sábado, 10 de março de 2018

Tudo Urge no Meu Estar Tranquilo


Sou leitor de prosa. Minha vida praticamente inteira tem sido ler prosa e escrever prosa, além de escrever sobre prosa. Poesia apenas quando criança, ou quando estava tremendamente inspirado pelas emoções. Talvez eu seja analítico, racional demais para ter uma mente profícua em poesia. Porque poesia para mim é isso – palavras impulsionadas por emoções.

Por isso quando ganhei um livro de poesias, com direito a dedicatória do autor, fiquei um pouco surpreso. Mas não sou de fugir de desafios da literatura. Em “Tudo Urge no Meu Estar Tranquilo”, de Luiz Felipe Leprevost – Editora Encrenca – Curitiba – 2017 – 116 páginas – somos inundados por emoções. Isso garante emoções ao leitor? Isso depende da sensibilidade de cada um.

A impressão que eu tenho, como leitor de prosa, é de que os escritores de prosa, diferentemente dos poetas, escrevem em sua maioria para uma terceira pessoa. Já o poeta escreve para si mesmo, mesmo tendo uma inspiração externa. Ele quer externar suas emoções para encantar. E somente encanta quando fica satisfeito consigo mesmo. O olhar é interior, e não exterior. O “meu estar tranquilo” de Leprevost.

A estrutura do livro, para quem está acostumado a ler capítulos, seções, etc, causa estranheza. Os poemas não têm títulos. Não se sabe quando um começa e o outro termina. Se intui por um espaçamento diferenciado ou por uma mudança sutil de tema. No início, para um leitor como eu, isso irrita. Fico procurando uma lógica – mas poesia não é para ter lógica. Talvez seja essa a diferença também entre paixão e o amor maduro. Não quero dizer que o amor maduro tem lógica. Estamos falando de sentimentos, ora bolas. Mas é um “estar tranquilo” entre dois, e não é o “meu estar tranquilo” isolado.

Luiz Felipe Leprevost (Fonte: www.globo.com)
A única divisão a qual Leprevost se permite são duas dedicatórias em meio ao livro (existem também poemas específicos dedicados), o que faz com que a obra aparente ter 3 partes. A primeira – chamemos de introdução ao universo linguístico e performático do autor – que não é dedicada a ninguém (seria a ele mesmo?), inicia-se com uma citação de Gregory Corso, poeta americano – “Tudo é resposta / não preciso saber a resposta”, a qual achei particularmente sintomática como sensação a qual tive durante toda a leitura. Sou um homem de respostas. Mas os poetas nos oferecem não-respostas. A segunda, denominada “Isso sempre me pareceu furioso” (pág. 53), é dedicada à Bruna, com uma citação ao autor Antonio Cisneros, poeta peruano – “É difícil fazer amor mas se aprende”; e a terceira, “Na cidade do século XXI” (pág. 91), dedicada à Guilherme Daldin, comunicador paranaense, com uma citação de William Blake, poeta inglês – “e porque sou feliz e danço e canto / acreditam que não me fizeram / nenhum dano”.

Da qualidade do texto em si, como não sou um expert, não me atreveria a fazer considerações. Posso falar somente do que mais me agradou. E nesse sentido se destacaram para mim os poemas curtos, de no máximo 4 versos, encerrado numa estrofe simples. Seria, talvez, a versão Leprevost para os hai kais japoneses? A impressão que me ficou é que para os poemas mais longos ele se perdia na mensagem que queria (?) passar. Mas os poetas, egoístas como aparentam ser, algumas vezes não se preocupam com a mensagem clara, mas sim em expor o que vem à mente, movidos, mais uma vez, pelos fortes sentimentos que estão lhes tocando.

Outro ponto que notei foi que justamente o autor aproveitava alguns desses pequenos poemas como trechos de seus poemas mais longos. Seria como se ele os tivesse anotado num post it anteriormente, no próprio livro, para depois inseri-los num outro contexto, que ele construiria com mais calma mais à frente.

Não tenho como encerrar esta análise dizendo “recomendo” ou “não recomendo”. Este mundo é tão diverso do qual eu estou acostumado, que seria leviano da minha parte apontar algo nesse sentido. Enfim, a poesia nunca foi para ser entendida, mas sentida. E se este é o parâmetro a que eu deveria me ater, eu diria para vocês que meu sentimento foi de estranhamento. Busquei lógica aonde necessariamente ela não deveria estar. Enfim, abaixo lhes deixo um pequeno exemplo do que encontrarão no livro se se interessarem por esta jornada:

os pés, guerreiros nos nossos corpos
vão pela imposição da gravidade
sustentando o que está em cima
na emergência, na irreflexão dos dias

e voltam da voragem da noite
exauridos de andar sobre narizes brancos
e grudentas poças de cerveja barata

até que finalmente podem descalçar
seus tênis sujos e mudar de posição
deixando que os cacos de vidro que
trouxeram da rua se dissolvam

e só então, como ternuras deitadas
debaixo do cobertor do resguardo
voltam os quatro a se ninar e mimar
agradar, nutrir, acarinhar e afagar
(pág. 62)

sábado, 3 de março de 2018

O MAR INFINITO


Séries distópicas infanto-juvenis viraram uma moda no século XXI. Filmes e livros retratam, em sequência, um futuro pessimista para a humanidade. Catástrofes naturais, invasões de alienígenas, destruição pelas nossas próprias mãos via guerras empreendidas, etc. A saga iniciada com a obra “A 5ª Onda”, de autoria de Rick Yancey não é diferente.

O livro por mim lido – e agora resenhado, “O Mar Infinito”, é o segundo na sequência de estórias sobre como alienígenas dominam a Terra buscando a eliminação da humanidade por intermédio de ataques sequenciados – as “ondas” – efetuados de diversos modos. Tal lógica remete, de leve, à Bíblia e o relato das 7 pragas do Egito. Tais alienígenas se fazem presentes tendo, aparentemente, sido incorporados por humanos desavisados, que “emprestaram” seus corpos para os invasores.

Este, porém, é apenas o pano de fundo para mais uma vez revelar heróis precoces – adolescentes e até crianças (lembraram de “Divergente”?) – que de algum modo conseguem escapar de seus captores e buscam ser a redenção da espécie humana. Tendo como aliado de primeira mão o suposto alienígena Evan Walker, dotado de qualidades sobre-humanas, uma trupe de sete jovens – Ben (Zumbi), Especialista, Teacup (7 anos) – no primeiro filme da saga o personagem é retratado como uma adolescente (interpretada pela atriz Talitha Bateman), Cassie, Pão de Ló, Dumbo (12 anos) e o pequeno Sam (5 anos) – estão isolados logo no início desse segundo capítulo da saga num hotel abandonado.

Cassie está apaixonada por Evan Walker, que no final de “O Mar Infinito” causou um incidente que propiciou a oportunidade da fuga dos demais. E o grupo está reunido, liderado por Ben – eventual concorrente de Walker pelo coração de Cassie - apenas no aguardo do surgimento do alienígena-aliado, que havia prometido se juntar a eles. Porém, como já estão há muito tempo nessa espera, decidem enviar a adolescente Claire (Especialista) para verificar se existe um espaço mais seguro para se esconderem junto a cavernas em montanhas próximas. Walker, por sua vez, tem seus próprios problemas para se juntar ao grupo, que são deslindados durante a obra.

A questão colocada pelo autor está vinculada aos dilemas básicos que os adolescentes e pré-adolescentes enfrentam – confiança, amor precoce, enfrentamento aos conceitos estabelecidos – com a perspectiva de terem que identificar uma solução para superarem seres com tecnologia superior, e que estão em vantagem numérica e tática – afinal, os alienígenas conseguiram se travestir de humanos, cooptar alguns (ah, os humanos e suas pequenas ganâncias) e incutir a dúvida na cabeça de todos tanto quanto a quem são seus aliados e quais são seus próximos passos.

Rick Yancey - www.rickyancey.com
Assisti a primeira trama – “A 5ª Onda” – nos cinemas. E a sensação que saí da sala foi de quero mais. Ter um ator da qualidade de Liev Schreiber no papel do principal alienígena do mal (Coronel Vosch) ajuda. A segunda obra instigou ainda mais essa curiosidade, acrescentando elementos interessantes principalmente no terço final do livro de 248 páginas editado pela Fundamento e publicado no Brasil em 2015. O primeiro terço é dedicado a apresentar as distintas visões de cada um dos principais personagens sobre a sequência inicial. Assim temos diferentes narradores, o que cansa a princípio. Gosto mais deste tipo de artifício em romances policiais e/ou de suspense, que dão sustentação a uma narrativa. Em ficção científica distópica busca-se mais ação do que discurso. Em que pese o blábláblá político de “Jogos Vorazes” também ter funcionado.

O livro ganha em dinamismo quando se concentra em Walker e na Especialista. Esta última se revela, então, diferentemente do que poderia ter sido entendido pela obra cinematográfica do primeiro capítulo, personagem central da trama. Para Cassie Sullivan são reservados novos momentos de protagonismo no terceiro capítulo, denominado “A Última Estrela” – e devidamente já adquirido para leitura dentro em breve.

Em resumo: para um curioso como eu, amante de livros e ficção científica, vale a pena. Obra para um público específico, portanto. Porém, se alguém for iniciar diretamente por este segundo capítulo, poderá não ser fisgado de imediato e deverá ter um pouco de paciência – além de, talvez, para acelerar o processo de imersão, ter que recorrer ao filme ou livro inicial para melhor se contextualizar.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

O PAPEL DA PROPRIEDADE INTELECTUAL NO DESENVOLVIMENTO DO URUGUAI: DIAGNÓSTICO E PERSPECTIVA

No ano de 2010 algumas instituições do governo uruguaio reuniram-se para desenvolver um estudo que pudesse apontar os desafios que aquele país deveria enfrentar de maneira a ter um desenvolvimento social, econômico e tecnológico que tivesse como eixo principal o estabelecimento e uso de uma política nacional de propriedade intelectual. Tais instituições – Agência Nacional de Pesquisa e Inovação, Escritório de Planejamento e Orçamento da Presidência da República, com o apoio ainda da Direção Nacional de Propriedade Industrial, unidade vinculada ao Ministério de Indústria, Energia e Mineração e do Professor Carlos Correa, argentino com grande reconhecimento pelo tema – a partir ainda do auxílio financeiro do Programa “Unidos na Ação” (UNA) da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) e da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, alcançaram o objetivo em pelo menos traçar um retrato que pode vir a ser útil se efetivamente implantado.

Passados 8 (oito) anos desta iniciativa, ao ler o livro que surgiu a partir deste trabalho, pode-se perceber que muito do que foi identificado naquela ocasião serve como espelho para os demais países da América Latina. Desafios similares, dificuldades e limites muitas vezes idênticos quase nos levam a afirmar que as soluções que foram apontadas muito provavelmente também são próximas do que poderiam ser adotadas por outras nações. Claro que cada um dos países, ao observar o que foi descrito, perceberá que as devidas adaptações têm que ser feitas as suas próprias realidades.

Agora, uma questão surge de imediato: o que mudou nos últimos anos que poderia afetar diretamente o diagnóstico então alcançado? Naquela ocasião o mundo recém acabava de ser sacudido por mais uma crise econômica – aquela gerada pelo mercado imobiliário norte-americano e suas subprimes. Mas tinha-se a consciência de que o desenvolvimento de políticas industriais sólidas, em que pese as dificuldades identificadas, poderiam ser o alicerce necessário para o grande salto uma vez resolvidas as questões de curto-prazo.

No caso uruguaio, a interlocução entre os agentes, dado o diminuto espaço geográfico, diz o bom senso deveria ser facilitado por uma proximidade física. Mas nunca se deve esquecer que em políticas públicas – e isso não é uma exclusividade da banda oriental do Rio da Prata – a boa vontade dos tomadores de decisão faz uma grande diferença. Porém, muitas vezes esses tomadores se veem pressionados pelas tais questões de curtíssimo prazo, o que os leva a buscar resultados somente neste horizonte, relegando a segundo plano estratégias que viriam a dar resultado somente no longo prazo, e desviando-os do curso desejado.

Esta triste realidade, infelizmente, ainda nos cerca a todos como latino-americanos, o que indica que a resposta à pergunta acima é de que pouco mudou. Observando-se as negociações comerciais que nos vemos envolvidos, sendo, ainda, países não possuidores de uma indústria de base tecnológica vasta e bem desenvolvida, nos voltamos como prioridade máxima à obtenção de mercados para os nossos produtos primários – agrícolas ou de minério. Compartilhamos este mesmo ensejo muitas vezes, e de tão enredados não conseguimos nos desvencilhar de tal lógica dado não termos cumprido, por vezes, as estratégias básicas de proteção de nossas economias – com a diversificação das indústrias internas - que nos permitiriam a solidez para ultrapassar as crises econômicas mundiais sem ter que reverter nossas decisões em favor de resolver questões prementes que poderiam desestabilizar nossos mercados preferenciais e a sociedade em geral a qual estamos inseridos.

O grande mérito do trabalho realizado naquela ocasião, então, pelos especialistas do Uruguai, foi estabelecer um marco, uma semente que poderá vir a ser útil no futuro, quando um ambiente favorável, tanto externamente quanto internamente, ao diagnóstico e às soluções apresentadas surja, fazendo que as soluções propostas frutifiquem. Da seção denominada Agenda Estratégica (págs. 133-139) se podem tirar as seguintes conclusões como ações necessárias – no caso específico se referem ao Uruguai, mas vamos tomar a liberdade de expandir os conceitos para toda América Latina:

Ø   Colocar a Propriedade Intelectual como marco (eixo) das políticas de desenvolvimento de nossos países;
Ø  Desenvolver estudos setoriais de impacto que permitam tomar decisões estratégicas;
Ø Abrir espaço, nas negociações internacionais, para a livre circulação de bens e serviços;
Ø  Fortalecer a conduta inovadora das empresas, fomentar a pesquisa para buscar solucionar problemas de interesse nacional (regional), e vincular os centros de pesquisa e a academia com as empresas;
Ø Contar com recursos humanos com qualificação em áreas específicas assim como em Propriedade Intelectual;
Ø  Desenvolver o empreendedorismo e a inovação, aumentando o conhecimento sobre Propriedade Intelectual como base para este processo;
Ø Dar condições para que as instituições governamentais especializadas em Propriedade Intelectual e Inovação possam atuar para o desenvolvimento de tais políticas, ao abrigo de estratégias financeiras e administrativas favoráveis, mesmo em meio às crises econômicas, observando o ganho sustentado a longo prazo que a sociedade terá;
Ø  Desenvolver as capacidades de gestão dos ativos intangíveis pelos diversos atores dos sistemas de inovação, principalmente por intermédio de diagnósticos pautados pela informação tecnológica disponível – em documentos de patente, por exemplo; e
Ø  De modo a dar o devido retorno à sociedade, equilibrar os direitos entre os desenvolvedores de tecnologia e seus usuários, de modo a não gerar distorções de mercado, e propiciar acesso ao conhecimento para impulsionar o desenvolvimento tecnológico por intermédio de uma maior multiplicidade de atores.

Para os leitores que queiram estudar um pensamento que pode gerar discussões interessantes em relação aos países latino-americanos, também fica o exemplo de um esforço interno efetuado por um país para melhor compreender suas condições de ação. Imaginemos nós se um dia, em conjunto, todos caminhassem na mesma toada, a partir de uma percepção comum da necessidade da estruturação de um mercado tecnológico para a região inteira, com os mesmos objetivos, ao invés de buscarem lutar por espaços próprios, a partir de interesses individualizados? Tenho certeza de que aí estaríamos caminhando para um novo cenário, com passos firmes, no qual a Propriedade Intelectual seria enxergada como deve ser: um instrumento que serve de alavanca para uma sociedade avançada em termos sociais e econômicos.


El objetivo de la prospectiva (…) no es predecir lo que va a suceder – el futuro es incierto y transformable – sino comprender las lógicas del cambio, para anticipar y preparar a tiempo y producir las rupturas necesarias para que se produzcan ciertas transformaciones. Se ocupa de poner en evidencia las consecuencias colocadas muchas veces en futuros no visualizados, en un presente que debe hacerse cargo de todas sus implicancias (oportunidades y riesgos), y no apenas de algunas de ellas (págs.38 e 39).

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Tecendo Textos 2017

Neste primeiro post de 2018 não vou escrever sobre um livro especificamente – mas sobre um projeto, que acaba redundando num livro. O projeto Tecendo Textos, no ano recém findo, organizado pelo Colégio La Salle ABEL, alcançou sua 7ª edição. Ele tem como objetivo reunir as 3 melhores redações de cada turma durante o ano, desde o 2º ano do Ensino Fundamental até o 3º ano do Ensino Médio.

Os textos são reunidos de forma em que não se apresenta determinado qual deles é o melhor. É um compilação e ponto. Não existem medalhas de ouro, prata e bronze. Reunidos, transformam-se em livro, para cujo lançamento são convidados os parentes destes precoces autores. Minha filha teve textos selecionados por duas vezes – a primeira em 2014 e a segunda ano passado – 2017.

Ir. Marcelo Piantkoski, diretor
do Colégio La Salle ABEL
discursa na cerimônia de 
entrega dos livros (27/11/2017).
Fonte: http://www.lasalle.edu.br/abel/sobre-o-colegio/noticia-detalhe/15439

Ela se mostrou espantada pelo fato d’eu ter o interesse em ler todos os textos. Minha curiosidade enquanto leitor é justamente verificar quais ideias vagueiam nas mentes de nossas crianças, adolescentes e jovens. Muito mais do que verificar a qualidade da escrita – algo que também observei, crítico como sou – estava objetivando descobrir se a formação de mentes respeitava uma certa pluralidade ou se havia um viés que estava sendo “imposto”.

No campo das ideias os seguintes aspectos me chamaram atenção:

·         Os mais novos centram sua atenção nas relações mais próximas, amigos, família;
·         Nestes ainda, os pequenos prazeres do dia a dia fazem diferença, algo que infelizmente vamos perdendo pouco a pouco com o passar do tempo – alguns retomando somente mais para o final da vida;
·         Impressionante como mesmo nessa idade já se vê a influência do capital – dinheiro – como mola propulsora dos desejos. Inclusive com a menção em moeda estrangeira – dólares, por exemplo;
·         A presença como tema dos chamados jogos eletrônicos é interessante não somente por marcar a característica de uma época como que também para dar proximidade a realidade vivida pelos autores;
·         A percepção de que vivemos numa sociedade em que o egoísmo e a intolerância se fazem presentes é clara. Talvez por serem temas escolhidos pelos coordenadores, no trabalho pedagógico a ser desenvolvido por intermédio das redações. Mas o mais importante é verificar se estes são bem descritos em seus aspectos centrais, o que denotaria o sucesso no impulso ao raciocínio sobre as matérias propostas;
·         Infelizmente pude perceber que alguns autores relativizaram o egoísmo. De fato, quando o egoísmo é visto como mola propulsora para o avanço na vida – mas aí se dá, talvez, a confusão com a não percepção do perigo da ambição desmedida;
·         Como dito anteriormente, a proximidade com a realidade do dia a dia traz à baila, para os leitores de gerações mais antigas, o confronto com um novo contexto. A internet se faz presente como algo comum, inclusive estimulador, por exemplo, à leitura – dado ser visto como um novo meio para tal.

A respeito deste último ponto observado, certa feita havia lido um artigo que justamente apontava o hábito do envio de mensagens escritas, quer seja por SMS, WhatsApp, e-mail... como um resgate do hábito da escrita, o que poderia levar uma melhoria no linguajar utilizado. Claro que sempre corremos o risco de consolidar novos vícios de escrita, mas sabemos que a linguagem, o idioma, não é algo estático, mas sim dinâmico, que se transforma com o passar do tempo.

Outro aspecto que chama a atenção é que se nota a preocupação, principalmente nos textos do Ensino Médio, em se construir um raciocínio com início, meio e fim, fazendo inclusive uso de citações de filósofos – algo incomum para minha geração escolar. Claro que na minha época não se havia acesso a tanta informação como hoje, de maneira facilitada. Porém também acredito que isto seja reflexo da preparação para o ENEM – cuja nota em redação tem grande peso – assim como da ampliação das matérias como Filosofia e Sociologia dentro das escolas, algo inexistente há alguns anos.

Porém, existe um dado que me pareceu preocupante. É claro que os textos são uma amostra do grupo total de alunos. De todo modo, considera-se uma amostra relevante, pois em tese tratam-se dos melhores textos. Não me pareceu, porém, que existe uma abertura para distintas abordagens. Todos eles seguem uma mesma tendência de opinião final – a tal temida “visão única” – não refletindo uma pluralidade de opiniões que seria salutar em tal medida, numa fase de amadurecimento do ser humano.

Ok, eles estão sendo confrontados com um contexto prático – vocês serão obrigados a opinar sobre um determinado tema. O objetivo principal será ter uma redação bem escrita – aliás, os erros de datilografia (ou falta de revisão) no livro chamaram atenção negativamente e é algo a ser observado para as próximas edições. Mas isto não pode significar necessariamente um pensamento único. E se isso acontece é reflexo não da filosofia da escola, mas sim do grau de uniformização da formação do corpo docente. Não estamos aqui falando em qualidade do professor – mas sim que ideias prega junto aos alunos. Mas será que eles deveriam pregar alguma? Será que eles não deveriam apresentar diferentes projetos para a sociedade de modo a fazer com que os alunos reflitam eles próprios e decidam que caminho percorrer?

Uma coisa é discernir, com bom senso, o que é o certo e o errado para a convivência em comunidade – e isso me parece ser feito de maneira adequada, dado os textos do Ensino Fundamental. Porém, os textos do Ensino Médio apontam, perigosamente, para uma única visão política da sociedade. Estaria assim se perdendo a oportunidade de se estimular “o pensar”, as diferentes opiniões sobre um mesmo tema. E dado que os mesmos formadores do alunato são aqueles que fazem a escolha dos “melhores” textos, isso acaba refletindo num corpo de escrita que divulga, mais uma vez, essa visão única.


De todo modo, o projeto é belíssimo. Estimular a leitura e a escrita, demonstrar que o trabalho bem feito traz retorno, e que os alunos são capazes de expor suas preocupações podem contribuir para uma sociedade melhor, com menos ansiedade sobre os objetivos a serem alcançados na vida. Argumentar com palavras é a melhor forma de combater a violência do dia a dia que nos assola.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Religião Também se Aprende

Para os católicos em geral existe uma batalha diária sendo travada. Ela diz respeito a como justificar, além da simples manifestação de fé, paradigmas de sua religião diante de um mundo novo.

Este desafio foi enfrentado com sabedoria pelo Padre Hélio Libardi, na obra “Religião Também se Aprende – Vol. 10”, da Editora Santuário – Aparecida, SP – 2003 – 96 páginas. Apesar de ter 14 anos, mantém-se atual, abordando inúmeras dúvidas que surgem a partir do cotidiano de um leigo frente às dificuldades do dia a dia.

Dividido por áreas temáticas – casamento, comportamento, cotidiano, crer ou não crer, Deus Pai, Igreja, modernidade, pecado, práticas cristãs, santos e unção dos enfermos – e com um linguajar leve, é obra de fácil leitura para todos. Esclarece diversas questões como se estivesse conversando contigo num banco de praça.

Eu mesmo venho observando com o passar do tempo, e é notória a adaptação do discurso de alguns religiosos aos fenômenos dos tempos atuais. O próprio Papa Francisco se notabilizou por enfrentar diretamente diversas dessas questões, sem fugir de nenhuma delas.

A confusão se inicia quando as pessoas se prendem ao discurso literal da Bíblia. A Bíblia chegou a nós através dos tempos por tradição oral, até o momento em que houve a preocupação de se ter um registro escrito do que era passado adiante entre os cristãos. As mensagens e histórias ali presentes tinham que respeitar o contexto da época e o público-alvo. Por isso a profusão de metáforas existentes.

A concepção de Paraíso e o surgimento da mulher (numa sociedade machista por natureza) são os exemplos mais notórios. Estes tinham como objetivo simplificar para o povo mais simples o entendimento dos conceitos de pecado e da origem do homem, dado o pouco conhecimento científico da época. Sim, a religião católica hoje em dia convive bem com o avanço da Ciência, obviamente mantendo seu entendimento como filosofia a respeito das questões expostas pelo meio científico. Não necessariamente este entendimento é abraçado por todos.

Este é o primeiro do entendimento que para os leigos é necessário: a contextualização da mensagem. De resto, os dois principais mandamentos servem como balizadores do restante da vida católica: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei; e amar a Deus acima de todas as coisas. Imagine se as pessoas, independentemente de religião, seguissem tais preceitos? O mundo seria um lugar muito melhor para se viver, sem dúvida!

Vinculado a isto teríamos o respeito mútuo e a percepção de que existe um algo maior que todos nós, o que nos daria o devido entendimento da nossa pequenez diante das coisas. Cada problema seria dimensionado como deveria ser: como um problema a ser resolvido, e nada mais do que isso. Soluções existem para quase tudo, como diz a sabedoria popular. Portanto, porque não trabalhar isso de maneira harmônica com o próximo? Se cada um de nós tivesse isso em mente, começando por si próprio, talvez essa corrente se espalhasse e todos veríamos um círculo virtuoso se formando.

Mas, isso também não tem que ser visto como uma obrigação. O próprio conceito de culpa e pecado também é abordado pelo Padre Hélio, flexibilizando essa auto-imposição de um martírio que os católicos parecem carregar. Somos humanos, sujeitos a falhas, e temos que saber conviver com elas, tendo-as como aprendizado para não voltar a cometê-las no futuro. Mas elas também não podem ser um peso em nossas vidas! Religião também se aprende, e deve ser um alívio, e não um fardo.

Deixo com vocês, abaixo, a transcrição de uma das seções do livro para entenderem o que lhes expus acima:

Um simples olhar já é pecado? – páginas 73-74

A desorientação e a falta de formação de consciência fazem muita gente sofrer e viver atormentada. Quantas se julgam em pecado por causa de um olhar, de um pensamento.

Aqui entra o grande problema de quem forma sua consciência segundo a letra da Lei. Embora Jesus tenha dito e mostrado pelas curas feitas em sábado e pelas espigas arrancadas pelos discípulos que a Lei não salva ninguém, há quem se sinta seguro agarrando-se à letra da Lei. De fato não é fácil romper o cerco de tantos anos de catequese e de velhas listas de pecado. A Lei é excelente, mas ela é indicadora do caminho e não o próprio caminho. É isso que leva Paulo a dizer que as leis existem por causa das transgressões.

Assim acontece com os leitores distraídos do texto: “Quem olhar para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mt 5,28). Não percebem que o que faz o pecado é a maldade.

Ver é um ato normal, não podemos andar de olhos vendados, a realidade está na nossa frente, ninguém pode induzir-nos a ser como certos santos que nem sequer olhavam para o rosto da própria mãe, se é que isso é verdade.


É certo também que devemos fazer a vigilância, porque quem não se policia, resguarda-se, vai ter uma mente fecunda em imagens e situações que facilmente os levarão ao desequilíbrio ou ao erro. (...) Uma mente mais aberta é mais saudável para todos. (...).

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A CIDADE & A CIDADE

Em 1994, a partir da chacina ocorrida em Vigário Geral que matou 21 pessoas, Zuenir Ventura escreveu o livro “Cidade Partida”. Nesta ele busca apresentar os dois lados da equação para tentar compreender a violência e seu predomínio no dia a dia da cidade. A vida nas comunidades carentes é colocada como contraponto em relação à sociedade de classes mais abastadas que se organiza em marchas pela paz.

Não tendo lido a obra, mas compreendido seu impacto e a tendo como referência desde sempre, dado ser sempre utilizada como parâmetro de um reflexo real do ponto alcançado – e que se tem mantido ou piorado com o passar dos anos – em termos da divisão da sociedade carioca entre pobres e desamparados e a classe média e média-alta, me vejo de repente à frente da leitura da obra de China Mieville – A Cidade e a Cidade – 1ª edição – São Paulo – Ed. Boitempo, 2014 – 292 páginas, exatos 20 anos depois da publicação da obra de Ventura.

Interessante notar que o contexto para o qual o autor britânico, nascido em 1972, se dedica na verdade gira em torno de temas como o terrorismo e o sectarismo de sua comunidade, talvez impulsionado por uma Europa caminhando para a extrema direita e reativa à entrada de imigrantes. Mas a semente comum de ambos é a violência, e como ela se torna fato gerador de um desenrolar de acontecimentos. No livro de Zuenir, documental, realístico, a chacina de Vigário Geral é o gatilho. No livro de Mieville – e, como bem observado pela minha filha, o nome do autor está em letras garrafais na capa, o que demonstra sua importância como elemento pensante perante o público leitor (eu nunca tinha ouvido falar dele antes, é bom que se diga) – tudo se inicia a partir do assassinato de uma mulher que é investigado pela polícia da cidade-estado de Beszél, localizada em algum lugar nos Balcãs, mais especificamente pelo inspetor Tyador Borlú, protagonista e narrador da estória fictícia.

Violência, portanto, é o pano de fundo de duas obras. Ambas tratam também da divisão das sociedades. Porém no livro de Mieville o contexto é um pouco mais complicado. E aí chego ao ponto do gancho para o que me atraiu para a obra. Não por ser um romance policial, gênero o qual aprecio, mas não seria um elemento suficiente para que eu a adquirisse. Mas sim um singelo comentário colocado na contracapa – “Um assassinato misterioso que se passa numa paisagem urbana à Blade Runner” (Shortlist – referência a um site especializado em literatura).

Blade Runner com certeza é uma referência muito forte no meu imaginário. Não tenho dúvidas de que a partir daí é que fui tentado a adquirir um livro que parecia um policial prosaico de um autor desconhecido, rotulado como esquerdista, e que “foi duplamente contemplado pelo British Fantasy Award, recebeu três vezes o Arthur C. Clarke Award e, justamente por A Cidade & a Cidade, ganhou o Hugo Award, o prêmio mais importante dedicado aos livros de ficção científica”.

Essa era a minha expectativa, então. Um livro de ficção científica, policial, que me traria de volta o sentimento de um Blade Runner lido. O grande elemento inovador e que desafia o leitor, no entanto, é algo complexo, no mínimo. A estória não se passa somente em Beszél, mas também em outra cidade-estado, Ul Qoma, sua “vizinha”. Por que as aspas? Porque ela é uma vizinha incomum. Na verdade Ul Qoma ocupa o mesmo espaço físico de Beszél. Deu um nó na cabeça? Piora ainda mais. Imagine, duas cidades no mesmo lugar. Os seus habitantes proibidos de interagir com seus “vizinhos” e sendo obrigados a “desver”, “desouvir”¹ qualquer coisa relacionada a eles, fingindo que eles não existem, mas tendo que desviar de suas pessoas e veículos enquanto transitam por áreas compartilhadas – existem áreas que não o são, o que traz um certo alívio para nossa mente.

Pior ainda, caso elas transgridam essas regras – das quais aprendem desde cedo, enquanto crianças – estão sujeitas a serem presas por conta de um poder superior à ambas as cidades denominado Brecha – enquanto lia não podia deixar de imaginá-los como os dementadores de Harry Potter. Se eles transgrediam, cometiam “brecha” e desapareciam.

A conclusão que cheguei, juntando todos estes elementos – perfil do autor, violência, ficção científica – foi que China Mieville criou uma alegoria para retratar o incômodo que os cidadãos europeus possuem com o novo mundo. Estes são obrigados a desver e desouvir os imigrantes africanos ou de outros países, não querendo uma interação com eles. A luta na estória acaba sendo travada por grupos unionistas, para os quais não tenho dúvidas de que o próprio Mieville se identificaria. Borlú, seu protagonista, apresenta sentimentos antagônicos e inconformistas com relação a esta questão, apesar de aceita-la e tentar conviver com ela.

De modo a não tornar este grito contra a injustiça social um libelo esquerdista simplório², o autor utiliza de todo o seu talento para demonstrar as cicatrizes abertas que não saram. Existe um poder – a Brecha – constituído para manter as coisas tal qual elas são. Que poder seria esse, no mundo real?


Mieville pode não gostar, mas ele é um mestre do soft power clássico – cultivar mentes e paixões com cultura. Se vocês me perguntam: afinal, o livro vale a pena? Diria que já li melhores. Mas a narrativa é tão inovadora – e confusa, para quem não tem paciência e coragem para se jogar na imaginação - que vale a pena lê-lo para estar um passo adiante na compreensão sobre o que a criatividade do ser humano pode gerar.

            1 – O livro tem sua estrutura tão complexa que foi objeto de um comentário final do tradutor Fábio Fernandes, o qual reproduzo em parte aqui:

Mais difícil do que traduzir um bom texto é traduzir um bom texto ruim – mas de propósito. (...) Narrado em primeira pessoa pelo detetive Tyador Borlú, (...) o livro é uma investigação em mais de um sentido: o primeiro, mais óbvio, sobre um crime (...) e o segundo, mais sutil, mas não menos interessante, sobre os limites e as possibilidades de um idioma. (...) Ao tradutor, coube respeitar a intenção do autor e dar o melhor de si para que uma impressão semelhante pudesse ser transmitida aos leitores brasileiros.

            2 – Além disso, a editora, abaixo de uma caricatura do Laerte sobre a retirada de muros, aponta na última página:

Publicado em 2014, quando a grande mídia mundial festeja os 25 anos da queda do Muro de Berlim – data que também marca os 20 anos do início das obras do muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México; os 16 anos do início das fundações do muro entre Ceuta e Melila, no Marrocos espanhol; os 12 anos da construção do Muro da Cisjordânia, por Israel; os 2 anos desde que foi colocado em pé o Muro de Evros, entre Grécia e Turquia; e os 164 anos da promulgação da Lei de Terras no Brasil (...).


Sociedades divididas, enfim...

sábado, 7 de outubro de 2017

A Maleta da Sra. Sinclair

A mala continuava embaixo da cama esperando que os tesouros fossem retirados, esperando que a tampa fosse aberta e o conteúdo agarrado por mãos trêmulas de anseio. Se ela estendesse a mão, poderia tocar aquele sonho que não era mais um sonho. Dessa vez, era sólido, grande e inesgotável. (pág. 29)

A Segunda Guerra Mundial já rendeu uma série de romances e histórias. Momentos de crise são particularmente férteis para a produção de dramas que nos tocam, dado que são muito próximos de uma realidade que nos parece peculiarmente particular.

A obra de estreia de Louise Walters – A Maleta da Sra. Sinclair – Ed. Planeta – 2015 – 352 págs – se enquadra perfeitamente neste perfil. Tendo trabalhado por 6 anos numa livraria, provavelmente sua experiência particular lhe municiou de diversos artifícios para moldar uma das protagonistas da obra, a personagem Roberta Pietrykowski. Justamente ela também trabalha numa livraria – com o sugestivo nome de Old & New, dado que também revendia livros usados. Como ela – Roberta – tinha a mania de vasculhar os livros que eram deixados para revenda à procura de cartas e outras lembranças esquecidas, numa delas encontra algo diretamente vinculado a sua história familiar.

Mas Roberta vive no mundo de hoje, o mundo do imediatismo. Livros, palavras escritas numa folha de papel, dificilmente se prestam à ânsia por informação imediata. Ela passa então por um grande período de investigação e angústia até encontrar a verdade. Em paralelo a isso, revê sua própria trajetória, profissional e de relacionamentos mal resolvidos, dar uma reviravolta.

Porém o livro contém mais uma protagonista. A outra seria a Sra. Sinclair, que dá o nome a obra e que era a destinatária da carta encontrada por Roberta logo no início do romance. Dado que a carta remete à uma história passada durante a Segunda Guerra, nós, leitores, fazemos uma viagem para aquela época para entender o que a motivou e que tipo de vínculo ela possui com a Srta. Pietrykowski, tantos anos depois.

Isso nos leva a ponderar: o que os escritores são, afinal, que não pescadores de histórias que ou estão em suas memórias ou os rodeiam no dia a dia? Com certeza Walters se valeu da vivência que teve como livreira. Mas não foi somente isso. Teve todo um trabalho de pesquisa que avivou sua produtividade enquanto escritora. Viver num ambiente literário ajuda a acender e manter uma chama acesa por um dia “tentar ao menos, quem sabe...”. E tentar um futuro melhor foi a razão de ser de suas duas protagonistas.


Lousie Walters
Podemos dizer que o romance é lido rapidamente, pois nos toca e nos emociona. A autora, formada em literatura, teve o orgulho de vê-lo se espalhar rapidamente por 12 países. Quando o escritor tem a oportunidade e percebe que sua mensagem chega a tantos, e sendo esta mensagem a do amor e da solidariedade, enfrentadas as dificuldades da vida – e quantas dificuldades existiram durante a Segunda Guerra!? – acredito que não pode haver maior regozijo de sua parte. Que venham outros romances, Louise Walters, que venham outras cartas, histórias, livros, vida enfim que nos envolve. Afinal, sua estreia deixou um gosto de quero mais.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Tecnologia e Educação

A crítica a uma obra literária pode, grosso modo, ser dividida em duas abordagens: o formato literário em si, no qual o autor se apoia para expor um argumento ou narrar uma estória; e a importância da matéria, objeto central do que está sendo exposto.

O primeiro tipo de crítica é mais objetivo. O leitor pode ou não ser confrontado com um texto de fácil percepção, no qual as ideias estão expostas de maneira clara e os argumentos são de uso comum. Ou então pode estar diante de um texto hermético, criado para uns poucos iniciados.

O segundo tipo de crítica tendo a ser mais subjetivo. Não necessariamente o que é importante para o leitor A o é para o leitor B. E vice-versa. Neste contexto, como definir o que é realmente importante? Existe uma saída nesse mundo baseado em premissas do politicamente correto. Há temas que a sociedade necessariamente abraça não somente como necessários, mas relevantes para o seu futuro. Tecnologia e educação se enquadrariam nessa última categoria.

Feito este breve prólogo abordarei inicialmente o tema em si. E posteriormente como ele foi apresentado. Estive em contato com ele durante uns bons meses, de leitura compassada, da tese do Dr. Jorge Rodrigues de Mendonça Fróes, denominada “Tecnologia e Educação – das máquinas à técnica, uma abordagem segundo Gilbert Simondon¹” – Editora Blucher Acadêmico – 2010 – 230 páginas.

No mundo atual se existem dois eixos que norteiam o futuro de nações inteiras esses são o desenvolvimento tecnológico e o nível educacional de suas populações. Somente países que possuam um alto grau em ambas as matérias estão fadados a compor o grupo dos chamados desenvolvidos.

Dessa forma o autor não poderia ter escolhido melhor campo em termos de impacto para sua análise. Porém, o viés por ele identificado foi num âmbito micro, qual seja, o impacto da inserção da tecnologia no sistema educacional. Óbvio que passados 7 anos da publicação e estudo realizados hoje em dia se percebe muito sedimentada esta noção em termos de cruzamento ferramental. Não existe um processo educacional que prescinda do uso das tecnologias que se encontram à disposição, quer seja dos docentes quer seja do corpo discente.

Porém, o que Fróes coloca é o quanto a máquina – o computador, a internet – se torna não somente um meio, mas também um ator nessa equação educacional. Ou seja, como esta instrumentalização influencia de fato na formação do intelecto do aluno enquanto indivíduo e estudioso. Com o advento e a consolidação da internet como o meio preferencial para pesquisas este aspecto se tornou mais claro ainda. Muitas vezes iniciamos uma busca para embasar um determinado conceito e nos vemos enredado por novas ideias e possibilidades.

[Um instrumento] antes de ser técnico, é social, existindo em função do papel que desempenha no ambiente onde é utilizado, inserido em uma ampla distribuição administrativa, política, social e mesmo erótica. (pág. 109)
 
Desta forma, a tese de Fróes joga luz sobre esta interação, pautada pela experiência do próprio autor na introdução dos computadores nas escolas de ensino primário e secundário. Ele pode ser testemunha ocular do desenvolvimento de um novo tipo de aluno e de uma nova abordagem professor-aluno. Não que isto tenha ocorrido sem resistências.

Ao falarmos de educação estamos falando de um meio extremamente conservador que busca preservar fórmulas de sucesso e aprendizado, muitas vezes perdendo as oportunidades de inovação que vêm a surgir em conjunto com um novo instrumental que se coloca à disposição. Ter essa clarividência – de que a abordagem da tecnologia tem que ser pensada e planejada levando-se em conta o que ela traz para o aprendizado que vai muito além de um meio, mas como um fator que influência a construção do pensamento – é a principal lição que nos deixa o autor. Ele cita, por exemplo, o pesquisador J. A. Valente, que por intermédio da obra “O Computador na Sociedade do Conhecimento” (2002), discorre sobre as dificuldades iniciais da introdução deste novo elemento num sistema educacional pré-estabelecido:

Embora a mudança pedagógica tenha sido o objetivo de todas as ações dos projetos de informática na educação, os resultados obtidos não foram suficientes para sensibilizar ou alterar o sistema educacional como um todo (...) principalmente pelo fato de termos subestimado as implicações das mudanças pedagógicas propostas (...): a mudança na organização da escola, na dinâmica na sala de aula, no papel do professor e dos alunos e na relação com o conhecimento. (pág. 158)

O formato

Porém, o formato adotado não foi dos mais fáceis para se passar essa mensagem. A começar por ser um meio teórico com o qual este que vos escreve não tem tanta familiaridade – a Psicologia – o que por si só já faz com que parte do método de leitura seja dedicada a aprender novos conceitos, a escrita em si se demorou muito tempo no discorrer do embasamento – algo natural para um texto originado a partir de uma tese de doutorado.

O leitor passa um grande tempo esperando a entrada da experiência prática, da inserção do que está sendo apresentado como teoria consubstanciada em fatos concretos, até mesmo para melhor compreender o que está sendo proposto. Ele se vê enredado em explicações sobre instrucionismo, construcionismo, individuação, concepção ontogenética, misoneísmo, transdução e metaestabilidade, dobra criativa, hilemorfismo, cognitivismo computacional, etc, que acaba desanimando na continuidade da leitura.

A minha dificuldade particular foi tão grande que pela primeira vez preferi adotar uma nova tática para finalizar a leitura. Passado metade do livro passei a ler os capítulos de trás para frente. Com isso busquei ter acesso imediato à conclusão, esclarecendo de uma vez por todas qual era o objetivo do livro, que para mim ainda estava obscuro. E de fato funcionou.

Os capítulos finais são mais objetivos, com mais subdivisões, o que facilita o entendimento dos conceitos expostos. Além disso, estes são mais práticos e próximos da realidade dos leigos na matéria, pois ultrapassa aspectos teóricos para abordar temas referentes à interação entre usuário-máquina, algo tão comum a todos em época de mídias sociais diversas.

Por tudo que disse acima reputo este como um dos livros de mais difícil leitura que já enfrentei. O desafio foi grande. O que me motivou é o interesse constante na compreensão de novos temas, o aspecto central da matéria para entender como a sociedade se organiza e evolui nos dias de hoje, e o meu compromisso com o próprio autor, o qual conheço pessoalmente. Desafio posto, desafio enfrentado, desafio superado. Como o próprio autor coloca:

O referido vínculo [entre cultura e técnica] está exatamente na propriedade dos objetos técnicos como transdutores de subjetividade. Esta constatação evidenciou o acerto de nossa abordagem inicial, quando associamos a produção de subjetividade à utilização de objetos técnicos, discutindo a questão da produção de subjetividade a partir das máquinas, como uma chave para o entendimento da técnica. (pág. 218).


(1)   Gilbert Simondon: filósofo, estudioso da Tecnologia e professor de Psicologia da Universidade Paris I (onde fundou o Laboratório de Psicologia Geral e de Tecnologia), (...) publicou, em 1958, Du Mode d’Existence des Objets Techniques, livro que fundamenta e consagra sua posição contrária ao conflito entre técnica e cultura (...) (pág. 39).