quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

THE BEATLES: HISTÓRIA, DISCOGRAFIA, FOTOS


Dia 25 de Dezembro de 2018. Almoço de Natal em família. Após aproveitar os acepipes – em especial o empadão de camarão feito pela minha mãe – deixo a mesa ainda com muitos pratos a degustar e depois de um breve descanso repouso os meus olhos sobre um livro que busca dissecar – não tão detalhadamente quanto parece, mas muito mais do que eu havia feito até então – da trajetória deste ícone musical do século XX: a banda britânica The Beatles.

A obra que tive acesso – e que li inteira nesta mesma tarde - foi “The Beatles: História, Discografia, Fotos” – Terry Burrows (escritor e músico inglês) – Ed. Publifolha (SP) – edição de 2014 – 132 páginas – tem algumas qualidades e um defeito a ser ressaltar. Dentre as qualidades está o amplo arsenal de imagens retratando todas as épocas pelas quais a banda passou, desde a sua concepção, criação, formação final que a consagrou – John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, crise e derrocada final. Estas imagens não se circunscrevem apenas a fotos, mas incluem também reproduções de cartazes, ingressos, playlists para shows, autógrafos, etc.

https://www.cantodosclassicos.com/beatles-historia-discografia-fotos-e-documentos/

Agradável surpresa, logo nas partes iniciais do livro, quando cada um dos membros acima listados é apresentado, remete à origem familiar dos mesmos, seus pais e pessoas que os criaram e como se inseriam no meio escolar. Isto nos faz lembrar que àquela época – anos 60 – eram garotos (George Harrison se envolve com a banda aos 16 anos, quando foi para a turnê em Hamburgo – tendo sido deportado depois de volta à Inglaterra por ser menor de idade) ou jovens rapazes iniciando uma vida, que tinham em comum a paixão pela música e em especial o estilo que vinha crescendo – o rock’n roll.

Ultrapassada essa curiosidade antes não imaginada como sendo interessante – não me lembro de ter sequer uma vez me preocupado com sua origem familiar ao pensar ou discutir sobre os Beatles – os capítulos são divididos em épocas, algumas vezes saltando mais de 1 ano, mas em meio à década de 60 vai praticamente de ano em ano de modo a ser didático na evolução e influências sofridas pelos Fab Four. Os discos então produzidos são indicados igualmente, com sua discografia ora relatada ora reproduzida em boxes específicos. Sem dúvida um produto de grande porte – livro em capa dura, no formato de 28 x 31,8 cm, pesando mais de 2 kg, o chamado “livro de mesa” – tem quase como obrigação possuir um projeto gráfico de qualidade, e isso também é um ponto alto.

Fica claro para o leitor que alguns estereótipos estabelecidos não estão tão longe assim da realidade. A banda tinha como eixo criativo Paul e John, em menor medida George. Ringo acabou se destacando mais até nas produções cinematográficas do que pelo talento à bateria, mesmo tendo vindo de uma experiência bem sucedida numa banda anterior. Uma novidade para mim, pelo menos, é a informação de que muitas das músicas assinadas pelos dois primeiros, na verdade eram produção de um ou de outro, mas que se resolveu que assinariam conjuntamente talvez no intento – inferência minha – de evitar uma briga de vaidades entre os dois componentes mais criativos.

De todo modo, o próprio autor do livro, Burrows, colocou da seguinte forma a relação entre ambos e suas perspectivas, em entrevista dada ao jornal O Dia na época do lançamento do livro no Brasil – reproduzida aqui a partir do site www.osgarotosdeliverpool.com.br: “Não classificaria o Paul McCartney o beatle mais talentoso, mas certamente ele foi o mais entusiasmado, então acho que, mesmo se os Beatles nunca tivessem existido como grupo, ele ainda assim seria muito bem sucedido na música. John Lennon, por outro lado, suspeito que ficaria cansado de esperar o sucesso e teria seguido outra vertente artística. Quem sabe?”.

Não dá para escapar um sentimento de tristeza quando vai se aproximando o final do livro, dado que sua narrativa foi construída em forma cronológica. É a perspectiva de encerramento daquele sonho – e a visão de como as drogas (numa medida muito menor do que em relação a outros artistas contemporâneos deles naquela época), o dinheiro (ou não saber lidar com, após a morte do empresário Brian Epstein), a Sra. Yoko Ono (não foi central, mas teve sua parcela num momento em que Lennon estava aberto a sua influência por já estar com um sentimento de esgotamento com o restante do grupo e querer coisas novas) e o centralismo de McCartney na reta final - contribuíram para tal término. E ainda fica a sensação de que, mesmo com toda a qualidade da narrativa, esta poderia ser mais detalhada. O próprio Burrows, na entrevista acima citada, coloca que ainda acha que “Shout! The Beatles in Their Generation”, de Philip Norman, é melhor, sendo a publicação considerada como a “definitiva” biografia do grupo[1].

Para mim, em particular, ainda teve um quê de maldade quando é exposta uma citação – agora não me lembro de exatamente qual dos 4 (talvez George Harrison) – teria colocado sobre a percepção da solidão e do peso daquele mundo do show business teria sobre os jovens, Elvis em particular, enquanto nos Beatles, pelo menos, tinham os 4 para dividir tal fardo e poderem usufruir do melhor que aquela vida poderia proporcionar. Como um grande admirador do Rei – talvez mais do que dos Beatles, aquilo calou fundo na alma. E aí, de repente, dá vontade cantar...

Help

I need somebody
(Help) not just anybody
(Help) you know I need someone
(Help)
so much younger than today
(I never needed) I never needed anybody's help in any way
(Now) but now these days are gone (these days are gone) I'm not so self-assured (and now I find)
Now I find I've changed my mind, I've opened up the doors
Help me if you can, I'm feeling down
And I do appreciate you being 'round
Help me get my feet back on the ground
Won't you please, please help me?
My independence seems to vanish in the haze
(But) but every now and then (now and then) I feel so insecure (I know that I)
I know that I just need you like I never done before
Help me if you can, I'm feeling down
And I do appreciate you being 'round
Help me get my feet back on the ground
Won't you please, please help me?
When I was younger, so much younger than today
I never needed anybody's help in any way
(Now) but now these days are gone (these days are gone) I'm not so self-assured (and now I find)
Now I find, I've changed my mind, I've opened up the doors
Help me if you can, I'm feeling down
And I do appreciate you being 'round
Help me get my feet back on the ground
Won't you please, please help me, help me, help me, ooh?

Compositores: John Lennon / Paul Mccartney
Letra de Help! © Sony/ATV Music Publishing LLC




[1] http://www.osgarotosdeliverpool.com.br/2014/03/livro-sobre-os-beatles-vem-recheado-com.html

sábado, 22 de dezembro de 2018

Tartarugas Até Lá Embaixo


Um dos autores mais cultuados do público infanto-juvenil hoje em dia será aquele que fechará a jornada dupla a que me propus realizar imergindo no universo de livros que minha filha de 14 anos recentemente teve acesso. Trata-se de não menos que John Green, o mesmo escritor que construiu duas obras que geraram blockbusters no cinema recentemente – A Culpa é das Estrelas e Cidades de Papel.

A obra que vamos resenhar chama-se Tartarugas Até Lá Embaixo – 1ª edição – Editora Intrínseca – 2017 – 272 págs. Para quem viu ou leu as duas obras acima citadas espera exatamente o quê? Finais inesperados e crises de consciência de adolescentes enfrentando seus típicos dilemas acrescidos que alguma temática que os força a amadurecer mais rapidamente. Isto é efetivamente entregue também neste livro. E por isso mesmo.... não surpreende e decepciona um pouco.

Fonte: www.amazon.com.br
Porém, a decepção não impede que o leitor fique preso à estória para saber seu final. A prosa de Green tem essa qualidade – escrita leve, com as passagens bem conectadas que vão levando os fãs a loucura para descobrir o que vem na próxima página. O desafio proposto pelo autor é interessante: uma adolescente que sofre de ansiedade extremada – ok, adolescentes hoje em dia em geral são ansiosos, mas estamos falando no nível doença – associada com crises de pânico ocasionais, ambas vinculadas a uma hipocondria grave. Esta heroína, que atende pelo nome de Aza Holmes, será responsável por desvendar o mistério por trás do desaparecimento de um empresário, pai de seu amigo Davis.

Esse gancho, que não fica tão claro assim para o leitor desavisado, acaba por atrair o público das estórias policiais. Se você é um deles, está entrando de gaiato. A principal preocupação de Green é observar, sempre, como um adolescente com características peculiares, lida com problemas tido como “mais graves”. A estória policial fica totalmente em segundo plano, emergindo vez ou outra como um subterfúgio para mais uma digressão da protagonista e seu alter ego com o qual dialoga. Voltaremos a este ponto mais adiante.

De modo a não ser negativo, devo dizer que Green faz isso com maestria. Podemos imaginar uma adolescente como Aza e seus coadjuvantes perfeitamente. Os vemos no dia a dia, nas ruas. E como coloquei no post anterior, um autor que se dedica a tal público não pode deixar de passar a febre das mensagens instantâneas e dos diálogos por eles gerados neste grupo. Vamos a um exemplo abaixo:

“Eu estava relendo [...] quando o meu telefone vibrou.

Ele: Oi

Eu: Oi

Ele: Por acaso você está lendo meu blog neste exato momento?

Eu: ... Talvez. Tem problema?

Ele: Que bom que é você. O Analytics me informou que alguém de Indianápolis está na minha página há trinta minutos. Fiquei nervoso.

Eu: Por quê?

Ele: Não quero meus poemas horríveis saindo nos jornais.

[...]

Vi o ‘digitando...’, mas não recebi nada, então escrevi:

Eu: Quer falar pelo Facetime?

Ele: Claro.” (págs. 179-180)

É ou não é um exemplo clássico do que imaginamos e vivemos hoje em dia com nossos filhos, primos, sobrinhos – ou até mesmo nós mesmos? Esse tipo de transposição para o texto desta característica é o forte dos autores desta literatura “moderna”.

Porém existe um ponto angustiante nesta obra, algo que como leitores deixamos de lado a princípio – como uma coisa que incomoda e que imaginamos ser passageira, que irá se resolver em algum momento da narrativa – mas que depois percebemos ser o verdadeiro cerne da questão proposta. Como apontei anteriormente, trata-se do diálogo interno contínuo de Aza consigo mesmo e seus medos. Chega a um determinado ponto em que você passa a torcer desesperadamente para que aquilo pare, como se estivéssemos passando a ter consciência que não somente ela – um personagem – o faz, como todos nós que vivemos na sociedade acelerada e ansiosa por si mesmo, pelos resultados e pela imagem de perfeição buscada, sofremos.

John Green
Fonte: www.intrinseca.com.br
Este aspecto é a lição que John Green quer passar. Não importa o maior distúrbio emocional pelo qual estamos passando. É possível viver e sobreviver à isso, com o tratamento e o acompanhamento adequados, todos podem ser membros de uma sociedade que venham a contribuir com o seu bem, tanto em termos de relacionamentos com o próximo como também de maneira produtiva – Aza, apesar de todas as suas questões, é uma ótima aluna, by the way.

Assim sendo, posso dizer que Green passa o recado. O tiro dele é sutil, mas atinge o alvo. Ao ponto em que, tocados pela estória – mais uma vez de final inesperado – somente entendemos com clareza sua dimensão no final dos agradecimentos:

Por fim: a dra. Joellen e o dr. Sunil Patel tornaram minha vida imensuravelmente melhor ao me garantir tratamento de alta qualidade à saúde mental, o que, infelizmente, permanece fora do alcance de muitos. Minha família e eu somos gratos. Pode ser um caminho longo e difícil, mas os transtornos mentais são tratáveis. Há esperança, mesmo que seu cérebro lhe diga não. (págs. 268-269)

sábado, 15 de dezembro de 2018

O Ódio que Você Semeia


Com a obra de Angie Thomas – O Ódio que Você Semeia – Editora Galera Record, 6ª edição, 2018 – 376 páginas – inicio uma jornada dupla resenhando livros que minha filha, uma adolescente de 14 anos, leu recentemente. Desse modo, além de matar minha curiosidade pela literatura em si, fico mais próximo da linguagem que o mundo dos livros está oferecendo para o público infanto-juvenil. Ou seja, que ideias ela está tendo acesso.

Fonte: www.amazon.com.br
O livro gira em torno da estória da adolescente afrodescendente Starr. Frequentadora de uma escola do Ensino Médio em bairro distinto de onde vive, instituição esta de classe média na qual ela é uma das poucas exceções entre uma grande maioria de brancos, tem que saber conviver entre dois mundos distintos. Sua percepção disso se aguça ao ser testemunha, logo no início, do assassinato por um policial de um amigo de infância.

O título em português perde um pouco quando comparado ao original em Inglês, citado algumas vezes por seu vínculo com um conceito divulgado pelo rapper Tupac Shakur – The Hate U Give Little Infants Fucks Everybody [sendo o trecho grifado o título supracitado] – assassinado em 1996[1], no qual se apresenta como a influência dos preconceitos passados de geração para geração afetam a incompreensão e geram o ódio racial existente – algo como “o ódio que você passa (semeia) para as criancinhas f... com todo mundo”. A expressão em inglês gera um acrônimo conhecido no meio do rap como “thug life”, no qual a princípio exemplificaria um “momento” em que alguém dominaria uma situação seguindo os preceitos de “curtir a vida”, zoando inclusive com a cara de terceiros que não teriam a mesma filosofia. Ou seja, gerando uma diferenciação do tipo “eu sou melhor que você”.

Se trataria assim de mais uma obra que faz o apelo aos jovens pela tolerância. A compreensão de que o diferente deve ser absorvido pela sociedade somente como mais um. Interessante que em determinado momento da trajetória da protagonista seu pai – um ex-presidiário regenerado e dono de um comércio chega a conclusão de que pode mudar a vida de seu bairro, mesmo não precisando morar nele. É a síntese do american way of life politicamente correto. Você pode progredir na vida, fruto de seu trabalho, e assim se mudar para uma localidade melhor estruturada – no caso do livro, o típico subúrbio das grandes cidades dos Estados Unidos – e ainda sim ter um trabalho proativo no sentido de apoiar uma comunidade mais carente.

Mas essa é uma nuance subsidiária em relação à narrativa central. O foco principal do livro de Angie Thomas é como uma adolescente lida com esse contexto de conflito racial, estando no centro de uma polêmica da qual foi testemunha, e ao mesmo tempo tem que gerenciar todos os demais dilemas típicos de sua idade – o namoro (nesse caso “agravado” por ser um rapaz branco, de posses); a convivência com as amigas mais próximas – uma patricinha estilo loira Beverly Hills e uma sino-americana; e o relacionamento com os demais parentes que vivem outra realidade em seu dia a dia.

O estilo da escrita é leve e ágil e personifica muito bem a rotina de uma adolescente. Se tornam presentes nos textos da nova geração, obviamente, as mensagens enviadas por celular tão típicas de nossos tempos. Um novo elemento que deve ser avaliado inclusive quanto ao peso que as ideias escritas assumem quando de um diálogo entre pessoas. Uma coisa era a antiga conversa fora que sempre podia ser contornada com o velho “Mas não foi exatamente isto que eu quis dizer...”, para algo que está escrito na tela de um pequeno aparelho ao qual você tem acesso instantaneamente. Palavra escrita é como flecha lançada, não volta mais.

Angie Thomas
Fonte: www.aescotilha.com.br
No sentido de apresentar esse cenário para os pais, é um livro interessante pois facilita nossa compreensão de como eles reagem – no caso específico deste livro é muito mais útil para pais de meninas. Porém acredito que ele se perde no seu trecho final, apesar de ser compreensível a reação exposta, quando dá um tom de normalidade para uma atitude extrema. Sendo um livro que se propõe atingir a faixa etária que alcança, tal mensagem poderia ser melhor dosada com um contraponto que não parece ser o interesse da autora. Talvez o cenário de revolta apresentado fosse desnecessário, ou poderia ser colocado de maneira mais sutil. A favor da autora está o fato de que, sendo também uma afrodescendente, possa vir a ter parâmetros distintos para lidar com o tema em relação a um leitor como eu, branco, que talvez não tenha sofrido os mesmos problemas vivenciados pela protagonista.

Resta-nos compreender que fazer o bem necessário, não importa a quem. E isso se vive no dia a dia, que para mim é muito mais forte do que movimentos grandiloquentes de revolução. Vamos ser revolucionários de nossas vidas. É assim que se constrói uma sociedade melhor.


[1] http://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2018/07/05/tupac-assassinato-confissao/

terça-feira, 20 de novembro de 2018

JORGE LUIS BORGES


Diferentemente do que faço normalmente, o post desta vez irá girar em torno de um autor e sua produção poética. Tal fato foi motivado pelo presente recebido e que me serve de base para algumas considerações por este ícone argentino que é Jorge Luis Borges. O presente a que me refiro trata-se um volume que compila 3 obras dele – “El Outro, El Mismo”, “Para las Seis Cuerdas”, e “Elogio de la Sombra”, publicadas em conjunto pela Editora Sudamericana, de Buenos Aires, neste ano, contendo 272 páginas do linguajar “lamentoso” que a meu ver se sobressai. Mas este linguajar seria típico de Borges? Ou dos argentinos como um todo?

Fonte: https://articulo.mercadolibre.com.ar/

Conhecia fama de Borges como escritor de contos, mas nunca me estimulei ao ponto de comprar algo. Provavelmente pela minha rejeição ao chamado realismo fantástico dos escritores sul-americanos, corrente com a qual se identificam, por exemplo, Gabriel García Márquez (Colômbia), Manuel Scorza (Peru), Mario Vargas Llosa (Peru), Julio Cortázar (Argentina), Arturo Uslar Pietri (venezuelano considerado o pai do realismo mágico), Murilo Rubião (Brasil), José J. Veiga (Brasil), Alejo Carpentier (Cuba), Miguel Angel Astúrias (Guatemala) e Carlos Fuentes (México). Nesta busca-se fundir o universo mágico à realidade, mostrando elementos irreais ou estranhos como algo habitual e corriqueiro. Além desta característica, o realismo mágico apresenta os elementos mágicos de forma intuitiva (sem explicação).

Borges realmente ganharia fama internacional a partir da década de 30 do século passado através dos contos, e não da poesia. Porém, esta – a poesia – casa muito bem com a corrente do realismo fantástico, dada a sua própria definição acima relatada. Ora, poesia é um gênero literário caracterizado pela composição em versos estruturados de forma harmoniosa. É uma manifestação de beleza e estética retratada pelo poeta em forma de palavras. No sentido figurado, poesia é tudo aquilo que comove, que sensibiliza e desperta sentimentos. É qualquer forma de arte que inspira e encanta, que é sublime e bela. Assim que não me estranha que seus versos também sejam decantados como impactantes.

De todo modo, da compilação da Editora Sudamericana especificamente falando, algumas coisas me chamaram a atenção. Na própria apresentação na contracapa são ressaltados alguns elementos, objetos centrais dos textos que a compõem: Buenos Aires, menções à cultura grega e anglo-saxã*, literatura – poemas dedicados a autores diversos – e filosofia, com especial enfoque ao homem como um ser único em suas características. Além disso os enfrentamentos entre dois ou mais personagens – enredos de embates à faca são comuns, o que traz uma ambiguidade de identificação, já que “milonga” tanto pode ser definida como isto, como também um gênero musical ao qual o autor possuía admiração. Deve-se ressaltar que, ao princípio, a milonga era um tipo de poema cantado, onde as letras eram mais importantes do que a música. Ou seja, aí temos mais uma referência coerente. Por último, Borges também apresenta predileção pelos temas da ética e da velhice, preocupação natural para alguém que observou sua capacidade de criação ser limitada a partir de uma determinada idade por conta de problemas com a evolução de um quadro de cegueira.

*Parte de sua formação foi nesse idioma, o qual está presente apenas uma única vez, num poema de até fácil leitura (págs. 22-25 – Two English Poems), demonstrando a minha tese de ficamos muito mais confortáveis para expressar nossos dotes artísticos em nosso idioma natal, dada as maiores possibilidades em termos de repertório, por mais que dominemos um idioma estrangeiro.

Assim, enquanto seguia a leitura das poesias de Borges, me peguei por diversas vezes na esperança de que na página seguinte eu fosse brindado com um ou outro conto. Isto só veio a acontecer na terça e última parte – “Elogio de la Sombra”, a partir da página 193. Desse modo, para um leitor que tenha o mesmo perfil que o meu – não tão afeito a poesias – o livro não deixa de ser um pouco frustrante. Mas para quem gosta de poesia, trata-se de uma oportunidade para entrar em obras de referência de um dos mais conhecidos autores latino-americanos.
Foto originalmente de autoria de Grete
Stern, exposta no Museu Nacional
Centro de Arte Reina Sofia

O último elemento que gostaria de abordar como útil nesta obra é a caracterização da alma argentina. Borges é reconhecido como um autor que retrata como poucos tal “personagem”. Definir a “argentinidade” é um dilema até para os próprios argentinos. E sua dificuldade se compara a tentar tirar uma foto de um pêndulo em movimento. Como o instrumento, os argentinos oscilam entre extremos: sua característica básica é alternar picos de euforia com períodos de intensa depressão.

Há que de todo modo se evitar confundir o argentino com o portenho – habitante de Buenos Aires que tem como uma das principais características o autoelogio. Para mim se faz muito mais presente no argentino o lamentar. Ok, talvez eu esteja influenciado pelo senso comum que os vincula ao tango e suas tristes estórias. Borges apresenta uma estética majoritariamente triste, e assim confirma, por seu viés, essa minha impressão. Me despeço por aqui, com um recado do próprio para seus leitores, sobre a inevitabilidade de nosso fim:

A QUEM ESTÁ LENDO-ME

Es invulnerável. Não lhe deram
Os números que regem teu destino
Certeza do pó? Não seria por acaso
Teu tempo irreversível o daquele rio
Cujo espelho Heráclito viu o símbolo
Da sua fugacidade?[1] Te espera o mármore
Que não lerás. Nele já estão escritos
A data, a cidade e o epitáfio.
Sonhos do tempo são também os outros,
Não firme bronze ou ouro;
O universo és, como tu, Proteo[2].
Sombra, irás a sombra que te aguarda
Fatal nos confins da tua jornada;
Pensa de que algum modo já estás morto.

Livre tradução – página 119

Fontes:





[1] Borges confronta Heráclito, filósofo baseava suas ideias na lei fundamental da natureza, de modo que, segundo ele, “Tudo flui” e “Nada é permanente, exceto a mudança”. Borges nos coloca como sermos seres predestinados, nosso rumo já estaria traçado – a morte, apesar de toda mudança em sua trajetória.
[2] Deus marinho que podia mudar de forma à sua vontade / gerou o prefixo na língua portuguesa que designa aquele que muda com facilidade de forma ou de opinião.

sábado, 3 de novembro de 2018

HOMO DEUS - uma breve história do amanhã


Skynet é o nome tanto da empresa fictícia da série de filmes Exterminador do Futuro que gerou a inteligência artificial (IA) que acaba se rebelando contra os humanos quanto do sistema de geomonitoramento e vigilância contra ações suspeitas de terrorismo também baseada no tratamento de dados via IA – e com resultados polêmicos, como pode ser observado aqui - http://atl.clicrbs.com.br/infosfera/2016/02/18/skynet-a-inteligencia-artificial-do-filme-o-exterminador-do-futuro-existe-e-esta-matando-pessoas-entenda/ e aqui https://hypescience.com/skynet-existe/  .

No livro Homo Deus, de Yuval Noah Harari – Ed. Companhia das Letras – 2016 – 443 páginas – o autor se aprofunda num dos temas que já havia sido tratado como pilar na obra anterior – Sapiens, já tratada aqui neste blog. E este gira em torno justamente para que lado a humanidade avança dado o predomínio do que ele chama Dataísmo – a religião dos dados.

“Uma tecnorreligião mais ousada está buscando cortar definitivamente o cordão umbilical humanista. A religião (...) que não venera nem deuses nem o homem – venera dados. Segundo o dataísmo, o Universo consiste num fluxo de dados e o valor de qualquer fenômeno ou entidade é determinado por sua contribuição ao processamento de dados. (...) Simultaneamente, nas oito décadas desde que Alan Turing formulou a ideia da máquina que leva seu nome, cientistas da computação aprenderam a projetar e fazer funcionar algoritmos eletrônicos cada vez mais sofisticados. (...) O dataísmo (...) faz ruir a barreira entre animais e máquinas com a expectativa de que, eventualmente, os algoritmos eletrônicos decifrem e superem os algoritmos bioquímicos” - (HARARI, 2016 -págs. 369-370) – grifo nosso.

Como neste blog fazemos um juízo de valor da qualidade literária das obras, devemos dizer primeiramente que esta encontra-se um ponto abaixo da anterior. Justamente porque se aproveita desta repetindo uma série de definições que lá já estavam, como para que introduzir com o devido embasamento seu tema central – este acima exposto. Levando-se em conta que o livro tem no total 443 páginas, já contando com índices e bibliografia consultado (algo que consome 42 páginas) temos em torno de, somente, 30 páginas de efetiva novidade (aproximadamente 7% de todo o livro). Ou seja, parece uma perda de tempo - para quem leu o livro anterior! Um leitor desavisado, que iniciasse sua aventura no mundo de Harari por Homo Deus não teria uma perda grave de conhecimento.

Fonte: http://caminhandoporfora.sul21.com.br/2017/09/29/sapiens-e-homo-deus-yuval-noah-harari/

Vamos, agora, ao tema em si. De uma certa maneira as 30 páginas cruciais são aterradoras para quem teme o poder que a IA pode assumir. Tenho amigos que possuem a mesma preocupação – e estão bem acompanhados de Elon Musk e Stephen Hawking (https://olhardigital.com.br/noticia/google-toma-precaucoes-para-que-sua-inteligencia-artificial-nao-vire-a-skynet/59014). Porém, se observarmos nosso entorno, a própria Google é um exemplo de como já estamos inseridos numa caminhada sem volta. Cada vez mais somos surpreendidos com as facilidades que a tecnologia cria para nossas atividades do dia a dia. A todo momento somos bombardeados com informações e ofertas que “incrivelmente” são aderentes aos nossos gostos. Minha esposa sempre pergunta: “Mas como eles sabem que eu preciso disto, agora, nesse momento!?”, com um olhar atônito para o celular.

Tudo isto tem uma explicação bem simples: o poder da computação dos metadados, a partir de algoritmos inteligentes, já está chegando o ponto em que o cineasta James Cameron havia antecipado. “Os dataístas (...) acreditam que os humanos não são mais capazes de lidar com os enormes fluxos de dados, ou seja, não conseguem mais refiná-los para obter informação, muito menos para obter conhecimento ou sabedoria. O trabalho de processamento de dados deveria, portanto, ser confiado a algoritmos eletrônicos, cuja capacidade excede muito a do cérebro humano. Na prática, os dataístas são céticos no que diz respeito ao conhecimento e à sabedoria humanos e preferem depositar sua confiança em megadados e em algoritmos computacionais” (pág. 371).

Uma pequena pincelada das afirmações impactantes:

Ø  Segundo o dataísmo, as experiências humanas não são sagradas, e o Homo Sapiens não é o ápice da criação (...) [383-384];
Ø  Humanos são apenas instrumentos para a criação da internet de todas as coisas que eventualmente poderá se estender para fora do planeta Terra para cobrir a galáxia e até mesmo o Universo (384);
Ø  Esse sistema de processamento de dados cósmico seria como Deus. Estaria em toda parte e controlaria tudo, e os humanos estão destinados a se fundir dentro dele (384);
Ø  Os dataístas explicam aos que ainda cultuam mortais de carne e osso que eles estão excessivamente atrelados a uma tecnologia ultrapassada. O Homo Sapiens é um algoritmo obsoleto (384).

Humanos, tremei, portanto. O autor ainda aponta para alguns mandamentos dessa nova tecnorreligião: (1) Maximizar o fluxo de dados, conectando-se cada vez mais as mídias, produzindo e consumindo mais e mais informação; (2) Conectar tudo ao sistema, inclusive hereges que não querem ser conectados. E “tudo” quer dizer mais que do que humanos. Quer dizer tudo quanto é coisa. Meu corpo, é claro, mas também os carros na rua, as geladeiras na cozinha, as galinhas em suas gaiolas e as árvores na floresta – tudo deveria se conectar à internet de todas as coisas; e (3) não podemos deixar nenhuma parte do Universo desconectada da grande rede da vida. Inversamente, o maior dos pecados é bloquear o fluxo de dados. O que é a morte senão uma situação na qual as informações não fluem? Por isso o dataísmo sustenta que a liberdade de informação é o maior bem de todos (HARARI, 384-385).

É bom que se diga que o autor não faz uma defesa do Dataísmo, mas o apresenta como ele se encontra e como está evoluindo na mente das pessoas, sejam cientistas ou o cidadão comum, este imerso numa avalanche diária sem se dar conta. Harari mesmo coloca que um “exame crítico do dogma dataísta seja não apenas o maior desafio científico do século XXI como também o mais urgente projeto político e econômico” (grifo nosso – pág. 396). Estaríamos assim navegando entre as benesses que o avanço tecnológico nos traz e o risco de sermos minimizados como espécie que decide seu próprio futuro. De repente não posso deixar de me lembrar daquela visão de pessoas reunidas em restaurante, mas dando mais importância em inserir dados sobre o seu cotidiano – comida, onde estou, com quem estou – nos seus celulares do que interagindo com os seus amigos.

OBS.: Outro livro que abordou, porém, ainda no campo ficção, este mesmo tema, é Origem, de Dan Brown, também já resenhado por aqui.

sábado, 1 de setembro de 2018

Sapiens - Uma Breve História da Humanidade


Quando alguém se propõe a decifrar a si próprio está diante de um enorme desafio. Imagine então uma pessoa que busca decifrar... toda a humanidade? De um certo modo foi o que Yuval Noah Harari, autor israelense de Sapiens – Uma Breve História da Humanidade o fez. A obra, a qual tive acesso em sua 26ª edição, da editora L&PM, publicada no ano passado, possui 464 páginas surpreendentes.

Fonte: www.bondfaro.com.br
O historiador Harari aponta para cada um dos preconceitos que possuímos em relação à origem da sociedade como hoje concebemos a partir da visão da evolução da espécie Homo Sapiens. Todas as contradições antes escondidas – sim, escondidas no sentido de que não a víamos ou não conseguíamos encontrar – são postas à mesa e espantam a todos os convidados da festa que é a leitura de seu livro.

Não teve um só momento em que eu não me espantasse com suas afirmações e raciocínio, trazendo à baila não somente fatos, mas questões de ética que deixamos passar à frente de cada um dos nossos narizes como se achássemos – e creio que achamos mesmo – a coisa mais normal do mundo. Uma questão interessante, vista bem mais à frente no livro, é quando ele aponta para as perspectivas futuras da humanidade – algo que ele vai explorar mais a fundo no seu livro seguinte, denominado “Homo Deus” e que em breve será também resenhado por nós.

Particularmente creio que a afirmação mais polêmica que ele o faz nesse contexto, olhando para o futuro, é a capacidade do homem de superar a morte. Isso mesmo, o homem, com o domínio da ciência, em algum determinado momento da História, se tornará amortal. Esse neologismo cunhado pelo autor significa dizer que não pereceremos mais de causas naturais, porém estaremos sempre suscetíveis a um acidente de carro, uma bala perdida, etc. Ou seja, não poderemos nos definir como imortais, pois a possibilidade da morte nos rondará por um infortúnio.

Esse grau de afirmação categórica – veja bem, ele não afirma que isto é para amanhã, mas aponta com convicção que esta nova fronteira científica será (ou até mesmo já estará) sendo antevista e enfrentada pelos pesquisadores – traz em seu bojo inúmeras outras questões. Harari aponta, por exemplo, como a questão da morte é basilar para o funcionamento conceitual das religiões. A morte seria assim um horizonte a partir do qual as pessoas se orientavam em termos de seus preceitos religiosos.

A perspectiva de uma vida finita faz com que as pessoas privilegiem o bem-estar pessoal. E com o endeusamento desse sentimento – a busca pela felicidade plena e constante – ao não ser atingido, as pessoas buscam as razões para tal infortúnio. E em tendo dificuldade para encontrá-lo, buscariam no divino e no sobrenatural a solução para os seus conflitos.

O autor passa ao largo da questão de fé. Particularmente, como católico, tenho uma visão muito específica da origem e do conceito religioso. Aqueles que vivem numa democracia exaltam muitíssimo o direito de escolha. E a fé é uma escolha acompanhada por uma convicção que, por mais irracional que pareça, se sobrepõe a eventuais explicações científicas.

Porém, observem, isso não quer dizer que eu sou contrário ou refuto as teses de Harari. Apenas quero dizer que por melhor que o livro dele seja – e é sensacional, podem acreditar – ainda assim existe espaço para a convivência com suas teses (e até de certo modo sua aceitação) e continuar sendo um religioso convicto, com a fé intacta.
Fonte: www.npr.org
Voltando para a obra em si ela está dividida em 4 partes – A Revolução Cognitiva; A Revolução Agrícola; A unificação da humanidade; e A Revolução Científica. É justamente nessa última que ele toca no ponto acima indicado, da visão do homem como a morte sendo uma falha técnica plenamente superável no futuro (não só a morte, como também o envelhecimento, pois não valeria a pena se manter vivo acompanhado das dores da derrocada física com o passar dos anos).

Nas 3 primeiras partes ele altera nosso modo de enxergar a evolução da humanidade e por consequência da sociedade na qual estamos inseridos. Esta parte do livro me parece irretocável. Nunca ninguém havia apontado de maneira tão clara nossos erros de concepção enquanto observadores de nossa própria História na qualidade de humanos. Esqueçam a divisão do mundo entre nações. Estamos falando de cada um de nós, como indivíduos, em qualquer ponto do planeta. Reputo como um livro daqueles que se tornou obrigatório em ser lido, para que possamos compreender de onde viemos – e talvez concordar com ele para onde vamos.

Dito isto, faço um desafio a vocês. Escolham entre as páginas 11 a 428, qualquer uma. Eu reproduzirei nos comentários abaixo – naqueles que preferirem, por outros meios de contato (e-mail, WhatsApp) – trechos do livro com afirmações surpreendentes e por vezes chocantes que Harari o faz até com um humor peculiar. Atenção: eu afirmo para vocês que não existe uma única página do livro que não deixe esta sensação.