sábado, 27 de agosto de 2016

4 X John Grisham

Neste post avaliaremos quatro obras do famoso escritor norte-americano John Grisham. Como se encontra na orelha de seus livros como apresentação do mesmo, trata-se de um autor de 22 romances, um trabalho de não-ficção, um livro de contos e um romance para jovens leitores. É um dos diretores do Innocence Project (1), organização que defende prisioneiros inocentes. É presidente do Innocence Project do Mississipi, sediado na faculdade de direito do estado. Vive em Virginia e no Mississipi.
John Grisham
John Grisham se caracterizou, por sua formação jurídica, em ambientar seus romances neste meio. Ou seja, os principais personagens ou estão envoltos em casos que chegam às barras do tribunal e lá têm seus principais lances de drama ou então são advogados vivendo seus dilemas a partir de trabalhos efetuados, que não necessariamente têm como cenário o tribunal em si, mas todo o seu entorno.

Sendo eu um apreciador desta linha de romance, com este tipo de ambiente, não tive dúvidas em emendar logo 4 obras do dito autor em sequência, muitas delas que já sofreram suas devidas adaptações para telona, tal a riqueza do que foi ali exposto. Vamos ver se vocês se sentem tão instigados como eu.

Tempo de Matar

Em “Tempo de Matar” (Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1994 – 592 págs) temos Grisham na sua primeira aventura como escritor de ficção. Publicado originalmente em 1989 sob o título A Time to Kill, Grisham deixa bem claro em uma nota introdutória para edição a que eu tive acesso, redigida em 1992, de que se trata de seu romance mais autobiográfico, dado que o personagem central, o advogado Jake Brigance, tem muito dele. Nas palavras do autor:

Eu não advogo mais, mas durante dez anos pratiquei a advocacia muito ao modo de Jake Brigance. Eu representava indivíduos, e não instituições financeiras, companhias de seguros ou grandes firmas. Eu era um advogado das ruas. Jake e eu temos a mesma idade. Minha posição era de zagueiro nos tempos de colégio, embora eu não jogasse muito bem. Muita coisa que ele faz e diz é exatamente o que eu acho que faria e diria nas mesmas circunstâncias. Nós dois temos automóveis da mesma marca. Nós dois sentimos a pressão insuportável da corte criminal, uma coisa que procuro captar no livro. Nós dois perdemos o sono por causa de clientes e vomitamos nos banheiros do tribunal. Este livro saiu do coração. É um primeiro livro e às vezes se perde em digressões, mas eu não trocaria uma palavra, se me pedissem (pág. 9).

A estória gira em torno do julgamento de um morador de Clanton, Mississipi, no sul dos EUA, negro, chamado Carl Lee Halley, que teve a filha de 10 anos estuprada por dois brancos. Carl Lee chamou para si a justiça, assassinando-os em pleno tribunal com o um M-16, sub-metralhadora. Jake Brigance, por ter sido bem sucedido na defesa do irmão de Carl Lee, Lester, tempos atrás, contra uma acusação de homicídio, é o escolhido da família para atuar como advogado novamente.

Esse é o quadro geral. A estória transcorre em meio a estruturação da estratégia de defesa, atividade com a qual Brigance conta com o apoio de outros dois advogados da cidade, amigos de longa data por circunstâncias diferentes, e de uma estagiária que surge a meio caminho, com um interesse específico naquele que prometia ser o “caso do ano”. A resistência de uma comunidade de maioria branca, o ressurgimento da Ku Klux Klan, além da atratividade política do processo, traz uma série de interesses e atores que buscam produzir pedras no caminho de Brigance e sua “equipe”.

Destaco logo de cara uma pequena pérola da narrativa, que é o diálogo pré-assassinato entre Brigance e o Carl Lee, quando este já indicava suas intenções ao advogado. Ele termina com a seguinte colocação: “Não tenho escolha, Jake. Nunca mais vou dormir tranquilo sabendo que aqueles dois estão vivos. Devo isso à minha filha. Devo a mim mesmo e devo à minha gente. Vai ser feito” (pág. 63). Esse indica o principal dilema a que é posto o júri: como condenar um pai que passou por tamanha tragédia?

Outro aspecto interessante da narrativa de Grisham é a sua qualidade em retratar o ambiente vivido ao sul do Mississipi com um caso de tal peso. O surgimento de forasteiros curiosos, principalmente da imprensa, em contraste com a rotina do dia a dia da pequena cidade, é exposto nos mínimos detalhes. Talvez Grisham, quando colocou na nota introdutória, que por vezes ele se perdia em digressões, tenha quisto indicar estas passagens. À parte o tom de lamento nesta colocação, esta é uma das riquezas da obra, pois ao contrário do que coloca, ele não se perde e são passagens necessárias. Existem outros livros que se utilizam muito mais de tais “digressões” e se tornam cansativos. Isso não acontece com Grisham. Talvez aí já indicasse como se tornaria um autor atrativo para a indústria do cinema.

Dois estranhos, sentados perto da caixa registradora, olhavam temorosos para Claude. Provavelmente repórteres, pensou Jake. Toda vez que Claude se aproximava e olhava carrancudo para eles, os dois obedientemente apanhavam uma costeleta e começavam a mastigar. Nunca tinham experimentado costeletas antes e não havia dúvida de que eram do Norte. Tinham pedido saladas mistas, mas Claude, praguejando, os mandou comer churrasco ou desocupar a mesa. Então, contou para todo mundo que aqueles idiotas queriam salada mista (pág. 134).

A capacidade de Grisham para expor os sentimentos de cada um dos personagens, essencial para uma estória que envolvia tantos dilemas de ética, princípios morais, etc, realça ainda mais o poder de atração de sua prosa. Vejam por exemplo como ele narra o sentimento de constrangimento sofrido pelo personagem central ao superar um revés em meio a sua trajetória: (...) Jake estava farto de se esconder, cansado de se sentir constrangido. Enquanto não aparecesse nos jornais e fosse lido pelos fregueses do Coffee Shop, pelos fiéis da igreja e pelos outros advogados, (...), ia ficar quieto e escondido (pág. 256).

Como ponto fraco diria que o último terço do livro se prende apenas sob um determinado aspecto para resolver toda a trama, e que não está diretamente vinculado à capacidade de oratória do personagem central – algo que é a expectativa em geral do leitor nesse tipo de romance. Mas nada que venha a perturbar sobremaneira a qualidade do livro (2).

(2)   É fato que, como citado pelo próprio autor, o sucesso de A Firma, seu segundo livro, foi que catapultou o interesse por Tempo de Matar. Mas eu diria que as principais características do autor já se encontravam presentes na primeira obra. Outro aspecto interessante também comentado por ele é de que não é bom para títulos. Ora, e não é que eu o admirava justamente pela simplicidade destes.

O Corretor

No segundo livro desta série a qual me dediquei ao autor John Grisham temos O Corretor (The Broker, do original em inglês). A edição que manuseio, publicada pela Rocco, data de 2005, mesmo ano do que o original, aparentemente. São 365 páginas em que o autor norte-americano se presta a enaltecer um anti-herói com todas suas características clássicas.

A estória gira em torno de um lobista – o corretor do título – que recebe um indulto presidencial de presente, como um dos últimos atos do então mandatário maior dos EUA antes de refugiar-se num exílio no Caribe após o final do mandato. Meu primeiro espanto com a obra foi logo em seu início. Um dos agentes do FBI que foi informa-lo sobre o indulto se chamava Adair. Galera, Adair pode ser nome de porteiro, de agente do FBI nunca!

O desafio de Grisham continuava, de toda forma. Como fazer para que este se apegue (ou passe a torcer) para um escroque? Afinal, “quando forçado a escolher entre lealdade e dinheiro, Marco (3) sempre fizera a mesma coisa. Optara pelo dinheiro. Virara as costas a seu país. Tudo pela glória do dinheiro” (pág. 209). Qual seria mágica?

Grisham vai tecendo a teia com maestria, ambientando a adaptação do mesmo ao novo tempo livre após 6 anos atrás das grades em paisagens idílicas, de turismo, na Itália (4). “Por exemplo, nunca peça um cappuccino depois das 10:30 da manhã. Mas um espresso pode ser tomado a qualquer hora do dia. Sabia disso?” (pág. 65). Além disso, como estimulador maior para que o carisma do mesmo cresça, nada como colocar entre 4 e 5 agências internacionais de espionagem atrás do indivíduo por motivos nada puritanos.

Minha crítica volta-se justamente ao trecho final do livro. Mais uma vez parece que a resolução de todos os dilemas se dá num instante, numa aceleração do processo que poderia ser melhor trabalhado em termos de suspense. Seria livro, talvez, para 600 páginas. Mas será que um livro maior seria mais facilmente vendável para as telonas?

(3)   Um dos codinomes que o corretor, Joel Backman, teve que passar a usar após a “liberdade”.
(4)   “E a mãe se retirou de novo, cantarolando agora, bastante satisfeita por ter alguém para cuidar e alguém para alimentar” (pág. 247). Vocês já viram melhor descrição da mama italiana típica do que essa!?

O Homem que Fazia Chover

A terceira obra de John Grisham a qual tivemos a possibilidade de ler na sequência trata-se de O Homem que Fazia Chover. Publicada originalmente em 1995, com o título em inglês de The Rainmaker, discorre sobre a trajetória do advogado recém-formado Rudy Baylor. O jovem rapaz, cheio de tiradas sarcásticas, típicas talvez da idade, personifica melhor do que qualquer outro protagonista das estórias anteriores o sonho americano. Como por exemplo ao enfrentar dois policiais que o investigam a respeito de um incêndio ocorrido na firma de advocacia que teria lhe passado a perna:

[Policial] – Comportamento bastante estranho para um advogado.
[Rudy Baylor] – Já vi piores. E não sou advogado. Sou um paralegal (5) ou coisa parecida. Acabo de me formar. E as acusações foram retiradas, o que tenho certeza, está escrito bem visível nesse seu impresso de computador. E se vocês pensam que quebrar alguns vidros em abril tem alguma coisa a ver com o incêndio da noite passada, então o verdadeiro incendiário pode ficar descansado. Ele está seguro. Nunca vai ser apanhado.

Baylor, que tem como melhor amigo de faculdade um advogado negro, estudante de uma universidade pública, supera as dificuldades iniciais de sua carreira, abraçando a primeira grande oportunidade que lhe surge. Por mais inverossímil que pareça a série de fatos que em sequência o favorecem, ele não deixa de estar frente a problemas que muitos outros teriam desistido no meio do caminho. Ao invés disso, acreditando que pode ultrapassar tais dilemas, ele vai garimpando seu caminho, rumo ao sucesso e ao coração da sua amada.

Lendo com atenção cada uma das 581 páginas da publicação editada pela Rocco para o Brasil em 1996 não nos damos conta de como estamos sendo envolvidos no folhetim com ganchos típicos daqueles que torcem pelos menos favorecidos superarem os gigantes que se interpõem entre eles e sua felicidade. Neste caso específico, a luta de Davi contra Golias seria representada por Baylor contra uma companhia de seguros de práticas pouco recomendáveis, chamada Great Benefit.

Além disso, sua cara metade, a jovem Kelly Riker, enfrenta um casamento falido do qual luta para escapar e encontrar o príncipe encantado que, adivinhem quem é! Apesar de todos esses chavões, o espirituoso protagonista diverte o leitor com sua trajetória, talvez mais pelo fato de que os antagonistas são engolfados pela má sorte, o que lhe dá oportunidade de rir da miséria alheia. Mas devo dizer que o final – em que pese ter tudo a ver com o que dissemos acima – acabou por me surpreender. Enfim, a vida pode ser muito mais que a fama amealhada nos tribunais.

(5)   Paralegais são assistentes de advocacia. Normalmente fazem o trabalho de pesquisa em escritórios estabelecidos, função exercida preferencialmente por jovens formados que ainda não obtiveram a licença para advogar ou que ainda estejam em graduação.

O Júri

Trama que envolve não somente o tribunal – que continua sendo o centro da ação – mas as atividades paralelas que podem influenciar um veredicto, sendo legítimas ou não, o livro O Júri, de John Grisham – Ed. Rocco – 511 págs – 1998 – traz o embate entre a convicção de um corpo de jurados e a defesa da gigantesca indústria do tabaco pela produção e efeitos da venda de cigarros.

Extraindo-se o fato em si – ação movida por viúva que teve seu marido vitimado pelos efeitos do fumo – o principal debate gerado durante o suspense pela tomada de posições de cada um dos membros do júri leva em consideração as motivações que podem levar cada um deles pender para um lado ou para outro. Além disso, as normas a serem seguidas de modo a manter o julgamento mais imparcial possível soam como um anacronismo diante de um mundo de hoje tão conectado, no qual as informações nos chegam por todos os lados. Sendo o livro de 1998, talvez o autor não tivesse a dimensão exata até que ponto a internet ia chegar naquele momento – não existem smartphones naquela época.

De todo modo, todo livro centrado num tribunal, assim pode-se notar – e isso fica patente ao se ler as 4 obras aqui descritas, na verdade ultrapassa a dimensão do enfrentamento entre dois corpos de advogados, a acusação e a defesa, e das informações trocadas entre si. São dramas humanos, no qual o olhar psicológico, individual sobre cada um dos elementos, é o que importa. Aqui, quando se imaginava que somente os jurados seriam a verbalização de tais dramas, uma trama típica de filmes de espiões corre em paralelo, trazendo a reboque o questionamento de como o sistema pode ser desafiado para fazer justiça por linhas tortas.

Os filmes

As obras de Grisham são de uma narrativa tão intensa, envolvem de tal modo os leitores, que era mais do que natural que gerassem adaptações cinematográficas. Tal aspecto deve ser visto com cuidado, pois as mesmas por muitas vezes seguem caminhos distintos da obra literária em favor da nova linguagem com a qual estão lidando, mesmo que o elemento central seja idêntico ou pelo menos similar. Mas vocês já sabem minha opinião sobre este ponto: o livro sempre é melhor!

Das quatro obras por mim aqui analisadas três geraram adaptações cinematográficas – O Júri, O Homem que Fazia Chover e Tempo de Matar. Dessas a que mais se aproximou de sua versão literária foi justamente esta última. Tempo de Matar (1996) contou com a participação de Mathew McConaughey e Samuel Lee Jackson nos papéis centrais, respectivamente, de Jake Brigance e Carl Lee Halley. Mas quando eu digo que se aproximou, é somente isso. No processo de adaptação não houve uma deturpação exagerada da obra original. E esse é o grande mérito se comparado os dois meios.

Quanto aos dois outros filmes: O Homem que Fazia Chover (1997), com Matt Damon no papel principal do jovem advogado Rudy Baylor, sofreu pela necessidade de condensar uma estória na qual teve papel fundamental na sua segunda parte a relação entre o juiz, que no filme foi interpretado por Danny Glover, com o advogado de defesa da Great Benefit, interpretado por John Voigt, aspecto este suprimido enormemente. Ficou um filme estéril, de soluções fáceis. Mas o livro em si, dada a importância do tema, já era um dos mais fracos entre os quatro, ficou no mesmo patamar em termos cinematográficos.

Agora, a maior carnificina foi a realizada na adaptação de O Júri (2003). Na versão cinematográfica a indústria posta em xeque foi a de armas, quando no livro a que foi atacada foi a do fumo (aliás, a mesma de O Homem que Fazia Chover). Além disso, um personagem totalmente secundário foi enfatizado no filme, talvez em favor do ator que o encarnou, Dustin Hoffman. Assim sendo, dos três filmes, foi o que mais se afastou de sua versão original literária.

Deste modo continuo com a minha predileção pelos livros, por serem mais ricos em nuances e darem asas à imaginação do leitor, proporcionando uma experiência a qual o cinema não conseguiu refletir. Para aqueles que de todo modo preferirem a telona, recomendaria apenas Tempo de Matar. Os outros dois filmes são descartáveis, ou porque são simples demais (O Homem que Fazia Chover) ou porque deturpam a fonte original da qual beberam (O Júri). Dos livros, o melhor é O Júri, o que só ressalta a lástima que foi sua adaptação para o cinema.


OBS.: Tempo de Matar ainda teve a curiosidade de juntar numa mesma obra pai e filho – Kiefer e Donald Sutherland, em papéis secundários. Não me lembro deles terem repetido a experiência em outro filme.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

CIRCUITO DE MENTIRAS - Ascensão e Queda de Lance Armstrong

Há poucos dias de se iniciar os Jogos Olímpicos Rio 2016 terminei de ler o livro da jornalista Juliet Macur, americana de origem polonesa, denominado “Circuito de Mentiras – ascensão e queda de Lance Armstrong” – Ed. Intrínseca – Rio de Janeiro – 416 páginas – 2014. Este livro destrincha as mazelas e o mau-caratismo que estava (ou está¹) entranhado num dos esportes mais tradicionais existentes, o ciclismo de estrada.

Juliet Macur e sua obra, com Armstrong na capa
Para tanto a jornalista traça um panorama de que foi a trajetória de um dos ícones na passagem de século neste esporte, o norte-americano, do Texas, Lance Armstrong. Antes de Armstrong, somente um americano havia vencido a mais tradicional das provas, o Tour de France. Greg Lemond é o seu nome, vitorioso em 1986, 1989 e 1990. Esta prova testa o limite dos competidores por mais de 3000 km em duas semanas de competição, atravessando diversos pontos do interior da França, entre planícies e montanhas.

Greg Lemond ao vencer o Tour de France em 1990
Armstrong, inicialmente retratado como fenômeno das pistas, aos poucos têm sua face alterada a partir do momento que se dá conta de que terá que praticar o doping sistemático caso queira sair-se vencedor da prova francesa. Aparentemente dois fatores motivadores o catapultaram para um degrau acima na sofisticação do sistema: o primeiro foi a constatação de que o doping era generalizado entre os principais ciclistas. Ou seja, um atleta, mesmo que de alto nível, sem a dose extra de “apoio”, não teria condições de alcançar a vitória perante os demais competidores.

O segundo fator, por mais inverossímil que pareça, trata-se de um insight psicológico deduzido pela autora. Armstrong, recém-recuperado de um câncer, teria trazido para sua vida a máxima de que nada o impediria de alcançar a glória suprema. Ou seja, tudo é válido para se ter sucesso na vida, pois esta pode ser mais curta do que imaginamos. E mais, como ele havia vencido o câncer, se considerava invencível.

Estes dois fatores teriam sido tão fortes que o levaram a conquistar sete títulos – de 1999 a 2005, sete camisetas amarelas (vestimenta dada ao líder e vencedor da prova) em sequência. Para aqueles que enaltecem, como eu, a honestidade das competições esportivas, esta obra é um verdadeiro soco no estômago, tal é a crueza e naturalidade com que são encaradas, pelos “atletas”, as trapaças arquitetadas.
Armstrong, ao vencer o Tour pela sétima vez, em 2005
no pódio na Champs Elysées, com seu filho mais velho,
Luke, e a pulseira amarela do instituto Livestrong
Como podemos torcer com dignidade por pessoas que estão nos enganando a olhos vistos? Livro de uma clareza ímpar, com diversos depoimentos – pena que muitos deles com as fontes protegidas, é uma obra para os fortes de espírito. Isso porque aqueles que não suportarem os fatos ali apresentados jamais voltarão a acreditar na dignidade humana e no ambiente esportivo, objeto de lazer, quer seja como participantes, quer seja como meros espectadores, de bilhões de pessoas mundo afora.

Para piorar a situação, o fato de Armstrong se utilizar de sua campanha em prol da recuperação de pacientes de câncer como uma blindagem quanto aos questionamentos em relação ao seu caráter fazem com que ele se apresente como o pior dos seres humanos. Ele não é um assassino de pessoas, mas um assassino de crenças². E perder a fé pode ser o pior dos fins para alguém que somente nela se abraça quando encara o impossível.

Recentemente a Agência Mundial de Antidoping (WADA - https://www.wada-ama.org/), em conjunto com o Comitê Olímpico Internacional, utilizou amostras que estavam armazenadas de exames realizados nas Olimpíadas de Pequim (2008) e Londres (2012), encontrando uma grande quantidade de resultados positivos, somente agora possíveis devido à evolução dos testes com o passar dos anos. Até quando teremos que conviver com a desonestidade? Atletas pressionados pela obtenção da fama e do dinheiro envolvidos nos esportes de alto rendimento, uma verdadeira usina da indústria do entretenimento, não veem mais limites para tentar escapar das garras daqueles que lutam contra o doping. Essa é uma batalha em que parece que o lado do bem está sempre um passo atrás do lado do mal. Mas, pelo menos, histórias como de Armstrong servem para que possamos levantar e arregaçar as mangas para continuar apoiando a luta contra tais atitudes. A justiça tarda, mas não falha. No caso de Armstrong, com o banimento definitivo dos esportes olímpicos, quaisquer que sejam. Para alguém tão competitivo como ele, foi a sentença de morte, mais do que perder os títulos e dinheiro. Resta-nos esperar que um exemplo como o dele sirva de lição. Pelo menos para alguns, senão para todos, que seja.

(1) Recentemente o campeão brasileiro de 2015 de ciclismo de estrada, Everson de Assis Camilo, foi pego num exame antidoping, testando positivo para 15 substâncias. Para mais detalhes ver http://esportes.estadao.com.br/noticias/jogos-olimpicos,campeao-brasileiro-de-ciclismo-e-pego-no-doping-por-15-substancias-proibidas,10000062433 ;

(2) Lembro-me que certa vez dei de presente para um professor de Educação Física, muito amigo, o livro que descrevia o programa de treinamentos de Armstrong. A fé de uma pessoa, solidificada pelo exemplo de recuperação de um terceiro, vai literalmente para o lixo quando temos nossos olhos abertos para a desfaçatez ali incutida.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

ONZE ANÉIS - A alma do sucesso

Quando comecei a ler o livro “Onze Anéis – a Alma do Sucesso”, do conhecido treinador de basquete Phil Jackson, multicampeão da National Basketball Association (NBA), a liga profissional de basquete dos Estados Unidos, imaginava que seria mais uma daquelas obras de auto-ajuda, voltada a aprimorar a gestão de equipes com base na experiência esportiva do autor – que contou com a colaboração de Hugh Delehanty para a escrita. OK, o livro é isso, mas é muito mais para um amante dos esportes. Do basquete então, o que direi!?

Ou seja, este trabalho, publicado pela Editora Rocco em 2014, apresenta em suas 335 páginas não somente pensamentos abstratos, mas detalhes dos bastidores de 11 grandes campanhas de dois dos times mais emblemáticos deste esporte – Chicago Bulls, com Michael Jordan em seu auge, e Los Angeles Lakers, assistindo o ápice do seu mais recente ídolo, agora aposentado, Kobe Bryant. Claro, fala também das derrotas, dificuldades e falhas das trajetórias não tão vitoriosas assim, mas surpreende ao leitor como eu, que desavisado pensou que receberia somente uma série de lemas e retórica, com um apanhado histórico, técnico e tático que nos faz deliciar e melhor entender o que se passa durante um jogo de basquete. Obviamente este também tem o lado negativo, já que nem todos os leitores serão conhecedores a fundo das táticas de jogo e das regras nas quais estão subordinadas. Para muitos quando a narrativa se prende no triângulo ofensivo, ou na marcação dobrada, o sono pode advir, pois eles estão mais interessados na interação humana do que nestes aspectos.
Phil Jackson (à esquerda) e Hugh Delehanty.
De toda forma, fiquei maravilhado com a surpresa que me foi proporcionada. E um segundo fator inesperado me fez gostar mais ainda do livro – e de seu personagem central, o próprio Phil Jackson. Foi o de saber que ele é um adepto da meditação como prática central para o equilíbrio (1). Isto é, aquele treinador, que teve que lidar com grandes atletas, cheios de adrenalina pela competição em que se encontravam inseridos – e pelo próprio espírito de combatividade tão comum aos desportistas de alta performance – tinha como uma das suas táticas – e prática de vida – a filosofia zen de ser e de se enxergar. E como cereja do bolo, ele também era um entusiasta da influência das obras literárias sobre cada um dos seus comandados. Rick Fox, então jogador do Lakers, descreve este ponto citando o segundo ato, de um total de três, no qual Phil Jackson influenciava o grupo:

Rick Fox (à direita), com Shaquille O'neal ao centro e
Kobe Bryant à esquerda.
O segundo ato se desenrola ao longo dos vinte ou trinta jogos no meio da temporada, antes e depois do Jogo das Estrelas (2). “Era quando Phil nutria o time que já começava se entediar (...). Só então ele passava mais tempo com cada um de nós. Era quando nos indicava livros. Eu sempre achei que era nesse período que ele exigia mais de mim”.
(pág. 218) (3)

Tais características combinadas trazem ao bojo do livro uma expectativa pelo que virá em cada capítulo, em cada página, em cada parágrafo. Os jogadores, deuses do moderno entretenimento, são apresentados em sua face mais humana, com ódios, invejas, alegrias e brincadeiras. Os técnicos e dirigentes, com seus dramas e incertezas, decisões e indecisões, visão e cegueira pelo que vinha a frente, também têm sua grande quota de representação. Todos seres humanos, tão complexos quanto cada um de nós. E tudo isso entremeado por várias citações filosóficas de alguns mentores zen e de figuras históricas (ver citações selecionadas mais abaixo).

Dessa forma a trajetória apresentada se aproxima de nosso dia a dia, tanto do lado profissional quanto do lado pessoal. Como estrutura, logo no início do livro – página 17 – somos apresentados aos parâmetros que pautaram o diagnóstico que Phil Jackson fazia das suas equipes, de modo a direcioná-las para o perfil ideal almejado. Estes se baseiam na obra inovadora Tribal Leadership, dos consultores de gestão Dave Logan, John King e Halee Fischer-Wright, na qual apontam as 5 etapas de desenvolvimento tribal, formuladas após a realização de uma extensa pesquisa sobre organizações de pequeno e médio portes:

Etapa 1 – a vida é uma merda
Etapa 2 – minha vida é uma merda
Etapa 3 – eu sou o máximo (e você não é)
Etapa 4 – nós somos o máximo (e vocês não são)
Etapa 5 – a vida é o máximo.

Obviamente o ideal é que os grupos os quais estejamos inseridos possam ir crescendo etapa a etapa, até curtir a trajetória ao máximo na sua rotina, quando alcançam a Etapa 5. E era assim que Phil Jackson observava os grupos que tinha na mão. Buscava identificar em que ponto desta escala eles se encontravam, para então tratar de visualizar os acertos necessários para que eles pudessem dar um pulo para a etapa seguinte.

Se o livro tivesse somente isso, já seria um grande balizador para nossas atitudes perante a vida. Em que etapa nos encontramos? O que devemos fazer para evoluir? Tudo isso cada uma daquelas definições nos aguça a questionar. E você, em que tribo está? Leia o livro, se maravilhem com a história e com o homem. Talvez daí vocês se identifiquem.

LIÇÕES DE PHIL

Quando preparo a resenha de um livro tenho por hábito marcar as páginas com os trechos que mais me chamaram a atenção, para depois utilizá-las como referência durante a escrita. Mas esta obra se mostrou tão rica em citações que resolvi colocá-las em separado, para que vocês pudessem usufruí-las nas lições em que se encerram:

O que me motiva é apreciar a união dos jovens e tocar a magia que aflora quando se devotam – de todo o coração e de toda a alma – a algo maior que eles próprios. Depois que se experimenta isso, nunca mais se esquece (pág. 12).

É preciso uma série de fatores críticos para se conquistar um campeonato da NBA, incluindo uma combinação certa de talento, criatividade, inteligência, tenacidade e, claro, sorte. Mas, se uma equipe não tem o ingrediente essencial – amor -, nenhum dos outros fatores importa (pág. 14).

(...) sei que a arte de transformar um grupo de jovens ambiciosos em time integrado e campeão não é um processo mecanicista. É um misterioso ato de malabarismo que requer não apenas o profundo conhecimento das leis consagradas pelo tempo de jogo, mas também coração aberto, mente clara e aquela curiosidade atenta aos caminhos do espírito humano (pág. 19).

Às vezes não importa se você é um cara muito legal. Em certos momentos você tem que ser sórdido, antipático e desagradável. Você nunca será um técnico se tem necessidade de ser amado (pág. 30).

(...) no início de cada temporada sempre incentivava os atletas a se concentrarem na jornada e não na meta. O que mais importa é jogar do jeito certo e ter coragem de evoluir, tanto como seres humanos quanto como jogadores de basquetebol. Se você agir assim, o anel [prêmio individual dado aos ganhadores do título da NBA] cuida de si mesmo (pág. 32).

Citando Shunryu Suzuki, mestre zen japonês: a melhor maneira de controlar as pessoas é dar a elas muito espaço e observá-las. “Não é bom ignorá-las; isso é a pior política (...). A segunda pior política é tentar controla-las. É melhor observá-las, apenas observá-las, sem tentar controlá-las”. Um conselho que mais tarde veio a calhar quando tive que lidar com Dennis Rodman (2) (pág. 59).

Citando Thich Nhat Hanh, mestre zen vietnamita: “A vida só pode ser encontrada no momento presente (…). O passado já se foi, e o futuro ainda está por vir, de modo que se não nos voltarmos para nós mesmos no momento presente nunca estaremos em contato com a vida” (pág. 59).

Citando Pema Chodron, mestre budista: “O que você faz em favor de si mesmo também faz em favor dos outros, e o que você faz em favor dos outros também faz em favor de si mesmo” (pág. 60).

(...) o que aprendi ao longo dos anos é que a abordagem mais eficaz é a de delegar autoridade tanto quanto possível e também cultivar as habilidades de liderança de todos os outros. Quando você consegue realizar isso, além de ajudar a construir a unidade da equipe e dar ensejo a que os outros se desenvolvam, paradoxalmente também reforça o seu papel como líder (pág. 89).

O sentimento profundo de ligação que brota da união dos jogadores traz uma tremenda força que varre o medo de perder (pág. 104).

Citando John Heider, autor do livro The Tao of Leadership: “Regras reduzem a liberdade e a responsabilidade (…). A aplicação de regras coage e manipula, reduzindo a espontaneidade e absorvendo a energia do grupo. Quanto mais coercitivo se é, mais o grupo resiste” (págs. 120-121).

Citando Wayne Teasdale, autor do livro A Monk in the World: “O trabalho é sagrado quando se interliga à realização espiritual e representa a paixão e o desejo de contribuir para a cultura e, especialmente, para o aprimoramento dos outros. E entenda-se por paixão os talentos divididos com os outros e que moldam o destino de todos quando estão a serviço da comunidade” (pág. 124).

Colocação de George Mumford, auxiliar que trabalhava a parte mental dos jogadores do Chicago Bulls, quando estava lidando exatamente em como moldar o perfil de líder de Michael Jordan: “Tudo é uma questão de estar presente e assumir a responsabilidade pela forma com que se relaciona consigo mesmo e com os outros (...). E isso implica se adaptar de maneira a ir ao encontro das pessoas onde estejam. Em vez de enraivecer e forçá-las a estar em outro lugar, encontre-as onde estão e só depois as conduza para onde quer que se dirijam” (pág. 151).

Citando Lewis Richmond, mestre zen, que por sua vez apontou a definição de Shunryu Suzuki sobre o budismo: “Tudo muda” (pág. 178).

Ditado zen: “Antes da iluminação, corte lenha e carregue água. Após a iluminação, corte lenha e carregue água”. O objetivo: concentre-se na tarefa à mão em vez de reviver o passado ou se preocupar com o futuro (pág. 183) (3). Ou ainda: Tal como tudo na vida, a despeito das diferentes circunstâncias, as recomendações são sempre as mesmas: cortar lenha, carregar água (pág. 290).

Segundo a mestra budista Pema Chodron, o desapego é uma ponte para o verdadeiro despertar. (...) “Apenas à medida que nos expomos cada vez mais à aniquilação é que encontramos o indestrutível que há em nós” (pág. 206).

Citando uma vez mais Pema Chodron: “As coisas que se despedaçam também são uma espécie de teste e de cura (...). Pensamos que o objetivo é passar no teste ou superar o problema, mas a verdade é que as coisas realmente não se resolvem. Erguem-se novamente e desmoronam-se novamente. É simplesmente assim. A cura se dá quando se deixa espaço para que tudo aconteça: espaço para a dor, para o alívio, para a miséria e para a alegria” (pág. 207).

Citando Martin Luther King Jr.: “Na realidade, toda a vida está inter-relacionada. Todas as pessoas estão ligadas a uma inescapável rede de reciprocidade, enlaçadas em uma única peça do destino. O que afeta diretamente a um também afeta a todos indiretamente. Jamais poderei ser o que posso ser até que você também seja o que pode ser, e você só poderá ser o que pode ser quando eu também o for o que posso ser. Essa é a estrutura da realidade inter-relacionada” (pág. 216).

De uma perspectiva positiva, Buda (...) prescreveu uma forma prática para eliminar o desejo e a infelicidade através do chamado Nobre Caminho Óctuplo, cujas etapas consistem em visão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, estilo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta e concentração correta (grifos nossos) (pág. 224).

(...) a chave para a paz interior é a confiança na interconexão essencial de todas as coisas. Uma respiração, uma mente. Isso é o que nos fortalece e nos revitaliza em meio ao caos (pág. 225).

De acordo com Gandhi: “O sofrimento suportado com ânimo transmuta-o em inefável alegria” (pág. 250).

A chave para a manutenção do sucesso é continuar evoluindo como equipe. Ganhar tem a ver com a busca do desconhecido e a criação do novo. Em uma cena do primeiro filme de Indiana Jones alguém pergunta o que Indy fará a seguir: “Não faço ideia, invento isso enquanto avanço”, ele responde. É assim que concebo a liderança: uma improvisação controlada, um exercício dedilhado a Thelonious Monk (4) de um momento para outro (pág. 253).

Citando Sylvia Boorstein, mestra de meditação budista: “A repressão da raiva gera uma rachadura nas relações impermeável a sorrisos. É um segredo. É uma mentira. A resposta compassiva mantém as relações vivas. Isso implica dizer a verdade. E dizer a verdade pode ser difícil, sobretudo quando a mente está conturbada pela raiva” (pág. 270).

Sobre o novo perfil de liderança de Kobe Bryant em dado momento da carreira: E para isso tinha aprendido a dar para receber de volta. Liderança não é forçar a própria vontade sobre os outros. É simplesmente dominar a arte de deixar rolar (pág. 307).

O trabalho de um líder é fazer de tudo ao seu alcance para propiciar condições perfeitas em função do sucesso, abstraindo-se do próprio ego e inspirando a equipe a jogar da maneira certa. Porém: a alma do sucesso é a rendição ao que é (pág. 330).

(1)     Sobre meditação – as instruções de Shunryu Suzuki a respeito de como meditar são muito simples:

1 – Sente-se com a coluna ereta, os ombros relaxados e o queixo esticado, “como se apoiando o céu com a cabeça”;
2 – Acompanhe a respiração com a mente enquanto é movida para dentro e para fora como uma porta de vaivém;
3 – Não tente deter o pensamento. Se algum pensamento irromper, deixe-o fluir e depois volte a prestar atenção na respiração. A ideia não é tentar controlar a mente, e sim deixar que os pensamentos apareçam e desapareçam naturalmente e repetidas vezes. Com a prática os pensamentos passam a flutuar como nuvens que se dissipam e perdem o poder de dominar a consciência (pág. 58).

(2)     Sobre Dennis Rodman – controverso jogador americano, à época pertencente ao grupo do Chicago Bulls. Jogava na posição de pivô, mesmo não sendo tão alto quanto os demais, mas tinha uma energia incomum para lutar embaixo da cesta pelas bolas. Foi diversas vezes recordista de rebotes – além de ser um astro na auto-promoção, bem ao gosto dos paparazzis de plantão e do mercado midiático.
Phil Jackson e Dennis Rodman (à direita)
Sobre o Jogo das Estrelas – partida realizada que marca a metade da temporada regular (ou de classificação para os play-offs – disputas eliminatórias entre duas equipes) – na qual se enfrentam os melhores jogadores, segundo uma votação popular, divididos entre equipes representativas do Oeste e do Leste dos Estados Unidos.
(3)     Sobre “cortar lenha e carregar água” – particularmente tenho uma interpretação distinta do ditado. Para mim ele passa muito mais uma lição de humildade do que de concentração no presente. Mesmo os iluminados cortam lenha e carregam água. E somente porque se dedicam de tal forma às tarefas mais simples são capazes de alcançar a iluminação. No final, tudo retorna ao mesmo ponto, e continuamos, em essência, os mesmos. Sobre os “atos” de Phil – na visão de Rick Fox, jogador que foi treinado por Phil Jackson nos Lakers, o técnico abordava o time em 3 momentos distintos, divididos por 3 grupos de 20-30 jogos disputados na temporada. No primeiro terço da temporada (1º ato) Jackson deixava os jogadores se expressarem, de modo a ver o que tinham para oferecer. No 2º ato tentava influenciá-los sobre o caminho correto que eles deveriam seguir por si próprios. E no 3º ato, se colocava no centro da ação, ao mesmo tempo tirando a pressão dos jogadores, como os liderando efetivamente para o que considerava ser o correto.
Thelonious Monk
(4)     Sobre Thelonious Monk - Thelonious Sphere Monk (1917-1982) é reconhecido como uma das mais influentes figuras da história do jazz. Foi um dos arquitetos do bebop e seu impacto como compositor e pianista teve uma profunda influência sobre todos os gêneros da música.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

GUGA, UM BRASILEIRO

Tem um grupo de esportistas e personalidades que eu denomino “Os Caras”. Apesar de ser um substantivo masculino, pode incluir tanto homens quanto mulheres. São pessoas as quais admiro não somente pelos resultados alcançados em termos profissionais nas carreiras que abraçam, mas também pela atitude perante a vida e pelo lado humano que fazem questão de expor.

Um dos “caras” mais conhecido é fácil de se enquadrar na categoria a qual me referi acima para criar o tal “grupo” ou “referência”: Guga Kuerten, o nosso tricampeão de Roland Garros, um dos quatro principais torneios de tênis no mundo. O torneio francês, juntamente com Winbledon, o Aberto de Tênis dos Estados Unidos (US Open) e o Aberto de Tênis da Austrália (o Australian Open) formam o que é conhecido como Grand Slam.

A importância de Guga para o tênis nacional pode ser medida da seguinte forma: desde os anos 60 não temos alguém, neste esporte, que se apresentasse de maneira tão dominante perante os demais competidores de nível mundial, em sua maioria europeus e norte-americanos. Maria Esther Bueno, multicampeã de tênis, pouco conhecida pela grande maioria da população nacional atual, por ser uma estrela pré-mídia de massa – aí incluídos internet e a televisão nos seus mais diversos meios – e também uma das “Caras”, brilhou naquela década ganhando mais títulos que o próprio Guga.

Porém, do lado masculino, no tênis tivemos poucos brilhos, para não dizer nenhum, com tanta intensidade quanto o do “manezinho” da ilha, alcunha pela qual os jovens habitantes da ilha de Florianópolis são reconhecidos. Guga com isso quebrou uma barreira que se imaginava inalcançável até então. Restava a ele, após tantas conquistas tanto dentro quanto fora das quadras, relatar como se deu essa trajetória, registrar para a história as dificuldades, medos e agruras enfrentados, que serviram de base para os grandes saltos que o elevaram ao panteão dos grandes do tênis internacional.

Porém, o livro “Guga, um brasileiro” – Ed. Sextante – Rio de Janeiro – 2014 – 384 págs – faz jus não somente ao Guga tenista, mas também ao Gustavo Kuerten pessoa humana, cidadão consciente de que levar uma vida na simplicidade o faz maior ainda aos olhos de todos. Guga sempre foi um personagem de sorriso fácil, de se aproximar das pessoas não se importando com a classe social a que esta pertencia, olhando para o outro como um ser humano deve vislumbrar o seu próximo, um igual.



Na obra fica claro como essa personalidade foi moldada, a partir de um seio familiar sólido, no qual tais princípios o foram estabelecidos desde a sua mais tenra idade. Além disso, a tenacidade, a competitividade, também ali estavam presentes, fazendo com o que o jovem Kuerten trouxessem o inconformismo com a sua performance, e posteriormente já adulto, com o estado de coisas que o circundava, como mais um traço que o favoreceria para cada uma das etapas de sua vida.

Bom filho, bom irmão, bom amigo, bom marido, bom pai, como não se orgulhar de um brasileiro assim? Diria a vocês que é impossível. Da escrita do livro em si, auxiliado que foi pelo alter ego Luís Colombini, a quem prestou o depoimento em primeira pessoa que se vê refletido nas páginas do livro, fica uma curiosidade: como teriam pensado os adversários do Guga no decorrer das partidas? Será que foi exatamente como ele próprio imaginou? Essa pergunta emerge, pois o livro é estruturado entremeando a narração de sua trajetória enquanto tenista com os fatos marcantes de sua vida particular, inclusive com o registro fotográfico, mas naqueles capítulos em que ele narra as principais partidas que enfrentou por diversos momentos ele coloca “Fulano pensou / imaginou / agiu”. Seria interessante se tivesse um trabalho complementar com estes outros atores. Fica, talvez, para uma próxima edição.

Esse pequeno detalhe não desmerece em nada o trabalho feito. Ficam como ensinamentos, num livro de auto-ajuda criado sem esta intenção, somente pelas passagens e pensamentos daquele que estará, para sempre, marcado como um dos maiores brasileiros de todos os tempos. Exagero? Para um esportista como eu, não. Os ensinamentos de um grande personagem sempre nos servirão de exemplo para nossas vidas.

Allez Guga!

Controle

“Para os melhores tenistas, é fundamental encontrar um jeito, um movimento, uma sequência de ações que traga conforto e concentração. Só com isso eles alcançam a sensação, a convicção de que têm o controle do jogo, do corpo e da mente, algo abstrato, imaginário, porém ao mesmo tempo real e fundamental. Sem controle, não se ganha nada. Não existe jogador bom que não crie ritual para si, embora nem sempre ele seja evidente. Há momentos, porém, quando já está mergulhado no jogo, em que não sente necessidade de fazer nada. Mas na maioria das vezes, precisa de um lembrete para se alinhar com seu interior e ativar o seu melhor. (...) Nadal é mais rebuscado. No banco, deixa duas garrafinhas de água alinhadas na diagonal. Dá um gole em uma, fecha a tampa, põe no chão e depois bebe da outra. Antes do saque, seja seu ou do adversário, encontra tempo para, numa sequência invariável: puxar o calção, coçar a bunda, afastar o cabelo da orelha direita, alisar o nariz, arrumar o cabelo na orelha esquerda, passar a mão de novo no nariz e mexer no calção mais uma vez. O povo acha graça, mas, na história do tênis, talvez nunca tenha havido outro tenista com o poder de concentração e o autocontrole de Nadal. Se o proibirem de fazer seu ritual, isso vai afetar o seu jogo. E pode estar certo de que ele vai criar outro” (grifo nosso) – págs. 59-60.

Humanidade

“Durante os dias úteis, também era agitado lá em casa. Ainda que o Gui [irmão mais novo do Guga, falecido há poucos anos em função de uma deficiência de nascença] fosse pequeno e a gente evitasse sair por qualquer coisa, isso não refreava o lado sociável do pai. Logo no café da manhã, já perguntava para a mãe quem eles iam chamar de noite. ‘Mas Aldo, sossega um pouco’, falava a mãe. Não adiantava. Na sequência, ele já estava sugerindo os nomes de pessoas que, no jantar, rachariam a pizza ou, se fosse o inverno, aproveitariam as castanhas cozidas com ponche preparados pela mãe. Os convidados tanto podiam ser sócios do clube como vizinhos que nunca tiveram dinheiro para frequentar um. Para o pai, jamais existiu esse negócio de rico e pobre, preto e branco, culto e semianalfabeto. Uma pessoa era uma pessoa e estamos conversados” (grifo nosso) – pág. 67.

Gentileza e Concentração

“Ao mesmo tempo que explorava os limites físicos, eu tentava domar o lado mental. Na maior parte do juvenil, eu tinha uma característica que não conseguia mudar. Era bonzinho demais na quadra, o que representava uma fragilidade emocional para mim e uma vantagem par ao adversário. Se estivesse ganhando de 5-0, às vezes acontecia de ficar com pena e relaxar. (...) Amolecia o jogo, o adversário virava e eu perdia. Era talvez uma herança da mãe, assistente social por vocação, que dizia que eu tinha que considerar todas as pessoas e ser gentil com todo mundo. Mas aquilo não combinava com a quadra de tênis, onde Larri [principal treinador da carreira de Guga] tentava me ensinar a ser matador. O fato é que, sem dominar a parte mental, não há chance de alguém se tornar campeão. Então, com a mesma determinação de me fazer mudar a esquerda, Larri trabalhava uma parte minha muito mais preciosa, delicada e intangível” (grifos nossos) – págs. 139-140.

Persistência

“Na base de tentativa e erro, derrapamos muito, mas sempre conseguimos voltar logo para o eixo. Em todos os momentos, tínhamos a certeza interior de que, mesmo batendo vinte vezes no muro, incidentes e acidentes faziam parte do percurso e do aprendizado. A gente só tinha que fazer nossa parte, cair, levantar, se sacudir, não ficar pensando no desastre e seguir adiante mirando no mais alto que desse” (grifo nosso) – pág. 143.

O bem que faz um apoio no momento certo

“Em três semanas, fomos do desespero ao alívio total. Os dois patrocínios possibilitavam que a gente jogasse os torneios grandes na Europa. Além da salvação financeira, os novos parceiros fizeram bem à alma. Eu não estava sozinho. Ainda apostavam em mim como tenista, acreditavam no meu jogo. Essa sensação era mais bem-vinda do que dinheiro” (grifo nosso) – págs. 177-178.

Consciência da própria grandeza, sem soberba

“Conversando com a equipe numa Copa Davis, Thomaz Koch falou que as pessoas que alcançam o sucesso precisam aceitar que merecem esse posto. O sucesso não é natural nem uma coisa simples para um brasileiro. Eu precisava me convencer diariamente de que era o melhor jogador de tênis do mundo. Tinha de construir isso todo dia na minha cabeça, aceitar os meus méritos, me permitir incorporar a ideia, me sentir confortável com isso. O disco rígido na minha mente não foi programado para isso. Por mais que minha família me incentivasse, a cultura jogava contra. (...) No Brasil, de maneira geral, convivemos com o hábito de depreciar nossa capacidade e nossos valores” (grifo nosso) – pág. 297.

“Para mim, ser campeão é uma mentalidade, um estado de espírito. O adversário pode até ser superior, mas o campeão entra em quadra sabendo que, mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor grau de dificuldade, vai ficar com a taça. Mesmo derrotado, ele se sente imbatível. Sua aura vitoriosa é inabalável. Esse é o paradoxo do grande campeão” (grifos nossos) – pág. 368.

Ao retirar a pressão sobre si próprio, a tendência é o seu jogo aumentar de nível

“Desesperançado, ganhei o game seguinte e a partida ficou 5-3* para ele no terceiro set. Nada que mudasse o cenário. Russell [americano Michael Russell, 122º do ranking mundial na partida em que atravessou o caminho de Guga rumo ao tricampeonato de Roland Garros, nas oitavas de final] sacou e o game ficou em 40/30, o match point na mão dele. A essa altura, eu não me importava mais com o que ia acontecer. Como no jogo contra o Medvedev no Roland Garros de 1997 [ano do primeiro título naquele torneio], mandei tudo às favas e, para descontar a raiva, joguei o ponto de qualquer jeito. Num rali de mais de vinte bolas, eu batendo cada vez mais forte, acertei duas vezes a linha, e não é que ganhei o ponto? Empatei, 40 iguais” (grifos nossos) – página 305.

*Aqui cabem algumas explicações sobre o jogo de tênis. Esse é disputado em melhor de 3 ou 5 sets, dependendo do torneio. Para quem acompanha o voleibol, no esporte do Bernardinho – outro dos “Caras” - é disputado numa melhor de 5 sets, ou seja, quem ganha 3 sets primeiro vence. Em Roland Garros ocorre o mesmo. As partidas são em melhor de 5 sets. Sobre o jogo de tênis em si, cada set é composto por games – pequenas partidas em que o jogador deve vencer 4 pontos, numa sequência que vai de 15-30-40-ponto final. Caso empatem em 40 (os 40 iguais citados no livro), o vencedor deverá conquistar dois pontos seguidos para fechar o game. Para se ganhar um set é necessário que o jogador ganhe no mínimo 6 games, com uma diferença de dois games para o perdedor. Caso empatem em 6 games, é disputado um tie-break – um game especial com uma nova pontuação, em que cada ponto vale 1 simplesmente, ganhando aquele que atingir 7 pontos primeiro. Quando o jogador está prestes a fechar um game, ele tem o que se chama de game point. Para fechar um set, de set point. E para fechar uma partida (match), um match point. Para uma jogada ser considerada válida, a bola atirada pelo jogador deve cair dentro dos limites da quadra, considerando-se “dentro” se ela tocar o mínimo que seja uma das linhas que a delimitam, o que é uma jogada de extremo risco e dificuldade. Por isso a menção especial no trecho “acertei duas vezes na linha”, ressaltando o feito alcançado.

Obstinação

“Existe pouca coisa pior para um jogador do que duvidar de sua capacidade. Só os obstinados são campeões. Derrotas podem ser compreensíveis, às vezes inevitáveis, mas jamais aceitáveis. O tenista pode perder algumas vezes de um cara excelente, mas depois tem que ganhar, pois sempre existe um caminho para vitória e questão é encontrá-lo. É bobagem essa história de que é na derrota que se aprende a ganhar. Perder uma partida tem, sim, seus ensinamentos e lidar com a frustração é uma lição necessária para todo tenista. Mas, no dia em que um jogador se conforma com resultados desfavoráveis, já era, pode pendurar as chuteiras. O que ensina a ganhar é a soma das experiências, dos treinos, dos desafios, das derrotas e das vitórias, sendo que vencer tende a ensinar mais que perder. A vitória é o combustível do vencedor, seu alimento, o propulsor para triunfar cada vez mais” (grifos nossos) – pág. 329.

Ser brasileiro


“Nasci num país que me indicava o sentido oposto e, através de um caminho longo e repleto de obstáculos, construí uma carreira de sucesso. De longe parecia impossível, de perto a cada dia estávamos mais certos. Não era para passar de um sonho o que hoje brindamos como realidade. Com suor, sorrisos e lágrimas aconteceu comigo o que poderia acontecer com qualquer brasileiro” (grifo nosso) – pág. 372.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Um Lugar Chamado Liberdade

Moleque, quando eu ouvia a música “Lêlê, lêlê, lêlê, lêlê, lêlê, lêlê, lêlê / Lêlê, lêlê, lêlê, lêlê, lêlê, lêlê, lêlê / Vida de nêgo é difícil, é difícil como quê / vida de nêgo é difícil, é difícil como quê” na voz de Dorival Caymmi, sabia que a novela Escrava Isaura (1), de 1976, entraria no ar. Nela, a personagem-título interpretada por Lucélia Santos passava o pão que o diabo amassou até ter o seu maior desejo conquistado: liberdade!

Dizem que as telenovelas têm algumas fórmulas, métricas mesmo, para garantir o sucesso. Nada tão diferente, provavelmente, dos folhetins que eram publicados nos jornais durante o século XIX e boa parte da primeira metade do século XX. Ou ainda do que se cravou como sucesso absoluto na história da literatura brasileira via José de Alencar, com os romances “O Guarani” (1857), “Iracema” (1865) ou “Lucíola” (1862), por exemplo (2).

Pois bem. Se tem um autor que em suas obras mais recentes nos leva a rememorar tais caminhos, pela lógica da construção da narrativa e, obviamente, com um linguajar mais moderno, este seria Ken Follet. Neste mesmo blog tivemos a oportunidade de analisar seu último tour de force, a trilogia “Queda de Gigantes”, que além do primeiro livro homônimo teve ainda como segundo e terceiro volumes, respectivamente, “Inverno do Mundo” e a “Eternidade por Um Fio”. Nestes ele segue a trajetória de cinco famílias em diferentes países, que têm suas vidas cruzadas em função de estarem no centro das ações das grandes potências globais, geradoras de duas Guerras Mundiais e um ambiente de Guerra Fria.

Acredito que, fruto do esforço de pesquisa para a escrita das obras acima citadas, Follet ainda teria ficado com o que poderíamos chamar de “rescaldo”. Enquanto em “Queda de Gigantes”, a origem de uma das famílias que teve sua trajetória seguida eram as minas no País de Gales, em “Um Lugar Chamado Liberdade” – Ed. Arqueiro (a mesma da trilogia com a qual comparamos) – São Paulo – 2014 – 400 páginas – ele remonta aos mineiros de carvão localizados na Escócia no século XVIII.


Vocês poderiam alegar que aí existe um ligeiro desvio temporal, dado que em “Queda de Gigantes” o autor em questão traçou sua rota a partir do final do século XIX. Porém, todos os elementos que constavam numa obra se encontram na outra, sendo feitos os devidos ajustes pela diferença no tempo – o amor não correspondido (3); a luta pela sobrevivência em condições desumanas; senhores de escravos, credores de gente de bem, mas ignorantes de seus direitos, etc. A própria sentença, introdutória ao título, diz muita coisa: “Separados pela Diferença Social, unidos pela Busca por (...)”.

Em “Um Lugar Chamado Liberdade”, Mack MacAsh, logo no início, mineiro subordinado à família Jamisson, descobre que pela legislação britânica teria direito à liberdade desde que não completasse, após a maioridade, 1 ano e 1 dia de trabalho nas minas. Tal ato jurídico era de desconhecimento total das famílias lá instaladas, que ofereciam seus rebentos para os Jamisson automaticamente, desde o batizado. Estamos em tempos de que os EUA ainda eram colônia da Inglaterra, e os debates em torno da liberdade do país americano começavam a ganhar força pelos lados de cá do Atlântico. Ou seja, ideias libertárias vagavam pelo mundo, e estas moveram MacAsh em busca de seu intento.

Ken Follet
O livro em si prende, como todo bom folhetim, mas fica aquela sensação de que já vimos isso antes, de que já sabemos o final dessa estória – aquele pensamento que nos rondava (ronda!?) quando começamos a acompanhar uma novela: sabemos que o mocinho fica com a bela moça no final, mas queremos acompanhar assim mesmo seu duro trajeto até que consiga seu objetivo (4). Mas ninguém, nenhum leitor pode dizer que foi pego desavisado. Follet entrega o que promete. Uma boa estória, ambientada num passado em que as emoções não eram expostas em mídias sociais, mas no relacionamento direto entre diferentes classes sociais em busca de uma resposta própria do que deveria ser o mundo, ou como seria um mundo ainda melhor.

Como curiosidade
uma versão em Inglês
do livro contendo na capa
a co-protagonista feminina.
(3)   “Durante uma visita dos Jamissons à propriedade, Mack acaba encontrando uma aliada incomum: Lizzie Hallim, uma jovem bela e bem-nascida, mas presa em seu inferno pessoal, numa sociedade em que as mulheres devem ser submissas e não têm vontade própria” – contra-capa.

(4)   Contrariamente do que está exposto na contra-capa do livro – “Ken Follet é um mestre absoluto em criar tramas complexas e emocionantes” – eu não diria que são complexas. Mas a emoção está sim, lá, presente.