quarta-feira, 15 de junho de 2016

ONZE ANÉIS - A alma do sucesso

Quando comecei a ler o livro “Onze Anéis – a Alma do Sucesso”, do conhecido treinador de basquete Phil Jackson, multicampeão da National Basketball Association (NBA), a liga profissional de basquete dos Estados Unidos, imaginava que seria mais uma daquelas obras de auto-ajuda, voltada a aprimorar a gestão de equipes com base na experiência esportiva do autor – que contou com a colaboração de Hugh Delehanty para a escrita. OK, o livro é isso, mas é muito mais para um amante dos esportes. Do basquete então, o que direi!?

Ou seja, este trabalho, publicado pela Editora Rocco em 2014, apresenta em suas 335 páginas não somente pensamentos abstratos, mas detalhes dos bastidores de 11 grandes campanhas de dois dos times mais emblemáticos deste esporte – Chicago Bulls, com Michael Jordan em seu auge, e Los Angeles Lakers, assistindo o ápice do seu mais recente ídolo, agora aposentado, Kobe Bryant. Claro, fala também das derrotas, dificuldades e falhas das trajetórias não tão vitoriosas assim, mas surpreende ao leitor como eu, que desavisado pensou que receberia somente uma série de lemas e retórica, com um apanhado histórico, técnico e tático que nos faz deliciar e melhor entender o que se passa durante um jogo de basquete. Obviamente este também tem o lado negativo, já que nem todos os leitores serão conhecedores a fundo das táticas de jogo e das regras nas quais estão subordinadas. Para muitos quando a narrativa se prende no triângulo ofensivo, ou na marcação dobrada, o sono pode advir, pois eles estão mais interessados na interação humana do que nestes aspectos.
Phil Jackson (à esquerda) e Hugh Delehanty.
De toda forma, fiquei maravilhado com a surpresa que me foi proporcionada. E um segundo fator inesperado me fez gostar mais ainda do livro – e de seu personagem central, o próprio Phil Jackson. Foi o de saber que ele é um adepto da meditação como prática central para o equilíbrio (1). Isto é, aquele treinador, que teve que lidar com grandes atletas, cheios de adrenalina pela competição em que se encontravam inseridos – e pelo próprio espírito de combatividade tão comum aos desportistas de alta performance – tinha como uma das suas táticas – e prática de vida – a filosofia zen de ser e de se enxergar. E como cereja do bolo, ele também era um entusiasta da influência das obras literárias sobre cada um dos seus comandados. Rick Fox, então jogador do Lakers, descreve este ponto citando o segundo ato, de um total de três, no qual Phil Jackson influenciava o grupo:

Rick Fox (à direita), com Shaquille O'neal ao centro e
Kobe Bryant à esquerda.
O segundo ato se desenrola ao longo dos vinte ou trinta jogos no meio da temporada, antes e depois do Jogo das Estrelas (2). “Era quando Phil nutria o time que já começava se entediar (...). Só então ele passava mais tempo com cada um de nós. Era quando nos indicava livros. Eu sempre achei que era nesse período que ele exigia mais de mim”.
(pág. 218) (3)

Tais características combinadas trazem ao bojo do livro uma expectativa pelo que virá em cada capítulo, em cada página, em cada parágrafo. Os jogadores, deuses do moderno entretenimento, são apresentados em sua face mais humana, com ódios, invejas, alegrias e brincadeiras. Os técnicos e dirigentes, com seus dramas e incertezas, decisões e indecisões, visão e cegueira pelo que vinha a frente, também têm sua grande quota de representação. Todos seres humanos, tão complexos quanto cada um de nós. E tudo isso entremeado por várias citações filosóficas de alguns mentores zen e de figuras históricas (ver citações selecionadas mais abaixo).

Dessa forma a trajetória apresentada se aproxima de nosso dia a dia, tanto do lado profissional quanto do lado pessoal. Como estrutura, logo no início do livro – página 17 – somos apresentados aos parâmetros que pautaram o diagnóstico que Phil Jackson fazia das suas equipes, de modo a direcioná-las para o perfil ideal almejado. Estes se baseiam na obra inovadora Tribal Leadership, dos consultores de gestão Dave Logan, John King e Halee Fischer-Wright, na qual apontam as 5 etapas de desenvolvimento tribal, formuladas após a realização de uma extensa pesquisa sobre organizações de pequeno e médio portes:

Etapa 1 – a vida é uma merda
Etapa 2 – minha vida é uma merda
Etapa 3 – eu sou o máximo (e você não é)
Etapa 4 – nós somos o máximo (e vocês não são)
Etapa 5 – a vida é o máximo.

Obviamente o ideal é que os grupos os quais estejamos inseridos possam ir crescendo etapa a etapa, até curtir a trajetória ao máximo na sua rotina, quando alcançam a Etapa 5. E era assim que Phil Jackson observava os grupos que tinha na mão. Buscava identificar em que ponto desta escala eles se encontravam, para então tratar de visualizar os acertos necessários para que eles pudessem dar um pulo para a etapa seguinte.

Se o livro tivesse somente isso, já seria um grande balizador para nossas atitudes perante a vida. Em que etapa nos encontramos? O que devemos fazer para evoluir? Tudo isso cada uma daquelas definições nos aguça a questionar. E você, em que tribo está? Leia o livro, se maravilhem com a história e com o homem. Talvez daí vocês se identifiquem.

LIÇÕES DE PHIL

Quando preparo a resenha de um livro tenho por hábito marcar as páginas com os trechos que mais me chamaram a atenção, para depois utilizá-las como referência durante a escrita. Mas esta obra se mostrou tão rica em citações que resolvi colocá-las em separado, para que vocês pudessem usufruí-las nas lições em que se encerram:

O que me motiva é apreciar a união dos jovens e tocar a magia que aflora quando se devotam – de todo o coração e de toda a alma – a algo maior que eles próprios. Depois que se experimenta isso, nunca mais se esquece (pág. 12).

É preciso uma série de fatores críticos para se conquistar um campeonato da NBA, incluindo uma combinação certa de talento, criatividade, inteligência, tenacidade e, claro, sorte. Mas, se uma equipe não tem o ingrediente essencial – amor -, nenhum dos outros fatores importa (pág. 14).

(...) sei que a arte de transformar um grupo de jovens ambiciosos em time integrado e campeão não é um processo mecanicista. É um misterioso ato de malabarismo que requer não apenas o profundo conhecimento das leis consagradas pelo tempo de jogo, mas também coração aberto, mente clara e aquela curiosidade atenta aos caminhos do espírito humano (pág. 19).

Às vezes não importa se você é um cara muito legal. Em certos momentos você tem que ser sórdido, antipático e desagradável. Você nunca será um técnico se tem necessidade de ser amado (pág. 30).

(...) no início de cada temporada sempre incentivava os atletas a se concentrarem na jornada e não na meta. O que mais importa é jogar do jeito certo e ter coragem de evoluir, tanto como seres humanos quanto como jogadores de basquetebol. Se você agir assim, o anel [prêmio individual dado aos ganhadores do título da NBA] cuida de si mesmo (pág. 32).

Citando Shunryu Suzuki, mestre zen japonês: a melhor maneira de controlar as pessoas é dar a elas muito espaço e observá-las. “Não é bom ignorá-las; isso é a pior política (...). A segunda pior política é tentar controla-las. É melhor observá-las, apenas observá-las, sem tentar controlá-las”. Um conselho que mais tarde veio a calhar quando tive que lidar com Dennis Rodman (2) (pág. 59).

Citando Thich Nhat Hanh, mestre zen vietnamita: “A vida só pode ser encontrada no momento presente (…). O passado já se foi, e o futuro ainda está por vir, de modo que se não nos voltarmos para nós mesmos no momento presente nunca estaremos em contato com a vida” (pág. 59).

Citando Pema Chodron, mestre budista: “O que você faz em favor de si mesmo também faz em favor dos outros, e o que você faz em favor dos outros também faz em favor de si mesmo” (pág. 60).

(...) o que aprendi ao longo dos anos é que a abordagem mais eficaz é a de delegar autoridade tanto quanto possível e também cultivar as habilidades de liderança de todos os outros. Quando você consegue realizar isso, além de ajudar a construir a unidade da equipe e dar ensejo a que os outros se desenvolvam, paradoxalmente também reforça o seu papel como líder (pág. 89).

O sentimento profundo de ligação que brota da união dos jogadores traz uma tremenda força que varre o medo de perder (pág. 104).

Citando John Heider, autor do livro The Tao of Leadership: “Regras reduzem a liberdade e a responsabilidade (…). A aplicação de regras coage e manipula, reduzindo a espontaneidade e absorvendo a energia do grupo. Quanto mais coercitivo se é, mais o grupo resiste” (págs. 120-121).

Citando Wayne Teasdale, autor do livro A Monk in the World: “O trabalho é sagrado quando se interliga à realização espiritual e representa a paixão e o desejo de contribuir para a cultura e, especialmente, para o aprimoramento dos outros. E entenda-se por paixão os talentos divididos com os outros e que moldam o destino de todos quando estão a serviço da comunidade” (pág. 124).

Colocação de George Mumford, auxiliar que trabalhava a parte mental dos jogadores do Chicago Bulls, quando estava lidando exatamente em como moldar o perfil de líder de Michael Jordan: “Tudo é uma questão de estar presente e assumir a responsabilidade pela forma com que se relaciona consigo mesmo e com os outros (...). E isso implica se adaptar de maneira a ir ao encontro das pessoas onde estejam. Em vez de enraivecer e forçá-las a estar em outro lugar, encontre-as onde estão e só depois as conduza para onde quer que se dirijam” (pág. 151).

Citando Lewis Richmond, mestre zen, que por sua vez apontou a definição de Shunryu Suzuki sobre o budismo: “Tudo muda” (pág. 178).

Ditado zen: “Antes da iluminação, corte lenha e carregue água. Após a iluminação, corte lenha e carregue água”. O objetivo: concentre-se na tarefa à mão em vez de reviver o passado ou se preocupar com o futuro (pág. 183) (3). Ou ainda: Tal como tudo na vida, a despeito das diferentes circunstâncias, as recomendações são sempre as mesmas: cortar lenha, carregar água (pág. 290).

Segundo a mestra budista Pema Chodron, o desapego é uma ponte para o verdadeiro despertar. (...) “Apenas à medida que nos expomos cada vez mais à aniquilação é que encontramos o indestrutível que há em nós” (pág. 206).

Citando uma vez mais Pema Chodron: “As coisas que se despedaçam também são uma espécie de teste e de cura (...). Pensamos que o objetivo é passar no teste ou superar o problema, mas a verdade é que as coisas realmente não se resolvem. Erguem-se novamente e desmoronam-se novamente. É simplesmente assim. A cura se dá quando se deixa espaço para que tudo aconteça: espaço para a dor, para o alívio, para a miséria e para a alegria” (pág. 207).

Citando Martin Luther King Jr.: “Na realidade, toda a vida está inter-relacionada. Todas as pessoas estão ligadas a uma inescapável rede de reciprocidade, enlaçadas em uma única peça do destino. O que afeta diretamente a um também afeta a todos indiretamente. Jamais poderei ser o que posso ser até que você também seja o que pode ser, e você só poderá ser o que pode ser quando eu também o for o que posso ser. Essa é a estrutura da realidade inter-relacionada” (pág. 216).

De uma perspectiva positiva, Buda (...) prescreveu uma forma prática para eliminar o desejo e a infelicidade através do chamado Nobre Caminho Óctuplo, cujas etapas consistem em visão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, estilo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta e concentração correta (grifos nossos) (pág. 224).

(...) a chave para a paz interior é a confiança na interconexão essencial de todas as coisas. Uma respiração, uma mente. Isso é o que nos fortalece e nos revitaliza em meio ao caos (pág. 225).

De acordo com Gandhi: “O sofrimento suportado com ânimo transmuta-o em inefável alegria” (pág. 250).

A chave para a manutenção do sucesso é continuar evoluindo como equipe. Ganhar tem a ver com a busca do desconhecido e a criação do novo. Em uma cena do primeiro filme de Indiana Jones alguém pergunta o que Indy fará a seguir: “Não faço ideia, invento isso enquanto avanço”, ele responde. É assim que concebo a liderança: uma improvisação controlada, um exercício dedilhado a Thelonious Monk (4) de um momento para outro (pág. 253).

Citando Sylvia Boorstein, mestra de meditação budista: “A repressão da raiva gera uma rachadura nas relações impermeável a sorrisos. É um segredo. É uma mentira. A resposta compassiva mantém as relações vivas. Isso implica dizer a verdade. E dizer a verdade pode ser difícil, sobretudo quando a mente está conturbada pela raiva” (pág. 270).

Sobre o novo perfil de liderança de Kobe Bryant em dado momento da carreira: E para isso tinha aprendido a dar para receber de volta. Liderança não é forçar a própria vontade sobre os outros. É simplesmente dominar a arte de deixar rolar (pág. 307).

O trabalho de um líder é fazer de tudo ao seu alcance para propiciar condições perfeitas em função do sucesso, abstraindo-se do próprio ego e inspirando a equipe a jogar da maneira certa. Porém: a alma do sucesso é a rendição ao que é (pág. 330).

(1)     Sobre meditação – as instruções de Shunryu Suzuki a respeito de como meditar são muito simples:

1 – Sente-se com a coluna ereta, os ombros relaxados e o queixo esticado, “como se apoiando o céu com a cabeça”;
2 – Acompanhe a respiração com a mente enquanto é movida para dentro e para fora como uma porta de vaivém;
3 – Não tente deter o pensamento. Se algum pensamento irromper, deixe-o fluir e depois volte a prestar atenção na respiração. A ideia não é tentar controlar a mente, e sim deixar que os pensamentos apareçam e desapareçam naturalmente e repetidas vezes. Com a prática os pensamentos passam a flutuar como nuvens que se dissipam e perdem o poder de dominar a consciência (pág. 58).

(2)     Sobre Dennis Rodman – controverso jogador americano, à época pertencente ao grupo do Chicago Bulls. Jogava na posição de pivô, mesmo não sendo tão alto quanto os demais, mas tinha uma energia incomum para lutar embaixo da cesta pelas bolas. Foi diversas vezes recordista de rebotes – além de ser um astro na auto-promoção, bem ao gosto dos paparazzis de plantão e do mercado midiático.
Phil Jackson e Dennis Rodman (à direita)
Sobre o Jogo das Estrelas – partida realizada que marca a metade da temporada regular (ou de classificação para os play-offs – disputas eliminatórias entre duas equipes) – na qual se enfrentam os melhores jogadores, segundo uma votação popular, divididos entre equipes representativas do Oeste e do Leste dos Estados Unidos.
(3)     Sobre “cortar lenha e carregar água” – particularmente tenho uma interpretação distinta do ditado. Para mim ele passa muito mais uma lição de humildade do que de concentração no presente. Mesmo os iluminados cortam lenha e carregam água. E somente porque se dedicam de tal forma às tarefas mais simples são capazes de alcançar a iluminação. No final, tudo retorna ao mesmo ponto, e continuamos, em essência, os mesmos. Sobre os “atos” de Phil – na visão de Rick Fox, jogador que foi treinado por Phil Jackson nos Lakers, o técnico abordava o time em 3 momentos distintos, divididos por 3 grupos de 20-30 jogos disputados na temporada. No primeiro terço da temporada (1º ato) Jackson deixava os jogadores se expressarem, de modo a ver o que tinham para oferecer. No 2º ato tentava influenciá-los sobre o caminho correto que eles deveriam seguir por si próprios. E no 3º ato, se colocava no centro da ação, ao mesmo tempo tirando a pressão dos jogadores, como os liderando efetivamente para o que considerava ser o correto.
Thelonious Monk
(4)     Sobre Thelonious Monk - Thelonious Sphere Monk (1917-1982) é reconhecido como uma das mais influentes figuras da história do jazz. Foi um dos arquitetos do bebop e seu impacto como compositor e pianista teve uma profunda influência sobre todos os gêneros da música.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

GUGA, UM BRASILEIRO

Tem um grupo de esportistas e personalidades que eu denomino “Os Caras”. Apesar de ser um substantivo masculino, pode incluir tanto homens quanto mulheres. São pessoas as quais admiro não somente pelos resultados alcançados em termos profissionais nas carreiras que abraçam, mas também pela atitude perante a vida e pelo lado humano que fazem questão de expor.

Um dos “caras” mais conhecido é fácil de se enquadrar na categoria a qual me referi acima para criar o tal “grupo” ou “referência”: Guga Kuerten, o nosso tricampeão de Roland Garros, um dos quatro principais torneios de tênis no mundo. O torneio francês, juntamente com Winbledon, o Aberto de Tênis dos Estados Unidos (US Open) e o Aberto de Tênis da Austrália (o Australian Open) formam o que é conhecido como Grand Slam.

A importância de Guga para o tênis nacional pode ser medida da seguinte forma: desde os anos 60 não temos alguém, neste esporte, que se apresentasse de maneira tão dominante perante os demais competidores de nível mundial, em sua maioria europeus e norte-americanos. Maria Esther Bueno, multicampeã de tênis, pouco conhecida pela grande maioria da população nacional atual, por ser uma estrela pré-mídia de massa – aí incluídos internet e a televisão nos seus mais diversos meios – e também uma das “Caras”, brilhou naquela década ganhando mais títulos que o próprio Guga.

Porém, do lado masculino, no tênis tivemos poucos brilhos, para não dizer nenhum, com tanta intensidade quanto o do “manezinho” da ilha, alcunha pela qual os jovens habitantes da ilha de Florianópolis são reconhecidos. Guga com isso quebrou uma barreira que se imaginava inalcançável até então. Restava a ele, após tantas conquistas tanto dentro quanto fora das quadras, relatar como se deu essa trajetória, registrar para a história as dificuldades, medos e agruras enfrentados, que serviram de base para os grandes saltos que o elevaram ao panteão dos grandes do tênis internacional.

Porém, o livro “Guga, um brasileiro” – Ed. Sextante – Rio de Janeiro – 2014 – 384 págs – faz jus não somente ao Guga tenista, mas também ao Gustavo Kuerten pessoa humana, cidadão consciente de que levar uma vida na simplicidade o faz maior ainda aos olhos de todos. Guga sempre foi um personagem de sorriso fácil, de se aproximar das pessoas não se importando com a classe social a que esta pertencia, olhando para o outro como um ser humano deve vislumbrar o seu próximo, um igual.



Na obra fica claro como essa personalidade foi moldada, a partir de um seio familiar sólido, no qual tais princípios o foram estabelecidos desde a sua mais tenra idade. Além disso, a tenacidade, a competitividade, também ali estavam presentes, fazendo com o que o jovem Kuerten trouxessem o inconformismo com a sua performance, e posteriormente já adulto, com o estado de coisas que o circundava, como mais um traço que o favoreceria para cada uma das etapas de sua vida.

Bom filho, bom irmão, bom amigo, bom marido, bom pai, como não se orgulhar de um brasileiro assim? Diria a vocês que é impossível. Da escrita do livro em si, auxiliado que foi pelo alter ego Luís Colombini, a quem prestou o depoimento em primeira pessoa que se vê refletido nas páginas do livro, fica uma curiosidade: como teriam pensado os adversários do Guga no decorrer das partidas? Será que foi exatamente como ele próprio imaginou? Essa pergunta emerge, pois o livro é estruturado entremeando a narração de sua trajetória enquanto tenista com os fatos marcantes de sua vida particular, inclusive com o registro fotográfico, mas naqueles capítulos em que ele narra as principais partidas que enfrentou por diversos momentos ele coloca “Fulano pensou / imaginou / agiu”. Seria interessante se tivesse um trabalho complementar com estes outros atores. Fica, talvez, para uma próxima edição.

Esse pequeno detalhe não desmerece em nada o trabalho feito. Ficam como ensinamentos, num livro de auto-ajuda criado sem esta intenção, somente pelas passagens e pensamentos daquele que estará, para sempre, marcado como um dos maiores brasileiros de todos os tempos. Exagero? Para um esportista como eu, não. Os ensinamentos de um grande personagem sempre nos servirão de exemplo para nossas vidas.

Allez Guga!

Controle

“Para os melhores tenistas, é fundamental encontrar um jeito, um movimento, uma sequência de ações que traga conforto e concentração. Só com isso eles alcançam a sensação, a convicção de que têm o controle do jogo, do corpo e da mente, algo abstrato, imaginário, porém ao mesmo tempo real e fundamental. Sem controle, não se ganha nada. Não existe jogador bom que não crie ritual para si, embora nem sempre ele seja evidente. Há momentos, porém, quando já está mergulhado no jogo, em que não sente necessidade de fazer nada. Mas na maioria das vezes, precisa de um lembrete para se alinhar com seu interior e ativar o seu melhor. (...) Nadal é mais rebuscado. No banco, deixa duas garrafinhas de água alinhadas na diagonal. Dá um gole em uma, fecha a tampa, põe no chão e depois bebe da outra. Antes do saque, seja seu ou do adversário, encontra tempo para, numa sequência invariável: puxar o calção, coçar a bunda, afastar o cabelo da orelha direita, alisar o nariz, arrumar o cabelo na orelha esquerda, passar a mão de novo no nariz e mexer no calção mais uma vez. O povo acha graça, mas, na história do tênis, talvez nunca tenha havido outro tenista com o poder de concentração e o autocontrole de Nadal. Se o proibirem de fazer seu ritual, isso vai afetar o seu jogo. E pode estar certo de que ele vai criar outro” (grifo nosso) – págs. 59-60.

Humanidade

“Durante os dias úteis, também era agitado lá em casa. Ainda que o Gui [irmão mais novo do Guga, falecido há poucos anos em função de uma deficiência de nascença] fosse pequeno e a gente evitasse sair por qualquer coisa, isso não refreava o lado sociável do pai. Logo no café da manhã, já perguntava para a mãe quem eles iam chamar de noite. ‘Mas Aldo, sossega um pouco’, falava a mãe. Não adiantava. Na sequência, ele já estava sugerindo os nomes de pessoas que, no jantar, rachariam a pizza ou, se fosse o inverno, aproveitariam as castanhas cozidas com ponche preparados pela mãe. Os convidados tanto podiam ser sócios do clube como vizinhos que nunca tiveram dinheiro para frequentar um. Para o pai, jamais existiu esse negócio de rico e pobre, preto e branco, culto e semianalfabeto. Uma pessoa era uma pessoa e estamos conversados” (grifo nosso) – pág. 67.

Gentileza e Concentração

“Ao mesmo tempo que explorava os limites físicos, eu tentava domar o lado mental. Na maior parte do juvenil, eu tinha uma característica que não conseguia mudar. Era bonzinho demais na quadra, o que representava uma fragilidade emocional para mim e uma vantagem par ao adversário. Se estivesse ganhando de 5-0, às vezes acontecia de ficar com pena e relaxar. (...) Amolecia o jogo, o adversário virava e eu perdia. Era talvez uma herança da mãe, assistente social por vocação, que dizia que eu tinha que considerar todas as pessoas e ser gentil com todo mundo. Mas aquilo não combinava com a quadra de tênis, onde Larri [principal treinador da carreira de Guga] tentava me ensinar a ser matador. O fato é que, sem dominar a parte mental, não há chance de alguém se tornar campeão. Então, com a mesma determinação de me fazer mudar a esquerda, Larri trabalhava uma parte minha muito mais preciosa, delicada e intangível” (grifos nossos) – págs. 139-140.

Persistência

“Na base de tentativa e erro, derrapamos muito, mas sempre conseguimos voltar logo para o eixo. Em todos os momentos, tínhamos a certeza interior de que, mesmo batendo vinte vezes no muro, incidentes e acidentes faziam parte do percurso e do aprendizado. A gente só tinha que fazer nossa parte, cair, levantar, se sacudir, não ficar pensando no desastre e seguir adiante mirando no mais alto que desse” (grifo nosso) – pág. 143.

O bem que faz um apoio no momento certo

“Em três semanas, fomos do desespero ao alívio total. Os dois patrocínios possibilitavam que a gente jogasse os torneios grandes na Europa. Além da salvação financeira, os novos parceiros fizeram bem à alma. Eu não estava sozinho. Ainda apostavam em mim como tenista, acreditavam no meu jogo. Essa sensação era mais bem-vinda do que dinheiro” (grifo nosso) – págs. 177-178.

Consciência da própria grandeza, sem soberba

“Conversando com a equipe numa Copa Davis, Thomaz Koch falou que as pessoas que alcançam o sucesso precisam aceitar que merecem esse posto. O sucesso não é natural nem uma coisa simples para um brasileiro. Eu precisava me convencer diariamente de que era o melhor jogador de tênis do mundo. Tinha de construir isso todo dia na minha cabeça, aceitar os meus méritos, me permitir incorporar a ideia, me sentir confortável com isso. O disco rígido na minha mente não foi programado para isso. Por mais que minha família me incentivasse, a cultura jogava contra. (...) No Brasil, de maneira geral, convivemos com o hábito de depreciar nossa capacidade e nossos valores” (grifo nosso) – pág. 297.

“Para mim, ser campeão é uma mentalidade, um estado de espírito. O adversário pode até ser superior, mas o campeão entra em quadra sabendo que, mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor grau de dificuldade, vai ficar com a taça. Mesmo derrotado, ele se sente imbatível. Sua aura vitoriosa é inabalável. Esse é o paradoxo do grande campeão” (grifos nossos) – pág. 368.

Ao retirar a pressão sobre si próprio, a tendência é o seu jogo aumentar de nível

“Desesperançado, ganhei o game seguinte e a partida ficou 5-3* para ele no terceiro set. Nada que mudasse o cenário. Russell [americano Michael Russell, 122º do ranking mundial na partida em que atravessou o caminho de Guga rumo ao tricampeonato de Roland Garros, nas oitavas de final] sacou e o game ficou em 40/30, o match point na mão dele. A essa altura, eu não me importava mais com o que ia acontecer. Como no jogo contra o Medvedev no Roland Garros de 1997 [ano do primeiro título naquele torneio], mandei tudo às favas e, para descontar a raiva, joguei o ponto de qualquer jeito. Num rali de mais de vinte bolas, eu batendo cada vez mais forte, acertei duas vezes a linha, e não é que ganhei o ponto? Empatei, 40 iguais” (grifos nossos) – página 305.

*Aqui cabem algumas explicações sobre o jogo de tênis. Esse é disputado em melhor de 3 ou 5 sets, dependendo do torneio. Para quem acompanha o voleibol, no esporte do Bernardinho – outro dos “Caras” - é disputado numa melhor de 5 sets, ou seja, quem ganha 3 sets primeiro vence. Em Roland Garros ocorre o mesmo. As partidas são em melhor de 5 sets. Sobre o jogo de tênis em si, cada set é composto por games – pequenas partidas em que o jogador deve vencer 4 pontos, numa sequência que vai de 15-30-40-ponto final. Caso empatem em 40 (os 40 iguais citados no livro), o vencedor deverá conquistar dois pontos seguidos para fechar o game. Para se ganhar um set é necessário que o jogador ganhe no mínimo 6 games, com uma diferença de dois games para o perdedor. Caso empatem em 6 games, é disputado um tie-break – um game especial com uma nova pontuação, em que cada ponto vale 1 simplesmente, ganhando aquele que atingir 7 pontos primeiro. Quando o jogador está prestes a fechar um game, ele tem o que se chama de game point. Para fechar um set, de set point. E para fechar uma partida (match), um match point. Para uma jogada ser considerada válida, a bola atirada pelo jogador deve cair dentro dos limites da quadra, considerando-se “dentro” se ela tocar o mínimo que seja uma das linhas que a delimitam, o que é uma jogada de extremo risco e dificuldade. Por isso a menção especial no trecho “acertei duas vezes na linha”, ressaltando o feito alcançado.

Obstinação

“Existe pouca coisa pior para um jogador do que duvidar de sua capacidade. Só os obstinados são campeões. Derrotas podem ser compreensíveis, às vezes inevitáveis, mas jamais aceitáveis. O tenista pode perder algumas vezes de um cara excelente, mas depois tem que ganhar, pois sempre existe um caminho para vitória e questão é encontrá-lo. É bobagem essa história de que é na derrota que se aprende a ganhar. Perder uma partida tem, sim, seus ensinamentos e lidar com a frustração é uma lição necessária para todo tenista. Mas, no dia em que um jogador se conforma com resultados desfavoráveis, já era, pode pendurar as chuteiras. O que ensina a ganhar é a soma das experiências, dos treinos, dos desafios, das derrotas e das vitórias, sendo que vencer tende a ensinar mais que perder. A vitória é o combustível do vencedor, seu alimento, o propulsor para triunfar cada vez mais” (grifos nossos) – pág. 329.

Ser brasileiro


“Nasci num país que me indicava o sentido oposto e, através de um caminho longo e repleto de obstáculos, construí uma carreira de sucesso. De longe parecia impossível, de perto a cada dia estávamos mais certos. Não era para passar de um sonho o que hoje brindamos como realidade. Com suor, sorrisos e lágrimas aconteceu comigo o que poderia acontecer com qualquer brasileiro” (grifo nosso) – pág. 372.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Um Lugar Chamado Liberdade

Moleque, quando eu ouvia a música “Lêlê, lêlê, lêlê, lêlê, lêlê, lêlê, lêlê / Lêlê, lêlê, lêlê, lêlê, lêlê, lêlê, lêlê / Vida de nêgo é difícil, é difícil como quê / vida de nêgo é difícil, é difícil como quê” na voz de Dorival Caymmi, sabia que a novela Escrava Isaura (1), de 1976, entraria no ar. Nela, a personagem-título interpretada por Lucélia Santos passava o pão que o diabo amassou até ter o seu maior desejo conquistado: liberdade!

Dizem que as telenovelas têm algumas fórmulas, métricas mesmo, para garantir o sucesso. Nada tão diferente, provavelmente, dos folhetins que eram publicados nos jornais durante o século XIX e boa parte da primeira metade do século XX. Ou ainda do que se cravou como sucesso absoluto na história da literatura brasileira via José de Alencar, com os romances “O Guarani” (1857), “Iracema” (1865) ou “Lucíola” (1862), por exemplo (2).

Pois bem. Se tem um autor que em suas obras mais recentes nos leva a rememorar tais caminhos, pela lógica da construção da narrativa e, obviamente, com um linguajar mais moderno, este seria Ken Follet. Neste mesmo blog tivemos a oportunidade de analisar seu último tour de force, a trilogia “Queda de Gigantes”, que além do primeiro livro homônimo teve ainda como segundo e terceiro volumes, respectivamente, “Inverno do Mundo” e a “Eternidade por Um Fio”. Nestes ele segue a trajetória de cinco famílias em diferentes países, que têm suas vidas cruzadas em função de estarem no centro das ações das grandes potências globais, geradoras de duas Guerras Mundiais e um ambiente de Guerra Fria.

Acredito que, fruto do esforço de pesquisa para a escrita das obras acima citadas, Follet ainda teria ficado com o que poderíamos chamar de “rescaldo”. Enquanto em “Queda de Gigantes”, a origem de uma das famílias que teve sua trajetória seguida eram as minas no País de Gales, em “Um Lugar Chamado Liberdade” – Ed. Arqueiro (a mesma da trilogia com a qual comparamos) – São Paulo – 2014 – 400 páginas – ele remonta aos mineiros de carvão localizados na Escócia no século XVIII.


Vocês poderiam alegar que aí existe um ligeiro desvio temporal, dado que em “Queda de Gigantes” o autor em questão traçou sua rota a partir do final do século XIX. Porém, todos os elementos que constavam numa obra se encontram na outra, sendo feitos os devidos ajustes pela diferença no tempo – o amor não correspondido (3); a luta pela sobrevivência em condições desumanas; senhores de escravos, credores de gente de bem, mas ignorantes de seus direitos, etc. A própria sentença, introdutória ao título, diz muita coisa: “Separados pela Diferença Social, unidos pela Busca por (...)”.

Em “Um Lugar Chamado Liberdade”, Mack MacAsh, logo no início, mineiro subordinado à família Jamisson, descobre que pela legislação britânica teria direito à liberdade desde que não completasse, após a maioridade, 1 ano e 1 dia de trabalho nas minas. Tal ato jurídico era de desconhecimento total das famílias lá instaladas, que ofereciam seus rebentos para os Jamisson automaticamente, desde o batizado. Estamos em tempos de que os EUA ainda eram colônia da Inglaterra, e os debates em torno da liberdade do país americano começavam a ganhar força pelos lados de cá do Atlântico. Ou seja, ideias libertárias vagavam pelo mundo, e estas moveram MacAsh em busca de seu intento.

Ken Follet
O livro em si prende, como todo bom folhetim, mas fica aquela sensação de que já vimos isso antes, de que já sabemos o final dessa estória – aquele pensamento que nos rondava (ronda!?) quando começamos a acompanhar uma novela: sabemos que o mocinho fica com a bela moça no final, mas queremos acompanhar assim mesmo seu duro trajeto até que consiga seu objetivo (4). Mas ninguém, nenhum leitor pode dizer que foi pego desavisado. Follet entrega o que promete. Uma boa estória, ambientada num passado em que as emoções não eram expostas em mídias sociais, mas no relacionamento direto entre diferentes classes sociais em busca de uma resposta própria do que deveria ser o mundo, ou como seria um mundo ainda melhor.

Como curiosidade
uma versão em Inglês
do livro contendo na capa
a co-protagonista feminina.
(3)   “Durante uma visita dos Jamissons à propriedade, Mack acaba encontrando uma aliada incomum: Lizzie Hallim, uma jovem bela e bem-nascida, mas presa em seu inferno pessoal, numa sociedade em que as mulheres devem ser submissas e não têm vontade própria” – contra-capa.

(4)   Contrariamente do que está exposto na contra-capa do livro – “Ken Follet é um mestre absoluto em criar tramas complexas e emocionantes” – eu não diria que são complexas. Mas a emoção está sim, lá, presente.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O Último Trem de Hiroshima

A guerra é a situação extrema do ser humano. Nela, mais do que no nosso dia a dia, está latente a possibilidade de você morrer no segundo seguinte. O que esta noção provoca no ser humano? Que tipo de reação cada um de nós teria se vivesse tal situação? De que maneira podemos evitar chegar a tal ponto?

Charles Pellegrino, com o seu “O Último Trem de Hiroshima: os sobreviventes olham para trás” (Ed. Leya – São Paulo – 2010 – 432 págs) induz ao leitor tais reflexões. O autor, deste modo, responde a essas perguntas propondo-as no contexto de no que de pior a humanidade já fez a si própria – o lançamento das duas bombas atômicas ao final da Segunda Guerra Mundial sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Como se não bastassem os campos de concentração nazistas e todo o horror cometido no cotidiano de um enfrentamento bélico, optou-se pela “solução final” de modo a impor uma derrota ao adversário sem contestações.


Filosoficamente se poderia discutir se ceifar uma centena de milhar de vidas humanas não seria melhor do que dar continuidade a uma guerra de invasão – conforme previsto pelas Forças Armadas norte-americanas junto ao Japão naquele mesmo ano de 1945 – que poderia prolongar o conflito e trazer um número maior de baixas. Mas na verdade a pergunta crucial não é esta. A guerra em si carece de razoabilidade em existir. Mas o ser humano parece não entender este conceito cristalino, dado que em batalha estivemos desde o raiar da humanidade.

Pellegrino, desta forma, deixa com o seu trabalho o testemunho necessário desta irracionalidade que é a guerra, trazendo como argumentos a seu favor (ao nosso favor!!!) o impacto gerado com as imagens e histórias coletadas em quase 30 anos de pesquisa.
Charles Pellegrino
Autor dos livros que serviram a James Cameron como inspiração para Titanic e de pesquisas que impulsionaram o conceito em torno da série Jurassic Park, Pellegrino está em condições de levantar mais uma bandeira utilizando-se de sua influência perante os meios de comunicação de modo a que compreendamos de uma vez por todas que não existe outro caminho para a sobrevivência em paz no planeta Terra que não seja a cooperação entre todos, vizinhos, povos, cidades ou países. Para tanto ele navegou desde o pior que o ser humano pode representar, até chegar ao melhor que o homem pode fazer pelo seu próximo.

Orgulho, preconceito e cegueira – o pior do ser humano

Uma das primeiras imagens de como o homem pode ter sua ética e boa vontade deteriorada em favor do benefício próprio foi a identificação de que localidades próximas às duas cidades atingidas no início de agosto de 1945 impediam a migração dos sobreviventes para suas comunidades. “Na zona rural, durante o espaço de apenas algumas horas, os sobreviventes tinham sido convertidos em fugitivos, como as administrações locais faziam questão de deixar claro em anúncios feitos com megafones. Apelando para argumentações ou ocasionalmente apontando armas, as autoridades mandavam os andarilhos feridos de volta às piras e aos lugares onde a chuva negra caíra. Embora ainda não soubessem que tais venenos existiam, encaminhavam as pessoas à radiotividade” (pág. 60).

Essa é uma reação entre vizinhos, co-irmãos de uma mesma sociedade. Mas a humanidade infelizmente não se vê também como uma só. E quão mais distante se encontra do impacto gerado por suas ações, maior a probabilidade de atitudes selvagens para com o seu semelhante. “Uma solução que se ouvia com mais frequência era a de acabar com o Japão o mais rápido possível usando armas nucleares, e depois a Rússia, com a mesma força. A segunda bomba atômica ainda não tinha incendiado Nagasaki e diversos veteranos da primeira missão atômica já viam seus amigos lançarem o olhar para além do Japão, na direção da Rússia, e usar pela primeira vez a expressão ‘Nuke them’” (pág. 104) para expressar o desejo por um ataque atômico contra um inimigo.

O horror de tais medidas somente podem ser entendidas como a cegueira do ser humano em relação às consequências de seus próprios atos. A falta de compreensão do que ocorre no seu entorno, o orgulho ferido, acabam com a visão de que uma atitude deve ser tomada para evitar o pior. “Mesmo depois de o presidente norte-americano [Truman] revelar o segredo ao mundo, algumas horas mais tarde – O mundo verá que a primeira bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima, uma base militar -, o ministro da Guerra [japonês, Anami] se recusava a aceitar” (pág. 88). Ao contrário, todos correm a favor do estímulo ao estabelecimento do inferno na Terra como se a única solução fosse destruir o outro (ou ter a capacidade de). Ou de que outra forma se entenderia a Guerra Fria e a corrida armamentista? Afinal, “(...) quando os norte-americanos começaram [com o desenvolvimento da bomba atômica], ninguém sabia que o problema poderia realmente ser solucionado. ‘Agora’, Stalin disse a Beria [Chefe da KGB], ‘o mundo sabe que isso pode ser feito. É a parte mais difícil do problema. Muito, muito mais importante de saber como pode ser feito, é saber que pode ser feito’” (pág. 100). Aqui vale aquela velha máxima: o pior cego é aquele que não quer ver. Talvez a única maneira de se fazer com que os olhos sejam abertos seria presenciando o horror gerado.

Horror

Quando o doutor Nishina levou um punhado de caninos e molares enegrecidos para perto do seu medidor Geiger, os inconfundíveis cliques lhe reveleram exatamente o que acontecera.
“Restos humanos geralmente não emitem radiação”, o físico disse a Arisue.
“Então o que é?”, perguntou o general. “Esses cliques aí mostram tudo?”
Ministro da Guerra japonês
Korechika Anami
“É isso mesmo”, disse o doutor Nishina. “Só esses cliques e acabou. Temos que fazer o ministro da Guerra Anami entender: se os norte-americanos tiverem muitas dessas armas, pode acreditar em minha palavra, general – não há defesa contra esse tipo de poder” (pág. 99).

Já vimos acima que a simples constatação de que o horror atômico estava próximo não foi o suficiente para um retrocesso no conflito imediatamente após ao lançamento da primeira bomba. Mesmo com técnicos já tendo identificado o que tinha ocorrido, o alto escalão militar japonês ainda não acreditava (ou não queria acreditar) na gravidade da questão que estavam enfrentando. Porém, aos poucos relatos – e fatos concretos – trouxeram à tona o que alguns não queriam ver. “Depois do pika (o clarão) e do don (a explosão), a grama no lado do vale (...), à sombra da montanha, permaneceu verde e praticamente inalterada. (...) Mas em pouco tempo seu casulo passaria por uma estranha chuva de óleo amarelo, e o córrego não teria águas claras por muito tempo” (pág. 175).

O impacto em si sobre a natureza e a devastação local, com o desaparecimento da maior parte das estruturas da cidade, não era nada comparado com os efeitos da bomba sobre os seres humanos. “Matéria cerebral vaporizada e sangue tentavam escapar pelas órbitas do crânio de uma mulher, como se fossem jatos de fumaça preta, mas o aumento súbito de pressão foi tão grande que o crânio explodiu por dentro” (pág. 185). Ou ainda havia os chamados homens-formiga, que caminhavam desolados, sobreviventes sem a noção do que havia ocorrido, andando ao esmo, em linhas uns atrás dos outros. Ou as pessoas-jacaré, que acorriam aos pequenos córregos e rios, na busca por saciar a sede gerada com perda de material humano gerada pela bomba. “As pessoas-jacaré não gritavam. Suas bocas não podiam articular sons, mas o ruído era pior que gritos. Emitiam um constante murmúrio – como o de cigarras numa noite de verão. Um homem, cambaleando sobre os cotos queimados em que se transformaram suas pernas, carregava um bebê morto de cabeça para baixo” (pág. 199). Se tais cenas não gerassem arrependimento, não saberíamos jamais o que poderia fazê-lo.

Arrependimento

Arrepender-se. Primeiro ato de uma possível redenção. Mesmo que alguns cegos, como dito acima, somente enxergassem a busca pelo poder supremo, ou pela destruição imediata do inimigo, seres humanos haviam lançado aquelas bombas sobre outros seres humanos. E em alguns casos sem a exata noção do que estavam fazendo. “Russell Gakensbach, no assento do navegador do Necessary Evil, investigava o dano e pensava o mesmo que Tibbets [piloto do Enola Gay, avião que lançou a bomba sobre Hiroshima] – há menos deles [japoneses] agora -, mas o copiloto de Tibbets [capitão Robert Lewis] tinha um pensamento muito diferente: ‘Olhando para baixo, a milhares de pés sobre Hiroshima, tudo o que eu podia pensar era: ‘Meu Deus, o que fizemos?’, ele contaria, mais tarde” (págs. 86-87). A bordo do terceiro avião B-29 daquela missão fatídica de 06 de Agosto, o Great Artiste, o piloto Charles Sweeney, ao saber que provavelmente teriam que fazer aquilo de novo, “saiu da base sem dizer mais nada. Ele pegou um jipe emprestado e o guiou para longe da própria ala de bombardeio, a do 509º, em direção ao capitão Downey, do 313º. O capelão que havida dado a benção às três tripulações de Hiroshima (...) era luterano. Sweeney era católico. Ele precisava encontrar um padre” (pág. 94).

O mais impressionante é que, voltando mais um pouco no tempo, talvez nada disso – as bombas, digo - fosse necessário. Pellegrino aponta o fato de Hitler ter escapado com vida de um atentado em Julho de 1944. Aproveita inclusive este fato para explicar a teoria sobre o “casulo” gerado a partir de uma mínima proteção próxima ao epicentro de uma explosão – nesse caso específico uma grossa perna de mesa serviu de anteparo para detonação, e acabaria salvando a vida do dirigente alemão -, tese esta importante para compreender como alguns dos sobreviventes escaparam às bombas atômicas. “Não fosse pelo casulo antichoque de Hitler, von Stulpnagel [o conspirador responsável pelo atentado] teria pedido, de seu posto avançado na França, um armistício imediato às forças aliadas em 20 de Julho de 1944 ou numa data próxima. O plano de Stulpnagel-Rommel pretendia colocar Ludwig Beck e Carl Goerdeler no poder como presidente e chanceler – com a condição de que a Alemanha se rendesse até a última semana de julho de 1944, em vez de 7 de maio de 1945. Se tivesse acontecido assim, os aliados não teriam se distraído do front do Pacífico pela batalha do Bulge em dezembro de 1944; tampouco de Dresden em fevereiro de 1945, ou de Berlim devido ao avanço russo em abril de 1945. Em vez disso, Okinawa não caíra com os fuzileiros navais e as Filipinas não foram liberadas até junho de 1945. Se um pedaço de madeira de carvalho não tivesse interferido em 20 de Julho de 1944, esses dois eventos-chave teriam ocorrido pelo menos seis meses antes – até janeiro de 1945, provavelmente em momento anterior a novembro de 1944” (pág. 374).

As forças armadas norte-americanas já vinham se preparando desde maio de 1945 para uma invasão ao Japão. Eram mais de 500 mil homens de prontidão para tal ato, com uma previsão de baixas caso fosse necessário em torno de 400 mil combatentes. “Todos esses eventos teriam ocorrido de seis a oito meses antes, não fosse pelo casulo antichoque de Hitler. A esquadra americana deveria ter invadido o território japonês em maio de 1945, possivelmente até março. Se isso tivesse acontecido, existiria uma probabilidade de mais de 50% de que a guerra terminasse até agosto. Se a invasão ocorresse em março, então o calendário de MacArthur encerraria a guerra quando a primeira bomba atômica foi testada na base de Trinity, em 16 de Julho de 1945. Hiroshima e Nagasaki nunca teriam acontecido” (pág. 375). E isso realmente importa – a linha tênue entre destino ou fatalidade? Como colocamos no início, qual é a verdadeira lição a ser aprendida?

O melhor do ser humano

As pequenas tragédias que vivemos no dia a dia, atualmente, nesse mundo de grande pressão por resultados imediatos, por ser bem sucedido, se transformam em gigantescas tempestades emocionais. As pessoas se tornam dependentes de questões supérfluas, à beira do colapso e da depressão. Mas estas somente ganham sua verdadeira dimensão quando confrontadas com as grandes e verdadeiras tragédias. Michie Maruta, uma garota do subúrbio de Urakami, principal local atingido pela bomba de Nagasaki, é o exemplo real de tal conceito. Observando os efeitos sobre a população atingida – vômitos dos próprios órgãos internos, pele se desfazendo, pilhas de cadáveres em chamas – ela mal podia acreditar que apenas uma semana antes tinha ficado horrorizada com um corte feito num dedo por uma folha de papel (pág. 252). A superficialidade da vida era assim, posta em cheque. Mas se uma experiência reversa mostrasse outro lado? Um padre católico, de nome Simcho, foi preso em 1942 por tropas do Eixo no Japão. Foi deportado para Auschwitz. Lá, se apresentou como culpado de roubo no lugar de outro detento. Tsutomu Yamaguchi, um dos chamados “duplo sobreviventes” e maior defensor da paz após às bombas atômicas, colocou da seguinte forma: “O padre Simcho tomou uma decisão notável (...). O homem acusado tinha uma família do lado de fora, em algum lugar além dos muros da prisão. Simcho não tinha família. Então ele confessou um roubo que não cometera para que uns filhos não fossem privados de um pai” (pág. 306).

Porém a mesma superficialidade acima apontada é muito mais perversa, por compor aquele grupo de sentimentos que levam à ambição desmedida, ao preconceito, ao orgulho exagerado dos pequenos feitos, que por sua vez levam ao embate entre as pessoas, que no mais alto grau, devidos aos interesses envolvidos, geram as guerras. Tais sentimentos são muito mais facilmente cooptáveis pelos seres humanos, infelizmente. Atitudes como a do padre Simcho, de altruísmo extremo, são extremamente raras. Mas como reverter esse ciclo vicioso? Como transformá-lo num círculo virtuoso? A resposta a partir da experiência das bombas atômicas possui dois nomes: Nyokodo e Omoiyari.

Para entendermos Nyokodo temos que entender o Dr. Paul (Takashi) Nagai e Masahiro Sasaki. Nagai era paciente de câncer terminal em seu próprio hospital na época do bombardeio de Nagasaki. Após receber uma dose quase letal de radiação, seu câncer entrou em remissão temporária, e, apesar de ainda gravemente afetado, viveu tempo suficiente para se tornar um dos observadores mais poéticos e espirituais dos efeitos da bomba na mente e alma humanas. Nagai se tornou um dos principais conselheiros espirituais em Urakami e na Nagasaki pós-apocalipse (pág. 362).
Dr. Nagai e seus filhos em Nyokodo
Logo no primeiro outono depois da bomba, ele desceu o morro, adentrou a zona proibida, se converteu em rato de laboratório e deixou seu cabelo crescer à Einstein. Ele batizou sua cabana de Nyokodo – o eremitério “Como a ti mesmo” (pág. 299). Próximo à morte, após ter passado inúmeras lições de vida para os que o visitavam, Nagai, católico, resumia o seu princípio de vida em “Ame ao próximo como a si mesmo” (pág. 331).

Já Masahiro Sasaki tinha 5 anos no dia da queda da bomba. Ao crescer, propagou a mensagem da sua irmã – Sadako Sasaki, que aos 12 anos ainda vivia sob os efeitos colaterais da chuva negra, quando fez um pássaro de papel e escreveu nas asas: “Um dia você vai levar a paz voando ao redor do mundo” (pág. 363). Masahiro, estando nos Estados Unidos após o 11 de Setembro de 2001, colocou aos seus ouvintes um princípio similar que já estava ficando conhecido pela expressão “a corrente do bem” (1). O lema essencial passava por “assim como a ti mesmo” (ou Nyokodo) (...)
Masahiro Sasaki
Alguns sobreviventes do 11 de Setembro e suas famílias saíram do encontro com Masahiro com sua maneira de pensar transformada. Não muitos; porque as feridas ainda eram recentes para que a maioria fosse tocada por palavras. Apenas alguns foram tocados – só uns poucos, na verdade. Mas estes poucos já poderiam ser o suficiente (pág. 353).

E em relação a Omoiyari? Podemos dizer, grosso modo, que Nyokodo foi o meio, mas a verdadeira mensagem pode ser condensada em Omoiyari. Antes do falecimento de Sadako, Masahiro e a irmã estabeleceram um ditado que lhes dava força para continuar. E ele se resumia na palavra Omoiyari, que significava “Em seu coração, sempre pense na outra pessoa antes de você” (pág. 331).
Sadako Sasaki, em foto tirada por seu irmão, Masahiro
“Eu acho que Omoiyari é a melhor maneira de começar”, Masahiro Sasaki disse naquela ocasião, com os sobreviventes do 11 de Setembro. “A pior maneira de começar é nos chamarmos de vítimas. Para dizer ‘vítima’ é preciso haver vitimizador, e o vitimizador leva a culpa; e assim começa o ciclo de culpa. Por exemplo, se dissermos ‘vítima de Hiroshima’, a próxima frase que aparecer vai envolver Pearl Harbor e a cadeia de culpa fica presa em acontecimentos do passado” (...). Aos adultos na plateia, Masahiro explicou: “O que estou tentando dizer é que não importa quem lançou a bomba. Não é uma questão relevante. Nunca deveria ser, em nenhum país. É uma questão para toda a humanidade. A coisa importante é que eu e Sadako conhecíamos o sentimento de Omoiyari – e se esse princípio for ser seguido e passado adiante por apenas alguns de vocês presentes aqui nesta sala, hoje, com o tempo os perigos deste mundo poderão diminuir. Vocês precisam superar a tristeza e sair dela passando adiante esta simples filosofia para a nova geração” (págs. 352-354).

ADICIONAIS

(1)   O filme “A Corrente do Bem” (2000) é o símbolo do movimento citado. Nele, um professor interpretado por Kevin Spacey instiga seus alunos da sétima série a propor um meio de transformar o mundo para melhor. Haley Joel Osmont, ator-mirim que ficou conhecido pela produção “O 6º Sentido”, faz o papel de Trevor Mckinsey. Ele propõe, então, que cada pessoa faça o bem para outras 3 pessoas, independentemente de qualquer desejo ou contrapartida. Essa pirâmide filosófica poderia alterar o mundo;
(2)   O livro possui um prefácio no qual o autor dá uma breve explicação sobre uma querela judicial no qual se envolveu, evitando desqualificar-se quanto a interlocutor para o tema. Certamente esta foi uma preocupação muito auto-centrada. O que eu quero dizer? Desconhecia tal fato e, para mim, era irrelevante para o livro em si. Mas como esta era uma reedição, entende-se a preocupação do autor;
(3)   Num livro cheio de nomes parecidos, extremamente importante foi a colocação de um capítulo, ao final, somente para identificar separadamente cada uma das pessoas ali citadas (págs. 355-365). Além disso, o índice remissivo também foi essencial para a redação, por exemplo, deste post;
(4)   O início do livro é dedicado às explicações técnico-médicas sobre as reações imediatas dos sobreviventes e como se deu a cadeia da explosão da bomba atômica de Hiroshima – replicado em menor medida quando da descrição da explosão de Nagasaki. Entendemos este trecho como relevante para a completa compreensão do leitor no tempo e no espaço do horror sofrido pelas vítimas. Mas devo confessar que foi cansativo. O livro ganha em dinâmica quando passam a ser retratados e inseridos no contexto a dinâmica da ação, e os sentimentos ali inscritos, das tripulações responsáveis pelo bombardeio;
(5)   Para os viciados em super-heróis e quadrinhos interessante mencionar que Stan Lee, mago da Marvel, então jornalista e conhecido como Stanley Lieber, tinha sido destacado como escriba militar. A mitologia atômica o envolveu de tal maneira que gerou sua imaginação abstrata para transformações radioativas, auxiliando a trazer à vida os heróis da supracitada editora. Basta dizer que naquela foi divulgada a possibilidade de picadas de aranhas gerarem algum desdobramento (Homem-Aranha); o impacto dos raios-gama sobre o homem (Hulk); as mutações gerando seres disformes e a doença atômica chamada de Doença X (X-men), entre outras coisas. Além disso, não exatamente vinculado à Stan Lee, mas parece pouco provável que ele não tenha tomado conhecimento posteriormente, a Hell’s Kitchen tão propagada em torno do personagem Demolidor, foi o local de guarda do urânio utilizado para as duas bombas atômicas. Ora, o dito personagem ganhou suas habilidades ao ser atropelado por um caminhão contendo produtos químicos... em Hell’s Kitchen! Para mais detalhes ver páginas 347 e 379; e

James Cameron
(6)   James Cameron teve contato com Tsutomu Yamaguchi, um dos duplos sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki, no final de sua vida, com 93 anos, no ano de 2009 – ele veio a falecer em 2010, ano de edição do livro.
Tsutomu Yamaguchi
Em Nagasaki, após depositar flores e ter tido contato com o japonês que se tornou um dos maiores defensores da paz no mundo, ele afirmou: “Yamaguchi-san disse algo muito interessante quando tomou nossas mãos – ele afirmou: ‘Meu dever foi cumprido’. (...) Passou a missão adiante. Agora cabe a nós fazer algo a respeito, e cabe a todas as pessoas de boa consciência fazer algo sobre isso” (pág. 383). Na capa do livro há outra afirmação dele: “Há anos desejo fazer um filme sobre os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki e este é um importante relato de um dos eventos mais marcantes do século XX”. Se Cameron cumprir com este desejo, estou certo que será um dos filmes mais marcantes da história da humanidade. O roteiro está pronto. Falta apenas rodar.