Sou
leitor de prosa. Minha vida praticamente inteira tem sido ler prosa e escrever prosa,
além de escrever sobre prosa. Poesia apenas quando criança, ou quando estava tremendamente
inspirado pelas emoções. Talvez eu seja analítico, racional demais para ter uma
mente profícua em poesia. Porque poesia para mim é isso – palavras impulsionadas
por emoções.
Por isso
quando ganhei um livro de poesias, com direito a dedicatória do autor, fiquei
um pouco surpreso. Mas não sou de fugir de desafios da literatura. Em “Tudo Urge
no Meu Estar Tranquilo”, de Luiz Felipe Leprevost – Editora Encrenca – Curitiba
– 2017 – 116 páginas – somos inundados por emoções. Isso garante emoções ao
leitor? Isso depende da sensibilidade de cada um.
A
impressão que eu tenho, como leitor de prosa, é de que os escritores de prosa,
diferentemente dos poetas, escrevem em sua maioria para uma terceira pessoa. Já
o poeta escreve para si mesmo, mesmo tendo uma inspiração externa. Ele quer
externar suas emoções para encantar. E somente encanta quando fica satisfeito
consigo mesmo. O olhar é interior, e não exterior. O “meu estar tranquilo” de
Leprevost.
A
estrutura do livro, para quem está acostumado a ler capítulos, seções, etc, causa
estranheza. Os poemas não têm títulos. Não se sabe quando um começa e o outro
termina. Se intui por um espaçamento diferenciado ou por uma mudança sutil de tema.
No início, para um leitor como eu, isso irrita. Fico procurando uma lógica –
mas poesia não é para ter lógica. Talvez seja essa a diferença também entre
paixão e o amor maduro. Não quero dizer que o amor maduro tem lógica. Estamos
falando de sentimentos, ora bolas. Mas é um “estar tranquilo” entre dois, e não
é o “meu estar tranquilo” isolado.
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| Luiz Felipe Leprevost (Fonte: www.globo.com) |
A única
divisão a qual Leprevost se permite são duas dedicatórias em meio ao livro
(existem também poemas específicos dedicados), o que faz com que a obra aparente
ter 3 partes. A primeira – chamemos de introdução ao universo linguístico e
performático do autor – que não é dedicada a ninguém (seria a ele mesmo?),
inicia-se com uma citação de Gregory Corso, poeta americano – “Tudo é resposta
/ não preciso saber a resposta”, a qual achei particularmente sintomática como
sensação a qual tive durante toda a leitura. Sou um homem de respostas. Mas os
poetas nos oferecem não-respostas. A segunda, denominada “Isso sempre me
pareceu furioso” (pág. 53), é dedicada à Bruna, com uma citação ao autor Antonio
Cisneros, poeta peruano – “É difícil fazer amor mas se aprende”; e a terceira, “Na
cidade do século XXI” (pág. 91), dedicada à Guilherme Daldin, comunicador
paranaense, com uma citação de William Blake, poeta inglês – “e porque sou
feliz e danço e canto / acreditam que não me fizeram / nenhum dano”.
Da
qualidade do texto em si, como não sou um expert, não me atreveria a fazer
considerações. Posso falar somente do que mais me agradou. E nesse sentido se
destacaram para mim os poemas curtos, de no máximo 4 versos, encerrado numa
estrofe simples. Seria, talvez, a versão Leprevost para os hai kais japoneses?
A impressão que me ficou é que para os poemas mais longos ele se perdia na
mensagem que queria (?) passar. Mas os poetas, egoístas como aparentam ser,
algumas vezes não se preocupam com a mensagem clara, mas sim em expor o que vem
à mente, movidos, mais uma vez, pelos fortes sentimentos que estão lhes
tocando.
Outro
ponto que notei foi que justamente o autor aproveitava alguns desses pequenos
poemas como trechos de seus poemas mais longos. Seria como se ele os tivesse anotado
num post it anteriormente, no próprio
livro, para depois inseri-los num outro contexto, que ele construiria com mais
calma mais à frente.
Não
tenho como encerrar esta análise dizendo “recomendo” ou “não recomendo”. Este
mundo é tão diverso do qual eu estou acostumado, que seria leviano da minha
parte apontar algo nesse sentido. Enfim, a poesia nunca foi para ser entendida,
mas sentida. E se este é o parâmetro a que eu deveria me ater, eu diria para
vocês que meu sentimento foi de estranhamento. Busquei lógica aonde necessariamente
ela não deveria estar. Enfim, abaixo lhes deixo um pequeno exemplo do que
encontrarão no livro se se interessarem por esta jornada:
os pés, guerreiros nos nossos corpos
vão pela imposição da gravidade
sustentando o que está em cima
na emergência, na irreflexão dos dias
e voltam da voragem da noite
exauridos de andar sobre narizes brancos
e grudentas poças de cerveja barata
até que finalmente podem descalçar
seus tênis sujos e mudar de posição
deixando que os cacos de vidro que
trouxeram da rua se dissolvam
e só então, como ternuras deitadas
debaixo do cobertor do resguardo
voltam os quatro a se ninar e mimar
agradar, nutrir, acarinhar e afagar
(pág. 62)











