitar” (pág. 88). Ao contrário, todos correm a favor do estímulo ao estabelecimento do inferno na Terra como se a única solução fosse destruir o outro (ou ter a capacidade de). Ou de que outra forma se entenderia a Guerra Fria e a corrida armamentista? Afinal, “(...) quando os norte-americanos começaram [com o desenvolvimento da bomba atômica], ninguém sabia que o problema poderia realmente ser solucionado. ‘Agora’, Stalin disse a Beria [Chefe da KGB], ‘o mundo sabe que isso pode ser feito. É a parte mais difícil do problema. Muito, muito mais importante de saber como pode ser feito, é saber que pode ser feito’” (pág. 100). Aqui vale aquela velha máxima: o pior cego é aquele que não quer ver. Talvez a única maneira de se fazer com que os olhos sejam abertos seria presenciando o horror gerado.

Horror

Quando o doutor Nishina levou um punhado de caninos e molares enegrecidos para perto do seu medidor Geiger, os inconfundíveis cliques lhe reveleram exatamente o que acontecera.
“Restos humanos geralmente não emitem radiação”, o físico disse a Arisue.
“Então o que é?”, perguntou o general. “Esses cliques aí mostram tudo?”
Ministro da Guerra japonês
Korechika Anami
“É isso mesmo”, disse o doutor Nishina. “Só esses cliques e acabou. Temos que fazer o ministro da Guerra Anami entender: se os norte-americanos tiverem muitas dessas armas, pode acreditar em minha palavra, general – não há defesa contra esse tipo de poder” (pág. 99).

Já vimos acima que a simples constatação de que o horror atômico estava próximo não foi o suficiente para um retrocesso no conflito imediatamente após ao lançamento da primeira bomba. Mesmo com técnicos já tendo identificado o que tinha ocorrido, o alto escalão militar japonês ainda não acreditava (ou não queria acreditar) na gravidade da questão que estavam enfrentando. Porém, aos poucos relatos – e fatos concretos – trouxeram à tona o que alguns não queriam ver. “Depois do pika (o clarão) e do don (a explosão), a grama no lado do vale (...), à sombra da montanha, permaneceu verde e praticamente inalterada. (...) Mas em pouco tempo seu casulo passaria por uma estranha chuva de óleo amarelo, e o córrego não teria águas claras por muito tempo” (pág. 175).

O impacto em si sobre a natureza e a devastação local, com o desaparecimento da maior parte das estruturas da cidade, não era nada comparado com os efeitos da bomba sobre os seres humanos. “Matéria cerebral vaporizada e sangue tentavam escapar pelas órbitas do crânio de uma mulher, como se fossem jatos de fumaça preta, mas o aumento súbito de pressão foi tão grande que o crânio explodiu por dentro” (pág. 185). Ou ainda havia os chamados homens-formiga, que caminhavam desolados, sobreviventes sem a noção do que havia ocorrido, andando ao esmo, em linhas uns atrás dos outros. Ou as pessoas-jacaré, que acorriam aos pequenos córregos e rios, na busca por saciar a sede gerada com perda de material humano gerada pela bomba. “As pessoas-jacaré não gritavam. Suas bocas não podiam articular sons, mas o ruído era pior que gritos. Emitiam um constante murmúrio – como o de cigarras numa noite de verão. Um homem, cambaleando sobre os cotos queimados em que se transformaram suas pernas, carregava um bebê morto de cabeça para baixo” (pág. 199). Se tais cenas não gerassem arrependimento, não saberíamos jamais o que poderia fazê-lo.

Arrependimento

Arrepender-se. Primeiro ato de uma possível redenção. Mesmo que alguns cegos, como dito acima, somente enxergassem a busca pelo poder supremo, ou pela destruição imediata do inimigo, seres humanos haviam lançado aquelas bombas sobre outros seres humanos. E em alguns casos sem a exata noção do que estavam fazendo. “Russell Gakensbach, no assento do navegador do Necessary Evil, investigava o dano e pensava o mesmo que Tibbets [piloto do Enola Gay, avião que lançou a bomba sobre Hiroshima] – há menos deles [japoneses] agora -, mas o copiloto de Tibbets [capitão Robert Lewis] tinha um pensamento muito diferente: ‘Olhando para baixo, a milhares de pés sobre Hiroshima, tudo o que eu podia pensar era: ‘Meu Deus, o que fizemos?’, ele contaria, mais tarde” (págs. 86-87). A bordo do terceiro avião B-29 daquela missão fatídica de 06 de Agosto, o Great Artiste, o piloto Charles Sweeney, ao saber que provavelmente teriam que fazer aquilo de novo, “saiu da base sem dizer mais nada. Ele pegou um jipe emprestado e o guiou para longe da própria ala de bombardeio, a do 509º, em direção ao capitão Downey, do 313º. O capelão que havida dado a benção às três tripulações de Hiroshima (...) era luterano. Sweeney era católico. Ele precisava encontrar um padre” (pág. 94).

O mais impressionante é que, voltando mais um pouco no tempo, talvez nada disso – as bombas, digo - fosse necessário. Pellegrino aponta o fato de Hitler ter escapado com vida de um atentado em Julho de 1944. Aproveita inclusive este fato para explicar a teoria sobre o “casulo” gerado a partir de uma mínima proteção próxima ao epicentro de uma explosão – nesse caso específico uma grossa perna de mesa serviu de anteparo para detonação, e acabaria salvando a vida do dirigente alemão -, tese esta importante para compreender como alguns dos sobreviventes escaparam às bombas atômicas. “Não fosse pelo casulo antichoque de Hitler, von Stulpnagel [o conspirador responsável pelo atentado] teria pedido, de seu posto avançado na França, um armistício imediato às forças aliadas em 20 de Julho de 1944 ou numa data próxima. O plano de Stulpnagel-Rommel pretendia colocar Ludwig Beck e Carl Goerdeler no poder como presidente e chanceler – com a condição de que a Alemanha se rendesse até a última semana de julho de 1944, em vez de 7 de maio de 1945. Se tivesse acontecido assim, os aliados não teriam se distraído do front do Pacífico pela batalha do Bulge em dezembro de 1944; tampouco de Dresden em fevereiro de 1945, ou de Berlim devido ao avanço russo em abril de 1945. Em vez disso, Okinawa não caíra com os fuzileiros navais e as Filipinas não foram liberadas até junho de 1945. Se um pedaço de madeira de carvalho não tivesse interferido em 20 de Julho de 1944, esses dois eventos-chave teriam ocorrido pelo menos seis meses antes – até janeiro de 1945, provavelmente em momento anterior a novembro de 1944” (pág. 374).

As forças armadas norte-americanas já vinham se preparando desde maio de 1945 para uma invasão ao Japão. Eram mais de 500 mil homens de prontidão para tal ato, com uma previsão de baixas caso fosse necessário em torno de 400 mil combatentes. “Todos esses eventos teriam ocorrido de seis a oito meses antes, não fosse pelo casulo antichoque de Hitler. A esquadra americana deveria ter invadido o território japonês em maio de 1945, possivelmente até março. Se isso tivesse acontecido, existiria uma probabilidade de mais de 50% de que a guerra terminasse até agosto. Se a invasão ocorresse em março, então o calendário de MacArthur encerraria a guerra quando a primeira bomba atômica foi testada na base de Trinity, em 16 de Julho de 1945. Hiroshima e Nagasaki nunca teriam acontecido” (pág. 375). E isso realmente importa – a linha tênue entre destino ou fatalidade? Como colocamos no início, qual é a verdadeira lição a ser aprendida?

O melhor do ser humano

As pequenas tragédias que vivemos no dia a dia, atualmente, nesse mundo de grande pressão por resultados imediatos, por ser bem sucedido, se transformam em gigantescas tempestades emocionais. As pessoas se tornam dependentes de questões supérfluas, à beira do colapso e da depressão. Mas estas somente ganham sua verdadeira dimensão quando confrontadas com as grandes e verdadeiras tragédias. Michie Maruta, uma garota do subúrbio de Urakami, principal local atingido pela bomba de Nagasaki, é o exemplo real de tal conceito. Observando os efeitos sobre a população atingida – vômitos dos próprios órgãos internos, pele se desfazendo, pilhas de cadáveres em chamas – ela mal podia acreditar que apenas uma semana antes tinha ficado horrorizada com um corte feito num dedo por uma folha de papel (pág. 252). A superficialidade da vida era assim, posta em cheque. Mas se uma experiência reversa mostrasse outro lado? Um padre católico, de nome Simcho, foi preso em 1942 por tropas do Eixo no Japão. Foi deportado para Auschwitz. Lá, se apresentou como culpado de roubo no lugar de outro detento. Tsutomu Yamaguchi, um dos chamados “duplo sobreviventes” e maior defensor da paz após às bombas atômicas, colocou da seguinte forma: “O padre Simcho tomou uma decisão notável (...). O homem acusado tinha uma família do lado de fora, em algum lugar além dos muros da prisão. Simcho não tinha família. Então ele confessou um roubo que não cometera para que uns filhos não fossem privados de um pai” (pág. 306).

Porém a mesma superficialidade acima apontada é muito mais perversa, por compor aquele grupo de sentimentos que levam à ambição desmedida, ao preconceito, ao orgulho exagerado dos pequenos feitos, que por sua vez levam ao embate entre as pessoas, que no mais alto grau, devidos aos interesses envolvidos, geram as guerras. Tais sentimentos são muito mais facilmente cooptáveis pelos seres humanos, infelizmente. Atitudes como a do padre Simcho, de altruísmo extremo, são extremamente raras. Mas como reverter esse ciclo vicioso? Como transformá-lo num círculo virtuoso? A resposta a partir da experiência das bombas atômicas possui dois nomes: Nyokodo e Omoiyari.

Para entendermos Nyokodo temos que entender o Dr. Paul (Takashi) Nagai e Masahiro Sasaki. Nagai era paciente de câncer terminal em seu próprio hospital na época do bombardeio de Nagasaki. Após receber uma dose quase letal de radiação, seu câncer entrou em remissão temporária, e, apesar de ainda gravemente afetado, viveu tempo suficiente para se tornar um dos observadores mais poéticos e espirituais dos efeitos da bomba na mente e alma humanas. Nagai se tornou um dos principais conselheiros espirituais em Urakami e na Nagasaki pós-apocalipse (pág. 362).
Dr. Nagai e seus filhos em Nyokodo
Logo no primeiro outono depois da bomba, ele desceu o morro, adentrou a zona proibida, se converteu em rato de laboratório e deixou seu cabelo crescer à Einstein. Ele batizou sua cabana de Nyokodo – o eremitério “Como a ti mesmo” (pág. 299). Próximo à morte, após ter passado inúmeras lições de vida para os que o visitavam, Nagai, católico, resumia o seu princípio de vida em “Ame ao próximo como a si mesmo” (pág. 331).

Já Masahiro Sasaki tinha 5 anos no dia da queda da bomba. Ao crescer, propagou a mensagem da sua irmã – Sadako Sasaki, que aos 12 anos ainda vivia sob os efeitos colaterais da chuva negra, quando fez um pássaro de papel e escreveu nas asas: “Um dia você vai levar a paz voando ao redor do mundo” (pág. 363). Masahiro, estando nos Estados Unidos após o 11 de Setembro de 2001, colocou aos seus ouvintes um princípio similar que já estava ficando conhecido pela expressão “a corrente do bem” (1). O lema essencial passava por “assim como a ti mesmo” (ou Nyokodo) (...)
Masahiro Sasaki
Alguns sobreviventes do 11 de Setembro e suas famílias saíram do encontro com Masahiro com sua maneira de pensar transformada. Não muitos; porque as feridas ainda eram recentes para que a maioria fosse tocada por palavras. Apenas alguns foram tocados – só uns poucos, na verdade. Mas estes poucos já poderiam ser o suficiente (pág. 353).

E em relação a Omoiyari? Podemos dizer, grosso modo, que Nyokodo foi o meio, mas a verdadeira mensagem pode ser condensada em Omoiyari. Antes do falecimento de Sadako, Masahiro e a irmã estabeleceram um ditado que lhes dava força para continuar. E ele se resumia na palavra Omoiyari, que significava “Em seu coração, sempre pense na outra pessoa antes de você” (pág. 331).
Sadako Sasaki, em foto tirada por seu irmão, Masahiro
“Eu acho que Omoiyari é a melhor maneira de começar”, Masahiro Sasaki disse naquela ocasião, com os sobreviventes do 11 de Setembro. “A pior maneira de começar é nos chamarmos de vítimas. Para dizer ‘vítima’ é preciso haver vitimizador, e o vitimizador leva a culpa; e assim começa o ciclo de culpa. Por exemplo, se dissermos ‘vítima de Hiroshima’, a próxima frase que aparecer vai envolver Pearl Harbor e a cadeia de culpa fica presa em acontecimentos do passado” (...). Aos adultos na plateia, Masahiro explicou: “O que estou tentando dizer é que não importa quem lançou a bomba. Não é uma questão relevante. Nunca deveria ser, em nenhum país. É uma questão para toda a humanidade. A coisa importante é que eu e Sadako conhecíamos o sentimento de Omoiyari – e se esse princípio for ser seguido e passado adiante por apenas alguns de vocês presentes aqui nesta sala, hoje, com o tempo os perigos deste mundo poderão diminuir. Vocês precisam superar a tristeza e sair dela passando adiante esta simples filosofia para a nova geração” (págs. 352-354).

ADICIONAIS

(1)   O filme “A Corrente do Bem” (2000) é o símbolo do movimento citado. Nele, um professor interpretado por Kevin Spacey instiga seus alunos da sétima série a propor um meio de transformar o mundo para melhor. Haley Joel Osmont, ator-mirim que ficou conhecido pela produção “O 6º Sentido”, faz o papel de Trevor Mckinsey. Ele propõe, então, que cada pessoa faça o bem para outras 3 pessoas, independentemente de qualquer desejo ou contrapartida. Essa pirâmide filosófica poderia alterar o mundo;
(2)   O livro possui um prefácio no qual o autor dá uma breve explicação sobre uma querela judicial no qual se envolveu, evitando desqualificar-se quanto a interlocutor para o tema. Certamente esta foi uma preocupação muito auto-centrada. O que eu quero dizer? Desconhecia tal fato e, para mim, era irrelevante para o livro em si. Mas como esta era uma reedição, entende-se a preocupação do autor;
(3)   Num livro cheio de nomes parecidos, extremamente importante foi a colocação de um capítulo, ao final, somente para identificar separadamente cada uma das pessoas ali citadas (págs. 355-365). Além disso, o índice remissivo também foi essencial para a redação, por exemplo, deste post;
(4)   O início do livro é dedicado às explicações técnico-médicas sobre as reações imediatas dos sobreviventes e como se deu a cadeia da explosão da bomba atômica de Hiroshima – replicado em menor medida quando da descrição da explosão de Nagasaki. Entendemos este trecho como relevante para a completa compreensão do leitor no tempo e no espaço do horror sofrido pelas vítimas. Mas devo confessar que foi cansativo. O livro ganha em dinâmica quando passam a ser retratados e inseridos no contexto a dinâmica da ação, e os sentimentos ali inscritos, das tripulações responsáveis pelo bombardeio;
(5)   Para os viciados em super-heróis e quadrinhos interessante mencionar que Stan Lee, mago da Marvel, então jornalista e conhecido como Stanley Lieber, tinha sido destacado como escriba militar. A mitologia atômica o envolveu de tal maneira que gerou sua imaginação abstrata para transformações radioativas, auxiliando a trazer à vida os heróis da supracitada editora. Basta dizer que naquela foi divulgada a possibilidade de picadas de aranhas gerarem algum desdobramento (Homem-Aranha); o impacto dos raios-gama sobre o homem (Hulk); as mutações gerando seres disformes e a doença atômica chamada de Doença X (X-men), entre outras coisas. Além disso, não exatamente vinculado à Stan Lee, mas parece pouco provável que ele não tenha tomado conhecimento posteriormente, a Hell’s Kitchen tão propagada em torno do personagem Demolidor, foi o local de guarda do urânio utilizado para as duas bombas atômicas. Ora, o dito personagem ganhou suas habilidades ao ser atropelado por um caminhão contendo produtos químicos... em Hell’s Kitchen! Para mais detalhes ver páginas 347 e 379; e

James Cameron
(6)   James Cameron teve contato com Tsutomu Yamaguchi, um dos duplos sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki, no final de sua vida, com 93 anos, no ano de 2009 – ele veio a falecer em 2010, ano de edição do livro.
Tsutomu Yamaguchi
Em Nagasaki, após depositar flores e ter tido contato com o japonês que se tornou um dos maiores defensores da paz no mundo, ele afirmou: “Yamaguchi-san disse algo muito interessante quando tomou nossas mãos – ele afirmou: ‘Meu dever foi cumprido’. (...) Passou a missão adiante. Agora cabe a nós fazer algo a respeito, e cabe a todas as pessoas de boa consciência fazer algo sobre isso” (pág. 383). Na capa do livro há outra afirmação dele: “Há anos desejo fazer um filme sobre os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki e este é um importante relato de um dos eventos mais marcantes do século XX”. Se Cameron cumprir com este desejo, estou certo que será um dos filmes mais marcantes da história da humanidade. O roteiro está pronto. Falta apenas rodar.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

MILLENIUM 2, 3 E... 4!?

No meu último aniversário ganhei como presente um vale para compras numa livraria. Perfeito. E lá fui eu... Levei 4 livros de uma tacada só. Nesta leva se encontravam as 3 últimas aventuras dos personagens Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander, da até então trilogia Millenium, do sueco Stieg Larsson – Os Homens que Não Amavam as Mulheres; A Menina que Brincava com Fogo; e A Rainha do Castelo de Ar. Só que eu não adquiri o primeiro deles. Peraí, mas existe uma confusão por aqui. Explicando...

No meu pacote constava, além dos dois últimos, o quarto livro da até então trilogia (!?). Entenderam? Pois é, foi lançada recentemente uma nova aventura da dupla de personagens escandinavos. Porém esta mais recente estória foi escrita por um autor diferente – claro, pois Larsson faleceu de ataque cardíaco logo após a entrega dos manuscritos dos três livros acima citados à editora.
Stieg Larsson
Dada a impossibilidade, foi alçado à empreitada o escritor e jornalista policial David Lagercrantz, que gerou a obra intitulada
A Garota na Teia de Aranha. Sueco, teve como principal obra, entre romances publicados, a biografia de Zlatan Ibrahimovic, polêmico jogador de futebol sueco, finalista de prêmios literários naquele país nórdico.
David Lagercrantz, autor do livro 4 da série Millenium
A Garota na Teia de Aranha
 E por que eu não comprei o primeiro livro da agora quadrilogia? Pelo simples fato de já ter assistido o filme gerado a partir da obra original. E para horror dos puristas, não, não assisti a versão sueca – a primeira a ser lançada e muito elogiada, assim como suas sequências. E sim a produção hollywoodiana que conta com os atores Daniel Craig (a atual James Bond) e Rooney Mara nos papéis principais. O filme me agradou muitíssimo, o que atiçou a minha curiosidade quanto à sequência da estória.


Desta forma, vou dividir este meu post em 3 partes, para que vocês possam ter uma melhor visão do todo em relação à análise crítica que pretendo empreender:

Primeira Parte – a preocupação pela perda de aspectos centrais da obra

Quando comecei a leitura do livro 2 – A Menina que Brincava com Fogo – estava na minha mente, o tempo todo, se eu não havia perdido algum aspecto relevante por não ter lido o primeiro volume da obra de Larsson – Os Homens que Não Amavam Mulheres. Algo que não tinha ficado claro para mim era o desfecho do relacionamento entre Blomkvist e Salander. O filme deixou algo subentendido, que talvez na versão literária tenha ficado mais clara. E esta explicação na verdade eu só vim a obter no final do livro 3 – A Rainha do Castelo de Ar.

A conclusão a que eu cheguei foi a confirmação de algo que sempre defendi, que é a leitura dos livros que dão origem às versões cinematográficas antes destas serem vistas. Muitas referências ficam mais claras, e algumas vezes os diretores se perdem, achando que estariam explicando o óbvio. Por outro lado, algumas as versões para a telona têm este objetivo mesmo, de deixar uma dúvida no ar para aguçar o interesse dos espectadores por sua continuidade.

Pelo que pude perceber, lendo o livro 2, os principais elementos da estória estavam presentes na adaptação cinematográfica. Um ou outro aspecto poderia ser mais detalhado no filme, mas provavelmente ele ficaria ou longo demais ou voltado para um cenário que talvez não fosse o elemento central buscado. Existe um entendimento pelo leitor que, como no meu caso, não tivesse lido o original. Mas fica aquele desconforto por não ter navegado antes pelas páginas, como se faltasse algo. De qualquer modo, não é um pecado mortal ou uma tarefa impossível de ser empreendida – ver o filme e começar a ler o restante da obra pelo volume 2, digo.

Segunda parte – Livros 2 e 3

Explicada a minha sensação de (meio) alívio em relação ao temor pela perda de conteúdo, pude apreciar ao ler A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar uma das melhores obras a que tive acesso nos últimos anos – e olha que eu leio muito, e sobre diversos temas. Ok, são voltadas para quem gosta de thrillers de suspense investigativo, para quem aprecia a ótica jornalística pela apuração dos fatos, para quem se espanta com a capacidade que um número superrestrito de pessoas possui hoje em dia para rastrear vidas alheias pela internet, para os que adoram observar com lupa como os relacionamentos humanos são frágeis se não forem baseados em confiança mútua, para se indignar com os abusos do poder entre as pessoas, etc. Ou seja, uma dinâmica forte e ágil de escrita, que te prende do início ao fim.

A meu ver fica nítido – até pela história real de entrega dos manuscritos – que os livros 2 e 3 foram escritos de uma tacada só, como se fossem uma única obra, tendo uma separação em relação ao 1, a qual a própria narrativa deixa explícita. A estória de A Menina que Brincava com Fogo se passa cerca de pouco mais de 1 ano depois dos desdobramentos de Os Homens que Não Amavam as Mulheres: “Um ano antes, ele [Blomkvist] vivera esse furo [caso Wennerström] com uma satisfação colossal” (pág. 19). Já A Rainha do Castelo de Ar inicia-se na sequência imediata da ação encerrada ao final do volume anterior. Ou seja, se Larsson quisesse ter publicado sua obra em dois volumes, assim o poderia ter feito. Porém, digamos que foi inteligente da parte da editora em dividi-la em 3. Até mesmo porque o segundo e terceiro livros já são colossais por si só – 607 e 685 páginas respectivamente – imaginem se fossem reunidos num único tomo!

De todo modo, devo aqui salientar que à parte a imensa quantidade de páginas, é praticamente impossível largá-las antes do fim. Eu li os dois volumes em 1 semana cada, levando durante o final de semana para onde ia – para desespero da minha esposa. Se vale uma crítica, diria que o final do volume 3 aparenta como se o autor tivesse se esquecido de um pequeno detalhe, e ao lembrá-lo (ou dar-se conta de que havia um ponto que ainda não estava bem resolvido) ele estende a obra por um epílogo (últimas 26 páginas) que pouco acrescenta à estória. Seriam as tais páginas “dispensáveis”. Mas sabe-se lá o que se passa na cabeça de um escritor quando está diante de sua obra-prima – ‘Ela tem que ser perfeita!’ / ‘Não posso deixar essas pontas soltas’ – devem ser pensamentos angustiantes.

Vencida esta etapa eu me encontrava na seguinte situação: iria partir para a leitura do volume 4 com a sensação de que ali iria encontrar um esforço da editora para chupar ao máximo o sumo de uma fruta que já se encontrava esgotada. E este medo me assombrava... Mas já que eu havia me proposto, por que não fazê-lo? Uma expectativa baixa pode trazer boas supresas.

Terceira parte – Livro 4

No meu último post tratei da obra Sr. Holmes, no qual o autor Mitch Cullins se aventura sobre um personagem clássico, mas retirando-o do seu ambiente usual e inserindo-o numa fase tardia da sua vida, totalmente diversa da que foi tratada pelo autor original, Sir. Connan Doyle. Já em A Garota na Teia de Aranha a proposta colocada pela editora, e aceita pelo autor - David Lagercrantz – era de dar continuidade à trajetória dos personagens centrais elaborados e desenvolvidos por Stieg Larsson, ou seja, um risco muito mais alto.


O sentimento em geral, ao ler o livro, é de um anticlímax. Contribui para isso a morte inesperada de Stieg Larsson ao entregar os originais dos 3 primeiros livros para publicação. O que resta ao leitor imaginar? Será que o autor já tinha fechado o ciclo de seus principais personagens? Ou será que ele imaginava uma continuação?

Tenho o palpite de que Larsson iria continuar escrevendo sobre as peripécias de Lisbeth Salander. Duas razões básicas me levam a essa conclusão. Ele deixou ganchos para uma continuidade do trabalho. Uma delas começou a ser tratada por Lagercrantz – a irmã da personagem principal, Camilla Salander, aparece como principal antagonista no 4º livro. Além disso, existe o apoio da família Larsson pela continuidade – Erland Larsson (pai) e Joakim Larsson (irmão) são citados nos agradecimentos ao final do livro. Claro que tal pode estar inserido num contexto financeiro de mais exploração do legado deixado. Mas acredito que o cuidado com as referências às estórias anteriores, e o zelo que os herdeiros devem ter tido em todo o processo transcende somente este aspecto.

Porém, a meu ver, houve uma escolha equivocada por parte de David Lagercrantz: o desaparecimento da personagem Rosa Figuerola, especialista da Säpo, que havia criado um forte laço com Mikael Blomkvist no livro 3. Havia um ótimo caminho por aí a ser explorado. Mas aparentemente Lagercrantz preferiu um reboot do jornalista, co-protagonista da série.


Em resumo, o livro 4 demora a envolver o leitor, e quando o faz existe uma aceleração na trama, que acaba ficando superficial em relação ao suspense dos 3 livros iniciais. Pode ser uma diferença de estilo, pode ser a preocupação em se priorizar a ação ao invés da trama, pois superar Larsson seria difícil nesse quesito (pode ser até que uma diferença de 200 páginas para menos no livro 4 tenha tido uma influência nesse aspecto), pode ser um processo de adaptação do novo autor a um universo alheio, podem ser diversas coisas, mas fato é que o leitor de Larsson esperava algo sublime, e acabou por receber um livro de ação simples, dois pontos abaixo pelo menos das obras originais. Enfim, tudo indica que a saga continuará. Vamos ver se a experiência e o aprendizado fazem com que ela volte ao nível esperado.

segunda-feira, 28 de março de 2016

MARVELS

O termo “sétima arte” serviu para cunhar em que universo se enquadraria a produção cinematográfica em relação às demais áreas ditas “artísticas”: arquitetura, pintura, escultura, música, literatura e teatro (incluindo a dança). São as chamadas Belas Artes, conceito que surgiu na Europa no final do século XVIII, junto com a proliferação das Academias de Arte, e que designa atividades preocupadas com a criação do belo, independente da sua utilidade prática (1). Nesse sentido venho a tratar aqui daquela que está na lista das novas “artes”, além das 7 mais conhecidas: o mundo dos quadrinhos.

As histórias em quadrinhos (HQ’s) há muito vem conquistando espaço, não apenas entre o público infanto-juvenil, como também entre a parcela adulta de consumidores. A primeira história em quadrinhos moderna foi criada pelo artista americano Richard Outcault em 1895. "A linguagem das HQs, com a adoção de um personagem fixo, ação fragmentada em quadros e balõezinhos de texto, surgiu nos jornais sensacionalistas de Nova York com o Yellow Kid (Menino Amarelo)", diz o historiador e jornalista Álvaro de Moya, autor do livro História da História em Quadrinhos (2).

Nesse mundo peculiar as multinacionais mais conhecidas são Marvel e DC Comics. A Marvel foi Fundada no começo da década de 1930 por Martin Goodman, a Marvel Comics foi originalmente chamada de Timely Comics. Seu fundador era editor de revistas que faziam sucesso com histórias de faroeste. Visionário, Martin Goodman expandiu seu trabalho no sentido de um mercado muito promissor. Com a sede estabelecida em Nova York, Goodman detinha o poder na editora, acumulando diversos cargos. A primeira publicação só aconteceria em 1939 através de uma revista chamada Marvel Comics que mostrou pela primeira vez ao público os personagens Tocha Humana e Namor. A publicação foi um sucesso de vendas e estimulou a equipe responsável a lançar a segunda edição no ano seguinte, mas com o nome de Marvel Mystery Comics (3).

Já a DC Comics Inicialmente ela era chamada de National Comics, mas posteriormente assumiu a sigla que se referia a uma de suas mais famosas publicações, a Detective Comics, que entre outras criações trazia em suas páginas as aventuras do Batman. Em 1937 a empresa adotou o nome desta revista, batizando-se assim como Detective Comics, Inc. Em 1944 ela se uniu à National Allied Publications, responsável pela edição da Action Comics, na qual o Superman apareceu pela primeira vez. Com esta fusão o conglomerado empresarial passou a ser conhecido como National Comics, embora fosse informalmente denominado DC Comics, até este título ser oficialmente assumido (4).

As HQ's assim se consolidam mundialmente alicerçadas nestas duas empresas como expoentes, à parte as chamadas “independentes”, que muitas vezes possuem uma temática mais dramática, ou poética. Existem muitos outros personagens conhecidos mundo afora – Tintim, Asterix, Turma da Mônica, sem falar nos mangás japoneses, etc – que não estão neste contexto de geração de super-heróis majoritariamente ambientados nos Estados Unidos. Mas é inegável a influência que estas duas empresas tiveram e têm na popularização no imaginário de gerações de consumidores voltados para a exposição em pequenos quadros ilustrados dos grandes dramas humanos – ou mutantes, ou inumanos, ou alienígenas, whatever...

Mas restava uma lacuna a ser suprida. E essa lacuna veio a ser preenchida com a série denominada Marvels, com roteiro de Kurt Busiek e desenhos de Alex Ross.
Edição comemorativa
Publicada originalmente em 1994, a minissérie em quatro edições conquistou público e crítica ao retratar os grandes eventos da trajetória do Universo Marvel do ponto de vista de um simples mortal, o fotógrafo Phil Sheldon, com texto impactante e pinturas hiper-realistas (5). A edição a qual tive acesso foi a comemorativa, lançada em 2010. Num olhar rápido, a obra pode ser melhor aproveitada por aqueles que acompanham a trajetória das “maravilhas” – como o personagem Sheldon chama os super-heróis e que dá origem ao termo “Marvels” – já há algum tempo, pois existe uma costura entre os momentos emblemáticos do universo Marvel – iniciando-se com o surgimento do Namor e do Tocha Humana, acima já citados; passando pelo explosão do Capitão América durante a Segunda Guerra Mundial; alcançado a emergência dos mutantes do X-men, não sem antes a ambientação com o Quarteto Fantástico em meio aos humanos, enfrentando Galactus. Finaliza, então, com o desencantamento – ou humanização – dos super-heróis via Homem-Aranha, a partir do episódio do fracasso em salvar Gwen Stacy, trazendo à baila que até mesmo eles falham.
Os quatro livros que compõem a série original e
que foram vendidos separadamente
 O impacto gerado por essa nova perspectiva traz o leitor para a imersão num pseudo-realismo. Um simulacro para a sensação a qual Busiek buscou expor a todos os aficionados é algo similar ao que foi feito, por exemplo, na obra cinematográfica A Onda. Em uma escola da Alemanha, alunos têm de escolher entre duas disciplinas eletivas, uma sobre anarquia e a outra sobre autocracia. O professor Rainer Wenger (o ator Jürgen Vogel) é colocado para dar aulas sobre autocracia, mesmo sendo contra sua vontade. Após alguns minutos da primeira aula, ele decide, para exemplificar melhor aos alunos, formar um governo fascista dentro da sala de aula. Eles dão o nome de "A Onda" ao movimento, e escolhem um uniforme e até mesmo uma saudação. Só que o professor acaba perdendo o controle da situação, e os alunos começam a propagar "A Onda" pela cidade, tornando o projeto da escola um movimento real. Quando as coisas começam a ficar sérias e fanáticas demais, Wenger tenta acabar com "A Onda", mas aí já é tarde demais (6).

A visão romantizada de que todos iriam reagir com benevolência e gratidão pelos super-heróis, por estes serem pessoas ou seres que vieram nos salvar dos perigos que nos rondam, desde a criminalidade mais pueril até os grandes vilões que desejam destruir o planeta Terra, é colocada em cheque por Busiek. Como em A Onda, aqueles que não acreditavam que pudesse haver um sentimento de reatividade ao desconhecido, mesmo que este fosse benéfico à própria humanidade, ou indo mais fundo, uma espécie de inveja ou temor de sermos dominados, escravizados, por aqueles que não poderíamos compreender, remete à tendência da humanidade na busca do controle absoluto, da mitigação das incertezas. O outro deve ser estigmatizado e colocado à margem da sociedade.
O personagem Phil Sheldon em meio ao seu drama pessoal
por compreender esse novo mundo com seres inusitados e os impactos
sobre o dia a dia. 
Esta mesma dinâmica talvez seja a causa maior do alastramento do sentimento depressivo dos dias atuais, afinal de contas, ninguém pode ter o controle sobre tudo o tempo inteiro. Há que se preservar o espaço ao acaso, ao diferente, que dá colorido à vida. Inclusive este é o gancho para as duas obras cinematográficas da DC e da Marvel que dentro em breve estarão nas telonas concomitantemente – Batman vs Superman & Capitão América: Guerra Civil. Nestes são colocados em lados opostos super-heróis que defendem maior controle sobre a ação de seus pares, para que estes não venham a prejudicar demasiadamente os seres humanos “comuns”, daqueles que defendem que toda a prática de controle acaba por acarretar numa espécie de fascismo velado.

Os Vingadores, da Marvel, por Alex Ross
Em resumo, a obra vale a pena ser vista e lida por dois motivos básicos. O primeiro é o traço realístico de Alex Ross, verdadeiras pinturas se comparados com os quadrinhos “de produção”. Inclusive na edição comemorativa somos brindados com desenhos de página inteira ao final com personagens “B” que poderiam ser emoldurados e gerar quadros para serem pendurados nas paredes de galerias.
A Liga da Justiça, da DC, por Alex Ross
E o segundo, tendo a mente aberta para este outro olhar construído por Busiek, de maneira a que observemos que somos iguais na exata medida daquilo em que somos diferentes.
Kurt Busiek (à esquerda) e Alex Ross
Os deuses também falham, assim como os seres humanos. Talvez, apenas, os erros sejam superdimensionados, afinal, como diz o Homem-Aranha, grandes poderes, grandes responsabilidades.

(5)   http://www.universohq.com/reviews/marvels/ - inclusive neste artigo as HQs são denominadas de “nona arte”. A este respeito interessante ver http://quadro-a-quadro.blog.br/por-que-quadrinho-e-a-nona-arte/. Neste existe a seguinte descrição:

Mas o homem, em sua infinita insatisfação e busca por expressão, inventou o cinema. E o cinema maravilhou apreciadores e encantou criadores. E Ricciotto Canudo o considerou a mais completa das artes, pois englobava todas as outras artes. E em 1923 publicou o "Manifesto das Sete artes" organizando-as da seguinte forma:

1ª Arte – Música (som);
2ª Arte – Dança/Coreografia (movimento);
3ª Arte – Pintura (cor);
4ª Arte – Escultura (volume);
5ª Arte – Teatro (representação);
6ª Arte – Literatura (palavra);
7ª Arte – Cinema (integra os elementos das artes anteriores).

A partir daí as artes passaram a ter classificação e a serem vistas tanto por apreciadores quanto por criadores com olhos cartesianos. E quando Canudo chegou à clareira no final da estrada, outros homens continuaram seu trabalho de sistematização das artes:

8ª Arte – Fotografia (imagem);
9ª Arte – Quadrinhos (cor, palavra, imagem);
10ª Arte – Jogos de Computador e de Vídeo (no mínimo integra as 1ª, 3ª, 4ª, 6ª, 9ª arte);
11ª Arte – Arte digital (integra artes gráficas computorizadas 2D, 3D e programação).



sexta-feira, 18 de março de 2016

1808, 1822 e 1889

O jornalista Laurentino Gomes se propôs um desafio: escrever sobre os grandes momentos da História do Brasil no século XIX de maneira mais acessível ao leitor comum, não acadêmico. Ele citou alguns exemplos desta dificuldade na introdução do primeiro deles, 1808, livro ganhador do prêmio Jabuti de melhor livro-reportagem e Livro do Ano de Não-Ficção, além de melhor Ensaio, Crítica ou História Literária pela Academia Brasileira de Letras:
Laurentino Gomes e suas obras

A obra mais importante sobre o período é o livro D. João VI no Brasil, do diplomata e historiador Manuel de Oliveira Lima. [...] O estilo árido do texto de Oliveira Lima, porém, torna-o cansativo até para leitores mais familiarizados com o idioma peculiar das teses de pós-graduação (GOMES, 2007:18)

Acredito que este desafio ele tenha vencido. Tive a oportunidade de ler não somente 1808, mas na sequência as demais obras que compõem esse tríduo produzido a partir do esforço do jornalista em retratar os momentos que caracterizaram a geração da atual república brasileira, e porque não dizer, suas mazelas e suas principais qualidades, entranhadas tal qual raízes naquela amálgama de interesses e relações do poder para com o poder e do poder para o com povo.

Suas obras não necessariamente seguem uma ordem cronológica. No estilo reportagem ao qual se atêm, elas buscam na identificação dos principais atores e fatos, e sua respectiva caracterização, uma maneira de atender aos diferentes públicos. Pesquisadores e estudantes que tenham interesse num aspecto específico ali retratado poderão ir a um determinado capítulo que o trata. Aqueles que têm interesse em ter acesso ao quadro geral lerão tranquilamente cada um dos livros com deleite, observando que os maiores nomes da História passada do país eram também simples seres humanos, com suas fraquezas e fortalezas de caráter. Chama a atenção, principalmente, como o sentimento mundano da luxúria se fazia presente e muitas vezes ditava o encaminhamento do dia. Óbvio que neste caso o principal personagem foi D. Pedro I, central em 1822, o segundo livro.

Dom João VI
Se fôssemos, portanto, levados a estigmatizar os três livros produzidos, diríamos que cada um deles tem o seu personagem central. 1808 tem em D. João VI aquele monarca que, ao mesmo tempo titubeante na maior parte dos assuntos que tinha que tratar, mostrou-se de uma determinação sem igual ao tomar a decisão de levar toda a corte de Portugal para o Brasil, escapando de Napoleão. O francês assim colocou: “Foi o único que me enganou”, em suas memórias escritas pouco antes de morrer no exílio da Ilha de Santa Helena (GOMES, 2007:25).

1822, como dito acima, tem sua base no desenvolvimento de D. Pedro I enquanto condutor da independência brasileira. Porém, mesmo tendo este status, até mesmo naquele que seria o seu maior momento – o grito do Ipiranga – havia um quê de desassossego sexual o impulsionando, com os hormônios agindo indômitos. Isto porque tal grito teria se dado em meio a uma viagem empreendida que tinha, entre outros objetivos, “apaziguar os ânimos na província [São Paulo], dividida entre dois grupos políticos (...)” (GOMES, 2010:101).

Dom Pedro I
Era a primeira vez que a população simples do vale do Paraíba e cidades vizinhas via um membro da família real portuguesa. Todos se surpreendiam com a simplicidade e os modos quase grosseiros do príncipe regente. (...) D. Pedro se comportava como um adolescente em férias. (...) Dias mais tarde, já em Santos, encantou-se com uma jovem mulata ao atravessar a rua. Cercou-a fazendo galanteios e tentou segurá-la pelos braços. Irritada e sem reconhecer o príncipe, a moça desferiu-lhe uma bofetada e saiu correndo. (GOMES, 2010:102, 103)

Ou seja, a imagem de um homem sério e cioso de suas responsabilidades, acaba por ser desanuviada, dado que esta era passada para que o simbolismo de uma época fosse preservado. De todo modo, fica claro em 1822 que a instalação do império no Brasil foi a melhor solução para manter a sua unidade territorial. E digamos assim: D. Pedro também contribuiu para povoar a nova nação, traçando – com trocadilho – uma diretriz de miscigenação que veio a nos caracterizar.

Sua vida privada foi intensa e tumultuada. Embora não bebesse, gostava de farras, noitadas, amigos de má reputação e, em especial, das mulheres. (...) Nos dois casamentos oficiais, D. Pedro teve oito filhos, sete com Leopoldina e um com Amélia. Fora do casamento, o número é lendário. Octávio Tarquino de Sousa assegura que, entre naturais e bastardos, teve uma dúzia e meia de filhos. Alguns cronistas chegaram a lhe atribuir mais de 120 rebentos ilegítimos, cifra nunca comprovada, mas não de todo impossível. Em menos de um ano, entre novembro de 1823 e agosto de 1824, teve três filhos, todos com mulheres diferentes (...)”. (GOMES, 2010:121, 122)

Dom Pedro II
Passada a Independência, Laurentino Gomes se ateria então ao desenvolvimento do Segundo Reinado em direção à proclamação da República. Neste terceiro livro – 1889 – teríamos, portanto não somente um personagem central, mas pelo menos dois: D. Pedro II e Marechal Deodoro da Fonseca.
Deodoro da Fonseca

Teríamos ainda, para fazer justiça histórica, Benjamin Constant, que até então para mim era somente o nome do Instituto para Cegos, como um dos principais artífices para o surgimento da República no país.
Benjamin Constant
Civis articulados, gerenciando uma revolta que viria a partir dos quartéis, foi o retrato do ocorrido naquela ocasião – e talvez em alguma outra mais à frente na História. No próprio subtítulo do livro esses três personagens são exaltados – “Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil”.

Floriano Peixoto
Eu teria dado espaço, ainda, no subtítulo a Floriano Peixoto, por ter sido um personagem relevante no início de nossa trajetória republicana, quer seja no papel dúbio durante o processo de proclamação, quer seja pelas atitudes ditatoriais durante o seu mandato enquanto presidente, personagem que ficou conhecido como o “Marechal de Ferro”, tão complexo que foi considerado de difícil caracterização por seus biógrafos, mas que com certeza teve grande importância na consolidação da geografia e da política brasileira no início do século XX.


Dessa maneira, os livros se completam para se ter um cenário completo do século XIX e o impacto que este veio a ter sobre o perfil de nosso país. Na linha do que foi dito no parágrafo anterior, em 1808 teríamos a destacar ainda Carlota Joaquina – a meu ver, talvez em exagero. No subtítulo é citada ainda “a corte corrupta”, o que, infelizmente para nós, acabou por ser um traço recorrente entre a classe política de nosso país. Já em 1822 temos a destacar ainda o papel de José Bonifácio, D. Leopoldina e Thomas Alexander Cochrane, o famoso Almirante Cochrane – esses dois últimos, devo mais uma vez dizer, que creio em exagero.

Em termos de forma dois comentários. Primeiro Laurentino se preocupa no início de 1822 fazer um breve apanhado do que já havia exposto em 1808. Assim dizendo, quem não tivesse a intenção de ler o primeiro, poderia partir diretamente para o segundo. Já em 1889 não existe tal preocupação. Denota-se que em termos de formação do caráter nacional, realmente os dois últimos livros parecem ser os mais relevantes, mas isso é muito subjetivo. Minha sugestão seria dar igual importância a todos os três. Por último, a se notar que no segundo livro as notas de referência encontram-se ao final de cada capítulo, no que por um gosto particular meu, entendo ser de mais fácil acesso ao leitor. Porém no terceiro livro ele torna a colocá-las no final da obra.

Após a leitura dos três livros fica a curiosidade de como o autor vê os desdobramentos mais recentes de nossa política. A título de sugestão para o mesmo – se é que ele já não o está fazendo - atacar com o seu olhar o período pós-ditadura. Seria um exercício interessante para melhor entendermos os dilemas dos dias atuais. Afinal, como o próprio colocou:

Em 1984, (...) ruas e praças de todo o Brasil foram palco de coloridas, emocionadas e pacíficas manifestações políticas, nas quais milhões de pessoas exigiam o direito de eleger seus representantes. A Campanha das Diretas, que pôs fim a duas décadas de regime militar, abriu caminho para que a República pudesse, finalmente, incorporar o povo na construção do seu futuro. É esse desafio que os brasileiros se encarregam atualmente. (GOMES, 2013:380) – grifo nosso.

Referências:

Laurentino Gomes – 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007 – 365 páginas;

______________ - 1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010 – 352 páginas;


______________ - 1889: como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da monarquia e a proclamação da República no Brasil – São Paulo: Globo, 2013 – 416 páginas.