terça-feira, 20 de novembro de 2018

JORGE LUIS BORGES


Diferentemente do que faço normalmente, o post desta vez irá girar em torno de um autor e sua produção poética. Tal fato foi motivado pelo presente recebido e que me serve de base para algumas considerações por este ícone argentino que é Jorge Luis Borges. O presente a que me refiro trata-se um volume que compila 3 obras dele – “El Outro, El Mismo”, “Para las Seis Cuerdas”, e “Elogio de la Sombra”, publicadas em conjunto pela Editora Sudamericana, de Buenos Aires, neste ano, contendo 272 páginas do linguajar “lamentoso” que a meu ver se sobressai. Mas este linguajar seria típico de Borges? Ou dos argentinos como um todo?

Fonte: https://articulo.mercadolibre.com.ar/

Conhecia fama de Borges como escritor de contos, mas nunca me estimulei ao ponto de comprar algo. Provavelmente pela minha rejeição ao chamado realismo fantástico dos escritores sul-americanos, corrente com a qual se identificam, por exemplo, Gabriel García Márquez (Colômbia), Manuel Scorza (Peru), Mario Vargas Llosa (Peru), Julio Cortázar (Argentina), Arturo Uslar Pietri (venezuelano considerado o pai do realismo mágico), Murilo Rubião (Brasil), José J. Veiga (Brasil), Alejo Carpentier (Cuba), Miguel Angel Astúrias (Guatemala) e Carlos Fuentes (México). Nesta busca-se fundir o universo mágico à realidade, mostrando elementos irreais ou estranhos como algo habitual e corriqueiro. Além desta característica, o realismo mágico apresenta os elementos mágicos de forma intuitiva (sem explicação).

Borges realmente ganharia fama internacional a partir da década de 30 do século passado através dos contos, e não da poesia. Porém, esta – a poesia – casa muito bem com a corrente do realismo fantástico, dada a sua própria definição acima relatada. Ora, poesia é um gênero literário caracterizado pela composição em versos estruturados de forma harmoniosa. É uma manifestação de beleza e estética retratada pelo poeta em forma de palavras. No sentido figurado, poesia é tudo aquilo que comove, que sensibiliza e desperta sentimentos. É qualquer forma de arte que inspira e encanta, que é sublime e bela. Assim que não me estranha que seus versos também sejam decantados como impactantes.

De todo modo, da compilação da Editora Sudamericana especificamente falando, algumas coisas me chamaram a atenção. Na própria apresentação na contracapa são ressaltados alguns elementos, objetos centrais dos textos que a compõem: Buenos Aires, menções à cultura grega e anglo-saxã*, literatura – poemas dedicados a autores diversos – e filosofia, com especial enfoque ao homem como um ser único em suas características. Além disso os enfrentamentos entre dois ou mais personagens – enredos de embates à faca são comuns, o que traz uma ambiguidade de identificação, já que “milonga” tanto pode ser definida como isto, como também um gênero musical ao qual o autor possuía admiração. Deve-se ressaltar que, ao princípio, a milonga era um tipo de poema cantado, onde as letras eram mais importantes do que a música. Ou seja, aí temos mais uma referência coerente. Por último, Borges também apresenta predileção pelos temas da ética e da velhice, preocupação natural para alguém que observou sua capacidade de criação ser limitada a partir de uma determinada idade por conta de problemas com a evolução de um quadro de cegueira.

*Parte de sua formação foi nesse idioma, o qual está presente apenas uma única vez, num poema de até fácil leitura (págs. 22-25 – Two English Poems), demonstrando a minha tese de ficamos muito mais confortáveis para expressar nossos dotes artísticos em nosso idioma natal, dada as maiores possibilidades em termos de repertório, por mais que dominemos um idioma estrangeiro.

Assim, enquanto seguia a leitura das poesias de Borges, me peguei por diversas vezes na esperança de que na página seguinte eu fosse brindado com um ou outro conto. Isto só veio a acontecer na terça e última parte – “Elogio de la Sombra”, a partir da página 193. Desse modo, para um leitor que tenha o mesmo perfil que o meu – não tão afeito a poesias – o livro não deixa de ser um pouco frustrante. Mas para quem gosta de poesia, trata-se de uma oportunidade para entrar em obras de referência de um dos mais conhecidos autores latino-americanos.
Foto originalmente de autoria de Grete
Stern, exposta no Museu Nacional
Centro de Arte Reina Sofia

O último elemento que gostaria de abordar como útil nesta obra é a caracterização da alma argentina. Borges é reconhecido como um autor que retrata como poucos tal “personagem”. Definir a “argentinidade” é um dilema até para os próprios argentinos. E sua dificuldade se compara a tentar tirar uma foto de um pêndulo em movimento. Como o instrumento, os argentinos oscilam entre extremos: sua característica básica é alternar picos de euforia com períodos de intensa depressão.

Há que de todo modo se evitar confundir o argentino com o portenho – habitante de Buenos Aires que tem como uma das principais características o autoelogio. Para mim se faz muito mais presente no argentino o lamentar. Ok, talvez eu esteja influenciado pelo senso comum que os vincula ao tango e suas tristes estórias. Borges apresenta uma estética majoritariamente triste, e assim confirma, por seu viés, essa minha impressão. Me despeço por aqui, com um recado do próprio para seus leitores, sobre a inevitabilidade de nosso fim:

A QUEM ESTÁ LENDO-ME

Es invulnerável. Não lhe deram
Os números que regem teu destino
Certeza do pó? Não seria por acaso
Teu tempo irreversível o daquele rio
Cujo espelho Heráclito viu o símbolo
Da sua fugacidade?[1] Te espera o mármore
Que não lerás. Nele já estão escritos
A data, a cidade e o epitáfio.
Sonhos do tempo são também os outros,
Não firme bronze ou ouro;
O universo és, como tu, Proteo[2].
Sombra, irás a sombra que te aguarda
Fatal nos confins da tua jornada;
Pensa de que algum modo já estás morto.

Livre tradução – página 119

Fontes:





[1] Borges confronta Heráclito, filósofo baseava suas ideias na lei fundamental da natureza, de modo que, segundo ele, “Tudo flui” e “Nada é permanente, exceto a mudança”. Borges nos coloca como sermos seres predestinados, nosso rumo já estaria traçado – a morte, apesar de toda mudança em sua trajetória.
[2] Deus marinho que podia mudar de forma à sua vontade / gerou o prefixo na língua portuguesa que designa aquele que muda com facilidade de forma ou de opinião.

sábado, 3 de novembro de 2018

HOMO DEUS - uma breve história do amanhã


Skynet é o nome tanto da empresa fictícia da série de filmes Exterminador do Futuro que gerou a inteligência artificial (IA) que acaba se rebelando contra os humanos quanto do sistema de geomonitoramento e vigilância contra ações suspeitas de terrorismo também baseada no tratamento de dados via IA – e com resultados polêmicos, como pode ser observado aqui - http://atl.clicrbs.com.br/infosfera/2016/02/18/skynet-a-inteligencia-artificial-do-filme-o-exterminador-do-futuro-existe-e-esta-matando-pessoas-entenda/ e aqui https://hypescience.com/skynet-existe/  .

No livro Homo Deus, de Yuval Noah Harari – Ed. Companhia das Letras – 2016 – 443 páginas – o autor se aprofunda num dos temas que já havia sido tratado como pilar na obra anterior – Sapiens, já tratada aqui neste blog. E este gira em torno justamente para que lado a humanidade avança dado o predomínio do que ele chama Dataísmo – a religião dos dados.

“Uma tecnorreligião mais ousada está buscando cortar definitivamente o cordão umbilical humanista. A religião (...) que não venera nem deuses nem o homem – venera dados. Segundo o dataísmo, o Universo consiste num fluxo de dados e o valor de qualquer fenômeno ou entidade é determinado por sua contribuição ao processamento de dados. (...) Simultaneamente, nas oito décadas desde que Alan Turing formulou a ideia da máquina que leva seu nome, cientistas da computação aprenderam a projetar e fazer funcionar algoritmos eletrônicos cada vez mais sofisticados. (...) O dataísmo (...) faz ruir a barreira entre animais e máquinas com a expectativa de que, eventualmente, os algoritmos eletrônicos decifrem e superem os algoritmos bioquímicos” - (HARARI, 2016 -págs. 369-370) – grifo nosso.

Como neste blog fazemos um juízo de valor da qualidade literária das obras, devemos dizer primeiramente que esta encontra-se um ponto abaixo da anterior. Justamente porque se aproveita desta repetindo uma série de definições que lá já estavam, como para que introduzir com o devido embasamento seu tema central – este acima exposto. Levando-se em conta que o livro tem no total 443 páginas, já contando com índices e bibliografia consultado (algo que consome 42 páginas) temos em torno de, somente, 30 páginas de efetiva novidade (aproximadamente 7% de todo o livro). Ou seja, parece uma perda de tempo - para quem leu o livro anterior! Um leitor desavisado, que iniciasse sua aventura no mundo de Harari por Homo Deus não teria uma perda grave de conhecimento.

Fonte: http://caminhandoporfora.sul21.com.br/2017/09/29/sapiens-e-homo-deus-yuval-noah-harari/

Vamos, agora, ao tema em si. De uma certa maneira as 30 páginas cruciais são aterradoras para quem teme o poder que a IA pode assumir. Tenho amigos que possuem a mesma preocupação – e estão bem acompanhados de Elon Musk e Stephen Hawking (https://olhardigital.com.br/noticia/google-toma-precaucoes-para-que-sua-inteligencia-artificial-nao-vire-a-skynet/59014). Porém, se observarmos nosso entorno, a própria Google é um exemplo de como já estamos inseridos numa caminhada sem volta. Cada vez mais somos surpreendidos com as facilidades que a tecnologia cria para nossas atividades do dia a dia. A todo momento somos bombardeados com informações e ofertas que “incrivelmente” são aderentes aos nossos gostos. Minha esposa sempre pergunta: “Mas como eles sabem que eu preciso disto, agora, nesse momento!?”, com um olhar atônito para o celular.

Tudo isto tem uma explicação bem simples: o poder da computação dos metadados, a partir de algoritmos inteligentes, já está chegando o ponto em que o cineasta James Cameron havia antecipado. “Os dataístas (...) acreditam que os humanos não são mais capazes de lidar com os enormes fluxos de dados, ou seja, não conseguem mais refiná-los para obter informação, muito menos para obter conhecimento ou sabedoria. O trabalho de processamento de dados deveria, portanto, ser confiado a algoritmos eletrônicos, cuja capacidade excede muito a do cérebro humano. Na prática, os dataístas são céticos no que diz respeito ao conhecimento e à sabedoria humanos e preferem depositar sua confiança em megadados e em algoritmos computacionais” (pág. 371).

Uma pequena pincelada das afirmações impactantes:

Ø  Segundo o dataísmo, as experiências humanas não são sagradas, e o Homo Sapiens não é o ápice da criação (...) [383-384];
Ø  Humanos são apenas instrumentos para a criação da internet de todas as coisas que eventualmente poderá se estender para fora do planeta Terra para cobrir a galáxia e até mesmo o Universo (384);
Ø  Esse sistema de processamento de dados cósmico seria como Deus. Estaria em toda parte e controlaria tudo, e os humanos estão destinados a se fundir dentro dele (384);
Ø  Os dataístas explicam aos que ainda cultuam mortais de carne e osso que eles estão excessivamente atrelados a uma tecnologia ultrapassada. O Homo Sapiens é um algoritmo obsoleto (384).

Humanos, tremei, portanto. O autor ainda aponta para alguns mandamentos dessa nova tecnorreligião: (1) Maximizar o fluxo de dados, conectando-se cada vez mais as mídias, produzindo e consumindo mais e mais informação; (2) Conectar tudo ao sistema, inclusive hereges que não querem ser conectados. E “tudo” quer dizer mais que do que humanos. Quer dizer tudo quanto é coisa. Meu corpo, é claro, mas também os carros na rua, as geladeiras na cozinha, as galinhas em suas gaiolas e as árvores na floresta – tudo deveria se conectar à internet de todas as coisas; e (3) não podemos deixar nenhuma parte do Universo desconectada da grande rede da vida. Inversamente, o maior dos pecados é bloquear o fluxo de dados. O que é a morte senão uma situação na qual as informações não fluem? Por isso o dataísmo sustenta que a liberdade de informação é o maior bem de todos (HARARI, 384-385).

É bom que se diga que o autor não faz uma defesa do Dataísmo, mas o apresenta como ele se encontra e como está evoluindo na mente das pessoas, sejam cientistas ou o cidadão comum, este imerso numa avalanche diária sem se dar conta. Harari mesmo coloca que um “exame crítico do dogma dataísta seja não apenas o maior desafio científico do século XXI como também o mais urgente projeto político e econômico” (grifo nosso – pág. 396). Estaríamos assim navegando entre as benesses que o avanço tecnológico nos traz e o risco de sermos minimizados como espécie que decide seu próprio futuro. De repente não posso deixar de me lembrar daquela visão de pessoas reunidas em restaurante, mas dando mais importância em inserir dados sobre o seu cotidiano – comida, onde estou, com quem estou – nos seus celulares do que interagindo com os seus amigos.

OBS.: Outro livro que abordou, porém, ainda no campo ficção, este mesmo tema, é Origem, de Dan Brown, também já resenhado por aqui.

sábado, 1 de setembro de 2018

Sapiens - Uma Breve História da Humanidade


Quando alguém se propõe a decifrar a si próprio está diante de um enorme desafio. Imagine então uma pessoa que busca decifrar... toda a humanidade? De um certo modo foi o que Yuval Noah Harari, autor israelense de Sapiens – Uma Breve História da Humanidade o fez. A obra, a qual tive acesso em sua 26ª edição, da editora L&PM, publicada no ano passado, possui 464 páginas surpreendentes.

Fonte: www.bondfaro.com.br
O historiador Harari aponta para cada um dos preconceitos que possuímos em relação à origem da sociedade como hoje concebemos a partir da visão da evolução da espécie Homo Sapiens. Todas as contradições antes escondidas – sim, escondidas no sentido de que não a víamos ou não conseguíamos encontrar – são postas à mesa e espantam a todos os convidados da festa que é a leitura de seu livro.

Não teve um só momento em que eu não me espantasse com suas afirmações e raciocínio, trazendo à baila não somente fatos, mas questões de ética que deixamos passar à frente de cada um dos nossos narizes como se achássemos – e creio que achamos mesmo – a coisa mais normal do mundo. Uma questão interessante, vista bem mais à frente no livro, é quando ele aponta para as perspectivas futuras da humanidade – algo que ele vai explorar mais a fundo no seu livro seguinte, denominado “Homo Deus” e que em breve será também resenhado por nós.

Particularmente creio que a afirmação mais polêmica que ele o faz nesse contexto, olhando para o futuro, é a capacidade do homem de superar a morte. Isso mesmo, o homem, com o domínio da ciência, em algum determinado momento da História, se tornará amortal. Esse neologismo cunhado pelo autor significa dizer que não pereceremos mais de causas naturais, porém estaremos sempre suscetíveis a um acidente de carro, uma bala perdida, etc. Ou seja, não poderemos nos definir como imortais, pois a possibilidade da morte nos rondará por um infortúnio.

Esse grau de afirmação categórica – veja bem, ele não afirma que isto é para amanhã, mas aponta com convicção que esta nova fronteira científica será (ou até mesmo já estará) sendo antevista e enfrentada pelos pesquisadores – traz em seu bojo inúmeras outras questões. Harari aponta, por exemplo, como a questão da morte é basilar para o funcionamento conceitual das religiões. A morte seria assim um horizonte a partir do qual as pessoas se orientavam em termos de seus preceitos religiosos.

A perspectiva de uma vida finita faz com que as pessoas privilegiem o bem-estar pessoal. E com o endeusamento desse sentimento – a busca pela felicidade plena e constante – ao não ser atingido, as pessoas buscam as razões para tal infortúnio. E em tendo dificuldade para encontrá-lo, buscariam no divino e no sobrenatural a solução para os seus conflitos.

O autor passa ao largo da questão de fé. Particularmente, como católico, tenho uma visão muito específica da origem e do conceito religioso. Aqueles que vivem numa democracia exaltam muitíssimo o direito de escolha. E a fé é uma escolha acompanhada por uma convicção que, por mais irracional que pareça, se sobrepõe a eventuais explicações científicas.

Porém, observem, isso não quer dizer que eu sou contrário ou refuto as teses de Harari. Apenas quero dizer que por melhor que o livro dele seja – e é sensacional, podem acreditar – ainda assim existe espaço para a convivência com suas teses (e até de certo modo sua aceitação) e continuar sendo um religioso convicto, com a fé intacta.
Fonte: www.npr.org
Voltando para a obra em si ela está dividida em 4 partes – A Revolução Cognitiva; A Revolução Agrícola; A unificação da humanidade; e A Revolução Científica. É justamente nessa última que ele toca no ponto acima indicado, da visão do homem como a morte sendo uma falha técnica plenamente superável no futuro (não só a morte, como também o envelhecimento, pois não valeria a pena se manter vivo acompanhado das dores da derrocada física com o passar dos anos).

Nas 3 primeiras partes ele altera nosso modo de enxergar a evolução da humanidade e por consequência da sociedade na qual estamos inseridos. Esta parte do livro me parece irretocável. Nunca ninguém havia apontado de maneira tão clara nossos erros de concepção enquanto observadores de nossa própria História na qualidade de humanos. Esqueçam a divisão do mundo entre nações. Estamos falando de cada um de nós, como indivíduos, em qualquer ponto do planeta. Reputo como um livro daqueles que se tornou obrigatório em ser lido, para que possamos compreender de onde viemos – e talvez concordar com ele para onde vamos.

Dito isto, faço um desafio a vocês. Escolham entre as páginas 11 a 428, qualquer uma. Eu reproduzirei nos comentários abaixo – naqueles que preferirem, por outros meios de contato (e-mail, WhatsApp) – trechos do livro com afirmações surpreendentes e por vezes chocantes que Harari o faz até com um humor peculiar. Atenção: eu afirmo para vocês que não existe uma única página do livro que não deixe esta sensação.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

BONECO DE NEVE


Dificilmente elogio efusivamente um livro. Mas não há como negar que Boneco de Neve, obra do escritor norueguês Jo Nesbo, publicado no Brasil pela Record, cuja obra tive acesso já em sua 10ª edição (2017), com 420 páginas, é daqueles thrillers que te prendem do início ao fim. Você não quer largar o livro antes de saber o final da trama!!!!

Imagem: https://www.estantevirtual.com.br/

Dividido em 5 partes, Boneco de Neve retrata a caçada do detetive de Oslo, Harry Hole – um nome americano demais, eu diria – a um serial killer que, antes de assassinar suas vítimas (perfil: mulheres casadas, com filhos), constrói o dito boneco próximo às casas em que habitam, aproveitando a primeira nevada da temporada.

Acompanham Hole nessa caçada – diga-se de passagem que o personagem central é protagonista de outras 10 obras do autor [O morcego / Baratas / Garganta Vermelha / Casa da Dor / A Estrela do Diabo / O Redentor / O Leopardo / O Fantasma / Polícia, além de um ainda não publicado no Brasil, The Thirst (A sede)], o que de uma certa forma é quase inverossímil, dado o estado em que chega nesta – alcoólatra, se separando da mulher que ama e com a qual criava um filho, que não era seu[1]] – são o Skarre, um colega cético; Hölm, o perito; e a nova Katrine Bratt, recém-chegada da delegacia da pequena cidade de Bergen, que posteriormente – a cidade – vem a se mostrar central para trama.

A narrativa inicia-se com um flashback, recurso que é retomado de vez em quando para esclarecer ao leitor a origem de determinados pontos, isto sem perder o empuxo que é determinado pelo autor, frenético. Em determinado momento – acredito que com 2/3 do livro, ou seja, lá pela página 300, o leitor já tenha algumas teorias a respeito do assassino – o que quer dizer que não é uma estória inacessível no sentido de que as pistas dadas são suficientes para se chegar bem próximo de quem seria o assassino. Apesar disso, não é possível se ter certeza absoluta.

Mas o grande gancho no qual Nesbo fisga o leitor é que este se vê torcendo pela sua teoria – que aí já deve estar evidente em termos de que é a correta – ser confirmada e que o protagonista, em desabalada carreira – Harry Hole parece estar sempre prestes a obter a solução do mistério e a ter que sair correndo para fechar uma lacuna – possa prender ou alcançar aquele que é o objeto de seus piores pesadelos, num ritmo muito próximo do filme Catch Me If You Can, com Leonardo Di Caprio e Tom Hanks. Aliás, diga-se de passagem, Boneco de Neve virou filme também, tendo Michael Fassbender no papel de Hole.

Assim sendo, julgamos este como um daqueles livros que, para quem gosta de um bom suspense e ação de primeira, deve estar na sua prateleira. Para terminar, levando-se em conta a pequena história de vida do autor, entende-se porque seu protagonista é um outsider, no sentido de ser alguém externo ao lado confortável da vida que a sociedade nos impõe como padrão, algo que torna mais compreensível o universo em que seus personagens se inserem, o que não deixa de ser sedutor para a maioria dos leitores:
Foto: https://www1.folha.uol.com.br/

Before becoming a crime writer, Nesbo played football for Norway’s premier league team Molde, but his dream of playing professionally for Spurs was dashed when he tore ligaments in his knee at the age of eighteen. After three years military service he attended business school and formed the band Di derre ('Them There'). They topped the charts in Norway, but Nesbo continued working as a financial analyst, crunching numbers during the day and gigging at night. When commissioned by a publisher to write a memoir about life on the road with his band, he instead came up with the plot for his first Harry Hole crime novel, The Bat.
Fonte:
 https://jonesbo.com/jo-nesbo/#videos-DTu2H5VhnJI – acessado em 18 de Julho de 2018.

Enfim, recomendo com todas as minhas forças. E isso é raro!


[1] Ou como dito em https://jonesbo.com/harry-hole/ : A cult figure already after the first book, Hole is a genuine anti-hero; an impossible character yet impossible not to like.

sábado, 7 de julho de 2018

ORIGEM



“(...) comecei a conversa dizendo a verdade: que eu sempre havia considerado a religião como uma forma de ilusão de massas e que, como cientista, achava difícil aceitar que bilhões de pessoas inteligentes contassem com suas respectivas crenças religiosas para ser consoladas e orientadas”.
Pág. 57

A última obra de Dan Brown, conhecido autor de O Código Da Vinci entre outros, chama-se Origem. Editado pela Arqueiro, em 2017, o thriller contendo 432 páginas discorre sobre a estória de um brilhante cientista que desafia o conceito das religiões a partir da busca pela resposta a duas perguntas: De onde viemos? E para onde vamos?

Fonte: https://pausadramatica.com.br/
Edmund Kirsh, o cientista acima indicado, como não podia deixar de ser, é um conhecido e célebre colega do simbologista Robert Langdon, personagem central desta série de estórias de enigmas entrelaçados desenvolvida por Brown no decorrer dos anos. A narrativa se passa na Espanha, onde Kirsh tem como sede para suas pesquisas. Ele atrai a futura rainha daquele país, Ambra Vidal, então diretora do Museu Guggenheim em Bilbao, para receber uma de suas apresentações na qual ele se propõe expor suas teorias para responder tais perguntas e desmoralizar de uma vez o conceito religioso quanto à existência de um Deus criador.

Leitores como eu, católicos, ficam acompanhando a narrativa se perguntando como um autor de ficção como Brown irá expor uma teoria até então inexistente que poderia abalar a religião tal como a enxergamos hoje em dia. Fato é que mesmo após o lançamento, nada do que foi dito no livro gerou algum tipo de desdobramento, o que, como leitores, nos leva a crer que qualquer que fosse a teoria estaria no campo das hipóteses que não responderia tais perguntas de maneira a solapar a esperança e a fé de bilhões.

Particularmente tenho uma visão muito simples sobre este ponto: a teoria mais aceita até hoje pelo meio científico em relação à origem do universo – e da vida nele, este sim o ponto central da polêmica debatida no livro – é o Big Bang. Eu sempre digo que ela não é, de modo algum, contrária ao que a religião católica prega, pois os estudiosos mais modernos da Bíblia já esclareceram que, principalmente o Antigo Testamento, é uma peça ilustrativa no que diz respeito ao Gênesis, de modo a explicar de maneira simples para os povos da época conceitos de convivência em comunidade, indicando os preceitos determinados pela religião. Não é uma verdade literal dos fatos.

Feito este esclarecimento, o embate entre os chamados criacionistas e cientistas cai por terra. A minha pergunta central permanece, e sustenta toda a minha crença e fé em Deus: o que veio antes do Big Bang? Não existe resposta para esta pergunta, nem mesmo para um autor tão imaginativo como Brown.

Do livro em si, trata-se mais um daqueles que nos prende do início ao fim, dada a aceleração de acontecimentos que passam diante de nossos olhos. Brown soube com maestria aliar a nova linguagem de mídia, incorporando no corpo do texto exemplos de exposição na mídia eletrônica, mais especificamente na internet, de uma página imaginária com seus posts indicando o impacto da tecnologia e da disseminação da informação – mesmo que enganosa – via internet. A Conspiracy.net torna-se assim um personagem à parte da trama, meio que como um animador de auditório lembrando ao leitor o ritmo alucinante em que vivemos atualmente, bombardeados de informações nem sempre verdadeiras, para com as quais temos que ter o discernimento de separar o joio do trigo.


E é justamente esse esforço que o leitor é convidado. O livro vai num crescente até o momento da exposição da teoria propalada em seu início. O leitor fica na expectativa de conhecê-la, para refutá-la ou não com suas próprias crenças pessoais, religiosas ou científicas. Por trás disso tudo, pelo menos duas tramas paralelas que somente são desvendadas nos capítulos finais, e para as quais nem por um momento o leitor tem a mínima noção, demonstram como Brown é um tecelão de temas, apontando para talvez para as principais mensagens que queira passar para seus fãs: a importância da tolerância em nossa sociedade; e o perigo que estamos correndo em não saber lidar com o desenvolvimento e a inserção desenfreada da tecnologia em nossas vidas.

Por último, já nos agradecimentos – seção na qual descobrimos que pelo menos dois personagens foram denominados a partir de pessoas existentes na vida real – temos um insight de que talvez Brown tenha um desejo secreto com sua série de livros nos quais Langdon é protagonista. Ele diz: “Em primeiro lugar, ao meu editor e amigo Jason Kaufman, por seu conhecimento profissional (...); mas, acima de tudo, por (...) sua compreensão do que estou tentando realizar com essas histórias” (pág. 428). O que será? Os leitores vorazes de Brown teriam ideia?

Em sua página oficial ele é assim descrito:

The son of a mathematics teacher and a church organist, Brown was raised on a prep school campus where he developed a fascination with the paradoxical interplay between science and religion. These themes eventually formed the backdrop for his books. He is a graduate of Amherst College and Phillips Exeter Academy[1] (…).
Fonte : http://danbrown.com/ - acessado em 08/07/18

Podemos então imaginar que o principal objetivo de Brown é conciliar a visão religiosa com a científica, propiciando o dito equilíbrio entre duas abordagens distintas e diminuindo a tensão existentes em nossa sociedade envolta em dogmas políticos e sociais?

No livro, um símbolo para ateus.
Para os nerds, Avengers?
Isso é possível, dado que o personagem principal de Origem busca a mesma coisa, solapando a religião porém, em prol de uma adoração à ciência como o caminho para agregar as pessoas em torno de um bem comum – algo que é rejeitado, em certa medida, por Langdon, o qual por sua vez acreditamos ser o alter ego do autor. Em assim sendo isso possibilita, portanto, deduzir, que ao contrário de Kirsh, Brown defenda a coexistência entre religião e ciência como sua verdadeira missão. E nada melhor que um simbologista para lidar com tais temas, dado que ambos os espectros – tais talvez como nossa vida enquanto seres humanos – a religião e a ciência, são repletos de símbolos, que por sua vez acabam por justificar muitas de nossas atitudes em sociedade.



[1] O mesmo do seu personagem principal – Robert Langdon.

sábado, 9 de junho de 2018

O Homem que Buscava sua Sombra


O desafio imposto ao escritor sueco David Lagercrantz é sem dúvida de grande monta. Dar continuidade a obra à série Millenium, inaugurada pelo também sueco Stieg Larsson com grande sucesso é daquelas tarefas em que você aparentemente só tem a perder: se você mantém o sucesso sempre podem alegar que era só deixar máquina funcionando, se fracassa, os comentários era de que o original era melhor.

Obviamente quando se fala de literatura a equação não é tão fácil assim. A subjetividade na análise de uma obra se impõe sobre aquele que se propõe a tal tarefa, dado o gosto pessoal do leitor por um ou outro aspecto. Eu, por exemplo, gostaria muitíssimo que fosse investido na série um adensamento do relacionamento entre os dois protagonistas – a hacker Lisbeth Salander e o jornalista Mikael Blomkvist. Fato é que, dado que o autor original da série faleceu, nunca saberemos qual era a intenção deste quanto ao futuro destes personagens.

Lagercrantz, na volume 4 da série, quando fez sua estreia nesse desafio, denominada A Garota na Teia de Aranha – por nós já resenhado – pôs por terra qualquer expectativa nesse sentido. Assim sendo, considerando este ponto ultrapassado, naquilo que me pareceu ser uma queda de qualidade nessa primeira imersão na obra de Larsson, se recupera em determinada medida neste O Homem que Buscava sua Sombra – Ed. Companhia das Letras – São Paulo – 360 páginas – mostrando-se como um daqueles livros que tem uma dinâmica e uma narrativa frenética que nos prende até o final.

O livro e seu autor
Fonte: http://matinecinetv.com.br/

Em que pese achar que a intrincada trama se resolveu de maneira abrupta nos últimos 10% do livro, quando entramos no epílogo compreendemos que talvez este seja uma obra de passagem para o 6º volume. Existe uma estória que foi pincelada no volume anterior, mas que vem num crescendo, como se preparando para um gran finale. Se fôssemos utilizar a lógica adotada pelas produtoras do cinema ultimamente – investir em trilogias – teria sentido, pois o próximo fecharia o ciclo Lagercrantz com Salander e Blomkvist.

Sobre a estória específica de O Homem que Buscava sua Sombra ela se inicia com Lisbeth Salander na penitenciária e se virando para resolver algo que ela considera uma injustiça social. Mas nada é fácil, e claro que ela, para alcançar seu objetivo, desafia “o poder interno constituído”. Em paralelo ela instiga Blomkvist a continuar sua investigação sobre a origem de sua estória pessoal e familiar.

A ambientação na penitenciária no início do livro é um achado, pelo que propõe como instigante ao leitor a entender como Salander irá se virar sem acesso aos computadores. E aí de repente nos damos conta de que, em tempos de prevalência de sagas de super-heróis nos cinemas, ela é uma espécie de super-heroína. Por pior que pareça sua situação sabemos que esta McGyver feminina irá se safar, ora com suas habilidades de luta, ora pela sua inteligência. Desta forma, o ritmo frenético se assemelha a uma boa história em quadrinhos, atraindo ainda mais o mundo geek/nerd para esta personagem.

As outras obras de série
Fonte: http://historiasexistemparaseremcontadas.blogspot.com/

Já Blomkvist segue envolvido com diversas mulheres. Talvez aí o(s) autor(es) se vale(m) de um artifício mercadológico no sentido de prender a atenção do público feminino por instigar o objeto de desejo de uma parcela importante dos seus consumidores. Assim sendo temos, portanto, uma obra que serve a diferente gostos, com um amplo leque de possibilidades. Nesse sentido, as editoras que investiram na continuidade da série Millenium nas mãos de Lagercrantz devem estar satisfeitas. Resta saber até quando a magia se manterá.

sábado, 19 de maio de 2018

O ÚLTIMO HOMEM BOM


Literatura escandinava, neste caso específico, de origem dinamarquesa. Para o leitor não tão acostumado a esta interface qual seria a primeira coisa que viria a cabeça? Asceticismo. Ser ascético é ter uma vida contemplativa. Quando pensamos nos países escandinavos, onde tudo parece seguir uma ordem perfeita, não há o que ser corrigido, seria natural ter esse sentimento. O que nos resta senão contemplar uma sociedade como esta?

Sabemos, porém, que mesmo nas sociedades ditas perfeitas behind the curtains segredos são guardados. No artigo denominado O grande paradoxo: índice de suicídios é maior nos países considerados ‘mais felizes’”, publicado pelo site Aleteia, em 17 de Março de 2016, temos uma pequena chave para desvendar esse mistério[1].

 

Citando universidades britânicas e norte-americanas como autoras da pesquisa que deu origem ao artigo é colocado que “o paradoxo tem a ver com uma comparação entre o nível de felicidade dos suicidas e o nível de felicidade dos outros: a felicidade alheia seria um fator de risco para as pessoas de baixa autoestima, descontentes por viver em lugares onde o resto dos indivíduos demonstra mais felicidade do que elas”.


Fonte:
https://www.saraiva.com.br
Desta feita temos um pequeno insight sobre o livro que vamos resenhar – “O Último Homem Bom”, de A. J. Kazinki, na verdade um codinome para a dupla de autores dinamarqueses que trabalha em conjunto – Anders R. Klarlund e Jacob Weinreich. Na busca por inputs para esta resenha fiquei curioso sobre como seria o método de escrita aplicado pelos dois autores para produzir uma obra em comum. Encontrei uma entrevista concedida por eles quando participaram da Feira do Livro de Porto Alegre, em 2017[2].

Nesta ocasião eles não foram claros sobre a dinâmica de trabalho. Me chamou atenção particularmente as seguintes colocações:

Jacob: Sim, temos grandes pensamentos sobre nós às vezes, temos a ideia de que podemos fazer tudo e às vezes você precisa de outra pessoa para lhe dizer que não pode.
Anders: Para um homem, acho o mais importante, e eu disse ao meu filho o mesmo, é encontrar um parceiro que possa fazer as coisas que você não pode. E que você pode confiar.

Aparentemente existe um trabalho de revisão aí embutido. Minha curiosidade sobre a metodologia de trabalho se deu justamente por não perceber, ao ler o livro, uma variação de abordagens, o que seria natural, por exemplo, se eles optassem por cada um escrever uma parte do livro, dando continuidade ao que o outro já estivesse escrito. Durante a entrevista acima indicada, eles também citaram que ficaram 2 anos amadurecendo a ideia de como isso poderia funcionar. Lembram-se do aspecto contemplativo por mim citado anteriormente?

Ou seja, na verdade eles realmente escrevem em conjunto. Um deles deve escrever uma primeira massa, que é trabalhada pelo segundo de modo a receita ficar perfeita. Isso é o que intuo a partir do que foi exposto por ambos. Mas e a estória do livro em si? O que ela nos diz sobre sociedade dinamarquesa?

“O Último Homem Bom”, publicado pela Editora Tordesilhas (São Paulo) em 2013, possui 481 páginas e descreve a busca de 3 protagonistas – 1 policial italiano e 1 policial e uma pesquisadora em matemática dinamarqueses – pelos responsáveis pelos assassinatos daqueles que seriam conhecidos como os 36 “homens” bons que deveriam velar pela humanidade segundo um mito judaico. Estes estariam espalhados pelo mundo, porém às vésperas da Conferência do Clima em Copenhague a polícia dinamarquesa dá pouca atenção ao caso, preocupada com as atividades em torno da segurança dos Chefes de Estado que para lá se dirigem.

Assim sendo, levando-se em conta o perfil de cada um dos protagonistas – o italiano relegado a segundo plano pelos seus colegas; o policial dinamarquês maníaco depressivo que tem um fator limitante de não conseguir viajar (ou melhor, se afastar de seu local de vivência) e da pesquisadora afetada pelo suicídio do filho e o desligamento do marido, um Prêmio Nobel da Matemática – temos um retrato do que se pode encontrar no recôndito dos lares mais perfeitos do mundo.

A. R. Klarlund (à esquerda) + J. Weinreich = A. J. Kazinski
Fonte: www.vortexcultural.com.br
Mas as coisas nem sempre têm de parecer lógicas. Era isso que envenenava o trabalho do policial. As pessoas são mentirosas. A questão era descobrir qual mentira encobria não só um pecado mas um crime. (pág. 99)

Nélson Rodrigues, brilhante dramaturgo brasileiro, já havia escancarado a hipocrisia de nossa sociedade com seus romances durante as décadas de 50 e 60. Uma comunidade que não externa seus desvios está escondendo a portas fechadas seus problemas – ou suas verdadeiras características. Os escandinavos, por sua vez, se veem frente a frente com a ditadura da felicidade. Não ser feliz, não ser bom, pode ser um dilema e tanto. Um pano de fundo para o livro talvez seja justamente isso: o que significa ser bom? Seria não ter defeitos? Ou tê-los e saber superá-los? Ou como Anders Klarlund colocou – “(...) tem escrito tantos livros sobre encontrar o mal, mas nunca foi escrito uma história sobre encontrar o bem”. E que desafios isso nos traz, eu completaria.

Podem surgir situações em que fazer o mal é o certo. Mas aí você deixa de ser bom. É disso que o cristianismo trata: de podermos viver uns com os outros somente quando aceitamos o pecado como parte da condição humana. (pág. 99)

Quando os policiais e a pesquisadora partem para sua busca se veem com essa incógnita, pois têm que identificar as próximas vítimas. O leitor pouco a pouco percebe que um giro de 360º está sendo dado, como se eles voltassem para origem, ao buscar o fim. De todo modo, é um livro que prende. Mesmo que tenha descambado, ao final, para algo próximo ao realismo fantástico – o que me desagrada – traz interessantes reflexões sobre os limites com os quais convivemos e com a cobrança exagerada sobre nós mesmos e que nos auto-impomos. Relaxar, às vezes, é preciso.