domingo, 29 de setembro de 2013

As Regras da Casa de Sidra

Os escritores, assim como os músicos, recebem influências a todo momento, influências estas que são transportadas diretamente para o teor de sua obra. Quando os samplers viraram moda, muitos foram os músicos que buscaram em suas raízes o redesenho, uma releitura, de determinadas músicas, abusando algumas vezes até de trechos inteiros de suas obras originais, literalmente.

A primeira impressão que temos ao ler “As Regras da Casa de Sidra”, de John Irving (Ed. Rocco, 2013, 671 páginas) é justamente esta. Não somente pelo estilo, mas como também, de certa maneira, o autor assume por diversas vezes no decorrer da estória obras e autores que estiveram presentes em sua mente quando a criou:

Dickens era um favorito pessoal do Dr. Larch; não era por acaso, é claro, que tanto Great Expectations quanto David Copperfield falassem de órfãos. (“O que mais se poderia ler para um órfão?”, indagou o Dr. Larch em seu diário.) – pág. 39

O estilo detalhista e rebuscado de Dickens se faz presente a todo momento. Mais a frente outra autora – Emile Brönte e sua obra, Jane Eyre, também é citada – porém, de uma verve muito parecida. Muito provavelmente o tema central do livro – o desabrochar para a vida de um órfão – tenha sido a centelha que fez reavivar em Irving tais referências.


Especificamente em relação ao livro, vencer a sua primeira metade exige do leitor um entendimento de que o vagar na narrativa serve a um propósito: a dar todo o entorno para uma aceleração de embate existencial dos seus personagens centrais na sua segunda metade. Dessa forma, há que se ter paciência e entender este universo, o que não é nada fácil para um livro de mais de 600 páginas, devo confessar.

Homer Wells é o menino mais velho de um orfanato localizado no interior dos Estados Unidos – Saint Cloud é o nome da instituição. Ele vive o dilema entre ter sido treinado com zelo pelo médico e administrador principal, Dr. Larch, na prática do aborto consentido, e sua paixão pela vida. Anseia sair daquele casulo para então encontrar um verdadeiro sentido para sua vida.

No desenrolar da estória, após identificar o que entende ser uma possível saída junto a uma família proprietária do negócio de produzir maçãs – daí a menção à Casa de Sidra – descobre um outro dilema – como amar, sem culpa, aquela mulher do seu “irmão” postiço, que para complicar um pouco mais a equação, também demonstra um bem querer em relação a ele.

Tais dilemas apontam claramente para o que foi a traduzido de maneira fiel no título do filme gerado a partir dessa obra: “Regras da Vida”, tendo Tobey Maguire e Charlize Theron nos papéis principais (é fácil imaginar Maguire – mais conhecido pelo papel de Peter Parker, alter ego do Homem-Aranha, na trilogia anteriormente desenvolvida pela Marvel – vivendo o papel de Homer Wells). Enfrentamos “dilemas” durante toda nossa vida porque estamos presos às regras estabelecidas pelo convívio em sociedade, na comunidade em que vivemos. Se tais regras não existissem – ou se não as aceitássemos abertamente – tais dilemas não existiriam.

John Irving ao ganhar o Oscar por roteiro adaptado para sua obra "The Cider House Rules"

Muito do inconformismo do ser humano está ligado a querer caminhar para a esquerda quando todos caminham para a direita. Irving, com sua obra, demonstra a construção da personalidade se dá através de uma árdua caminhada que tem muitas esquerdas e direitas, e que não necessariamente a escolha perante uma determinada encruzilhada significa que você fugiu ao seu destino. Apenas escolheu uma trajetória mais longa, mas o destino estará lá, te esperando.

Tais escolhas é que fazem da nossa vida uma cesta intensa de emoções. Se escolhemos um determinado caminho e este se apresenta extremamente repleto de aventuras, não significa que não as teremos quando optamos pelo outro lado, que a princípio pode se mostrar monótono, mas é apenas uma etapa a ser vencida rumo a novos e intensos sentimentos. O que nós não podemos é fazer com que as regras impostas sejam barreiras para as nossas melhores escolhas.

Michael Caine como Dr. Wilbur Larch e Tobey Maguire como Homer Wells

O personagem do Dr. Larch – mentor intelectual de Wells – na primeira parte do livro, representa, de uma certa forma esse ideário. Seu jargão principal era que todos “deviam ser de utilidade” para a sociedade. Mesmo que esta sociedade não entenda o papel que você está exercendo. Ele cria suas próprias regras para isso, não se importando com as leis e costumes da comunidade em que está inserido, porque está convicto de que está fazendo o bem a ela própria.

A mensagem que fica, portanto, está montada no seguinte tripé: o amor pelo próximo acima de tudo / fazer o bem a todos, mesmo que estes não compreendam suas atitudes / as regras são úteis, desde que não sejam fonte limitadora da liberdade de opções na definição pelo melhor para as nossas vidas. E aí, vai encarar?


OBS.: vale a pena, caso você esteja numa livraria com a possibilidade de folhear o livro, ver o inconformismo de Larch com o que a sociedade faz a si mesmo e o seu didatismo, levando-o a escrever 4 regras básicas para o uso de preservativos – págs. 456-457. Um momento hilário em meio a uma revolta.

sábado, 21 de setembro de 2013

Taxi Libre: agenda de un taxista

Transporte urbano. Este talvez seja um dos grandes dilemas da sociedade moderna. A qualidade de vida é diretamente medida, dentre outros indicadores, pela possibilidade de deslocamento rápido de um ponto a outro da cidade, qualquer que seja sua origem e seu destino. Em tempos de estrutura precária em termos de opções para o transporte coletivo – todos sempre cheios, ou todos com atrasos, ou em estado precário, ou pior, tudo isso junto – a depender do custo associado, os táxis acabam ganhando uma preferência particular para aqueles que podem suportá-lo em termos financeiros.

Buenos Aires é uma dessas cidades que estão neste grupo. Repleta de taxistas, para todos os gostos, e com a comparativa valorização cambial em favor do real, propicia aos brasileiros a alternativa de uso pelos “amarillos y negros” para o deslocamento fácil numa capital que pouco a pouco vai se tornando tremendamente conhecida para nós, tal o afluxo de turistas que todo ano para lá se dirige. Eu mesmo, por questões profissionais, já estive por lá muitas vezes nos últimos anos, e sempre me utilizei dos táxis da cidade para deslocar, sem utilizar nenhuma outra opção.

Um livro descortina o universo dos taxistas portenhos: “Taxi Libre: agenda de un taxista” – Mario Aramburu – Editorial de Arte – 2012 – 96 págs. Aramburu, Presidente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial da Argentina, figura singular com a qual tenho o prazer de conviver profissionalmente, tem como principal característica pessoal um humor sarcástico – para alguns talvez ácido demais – que, uma vez sendo assimilado de maneira afável, torna-se um grande companheiro para boas histórias.

Don Mario Aramburu

Com esse olhar, nada mais natural para ele que se identificar com o humor característico e as histórias relatadas pelos taxistas de Buenos Aires. Tais histórias, muito provavelmente, encontram similitude com esta mesma classe em outros países. Porém, bem o sabemos que cada povo guarda um certo traço peculiar, e nossos vizinhos, com os quais travamos relacionamento há séculos, já marcam sua presença pela picardia típica do Rio do Prata, identificando os pontos fracos do “adversário” para poder marcá-lo em sua argumentação e convivência. Quando isto é feito com o devido bom humor, sabendo-se compreender seu contexto, estamos inseridos então num ambiente de confortável viver.

Por experiência própria posso lhes dizer que a tão divulgada rivalidade entre brasileiros e argentinos, que gera uma constante fonte de piadas de ambos os lados, se atém na maior parte das vezes ao mundo esportivo. Acredito que ambos os povos já notaram – e aqui não se encontra nenhuma avaliação em termos governamentais, devo dizer, mas sim humanos – que somente juntos poderão construir um futuro melhor para suas respectivas sociedades. Temos inclusive uma província deles aqui no Brasil, chamada Búzios, muito bem freqüentada por todos, sem nenhum tipo de problema.

Um típico táxi de Buenos Aires

Este contexto acima apontado por mim foi reforçado justamente nas duas últimas viagens feitas à Buenos Aires, à bordo dos táxis daquela capital. Tive pelo menos três ótimas conversas com taxistas daquelas cidades – uma sobre futebol, é claro, e a qualidade da seleção deles, outra sobre economia (e como os brasileiros vêem a situação econômica de nossos vizinhos) e a evolução das mulheres na sociedade. Este último, em especial, teve o seguinte dizer: “Se hoje em dia um homem anuncia para sua mulher que irá sair de casa ela lhe diz – ‘Vá, vá logo, tome o cartão do meu advogado e não me procure mais’. Não existe mais aquela mulher que fica se lamentando...”.

São histórias como essas que encontramos em Taxi Libre. Aqui, abaixo, um pequeno trecho para aguçar sua curiosidade, en bueno español:

Ese diván circunstancial y ambulante en que a menudo se convierte un taxi, tiene un ida y vuelta. [...] Ese día Ramón andaba con ganas de hablar y aprovechó al primer pasajero con cara de saber escuchar para hablar contar sus problemas, sobre todo amorosos. [...] El pasajero asentía con monosílabos. Con algún que outro ‘hum’ que era como una invitación a seguir hablando y Ramón siguió. [...] Pero ya estaban llegando a Salguero y Güemes, el corazón de Villa Freud como se la llama en la Ciudad Autónoma de Buenos Aires y el pasajero, sin mediar palabra le alcanzó junto con el precio del viaje una tarjeta: “Germán Goldberg, psicoanalista”. Debajo una dirección y un teléfono. Y le dijo: - Te espero el lunes, son cien pesos la sesión, pero por ser vos te voy a cobrar ochenta. En esse mismo momento Ramón juró no confesarse jamás con pasajeros de aspecto comprensivo.

(Confesiones al volante – págs. 76-77)

sábado, 14 de setembro de 2013

INFERNO

Qual é o conceito, a definição, de um best seller? Em tempos de que a indústria da mídia é tão interconectada – em todos os sentidos que esta palavra pode ter – um livro pode ser apenas a semente de uma geração multimilionária de dividendos. Os beneficiados: o autor, os editores, eventuais produtores de filmes baseados naquele livro, atores que dão vida a personagens famosos, etc. Mas a pergunta central que fica é: o leitor, que benefício ele extrai de todo esse movimento?

A relação entre a obra e o autor, quando iniciada sem nenhuma pressão, tem como vínculo maior o nível de exigência que o criador tem sobre a criatura. Se o autor é tremendamente autocrítico, irá burilar a obra até que esta atinja um nível de excelência mínimo para o seu gosto. Porém, a peculiaridade dessa relação se inverte a partir do momento em que a obra se torna maior que o autor.

A exigência advinda dos editores, dos produtores, dos leitores, da sociedade em geral, enfim, cresce à medida da expectativa gerada em torno da obra. Quando um determinado autor alcança um sucesso estratosférico, o entorno contribui para que este seja pressionado além de sua própria consciência enquanto criador. Este passa a ter que dar conta de uma ansiedade à quinta potência que está no ar em torno do que ele apresentará como seu próximo produto.

Esta lógica se aplica em dois estratos do mundo literário: àquele em que se localizam os autores reconhecidos por sua qualidade pelos seus pares, normalmente circunscritos a um nicho de mercado e atingindo, além dos especialistas, um grupo muito seleto de leitores, formadores de opinião; e o outro, que consegue quase o caráter de super-estrela, por gerar os valores ambicionados no mundo do entretenimento, já que são absorvidos por uma grande massa de leitores. Temos aqui escritores que têm normalmente suas obras transformadas em filmes, documentários, séries, etc.

Neste segundo grupo encontramos “Inferno” (2013, 448 págs), obra de Dan Brown, editado aqui no Brasil pela Arqueiro (SP). Trata-se de mais uma saga tendo o simbiologista Robert Langdon como personagem central. O grande sucesso gerado pelo “O Código da Vinci” – que proporcionou um filme estrelado por Tom Hanks – fez com que Brown criasse sobre si todo aquele peso da expectativa apontado acima. Neste momento é que ele é desafiado a responder a seguinte pergunta: se enclausurará numa fórmula bem sucedida, para continuar rodando a máquina calculadora bancária, não se atendo tanto aos detalhes, uma vez que a paixão dos fãs deixará passar determinadas falhas? Ou buscará cada vez mais o requinte, absorto na qualidade de sua obra, criando automaticamente uma devoção cada vez mais crescente pelos seus admiradores?

O autor e sua obra

Infelizmente, no caso de Brown, me parece que a primeira - e mais fácil - opção prevaleceu. Em “Inferno” somos jogados em meio a mais uma corrida desenfreada de Langdon para desvendar mistérios atrás de mistérios, todos eles codificados em mensagens enigmáticas em obras de arte – ou principalmente naquela que serve como fio condutor, “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. O segundo elemento que serve de gancho para a série de Brown é o detalhismo na descrição de locais espalhados pelo mundo – nesse caso, Florença, Veneza e Istambul.

Baseando-se, portanto na fórmula bem sucedida de seus dois últimos livros com o mesmo personagem – acrescente-se ainda “O Símbolo Perdido”, passado Washington – Dan Brown parece ter se acomodado sobre o seu receituário. Os fãs do gênero certamente se encontrarão plenamente satisfeitos pelo que foi apresentado, porém, para um leitor mais atento, não passará despercebido que em pelo menos dois momentos do livro – fora o fato da trama girar em torno de uma ameaça mais chegada para um filme de James Bond – a existência de viradas de roteiro, no mínimo forçadas, como se ele estivesse corrigindo uma rota da qual teria perdido o controle. Uma delas girando entorno da Diretora Geral da Organização Mundial da Saúde, no livro sendo a personagem Elizabeth Sinskey; e a outra naquela que seria a co-estrela da trama, uma jovem médica chamada Sienna Brooks.


O que posso dizer, afinal? Tendo em mente o objetivo a que se presta – assim como quando você escolhe qual filme está a fim de assistir no fim de semana, um somente para relaxar e rir, ou aquele que o faz pensar – “Inferno” pode ser o dito cujo para alguns leitores mais exigentes. Mas, com certeza, agradará e prenderá aqueles que anseiam pela correria de Langdon entremeada pela aula de cultura grátis que Brown nos oferece em meio ao desenrolar de sua estória. Isto é, cada um tem o Paraíso que merece – e busca. Eu espero sempre mais, mas acompanhado do melhor, em termos de qualidade. E a qualidade, para o meu critério, caiu nessa última obra de Dan Brown. Melhor sorte da próxima vez.

domingo, 14 de julho de 2013

A BÍBLIA: UM DIÁRIO DE LEITURA

Estamos em Julho de 2013, às vésperas da Jornada Mundial da Juventude, um dos maiores eventos da Igreja Católica. Desta feita, realizado no Rio de Janeiro, imagina-se que reunirá em torno de 3 milhões de fiéis vindos dos mais diversos cantos do mundo. Mas o que procura esta população, este rebanho?

Um novo papa foi eleito este ano – Francisco é o seu nome. Veio com a mensagem de prevalência da humildade no coração dos homens. E com uma alma guerreira moldada em debates políticos dos quais participou em sua terra natal, Argentina. Em recente entrevista indicou a participação política como uma obrigação de todo cristão, como uma missão para a melhoria da vida em comunidade, ou seja, algo que poderia ser amplificado para toda a humanidade.

No centro da fé católica está o Livro Sagrado, a Bíblia. Em verdade, ela se constitui da junção de um conjunto de livros que narra a história das origens do catolicismo, as diretrizes que lhe dão base, tendo como ponto alto a vinda de Deus à Terra em forma humana, na pessoa de seu Filho, Jesus Cristo. Porém, mesmo uma obra deste tipo, baseada na fé, na crença do que está ali exposto, sem se importar com provas, não escaparia ao criticismo típico de nossos tempos.

Recentemente tive contato com um livro que em muito auxilia a compreensão da mensagem ali inserida. Ele se chama “A Bíblia: um Diário de Leitura”, de Luiz Paulo Horta, publicado pela Ed. Zahar, no ano de 2011 – 248 págs. Horta, jornalista e escritor, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), já tendo ministrado cursos sobre a Bíblia na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, preside o Centro Dom Vital, uma espécie de think tank católico. Um ótimo perfil, portanto, para ousar o desafio de, como leigo, traduzir à comunidade o que está no cerne das páginas bíblicas.



Horta não teve temor em enfrentar as grandes questões, em indicar caminhos e apontar soluções e entendimentos para muitas das polêmicas que giram em torno das linhas traçadas à 2 mil anos e que balizam a vida de milhões de católicos mundo afora. A clareza em suas palavras, a facilidade na construção dos argumentos, obviamente sedimentados a partir de um grande conhecimento acumulado e de uma cultura geral vasta, facilitaram seu trabalho. Vamos expor abaixo apenas alguns exemplos, para verificar se aguçam a sua curiosidade quanto a essa obra – e ao livro que a inspirou que, independentemente de sua religião, poderá ser de grande utilidade filosófica para o enfrentamento dos dilemas da vida.

A força das parábolas

Muitos se questionam porque Cristo – e muitos dos demais autores e profetas relatados na Bíblia – se utilizam amplamente das parábolas para retratar as lições a serem seguidas pelos fiéis. Esse ponto é um dos de mais fácil explicação. “Se você teve um avô, contador de histórias infantis, jamais as terá esquecido. E por quê? Não será porque elas falavam ao coração? [...] Pensem no Cristo, na facilidade com que ele desliza para a parábola – a dose de verdade/realidade que uma pessoa comum pode assimilar” (pág. 24).

Em tempos em que a educação era uma raridade restrita às elites, os religiosos que tinham o dom da palavra, ou mesmo os políticos mais proeminentes, se utilizavam de parábolas para exemplificar, ao homem comum, o que eles queriam dizer. Quando a mensagem surgia com clareza ao coração do homem, este não tinha como não gravá-la. Este, sem dúvida, é um dos segredos da Bíblia, um compêndio de maravilhosas parábolas, a começar pela história de Adão e Eva e da criação do mundo.

O papel da mulher numa sociedade patriarcal

Um grande erro é a leitura que se faz de que a Bíblia retrata a mulher sempre em segundo plano. Muito pelo contrário, ela é o centro da ação por diversas vezes. Deve-se compreender que a Bíblia não é uma obra dissociada do tempo em que foi redigida e que retrata. Erros cometidos por figuras centrais o são sem distinção de gênero, muitas vezes mais vinculadas à pouca experiência de alguns destes do que ao sexo propriamente dito. Poderia isto, talvez, ser debitado à reverência que se tinha aqueles tempos à experiência acumulada de anos de vida, algo tão diferente da sociedade em que estamos inseridos.

Mas será despropositada a cena do Gênesis, ao menos como recurso literário? A sedução da mulher não depende, muitas vezes, da atitude que os franceses chamam de insouciance, uma despreocupação que beira a frivolidade, uma conduta mais emotiva, mais impulsiva, que a do homem? Sim, esses papéis podem se inverter. No correr da vida não é a mulher que, tantas vezes, assume a chefia da casa, o senso de realidade, enquanto o homem borboleteia?
[Págs. 33/34]

O homem criado à imagem e semelhança de Deus

Algo que inquieta a muitos é fato de que a noção do livre arbítrio seja um paradoxo em relação à condução da vida terrena para o ser humano. Se Deus o quisesse como sendo simplesmente o condutor de atos corretos, sem a mínima margem de erro, o teria feito. Mas ele lhe dá a faculdade do livre arbítrio, como se quisesse valorizar na sua própria criação o ferramental de construção da própria vida, algo que não o é, por exemplo, destinado aos demais seres vivos, impulsionados que são pela centelha do instinto, sem o mínimo raciocínio. “Dito de outra maneira: a perfeição do homem é a perfeição de uma vocação e não de uma situação” (pág. 39). O homem tem a vocação para o bem, mas para alcançá-la necessita de Deus – e de Sua mensagem – para fazer a ponte.


Não existe história mais emblemática na Bíblia sobre força da fé do que a do quase sacrifício do filho único Abraão, Isaac. Horta coloca que seu nascedouro talvez esteja vinculado ao fato de que Abraão tenha tido a oportunidade de ter tido contato direto com Deus. Porém, este é um fato para o qual não há explicação – quer maior sentido para fé?!

Como pedir a um pai que sacrifique o próprio filho? É um teste que ultrapassa todas as medidas. Mas antes que isso acontecesse, ele tivera um contato igualmente excepcional com a realidade divina. Ali, certamente, é que sua fé deitava raízes. Dali deve ter vindo a força que, para nós, é incompreensível. Ficou o exemplo, envolvido no mais denso mistério. Nunca saberemos como cada um de nós reagirá nos limites da condição humana [pág. 52].

Em verdade, a fé é a esperança de que iremos alcançar um algo melhor no futuro. Mas esse futuro é construído no dia a dia, com cada uma das atitudes que tomamos em nossas vidas.

A Bíblia inserida no seu tempo

O aspecto já citado acima de que a Bíblia não pode ser dissociada do tempo em que foi escrita, por estar imersa numa cadeia de valores e características de uma sociedade específica, volta a ser abordado pelo autor de maneira mais explícita. Quando compreendemos esta característica da Bíblia histórica, podemos interpretar de um melhor modo uma série de ensinamentos que se buscam passar, mesmo que se observados com os olhos da sociedade atual pareçam um tanto quanto distorcidos:

Que moral é essa? O filho engana o pai, ajudado pela mãe? [Rebeca, mulher de Isaac, ajuda Jacó a enganar o pai] É a moral – digamos, os costumes – de um período que a Bíblia descreve, infinitamente remoto. A Revelação não atropela as épocas, nem os costumes. Procede por etapas. Foi o que já vimos na história de Abraão e Sara. Mas Rebeca enganando o marido! Diz uma senhora muito sábia, minha conhecida: “Ela sabia que Esaú era um estouvado, que a liderança tinha que passar por Jacó.” Pragmatismo feminino.
[Pág. 54]

Da mesma forma poderia se entender, talvez, porque a ênfase no Antigo Testamento, às guerras empreendidas em nome da religião. Não podemos dizer que esta não seja uma realidade existente em nosso tempo, porém nos parece, olhando à distância, que muito mais vezes hoje em dia a religião é utilizada de modo pernicioso para justificar determinadas atitudes, enquanto naquela época era realmente um argumento fático para se iniciar um conflito belicoso. Dessa forma, um Deus guerreiro não seria de todo estranho aos seus fiéis, naquele tempo.

Um outro incômodo ao leitor moderno, adjacente desta situação acima explanada – o Deus guerreiro – é o Deus colérico, que pune seus fiéis. Tal discurso, aos ouvidos da sociedade, soa como um paradoxo quando a religião católica prega o amor extremado para com o próximo, inclusive para o com o inimigo. Porém, Horta é enfático em afirmar: “O Criador tem direitos sobre a criatura, por mais que o homem moderno tenha se esquecido disso. Isso não é uma diminuição da criatura – é um dado da realidade” [pág. 76].

Se formos perceber bem, o que foi dito a respeito da vocação para o bem – o homem à imagem e semelhança de Deus – e sua associação com o livre arbítrio, Deus teria colocado nas mãos dos homens todas as possibilidades do mundo. Porém isso não significa dizer que ele não poderia tomar atitudes corretivas – e dá uma amostra, inclusive, de que ouve a criatura, quando existe a interseção de diversos profetas em favor de um povo, de que crê na força do diálogo e que se utilizados os argumentos corretos uma decisão pode ser revogada. O autor cita uma passagem da Bíblia na qual tal mensagem é praticamente literal, nas palavras do próprio Senhor:

Casa de Israel, não poderei fazer de vós o que faz este oleiro? – oráculo do Senhor. O que é a argila em suas mãos, assim sois vós nas minhas, casa de Israel. Ora anuncio a uma nação ou a um reino que vou arrancá-lo e destruí-lo. Mas se essa nação contra a qual me pronunciei se afastar do mal que cometeu, arrependo-me da punição com que resolvera castigá-la. Outras vezes, em relação a um povo ou reino, resolvo edificá-lo e plantá-lo. Se, porém, tal nação proceder mal diante de meus olhos e não escutar minhas palavras, recuarei do bem que lhe decidira fazer [pág. 77].

O pecado original

Talvez o conceito que englobe uma série dos artifícios aqui já mencionados – a prodigalidade no uso de parábolas, a adaptação aos tempos para passar conceitos aos fiéis envoltos numa sociedade constituída de valores distintos dos atuais, o livre arbítrio, a inteligência como dádiva humana, etc – esteja mais bem resumida quando tocamos no tema do pecado original. O pecado original deve ser entendido como um conceito, uma metáfora para uma mensagem. Da mesma forma que o homem tem a vocação para o bem, existe o outro lado da moeda, representado pelo potencial para o pecado. Isto como uma alternativa equânime para todos, e não para um só homem – creio que vocês já devem ter entendido que a estória de Adão e Eva é uma alegoria, mais uma das parábolas da Bíblia. O pecado original não seria, assim, um único ato, mas a potencialidade intrínseca na qual vivemos em relação a ele e que, infelizmente, muitas vezes incorremos. Seria assim, uma alegoria da falibilidade humana, e não um único ato de um único homem que nos condenou.

Questão muitas vezes resumida de forma errônea, o pecado original tem tal força enquanto base de entendimento da religião católica que mereceu um capítulo inteiro (5) pelo autor na tentativa de já preparar o terreno para algo que ele vem a retomar quando o leitor já se encontra maduro na leitura de sua obra. Ele coloca assim a questão, já na reta final do livro (pág. 228), citando o monge beneditino dom Bede Griffiths:

Mas no ser humano, a vida divina reflete-se numa consciência, numa inteligência semelhante a ela. Essa energia é recebida por uma vontade, por uma capacidade de ação iluminada pela inteligência e, portanto, livre. Podemos receber essa luz divina e nossa dependência em relação ao Bem supremo. Mas também podemos nos apropriar dessa luz divina, fazer de nós mesmos o juiz e o mestre, agir como se esse poder viesse de nós mesmos. Esse é o pecado original, essa é a grande ilusão.

Conclusão

Ao terminar de ler uma obra, muitas vezes nos perguntamos se o autor atingiu o seu objetivo. Numa obra de ficção esta análise se vê facilitada, pois ao terminarmos – ou mesmo antes, bem antes – já percebemos se fomos cooptados pela estória ao ponto de não queremos largá-la.

O que Horta se propôs foi abordar alguns dos pontos centrais da Bíblia – e de suas características – de modo a facilitar a apreensão de sua mensagem. Obviamente ele não tinha como intenção encerrar todas as polêmicas – por exemplo, ele não encontra uma explicação, simplesmente constata que é intrínseca à obra a parcialidade aos Israelitas em detrimento de outros povos. Mas talvez, mesmo essa, seja uma característica comum ao nascedouro de toda e quaisquer religiões. Elas têm um pilar central que surgiu de uma determinada camada da humanidade, e esta parcela servirá como referência para o desenrolar dos acontecimentos e da explicação dos conceitos.

 Luiz Paulo Horta


De todo modo, fica clara a linha central: a ênfase no fato de que o catolicismo está baseado no poder do amor, que o amor deve ser o esteio principal das ações dos cristãos, ferramenta primordial para construirmos um mundo melhor. O que foi explanado durante todo o decorrer do livro – e da Bíblia – é a história da relação entre os homens servindo como base para a construção de todo um arcabouço de conceitos de modo a se tentar gerar uma sociedade melhor. A Santíssima Trindade poderia ser entendida assim: três em um, a relação fortalecendo o amor, não importando o seu formato – o instrumento não pode ser maior que a mensagem. “Que Deus é o Ser absoluto, nenhum cristão poderá negar. Mas, diz o padre Bezançon, a própria realidade do Cristo nos transporta da filosofia para a vida. Com o Cristo, ficamos sabendo que Deus é relação” [pág. 242].

domingo, 12 de maio de 2013

O CEMITÉRIO DE PRAGA


Muito ruim! É isso mesmo que vocês estão lendo. Eu nunca pensei que fosse escrever sobre uma obra, ainda mais de Umberto Eco, um ícone após o célebre “O Nome da Rosa” (1980), que gerou um filme de igual sucesso, tal contundente opinião. Mas esta foi construída sob a árdua pena de ler a obra por inteiro.

A estória gira em torno de um personagem assaltado pela moléstia da dupla personalidade. Capitão Simonini / Abade Dalla Picolla são a dupla faceta de um tabelião que sobrevive do talento para ser falsário de documentos. Para completar a tríade narrativa, ainda existe um terceiro Narrador, com ‘N’ maiúsculo mesmo, agente externo para esclarecer o desenrolar do romance.

A criação deste terceiro ente me parece a prova mais cabal que o autor italiano se viu em determinado momento enredado na dificuldade de expor suas próprias idéias aos leitores. Talvez o tenha passado quando da revisão com o editor, não sei, mas que parece aquela situação esdrúxula pela qual muitos já passaram de ter que explicar a piada – e o bem sabem o quão ridículo e vexaminoso assim o é.

O autor e sua obra, com o título original, em italiano.

O que dizer em defesa de Umberto Eco? Talvez esta obra seja válida para o imaginário italiano, alcançando o coração de seus conterrâneos, uma vez que em sua primeira parte ambienta a narrativa durante o processo de construção da República da Itália. Tendo como argumento que os únicos personagens ficcionais seriam aqueles acima apontados, poderão aguçar a curiosidade daqueles que gostariam de se aprofundar na alma daquela época – que de um certo modo vêm a gerar a loucura política pela qual o país da bota passa desde a era Berlusconi até hoje.

Uma das características que o autor gosta de ilustrar para apontar como um traço relevante do perfil do italiano é sua paixão pela gastronomia. Sempre presente durante as páginas do livro, vira e mexe encontramos o receituário a ser seguido para se produzir uma iguaria culinária:

“Meus mestres gostavam de comer bem, (...). Eram necessários ao menos meio quilo de músculo de boi, um rabo, alcatra, salaminho, língua e cabeça de vitela, lingüiça, galinha, uma cebola, duas cenouras, dois talos de aipo e um punhado de salsa. Deixava-se cozinhar tudo por tempos diferentes, segundo o tipo de carne. Porém, como lembrava vovô, (...), assim que o cozido era colocado na travessa, para ser levado à mesa, era preciso espalhar um punhado de sal grosso sobre a carne e derramar nela algumas conchas de caldo fervente, para ressaltar o sabor. Poucos acompanhamentos, exceto umas batatas, mas eram fundamentais os molhos; podiam ser de mosto, de rabanete ou de frutas com mostarda, mas sobretudo (vovô não transigia) o molhinho verde: um punhado de salsa, quatro filés de anchova, miolo de um pãozinho, uma colher de alcaparras, um dente de alho, uma gema de ovo cozido. Tudo finalmente triturado, com azeite de oliva e vinagre” (págs. 74-75).

O volume de citações como as descritas acima é fora do normal. Aí lhes pergunto: se estivéssemos realmente interessados no tema, não seria mais adequado buscar os conselhos de alguém como Jamie Oliver?

Além desta linha de ataque – a produção em profusão de aspectos para qualificar um determinado povo (neste caso o italiano, mas a obra segue com a mesma volúpia em relação aos franceses, aos prussianos, aos russos e principalmente aos judeus, sempre de forma no mínimo jocosa, o que de certa forma mais uma vez enaltece o fato de que o autor tinha por objetivo, utilizando-se da ironia, em identificar como abjeto o modo de ver da direita radical tão em voga na Europa hoje em dia) – Umberto Eco também parte para traçar o contorno de determinadas profissões e suas dubiedades. Sobre o falsário, algo tão próximo do dilema advocatício, principalmente no campo criminal:

“- Que fique claro, caro Simone – explicava Rebaudengo [personagem que ensinou o ofício de falsário ao protagonista], passando ao você -, que não produzo falsificações, mas sim novas cópias de um documento autêntico (...). Mas, se um inimigo seu, digamos assim, aspirasse à sua herança e você soubesse que ele certamente não nasceu nem do seu pai nem da sua mãe (...) eu, por assim dizer, ajudaria a verdade, confirmaria aquilo que sabemos ser verdadeiro e não teria remorsos.
- Sim, mas como o senhor faria para saber de quem realmente nasceu o tal sujeito?
- Você mesmo me diria! Você que o conheceria bem.
- E o senhor confiaria em mim?
- Eu sempre confio nos meus clientes, porque só presto serviço a pessoas honradas.
- Mas, se, por acaso, o cliente tiver lhe mentido?
- Então foi ele quem cometeu o pecado, não eu. Se eu começar a pensar que o cliente pode me mentir, então não exerço mais esse ofício, que se baseia na confiança”. (págs. 98-99)

Em tempos de mensalão e do caso Bruno e Eliza Samúdio nada mais adequado.

A narrativa prossegue, saindo da Itália recém republicana para as convulsões numa França das comunas. Nesse cenário, Eco se aproveita para fazer uma crítica às pseudo-democracias, verdadeiras ditaduras que proliferam mundo afora. Aparentemente o alvo são Governos como por exemplo do falecido Hugo Chávez, ao discutir a possibilidade de usufruir de uma obra difamatória para manipular o povo:

“- Compreende? Conseguir realizar o despotismo graças ao sufrágio universal! O miserável [Napoleão III] de um golpe de Estado autoritário recorrendo à obediência bovina do povo! Está nos mostrando como será a democracia de amanhã” (pág. 195).


Por último, Eco ataca as raízes de uma sociedade em que cada vez mais existe o culto às celebridades instantâneas, à vida desenvolvida com base na esperteza e na futilidade, talvez proporcionada pelo advento do fenômeno da internet e a facilidade para a circulação da informação (sem o devido cuidado de se separar o joio do trigo – o tão propalado “lixo” existente na rede):

“O Narrador considera que Simonini se antecipava aos novos tempos: no fundo, com a difusão da imprensa livre e dos novos sistemas de informação, do telégrafo ao rádio já iminente, as notícias reservadas tornavam-se cada vez mais raras, [...] Melhor não possuir nenhum segredo, mas aparentar possuí-los. Era como viver de rendas ou gozar dos proventos de uma patente: você fica de papo para o ar, os outros se vangloriam de ter recebido de você revelações perturbadoras, sua fama se revigora e o dinheiro lhe chega com facilidade” (págs. 310-311).

Se a intenção do autor era fazer uma crítica social, me parece que a escolha de um romance histórico, como ele mesmo diz, “com tantos avanços e recuos, ou seja, aquilo que os cineastas chamam de flashback” (pág. 473), não foi a melhor estratégia. Ao final, o próprio prepara, como se fosse uma mea culpa, uma tabela explicativa, com três colunas, para melhor situar o leitor na seqüência dos fatos então narrados. Me parece que Eco produziu um livro para consumo interno, esquecendo-se de seu público universal, de enredo deveras complicado, com inúmeras passagens descartáveis (o último quarto do livro, no qual ele se perde em uma trama entrelaçando maçonaria, Igreja Católica e ocultismo é de uma falta de necessidade sem fim – ainda mais levando-se em conta que já teríamos ultrapassado, a duras penas, cerca de 300 páginas do total de 480). Pior, perdeu uma grande oportunidade de nos brindar com uma obra de não-ficção, em que colocaria os pingos nos i’s e nos deleitaria com sua grande erudição e conhecimento de causa a respeito da política e da sociedade atual, e mesmo assim de mais fácil leitura. Uma pena!

Ficha: “Cemitério de Praga” – ECO, Umberto – Ed. Record, 2011- 480 págs.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Cem Dias entre Céu e Mar


Todos nós passamos por experiências que marcam a nossa vida, que servem de referência para nossas futuras atitudes. Desta forma vamos ganhando maturidade, vamos crescendo em sabedoria, vamos aprendendo “o caminho das pedras”. Essas lições servem, portanto, para que não cometamos os mesmos erros e para que possamos trilhar um rumo com menos tropeços e equívocos.

Porém, poucos são aqueles que podem dizer que anteciparam a experiência marcante pela qual passariam – exceção àqueles que ficaram 9 meses esperando o primeiro filho nascer. Amyr Klink foi um deles. No livro “Cem Dias entre Céu e Mar” – São Paulo – Ed. Companhia das Letras – 2005 – 160 págs. – este economista e administrador por formação apresenta o relato dos preparativos e da jornada de travessia, da África para o Brasil, do oceano Atlântico, a bordo de um barco a remos – o IAT.


Amyr Klink, ao contrário do que muitos podem pensar, não é um aventureiro. Isso se a palavra tiver o significado de ser uma pessoa que faz as coisas sem medir muito as conseqüências. Muito longe disso. Amyr Klink é uma pessoa metódica, organizada, que só se envolve em suas empreitadas com muito planejamento. Depois desta aventura, pela qual ficou conhecido – foi o primeiro a atravessar o Atlântico pelo hemisfério sul desta forma, sozinho, remando – ele ainda realizou outras, sendo de igual relevância, por exemplo, em termos de desafio, a permanência, isolado, entre a Antártica e o Ártico, num projeto que consumiu ao todo 2 anos.

Amyr Klink hoje em dia...

E o mais interessante ainda é que, uma vez que você passa a acompanhar com interesse reportagens sobre os chamados esportes radicais – casta talvez que mais se aproxime dele – percebe que os verdadeiros profissionais fazem tudo com muito método e planejamento, evitando assim contratempos e riscos desnecessários. Dito isto, seguem, abaixo, algumas lições extraídas do livro – que não sem razão, acabaram por ser um dos meios de renda do próprio Amyr, ministrando palestras para todo o tipo de público, principalmente empresas, que podem aplicá-las ao combativo mundo em que se inserem:

Planejamento é tudo

Um pouco antecipado no parágrafo acima, Amyr Klink antes de enfrentar os mares, analisa meticulosamente cada passo a ser dado. As surpresas no meio do caminho não deixam de existir – isso é a vida – porém sua capacidade de planejamento lhe dava a devida segurança para que, a cada “não” ou “porém” que surgisse, ele estivesse convicto, mesmo assim, de que estava no caminho certo. Tinha um rumo traçado, estudado, e nada poderia abalá-lo ao ponto de desistir.

O “dossiê amarelo” era meu advogado oficial: um documento de trinta páginas que escrevi dois anos antes, onde detalhava, item por item, o projeto que tinha em mente e que não deixava dúvidas sobre a sua viabilidade. Por muitas vezes ainda esse documento me livraria de situações complicadas. (pág. 22).

Coragem, mesmo nos momentos mais difíceis

Por vezes nos vemos envolvidos numa série de desencontros, decisões erradas, equívocos que nos fazem pensar que tudo de negativo está acontecendo conosco e que não temos como sair deste buraco negro. É o chamado “inferno astral”. Amyr Klink teve os seus, em mais de 3 meses no mar. Porém, em nenhum momento ele perdeu a coragem de seguir em frente, seguro que estava do projeto e das ferramentas que tinha à mão. Se ele teve medo? Claro que sim. O medo também faz parte, e sua principal função é nos auxiliar a não cruzarmos os limites. Mas sempre existe o imponderável da natureza, muito maior do que nós, que poderia levar tudo a perder. Mas para quem se prepara, sempre há uma saída. Há que ter paciência e atitude. Muitas vezes as coisas se ajeitam por si só. Desesperar jamais.

Naquela mesma noite fui acordado diversas vezes por ondas que golpeavam o barco com impressionante violência. O mar parecia ter enlouquecido e não havia mais nada que eu pudesse fazer a não ser permanecer deitado e rezar. (...) Mal tive tempo de analisar o que se passou, e o mundo deu novamente uma volta completa, tão rápida que nem cheguei a sair do lugar. (...) Impossível descobrir naquele momento. Precisava tirar a água primeiro. Não havia tempo para pensar. Sem que eu parasse de um minuto de acionar a alavanca da bomba, o dia começou a nascer e pude então perceber o tamanho da encrenca. (...) Os segundos passavam e nada acontecia desta vez. Eu tinha no fundo do barco um sistema de tanques flexíveis de borracha, embaixo dos tanques de água doce, previsto para uma eventualidade como essa. Eram tanques de lastro que, abastecidos com duzentos litros de água, fariam o barco retornar à posição normal. Pensei, então, em acionar a bomba de lastros. Mas não foi preciso. Mal tentei me virar para alcançar a alavanca da bomba, o barco endireitou. Que alívio! (págs. 36 e 37).

E Amyr Klink naqueles dias.

Saber avaliar o problema

Em nosso rápido mundo, queremos soluções já, imediatamente, para os problemas que nos afligem. Não paramos em nenhum momento para analisar se aquela questão é tão difícil que pode tomar muito mais tempo do que desejamos. Como se o ser humano não suportasse o sofrimento por um longo período. Ao contrário. Se tivermos a correta dimensão do que temos pela frente, saberemos então ter a devida paciência para, ultrapassando uma etapa de cada vez, sobrevivermos e acelerarmos, posteriormente, rumo ao objetivo traçado. Nenhum problema é tão grande que não possa ser resolvido. Porém, há que ter a paciência necessária para buscar a solução.

Não havia por que insistir em enfrentar a violência do mar. O barômetro, desde a véspera bastante baixo, continuava lentamente a descer e indicava que tão cedo as condições metereológicas não melhorariam. Eu estava sendo ultrapassado por um centro de baixa pressão. Entendi que de nada adiantaria medir braços com algo maior que as minhas forças, e que em vez de teimar com o tempo e correr o risco de quebrar o barco, deveria ser paciente e saber aguardar o momento certo de continuar em frente (pág. 59).

Depois da tempestade sempre vem a bonança

Ditado mais que batido, mas que sempre nos esquecemos em meio ao turbilhão que estamos enfrentando. Momentos ruins os teremos, mas também momentos bons serão muitos – e em maior quantidade. A vida é assim, feita de altos e baixos. Temo que saber enfrentar os baixos para bem usufruir dos altos, não nos esquecendo jamais que outros reveses poderão advir.

Não passei naqueles sete dias [sete dias seguidos de tempestade] por um momento sequer de monotonia, tristeza ou desespero. Pois nada é mais certo do que a chegada do bom tempo após uma tempestade que parece interminável. (pág. 60)

Dar valor às pequenas alegrias da vida

Quantas vezes desperdiçamos o proveito que podemos tirar das pequenas alegrias da vida. Aquele sorvete num dia de calor, uma caminhada na praia com a família, um jantar quentinho depois de um dia intenso de trabalho, entre outras inúmeras coisas. Todas elas nos dão forças para enfrentar os dilemas que imaginamos gigantes, mas que se tornam menores perante a grande quantidade de alegrias que usufruímos e não nos damos conta.

A imensidão do mar tornava minúsculos os meus maiores problemas e gigantes as menores alegrias. Ensinou-me a dar valor à vida que eu levava e a pequenas coisas que às vezes passavam despercebidas. Nada no mundo era mais gostoso do que terminar o jantar e ir para cama. Nada fazia mais falta do que um travesseiro comum. (...) E então pude constatar como tão poucas coisas eram suficientes para viver em paz e bem. (pág. 119)

Navegar é preciso, mas decidir é preciso

Nossa vida é uma trajetória que construímos, e essa ser, para mim, a principal lição de Amyr Klink. Construímos com planejamento, paciência e dedicação, com coragem para enfrentar os piores momentos, sabedoria para esperar os melhores momentos, que certamente virão. Mas para que possamos seguir em frente, não podemos fugir das decisões. Elas são a alavanca que farão com que superemos as dificuldades.

Ao se caminhar para um objetivo, sobretudo um grande e distante objetivo, as menores coisas se tornam fundamentais. Uma hora perdida é uma hora perdida, e quando não se tem um rumo definido é muito fácil perder horas, dias ou anos, sem dar conta disso. O mínimo progresso que conseguisse fazer num dia em direção ao Brasil era importante, ainda que fosse de centímetros apenas. Com o tempo, eu acumularia todos os progressos e os centímetros se transformariam em quilômetros. Senti que estava cumprindo uma obra de paciência e disciplina. E percebi como é simples conseguir isso. Nada de sacrifícios extremos ou esforços impossíveis. Nada de grandes sofrimentos. Ao contrário, bastava apenas o simples, minúsculo e indolor esforço de decidir. E ir em frente. Então tudo se tornava mais fácil. Os problemas encontravam solução. (págs. 119-120).

É isso, acho que não preciso dizer mais nada. Esse foi a aprendizado que tirei deste livro. Provavelmente vocês identificarão muitos outros, se tomarem a decisão de lê-lo. É tão simples...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Em Algum Lugar do Paraíso


“O Veríssimo é um machista!”. Foi com essa afirmação peremptória que fui recebido pela minha esposa ao relatar alguns dos textos hilários escritos por Luis Fernando Veríssimo no livro “Em Algum Lugar do Paraíso” – Ed. Objetiva – 2011 – 198 págs.. Confesso que num primeiro momento minha reação foi de pensar que ela não estava tendo a sensibilidade necessária para a leitura dos textos daquele o qual reputo um dos maiores escritores de crônicas do cotidiano de nosso tempo.


 Posteriormente, ao observar com mais atenção os textos seguintes lidos no mesmo livro – ainda estava em meio à leitura da obra, mas não me contive em ler para ela aquelas palavras de tão bom humor, inteligentes, às quais estava tendo acesso – percebi sim um viés pelo estereótipo de nossa sociedade, ela sim, machista ao extremo. Ora, sendo o Veríssimo um cronista, um crítico, da sociedade em que vivemos, é óbvio que ele use como matéria prima os aspectos mais relevantes que esta possui – o machismo sendo uma delas.

A capacidade de rirmos de nós mesmos nos faz uma espécie singular. Nossas mazelas a todo o momento se fazem presentes e temos que ter a capacidade de encontrar nestas, aquele aspecto que faz com que as diminuamos ao seu real tamanho, estratégia elementar para que possamos superá-las. Veríssimo, com sua verve inspirada, nos auxilia nesta caminhada. “Veríssimo nos faz pensar sobre as escolhas, as decisões precipitadas, as que nunca foram tomadas – sempre com um olhar amoroso, bem-humorado, cúmplice de limitações demasiado humanas”. É assim que o autor é apresentado na orelha de sua própria obra.


 Entre as 41 crônicas apresentadas nesta coletânea algumas realmente abordam a visão machista indicada aqui no início. Aquela que dá título ao livro e que o abre, por exemplo, fala sobre a nova perspectiva de Adão a respeito da vida com o surgimento de Eva.

“Adão, sozinho no Paraíso, era um homem feliz porque era um homem sem datas. Mas quando Deus colocou Eva ao lado de Adão, a primeira coisa que ela perguntou, ainda úmida da criação, só para puxar assunto, foi: ‘Que dia é hoje?’, e ele sentiu que sua paz terminara” (pág. 7).

Porém, as mulheres têm também sua oportunidade de vingança, quando, por exemplo, somos comparados com George Clooney – “O Verdadeiro George Clooney” (págs. 63-65): “Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do George Clooney o que está em jogo é a autoestima da nossa espécie” (pág. 63).

Muitos outros temas são abordados, e não somente a relação homem X mulher. Decisões equivocadas, a passagem do tempo, a curiosidade humana, religião, filosofia, teatro, etc... Em cada uma delas é destacada uma característica absurda, tal qual um caricaturista que identifica os principais traços do retratado, e o realça em nome de nós termos a exata noção do non-sense que muitas vezes nossos atos assumem.

Em resumo: Veríssimo é a dose certa para aqueles que são livres, livres para rirem de si próprios e da vida. E rir é o melhor remédio, já diz a cultura popular. Ou nas palavras de Veríssimo, em “Liberdade” (págs.181-185), crônica em que na verdade ele compila uma série de frases sobre o tema: “Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, completamente livre, é a que não tem medo do ridículo” (pág. 185).

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros


O processo seletivo é, por naturalidade, algo que tem por base um juízo de valor subjetivo. Isto é, não necessariamente o seu resultado reflete o que na concepção de outros julgadores poderia ser aquele que representa mais fidedignamente o objetivo ambicionado. Porém, deve se dar sim mérito a quem se propõe a este desafio, pois não deixa de ser uma exposição a sua análise e qualidade como avaliador e crítico de determinada matéria. É o que a Revista Granta abraçou como um de seus ofícios, e é a edição com o título acima que agora nós nos propomos a avaliar. Estaríamos sendo ousados?


 Primeiramente como se trata de um livro composto por distintas estórias escritas por diferentes autores seria mais plausível incluir a palavra “contos” no título – os melhores jovens escritores brasileiros “de contos”. A própria Revista assim o coloca em sua introdução: “Os textos aqui reunidos representam uma fatia importante dos escritores em atividade no Brasil: autores com menos de 40 anos e com pelo menos um conto já publicado” [grifo nosso] (pág. 5) (1). Mas este afigura-se como um mero detalhe formal no que diz respeito à avaliação em si da obra (ou das obras) ali expostas.

“Esta é a primeira edição de Granta dedicada aos melhores jovens escritores brasileiros. Em anos anteriores, Granta consagrou-se internacionalmente com edições dos melhores jovens escritores britânicos, dos melhores norte-americanos e, mais recentemente, com autores de língua espanhola. Agora, dedica esta edição aos talentos que começam a traçar os contornos da literatura brasileira do século XXI. No total, foram selecionados vinte nomes, nascidos a partir de 1972, que através do seu trabalho contribuem para mudar o panorama das letras no país” (pág. 5).

Ou seja, o desafio proposto pela Revista era realmente enorme. O trecho final da afirmação acima compilada – “(...) contribuem para mudar o panorama das letras no país” – traz a medida exata do que temos como background no trabalho. Não está aqui dito, de forma nenhuma, que o panorama anterior em termos qualitativos era pobre ou ruim, mas que novos rumos estariam sendo tomados. Existe, porém, um traço comum a praticamente todos os textos que me chamou atenção de maneira negativa: o próprio negativismo ali intrínseco. Quase todos os autores tiveram uma abordagem pessimista dos temas tratados, com estórias pesadas, com perspectivas futuras, influenciadas, talvez, por décadas passadas difíceis – não há como negar que as últimas décadas na América do Sul tiveram mais baixos que altos em diversos aspectos. Mas o meu questionamento é justamente se não deveríamos dar ênfase, sim, nesta fase, para os jovens autores que tentassem “sacudir a poeira”, vislumbrando alternativas positivas, do que por aqueles que meramente se deixaram influenciar – e influenciam – visões de futuro pessimistas.

O texto do qual mais gostei, por exemplo, foi o de Antonio Prata – “Valdir Peres, Juanito e Poloskei” (págs. 101-109). Não, não é um texto baseado em futebol, e não seria por isso que ele teria me atraído. Mas sim por tratar com leveza uma lembrança de infância, que serviu como exemplo de como a vida gira, e novas portas são abertas, e que mesmo que nossos valores sejam traçados desde o início, é importante revisar a vida e perceber como aquilo que adorávamos pode se tornar supérfluo com o passar do tempo, e que temos que olhar para a frente, sem nos abatermos com os possíveis reveses vividos.

“De início, todos na rua tinham o mesmo poder aquisitivo e os bens per capita resumiam-se a uma bicicleta, uma bola de futebol, uma caixa de Playmobils, peças para montar e outras quinquilharias. (...) Até o dia em que o Rodrigo apareceu com o Jeep de controle remoto” (pág. 103).

Por uma razão distinta – a possibilidade de reação em relação a um revés negativo, desta vez de uma forma ativa, distinta da perspectiva passiva de aguardar roda girar para melhor vislumbrar possibilidades futuras, conforme apontado acima – é o mérito de outro texto que me chamou a atenção, e é logo o que abre a coletânea, escrito por Michel Laub – “Animais” (págs. 11-23).

“1.Quando eu tinha onze anos, em Porto Alegre, meu cachorro Champion foi morto pelo dobermann do vizinho. 2. Esse vizinho era um coreano dono de uma fábrica de biscoitos, e onde a família dele morava há um prédio. Onde nós morávamos também há, assim como em toda vizinhança, que era cheia de terrenos baldios e calçadas onde dava para andar de skate” (pág. 13)

Levando-se em conta tudo isso, e que estou destacando dois textos, porém dizendo que apenas o primeiro deles tem uma abordagem efetivamente positiva, do início ao fim, que nos faz rir durante o seu desenvolvimento, concluímos ser muito pouco para um grupo total de 20. Como exemplo típico do negativismo que apontei acima poderia citar, dentre todos os outros, o texto de Daniel Galera – “Apneia” (págs. 77-100). Nele o filho, após reencontrar o pai depois de muitos anos, se vê a frente com o pedido inusitado dele para tomar algumas providências, uma vez que este (o pai) irá se suicidar no dia seguinte.

“Que cara é essa? O pai só esboça sorriso, a piada é velha, dá a resposta usual. A mesma de sempre” (pág. 79).

Temos ainda o texto de Luisa Geisler, a mais jovem autora do grupo, nascida em 1991, que em que pese ter como qualidade a ousadia de tentar escrever a visão de um personagem masculino sobre o processo profissional X vida pessoal (2), mesmo sendo uma menina, o faz com uma tensão durante o decorrer que meio que esvazia o final, quando o protagonista dá uma guinada até positiva em sua perspectiva – “O Que Você Está Fazendo Aqui” (págs. 49-63).

“Todos na minha volta recebem ligações interessantes, tipo aqueles dois do casal. Só notam a minha presença na minha ausência. A única função do meu telefone celular é substituir relógio de pulso, ninguém usa relógio de pulso.
Embora meu iPhone tenha câmera, jogos, wi-fi, Bluetooth, acesso à internet, infinitos apps, recepção mundial, mp3 e até memória pros contatos que eu preciso, ele resulta em um telefone que mais liga pra táxis e pro trabalho” (pág. 51).

De todo modo, parabenizamos à Granta pela iniciativa. Esta prospecção, característica da revista desde sua fundação “em 1889 por alunos da Universidade de Cambridge” revela a perspicácia de aproveitar um bom momento na literatura brasileira. Como eles mesmos colocam:

“O Brasil vive um momento especial na literatura. (...) Hoje, entra-se gradualmente no mapa da literatura mundial; contamos com um programa mais consistente de apoio à tradução, editoras e agentes estrangeiros demonstram interesse em encontrar novos talentos escrevendo em português, e, com a escolha do Brasil como país homenageado na Feira de Frankfurt em 2013, a tendência é que mais escritores sejam reconhecidos internacionalmente. Acreditamos que a Granta pode ser uma peça importante para revelar esses talentos” (pág. 9). (3)

(1)   Revista Granta, 9: os Melhores Jovens Escritores Brasileiros – Rio de Janeiro – Ed. Objetiva – 2012 – 287 págs.;
(2)   Infelizmente me pareceu que o personagem masculino dela estava tendo uma visão feminina do dilema, ou seja, ela não foi bem sucedida na empreitada em que se meteu;
(3)   Autores presentes na coletânea – Michel Laub; Laura Erber; J. P. Cuenca; Luisa Geisler; Ricardo Lísias; Daniel Galera; Antonio Prata; Julián Fuks; Vanessa Barbara; Chico Mattoso; Emilio Fraia; Antônio Xerxenesky; Javier Arancibia Contreras; Carol Bensimon; Cristhiano Aguiar; Leandro Sarmatz; Carola Saavedra; Miguel Del Castillo; Vinicius Jatobá; e Tatiana Salem Levy.