É muito difícil escrever sobre Ayrton Senna. Isso porque ele mexe com emoções há muito guardadas, ainda mais para quem, como da minha geração, nascidos nos anos 70 do século passado, pôde acompanhar toda sua trajetória como piloto de Fórmula 1 e transformação em ídolo nacional – isso para não falar no seu impacto internacional.
Esse grande desafio foi enfrentado com maestria pelo escritor e biógrafo, Ernesto Rodrigues. Tive acesso à obra “Ayrton Senna: o herói revelado”, da Editora Objetiva (Rio de Janeiro – 2004), contendo 639 páginas de muitas revelações dos bastidores vividos por esse grande piloto, seus amigos, família e amores. Devo agradecer à Carlos Maurício Ardissone, que me presenteou com esse livro.
Eu diria que para os fãs de Senna, ele mostra um lado um pouco mais sombrio da personalidade dele. Enquanto lia, não podia deixar de lado a sensação de que um subtítulo apropriado, além do original inserido, seria algo como Dom Quixote, de Cervantes – O Cavaleiro da Triste Figura. Sim, porque a sensação que dá ao leitor é o que o nível de exigência que Ayrton se autoimpunha em todos os setores da sua vida não deixaram que ele se sentisse satisfeito com os seus próprios feitos, pessoais e profissionais, em momento algum. Dessa forma, diferentemente do que muitos imaginavam, não foi a alegria que o acompanhou, mas sim a tristeza. O depoimento de Dennis Rushen, proprietário da equipe para a qual ele dirigiria no início dos anos 80, na Fórmula Ford, é um exemplo disso, no dia em que conheceu Nélson Piquet, que o teria recebido de forma fria:
Restava dar um show na pista naquele dia (...). E o show aconteceu, até Senna rodar e ser obrigado a abandonar a prova. “Ayrton simplesmente não podia tirar o pé. Se tirasse, desconcentrava e batia”. E como Senna jamais admitia a possibilidade de errar, Dennis não esqueceu que, também naquela tarde, aconteceu o único momento, em todas as corridas de 1982, em que viu Ayrton admitindo ter cometido um erro. Ao passar pelo boxe a pé, de volta da rodada, Senna cruzou com Dennis e, sem diminuir o ritmo da caminhada, pronunciou, quase à força, duas palavras: “Sinto muito” (págs 66-68).
Essa sensação se intensifica – e imagino como tenha sido na época do lançamento desta edição a qual tive acesso, 10 anos após a morte do piloto brasileiro – na medida em que vamos passando pelas páginas, sabendo que lá na frente, no 13º capítulo, intitulado “A Perda”, nos depararemos com o dia da morte dele, os momentos finais, num final de semana sombrio na Itália, com mortes e acidentes prévios à prova principal.
As transmissões de rádio e televisão foram iniciadas minutos antes da largada, com a lembrança da perda de Ratzenberger e do violento acidente de Barrichello. Mesmo os mais antigos, entre jornalistas, mecânicos e chefes de equipes, acreditavam que já havia acontecido desgraça demais naquele GP de San Marino de 1994. E que a corrida ia ser tranquila (pág. 531).
Em termos de qualidade jornalística, não resta dúvida sobre o patamar da obra. Elementos desconhecidos por muitos são apresentados em primeira mão, a partir de fontes originais. A descrição respeita uma certa linearidade temporal, o que não impede em que cada um dos capítulos possamos ir para frente e para trás, para verificar a reação após os acontecimentos descritos, a partir de depoimentos dos principais “personagens” envolvidos, ou para identificar os elementos que influenciaram os desdobramentos então ocorridos.
Coexistem assim aspectos para todos os gostos. Tanto para aqueles que são ávidos por conhecer o lado pessoal do mito, quanto aos que mais se interessam pelos aspectos esportivos. O relacionamento controvertido com diversos profissionais – e talvez para a minha geração o principal deles seria Reginaldo Leme (e falo isso porque nunca existiu dúvida quanto à gigantesca amizade entre Senna e Galvão Bueno) - é esmiuçado num nível não antes visto. Além das escaramuças com Prost e Piquet. Está tudo lá. Mágoas não resolvidas, relações amorosas inconclusas – sendo Xuxa e Adrianne Galisteu as mais famosas, em meio a inúmeras outras que eram sabidas somente pelos fãs mais arraigados ou pelo círculo mais íntimo, como por exemplo o primeiro casamento com Lilian de Vasconcellos, que não resistiu a uma rotina pesada de início de carreira, o que nas palavras da ex-esposa poderia ser traduzido da seguinte forma: “Fomos muito imaturos. Eu queria brincar de casinha, e ele de carrinho” (pág. 63).
Há, portanto, um cardápio completo para quaisquer que sejam os perfis dos diferentes leitores que venham a se interessar por ler essa obra de fôlego. O alerta que faço é que, apesar do ufanismo associado ao esportista, vocês serão defrontados com um ser humano que teve mais nuvens negras o assombrando, em que pese a enorme alegria levada a milhões de pessoas. Ou como disse Cristine Ferracciu, outro de seus amores desconhecidos, “casada com um executivo do mercado financeiro, disse que não admitia que falassem mal de Ayrton perto dela. E lamentou que ele tenha sofrido tanto com o lado da personalidade que poucos, como ela, conheceram: ‘De certo modo, o Ayrton não gostava de ninguém’ (págs. 402-403)”.


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