sábado, 4 de outubro de 2014

Justiça: o que é fazer a coisa certa

Quando ganhei de aniversário, em 2012, da minha querida amiga Lúcia Motta o livro “Justiça: o que é fazer a coisa certa” – Michael J. Sandel – Ed. Civilização Brasileira – 2011 – 349 págs. – me veio logo à mente o intuito ou mensagem que ela estava querendo passar: se eu deveria labutar o meu senso de justiça na qualidade de gestor? Ou se ela me achava uma pessoa justa? Ou ainda, pelo fato de ser um livro baseado no curso de Harvard, homônimo, conduzido pelo autor, e ela me considerava apto o suficiente para absorver os ensinamentos e aplicá-los? E poderia ser tudo isso junto também.

Demorei muito tempo para abordá-lo. Dois anos se passaram, dois anos em que muita coisa aconteceu na minha vida. Mais do que nunca percebo hoje como a experiência no ensina a tomar decisões, algumas sábias, outras nem tanto, e o livro de Sandel trafega justamente sobre essa linha. Os seus alunos, confrontados com dilemas de princípios, são levados a raciocinar sobre qual melhor atitude tomar diante das encruzilhadas que se oferecem em seu caminho.

Sandel inicia sua jornada sublinhando os conceitos de justiça e as premissas que conduziram o leitor em sua jornada: “Se você prestar atenção ao debate, notará que os argumentos (...) giram em torno de três idéias: aumentar o bem-estar, respeitar a liberdade e promover a virtude. Cada uma dessas idéias aponta para uma forma diferente de pensar sobre justiça” – pág. 14.

Com o decorrer da leitura percebemos que estes conceitos não são necessariamente excludentes, porém interagem entre si, algumas vezes reforçando um determinado aspecto. O problema é que a outra abordagem pode se ressentir de um enfraquecimento. Por exemplo, uma atitude pode aumentar o bem-estar dentro de um grupo, mas isso não quer dizer que se respeite a liberdade – qual é o sentimento, por exemplo, dos americanos quando se prendem terroristas na base de Guantánamo? Difícil, não.

Para saber se uma sociedade é justa, basta perguntar como ela distribui as coisas que valoriza – renda e riqueza, deveres e direitos, poderes e oportunidades, cargos e honrarias. Uma sociedade justa distribui esses bens da maneira correta; ela dá a cada indivíduo o que lhe é devido. As perguntas difíceis começam quando indagamos o que é devido às pessoas e por quê. – pág. 28

O dilema do respeito à liberdade se mostra particularmente difícil, pois ele cria dois grupos que acabam se inserindo em pólos opostos a partir do momento em que passam a usar argumentos extremistas em favor dos seus conceitos. Em tempos de eleição isso fica muito claro. “Liderando o campo do laissez-faire estão os libertários do livre mercado que acreditam que a justiça consiste em respeitar e preservar as escolhas feitas por adultos conscientes. No campo da equanimidade estão os teóricos de tendência mais igualitária. Eles argumentam que os mercados sem restrições não são justos nem livres” – pág. 29.

O caminho do equilíbrio, de se observar as boas práticas em ambos os lados e buscar utilizá-las em favor de um sistema misto seria o ideal. Mas para isso o senso de justiça também é necessário, pois há que se saber ponderar a porcentagem de uso de uma determinada prática em detrimento de uma menor implantação de outra. Para um curso de filosofia, este é um maná dos céus, pois alunos e professores não são donos da verdade e estão ali para debater, o que não significa que vão chegar a uma conclusão de consenso. Na verdade, cada um sai enriquecido com um maior poder de argumentação, criando seus próprios conceitos do que pensa ser justiça e em como aplicá-la.

O autor, partindo dessas dificuldades de análise do tema, além de tantas outras que ele se auto-impõe e expõe aos seus alunos, passa então a discorrer como este assunto foi tratado por outros filósofos no decorrer do tempo. Um dos que foi citado é John Rawls (1). No livro “Teoria da Justiça” ele faz uma importante afirmação em torno da (in)justiça em termos da distribuição natural de oportunidades entre os indivíduos numa sociedade: “A distribuição natural não é justa nem injusta; tampouco é injusto que as pessoas nasçam em uma determinada posição da sociedade. Esses fatos são simplesmente naturais. O que é justo ou injusto é a maneira como as instituições lidam com esses fatos” – pág. 204.

Este é o tipo de conflito que vivemos a todo momento quando estamos numa posição gerencial, por exemplo. Se você identifica um colega (ou subordinado) de grande potencial, mas que o desperdiça por variáveis externas, algumas controláveis ou não, você deveria dar a oportunidade de uma vaga para ele mesmo assim por conta de seu talento futuro? Ou deveria priorizar aquele outro que se esforça, mas que está perto do seu limite? Garantir o presente ou apostar no futuro? Como a instituição – e você, gerente, por tabela – se beneficia de sua decisão?

Voltando a questão anteriormente abordada, o autor enfatiza mais uma vez que se deve evitar os extremos, buscar o caminho do meio, e a dificuldade em alcançá-lo de maneira equilibrada. Para tanto cita Aristóteles (2), que em “Ética ao Nicômaco” afirmou:

A única afirmação genérica que pode ser feita em relação à virtude moral, diz Aristóteles, é que ela é um meio entre os extremos. No entanto, ele se apressa em admitir que tal generalização não nos leva muito longe, porque não é fácil distinguir o meio em qualquer situação. A questão é fazer a coisa certa “para a pessoa certa, na dimensão certa, no momento certo, pelo motivo certo e da maneira certa”. – pág. 246.

Com o intuito de identificar aqueles mais capazes para assumir tal função, de identificar a melhor ação, a mais justa em determinada circunstância, Aristóteles teria indicado a necessidade da sabedoria prática. “Os indivíduos com sabedoria prática são capazes de deliberar corretamente sobre o que é bom, não apenas para si mesmos, mas também para seus concidadãos e para os seres humanos em geral. (...) É algo orientado para a ação aqui e agora. (...) Procura identificar o mais alto bem humano atingível em cada circunstância” – pág. 246.


Após idas e vindas, distintos cenários criados, o autor chega a conclusão que não existe uma única resposta, a final, pronta, para deliberar o que é justo ou injusto. Existem escolhas que devem ser feitas, e devemos saber aprender a lidar com as conseqüências delas, estando abertos ao debate sobre as mesmas, para poder defendê-las ou até mesmo dar um passo atrás e refazer o que era antes uma convicção em prol de outra, que foi demonstrada ser mais acertada pelo seu “debatedor”. Sandel, enfim, preconiza que a base para uma sociedade justa é o que ele chama de “respeito mútuo” pelas diferentes idéias.

Um comprometimento público maior com nossas divergências morais proporcionaria uma base para o respeito mútuo mais forte, e não mais fraca. Em vez de evitar as convicções morais e religiosas que nossos concidadãos levam para a vida pública, deveríamos nos dedicar a elas mais diretamente – às vezes desafiando-as e contestando-as, às vezes ouvindo-as e aprendendo com elas. Não há garantias de que a deliberação pública sobre questões morais complexas possa levar, em qualquer situação, a um acordo – ou mesmo à apreciação das concepções morais e religiosas dos demais indivíduos. É sempre possível que aprender mais sobre uma doutrina moral ou religiosa nos leve a gostar menos dela. Mas não saberemos enquanto não tentarmos – pág. 330.

No fim, espero que tenha estado à altura do desafio em termos de leitura que me foi imposto. Via de regra gosto do debate, mas como a maioria dos seres humanos, gosto mais ainda quando a minha tese prevalece. Resta saber se eu aprendi a lidar com as derrotas, entendendo-as como justas em dado momento. Não é fácil, mas quem disse que seria.

(1)     John Rawls, o mais conhecido e celebrado filósofo político norte-americano, falecido aos 81 anos, em 2002, é tido como o principal teórico da democracia liberal dos dias de hoje.

(2)     O Filósofo grego Aristóteles nasceu em 384 a.C., na cidade antiga de Estágira, e morreu em 322 a.C. Seus pensamentos filosóficos e idéias sobre a humanidade tem influências significativas na educação e no pensamento ocidental contemporâneo. Aristóteles é considerado o criador do pensamento lógico.

sábado, 27 de setembro de 2014

Os Hermanos e Nós

Esta crítica ao livro “Os Hermanos e Nós” – Ariel Palacios e Guga Chacra – Ed. Contexto – 2014 – 254 págs. – poderia se iniciar com outro título: Por que eu não gosto de livros sobre futebol? Aí há que se fazer uma diferenciação: não é que eu não goste de livros sobre futebol em geral. Aos poucos surgem no mercado obras que utilizam o futebol como pano de fundo para uma estória, obras de ficção. Ou ainda existem aqueles livros que documentam um fato histórico, objeto de uma minuciosa pesquisa, e que são verdadeiras enciclopédias a serem visitadas e revisitadas pelos leitores, a título de consulta.

Porém, essa classe de livros a que estou me referindo infelizmente é a que se enquadra o livro que vou analisar neste post. “Hermanos (...)” foi escrito pela dupla de jornalistas Ariel Palacios e Guga Chacra, ambos com históricos de vivência em terras argentinas. A princípio, portanto, talhados para o desafio de expor como seria este relacionamento que nos pauta, como amantes do futebol, de maior rivalidade na América do Sul – quiçá, no mundo, porém isto é um tema para outro blog, polêmico, lhes adianto, pois passando por povos distintos, cada um deles terá seu próprio “clássico” mundial. Nem mesmo Brasil e Argentina é pacífico enquanto maior rivalidade – os uruguaios talvez se considerem eles os maiores desafiantes dos argentinos.

Voltando ao nosso tema central, estava eu dissertando sobre os autores. “Ariel Palacios vive em Buenos Aires desde a década de 1990 (...). Correspondente do jornal O Estado de São Paulo e do canal de notícias Globo News (...)”. Já Guga Chacra “(...) é comentarista de política internacional de O Estado de São Paulo e do programa Globo News em pauta em Nova Iorque”, também já tendo morado na Argentina. Ou seja, são jornalistas de gabarito, que certamente teriam a capacidade de ter feito uma pesquisa profunda sobre o tema futebol! O qual, ao final, eles pareceram não dominar, infelizmente. Vamos aos exemplos:

Ø  “Flamengo, Corinthians (até 2013) e Bahia não possuem estádios próprios. O Boca Juniors, por sua vez, tem a Bombonera como seu símbolo. Nesse sentido, o Internacional se assemelharia mais, com o Beira Rio, assim como o Atlético-MG, com o Independência” – págs. 44-45. O Independência, somente na campanha realizada recentemente na Libertadores, foi que se caracterizou como um estádio “alçapão”, casa do Atlético Mineiro. Porém, na verdade, oficialmente, ele é casa do América-MG. O Atlético o arrenda para realizar seus jogos lá;
Ø  “(Fillol) Ficou dois anos no time do Rio de Janeiro, entre 1984 e 85, antes de se transferir para o Atlético de Madrid. Seu único título no Brasil foi uma Copa Guanabara” – pág. 49 (grifo nosso). OK, os dois autores viveram na Argentina durante muito tempo e devem estar confundindo o termo “Taça”, como é conhecido o tradicional torneio carioca com o termo “Copa”, que é o equivalente a taça em espanhol;
Ø  “Mascherano – (...) Hoje é um dos maiores meio-campistas do mundo” – pág. 50. Mascherano fez uma grande Copa do Mundo, em 2014, sendo um dos líderes da seleção Argentina, auxiliando fortemente para que ela chegasse à final. Era a alma digamos assim, enquanto o qualificativo técnico ficava para outros jogadores. Mas daí a dizer que ele é um dos maiores meio-campistas do mundo vai uma distância enorme!;
Ø  No levantamento feito sobre jogadores brasileiros que atuaram na Argentina com alguma relevância esqueceram de incluir o meio-campista Silas, que brilhou inicialmente no São Paulo, numa geração treinada por Cilinho que tinha ainda Müller, que chegou a ser campeão mundial em 1994 – Silas participou de duas Copas do Mundo – 1986 e 1990. “Em abril de 1995, foi para a Argentina aonde, com 24 gols marcados em 95 jogos, tornou-se ídolo do San Lorenzo vencendo o Campeonato Argentino daquele ano. É até hoje considerado o melhor camisa 10 que passou pelo clube na década de 1990” (1);
Ø  “As justificativas lembram, de certa forma, as do São Paulo. O time paulista se orgulha de ser o detentor de mais títulos e, pelo menos até 2013, do mais importante estádio da capital paulista – o Itaquerão, do Corinthians, a partir de 2014, se tornaria o principal” – pág. 101. Afirmativa altamente questionável, não pelo São Paulo em si, mas pela existência de outros tradicionais estádios naquele Estado, como o próprio Pacaembu.

Estes equívocos acabam por macular a seriedade do livro em questão. Seus dados apresentados passam a não ser dignos de total confiança. Aliás, esse é o pecado mortal deste tipo de trabalho. Livros sobre futebol costumam ser “datados”, ou seja, quando dão grande ênfase às estatísticas eles servem até um determinado ponto da história – e mesmo assim quando possuem dados seguros. Porém, com o passar dos anos – e com o advento da internet, porque não dizer – sua utilidade vai decrescendo, e eles passam a não ter tanta importância assim na prateleira.

Colocações como as que foram feitas logo na abertura do livro – “Os demais apenas observam a nossa superioridade. Tudo bem, Itália, Alemanha e mesmo a Espanha e a França podem fazer frente a Brasil e Argentina. Mas nenhuma dessas nações, nem mesmo os italianos com suas quatro Copas do Mundo, consegue despertar a magia do drible e do passe dos sul-americanos. E nem se fale de nossa capacidade de produzir tantos craques em todas as gerações” – pág. 10 – são verdades, algumas delas, que caíram por terra após a última Copa.

O que o livro tem de forte? Justamente o olhar sobre a cultura do nosso vizinho. Certamente esta é a maior qualidade e algo inerente às áreas de atuação dos dois autores – que não se especializaram em jornalismo esportivo. Informações que para algumas pessoas poderiam passar despercebidas – por exemplo, o fato de que mais de 50% dos argentinos ser descendente de italianos; a origem da palavra “hincha” para torcedor em castelhano – na verdade a partir de um uruguaio que enchia (hinchava) as bolas para o Nacional de Montevidéu e era um torcedor famoso dessa equipe, passando a ser conhecido como “El Hincha”; ou ainda sobre a culinária no entorno dos estádios portenhos, com sua respectiva origem (o famoso molho chimichui) – estão lá.

Porém, este mérito não tira o defeito de se parecer, claramente, um livro “de ocasião”, compilado meio que às pressas para aproveitar o boom da Copa do Mundo. Mesmo a narrativa parece meio quebrada, com informações que se repetem, como se na dinâmica da divisão de tarefas entre os dois autores eles não tivessem tido o cuidado de eliminar duplicidades de informações. Enfim, em que pese ter sido útil para que eu pudesse incomodar meus colegas argentinos com algumas brincadeiras e dados dali retirados, não é um livro que eu recomendaria a compra. No máximo, pegaria emprestado.


domingo, 3 de agosto de 2014

O Enigma de Espinosa

Muito se fala em como devemos encarar o “viver a vida” sem medo do porvir. Nesse caso, o porvir é exatamente o ato final, a morte. Irvin D. Yalom, em sua obra “O Enigma de Espinosa” – 2013 – Ed. Agir – Rio de Janeiro – 400 págs. – nos dá algumas dicas. Para tanto ele segue duas linhas, ambas válidas, pois a cada um de nós nos é fadado se deixar tocar pelo tema de diferentes formas.

Yalom, americano nascido em 1931, psiquiatra e professor da Universidade de Stanford, através de suas obras enquanto escritor vem aproveitando para deslindar para o público em geral como a prática da psiquiatria pode auxiliar no enfrentamento das dificuldades da vida. Nesta trajetória sua carreira se prestou, por intermédio dos livros, a apresentar diferentes linhas filosóficas, auxiliadas pela criação de uma ficção pródiga em sentimento e emoções, associada a personagens históricos.

Desse modo, numa forma que aparentemente deu certo, ele tem em seu currículo os seguintes livros: “Quando Nietzsche Chorou”¹, “A Cura de Schopenhauer”, “O Carrasco do Amor”, “De Frente para o Sol”, “Cada Dia Mais Perto”, entre outros. “O Enigma de Espinosa” não foge desta trajetória. “Assim como havia feito com Nietzsche e Schopenhauer, Yalom viu o personagem perfeito em Baruch Espinosa, filósofo do século XVII responsável por obras que mudaram o curso da história e revolucionaram o pensamento ocidental”².

Irvin D. Yalom

Espinosa pautou sua vida pelo enfrentamento de questões tais como razão X emoção, Deus X Natureza, morte, religião, entre outras. Por conta de suas afirmações, foi expulso da comunidade judaica no século XVII, sendo reabilitado somente no século XX – não sem controvérsias. Sua importância enquanto filósofo já vinha num crescente pelo menos duzentos anos antes, influenciando outros grandes pensadores e artistas. O gancho encontrado por Yalom, portanto, tinha todo esse poderio. Mas faltava algo que desse peso. Esse algo ele aponta logo na introdução de sua obra: porque este filósofo havia influenciado o pensamento dos nazistas? Assim, o horror gerado pelo movimento nazista na primeira metade do século XX continua como uma das maiores chagas da humanidade. Não há uma única pessoa que não se sinta tocada ao saber das histórias vividas durante as décadas de 30 e 40, permeadas pelo sem número de mortes geradas no seio da 2ª Guerra Mundial. Aí estaria então o mote para gerar o interesse nos leitores.

Porém, Yalom continuava também na sua cruzada para demonstrar o poder da psiquiatria em auxiliar as pessoas (ou pelo menos tentar). Para tanto ele cria dois “ambientes” de tratamento, digamos assim: um entre o próprio Espinosa e seu amigo fictício, o judeu Franco Benitez. E outro entre Alfred Rosenberg, ideólogo nazista, e o psiquiatra fictício, Friedrich Pfister. Ambos os diálogos separados por mais de duzentos anos de história se desenrolam no decorrer do livro fazendo a ponte entre os pensamentos e questionamentos os quais pautariam o debate sobre os temas propostos pelo autor.

O desenrolar dos diálogos entre essas duas duplas traz a bordo o enfrentamento de algumas das questões apontadas acima, dilemas que acompanham a humanidade desde sempre. Há, então, que se ler a obra de Yalom com a mente aberta para os debates filosóficos, evitando-se radicalismos de interpretação. Um religioso, qualquer que seja sua fé, não deixará de segui-la por ler esta obra. Eu mesmo não encontrei nada que me demovesse do catolicismo, até pelo meu conhecimento prévio de determinadas teses. Por mais fortes que sejam as afirmativas, nada explica o que teria gerado o Big Bang, por exemplo. Somente uma força superior, Deus, permanece como a única explicação plausível para mim em termos de centelha criadora, o que me dá embasamento para minha fé – além da própria clareza na pregação de Cristo. Porém, as colocações em termos da força do simbolismo presente nos ritos das diversas religiões devem ser levadas em conta. Para um religioso, compreende-se sua função enquanto unidade da comunidade a que pertence. Mas, para aqueles que não conseguem se deixar de afrontar por determinadas colocações contrárias aos seus pensamentos, talvez não seja uma leitura fácil.

Vejamos, abaixo, a título de exemplo, algumas das interessantes colocações feitas:

Metáforas religiosas

“É verdade que a Torá chama Adão de primeiro homem. E é verdade que ela diz que o filho dele, Caim, se casou. Temos decerto o direito de fazer a pergunta óbvia: se Adão foi o primeiro homem, como pode ter existido alguém com quem Caim viesse a se casar? Essa questão, chamada teoria dos pré-adamitas, vem sendo discutida há séculos pelos estudos bíblicos. Portanto, se você me perguntar se é uma fábula, devo responder que sim, pois, evidentemente, a história não passa de uma metáfora”. (pág. 50).

OBS: essa abordagem já é aceita no meio católico, entendendo-se que Bíblia está repleta de relatos que serviram aos seus autores para propagar o pensamento cristão em meio ao povo, que necessitava de estórias que facilitassem o entendimento do que estava sendo pregado.

(Medo da) Morte

“(...) disse a mim mesmo que sou apenas humano e que os seres humanos têm uma tendência inata a usar a distração como forma de se proteger. Andei pensando nos motivos pelos quais não consigo me concentrar na morte do meu pai. Acho que é porque isso me põe cara a cara com a minha própria morte, e essa perspectiva é simplesmente assustadora demais para que eu possa agüentá-la”. (pág. 111); ou ainda “Isso soa lógico, mas duvido que consiga acalmar alguém que, no meio da noite, acorda com um pesadelo sobre a própria morte” (pág. 251).

Religião e Comunidade

“Muitas vezes, quando estou realizando minhas funções cerimoniais, desligo-me do conteúdo das palavras, perco-me no ritual e na agradável onda de sentimentos que toma conta de mim. Os cânticos me inspiram e me transportam. E adoro a poesia dos salmos, todos os piyyut³. Adoro a sua cadência, as aliterações, e fico muito tocado com os sentimentos relacionados à idéia de envelhecer, de ver a morte chegando e de desejar a salvação. (...) [Franco enfrenta Espinosa] Quanto a este aspecto, temos uma diferença fundamental. Não concordo que todos os sentimentos tenham de ser subservientes à razão. Existem alguns deles que merecem estatuto equivalente a ela. Pense na saudade, por exemplo. Quando comando orações, eu me conecto ao meu passado, ao meu pai e ao meu avô, e, ousaria até dizer que penso nos meus antepassados que, há 2 mil anos, repetiam aquelas mesmas frases, entoavam as mesmas preces, cantavam as mesmas melodias. Em todos esses momentos, perco a minha importância enquanto indivíduo; perco a minha própria individualidade e me torno uma parte, uma parte ínfima, de uma corrente comunitária ininterrupta. Essa noção me proporciona algo que não tem preço. Como descrevê-lo? Uma conexão, uma união com outros que é imensamente reconfortante. Preciso disso. Imagino que todos precisemos” (págs. 362/363). Ainda mais em: “O que pretendo dizer, Bento [Espinosa], é que se os rituais, as cerimônias e, por que não, também a superstição estão tão profundamente entranhados na própria natureza dos seres humanos, talvez seja legítimo concluir que nós, humanos, precisemos disso” (pág 367).

Poderíamos ficar aqui elencando todos debates que o “O Enigma de Espinosa” nos traz. Porém o enfrentamento da questão da razão da existência da religião em nossas vidas me parece o mais relevante. Aqui retratamos apenas algumas das argumentações apresentadas. O livro se presta, ainda, para que tenhamos uma introdução no pensamento de Espinosa. Podemos discordar – como o próprio autor, por intermédio do personagem de Franco Benitez o fez – da abordagem do filósofo para tal tema, mas não podemos ignorar o fato de que suas teorias propiciaram a centralização na razão como instrumento maior para o avanço da humanidade. E que tal discurso teve serventia de algum modo para o desenvolvimento científico trazido pelo Iluminismo, dando base para um salto tecnológico benéfico a todos. O mau uso de suas teorias – pelo Nazismo, por exemplo, tão amplamente abordado no livro – é o risco que qualquer intelectual corre quando expõe seus pensamentos.

O personagem histórico de Alfred Rosenberg, citado acima, mas por mim pouco explorado neste post, é o retrato mais cabal do que acabo de afirmar. Perdido em suas teorias antissemitas, serviu como instrumento pelo autor para apontar de como a loucura do homem pode algumas vezes ultrapassar a barreira da própria racionalidade, criando aberrações e gerando a barbárie na humanidade. Seria, assim, o reconhecimento humilde de Yalom que mesmo a psiquiatria, em que pese seu avanço, tem seus limites: “As tentativas feitas por parte de Friedrich para estabelecer um processo psicoterápico com Alfred Rosenberg baseiam-se na forma como eu, pessoalmente, teria abordado a tarefa de trabalhar com um homem como ele” (pág. 390). Sempre me perguntei o quão difícil deve ser para os terapeutas dialogar com seus pacientes. Afinal, não se sabe, ao abrir a porta do consultório, que dilemas e distúrbios estarão ali para serem apresentados (e enfrentados). Nas palavras de Yalom, por intermédio de Friedrich: “Então, o que lhe pergunto é: como posso atender um paciente que comete atos tão abomináveis? Sei que ele é perigoso” (pág. 260). Serviria, assim, o livro também para humanizar a psiquiatria e baixar do altar os terapeutas de plantão, demonstrando as dificuldades por eles enfrentadas. Nada melhor do que colocar no divã, para exemplificar-las, um expoente do Nazismo.

Em resumo, para mim, a grande lição que fica desta obra é que não importa o meio, seja ele religioso, seja ele por intermédio da racionalidade, o enfrentamento direto de nossos medos e de nossas fragilidades de modo a que possamos encontrar a alegria em nosso viver é o que deve nos mover. Somente nos tornaremos pessoas melhores se encontrarmos o caminho, o nosso caminho, para ajudarmos uns aos outros. Se gerarmos o bem em nossa comunidade, estaríamos assim imunes a críticas de terceiros em relação ao meio que utilizamos. Sejamos felizes, enfim, na pregação e no dia-a-dia, na teoria e na prática. Não é um livro fácil como disse anteriormente, mas vale a pena pelo que proporciona de compreensão do quão humanos somos.

 (1)   Já foi objeto de resenha por este que vos escreve no antigo blog Leopideas: http://leopideas.blogspot.com.br/2012/05/quando-nietzsche-chorou.html ;
         (2)  Apresentação feita na orelha da obra;
      (3) Piyyut = “a lyrical composition intended to embellish an obligatory prayer or any other religious ceremony, communal or private”. Fonte: http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/judaica/ejud_0002_0016_0_15840.html - acessado em 03 de Agosto de 2014.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

BELÍNDIA 2.0

Quando o célebre personagem de Dan Brown, Robert Langdon, um professor de simbiologia de Harvard, interpretado na telona por Tom Hanks, ganha notoriedade uma mensagem nos é passada: além da trama de suspense e ação em que está inserido, a curiosidade humana aguçada pelo mistério que se encontra por trás de antigos idiomas e imagens. Os símbolos são para nós, seres humanos, essenciais para nos identificarmos como grupo. Quando eles trazem em si uma carga de poder sua atração se multiplica.

Mas o que isso tem a ver com a obra de Edmar Bacha, “Belíndia 2.0”, editada pela Civilização Fronteira, em 2012 (459 págs)? Logo vocês entenderão. Vamos decifrar, então, o primeiro mistério, que está diretamente vinculado ao título. Para os iniciados, os economistas de plantão, esta é uma pergunta fácil. “Belíndia 2.0” se remete ao artigo que trouxe um grande reconhecimento ao autor, datado de 1974, denominado “O economista e o rei da Belíndia: uma fábula para tecnocratas”. Como o próprio autor afirma: “(...) o termo ‘Belíndia’ – junção de Bélgica com Índia – que ficou para a história, como uma sintética descrição do Brasil das clivagens sociais. (...) não requisito direitos de cunhagem do termo Belíndia. Ao que me lembre, ele apareceu num debate sobre distribuição de renda no auditório do IPEA* em 1972” (pág. 11).

O livro seria, assim, uma compilação dos principais artigos escritos pelo economista, “sócio fundador e diretor do Instituto de Estudos em Política Econômica da Casa das Garças (IEPE/CdG), no Rio de Janeiro” e que “foi membro da equipe econômica do governo, responsável pelo Plano Real. Foi também presidente do BNDES, do IBGE e da Anbid e consultor sênior do Banco Itaú BBA. Foi professor de economia da PUC-Rio, na EPGE/FGV, na UnB e na UFRJ, e professor-visitante das universidades de Columbia, Yale, Berkeley e Stanford. Foi também pesquisador do IPEA, na Universidade de Harvard e no MIT, além de consultor do Federal Reserve Bank of New York, das Nações Unidas e do Banco Mundial. (...) É bacharel em economia pela UFMG e Ph.D. em economia pela Universidade de Yale, EUA”. Ufa!

O livro inicia-se justamente pelo artigo supracitado e vai evoluindo, navegando pelos distintos mares do idioma conhecido como “economês”. E aí faço, finalmente, o link com o fictício Prof. Robert Langdon. Parte do charme e da atração do personagem está justamente no fato de que ele domina os idiomas longínquos, secretos, as caixas pretas deixadas pelas distintas civilizações. O “economês” se enquadra também nessa categoria. E incensados ao altar de celebridades são aqueles que traduzem tais idiomas para algo mais inteligível pelos meros mortais, pessoas como Bacha e Langdon. Porém, posso lhes dizer que este último é mais bem sucedido que o primeiro. Mas isto tem lá seus motivos.


      Tom Hanks, na pele de Robert Langdon e o economista Edmar Bacha: luta pelo esclarecimento das caixas pretas

Bacha não procura, nesta obra pelo menos, suavizar o “economês”. Como ele bebeu na fonte original, da qual foi o próprio autor, construiu uma compilação que verdadeiramente se presta para gravar na história sua contribuição intelectual para os diversos temas que afligiram o Brasil e o estudo da Economia em nosso país. Estão lá todos os grandes temas, a má distribuição de renda, a inflação (e o combate à), a influência do café, possíveis alternativas de políticas em seus mais diversos extratos, etc.

Para o meu gosto particular, sempre mais vinculado à Macroeconomia – digo que a Macroeconomia, diferentemente da Microeconomia, que é voltada para os dilemas específicos, é aquela que remete ao que se lê nos jornais pelo povo, o que efetivamente os afeta. Mas essa é a minha opinião. Existem aqueles que vão discordar – destaco quatro artigos em especial:

·         “O Plano Real: uma avaliação” (págs. 135-178);
·  “Repensando a agenda social”, assinado em conjunto com Simon Schwartzman (págs. 269-304);
·         “Política brasileira do café: uma avaliação centenária” (págs. 305-408);
·     “O ascenso recente nos preços das commodities e o crescimento da América Latina: mais do que vinho velho em garrafa nova?”, assinado com Albert Fishlow (págs. 409-438).

Ou seja, para o meu agrado, o livro ganhou vida apenas em sua segunda metade. Nas demais, imerso em equações, regressões e outros que tais, me pareceu realmente algo que não estimula os leigos à leitura. Os quatro artigos acima citados têm sua atratividade justamente porque brilham a luz de outras características.

O primeiro, “O Plano Real: uma avaliação” (2003), representa o registro de uma fase por mim vivida intensamente. O Plano Real, principal instrumento de estabilização da inflação em nosso país, surgiu justamente quando eu estagiava na área financeira e ainda entrava em meu último ano de Faculdade de Economia. O impacto da eliminação do dragão da inflação era, portanto, na minha mente, como se eu estivesse vivendo a História.

Em “Repensando a agenda social” (2011) os autores, Bacha e Schwartzman, propõem uma série de políticas para distintos temas, a saber: saúde, previdência, transferências de renda, educação e segurança. Eles colocam que “está, pois, na hora de desenvolver uma nova agenda social para o Brasil, que seja equânime, ao privilegiar o acesso dos mais pobres à seguridade social; realista, ao reconhecer a restrição orçamentária; e eficaz, ao lidar com a complexidade das tarefas à frente com uma gestão responsável e conseqüente dos recursos públicos” (pág. 272).

Já em “Política brasileira do café: uma avaliação centenária” (1992) o valor está vinculado ao caráter de registro histórico, associado a uma análise de cada fase da abordagem governamental quanto à administração da produção cafeeira brasileira com os objetivos de estabilização do câmbio e atração de divisas. Levando-se em conta que o artigo avalia cem anos – final do século XIX até o final do século XX – temos realmente um documento de grande valor para pesquisas futuras em mãos.

Por último, surge “O ascenso recente nos preços das commodities e o crescimento da América Latina: mais do que vinho velho em garrafa nova?” (2011). Este me atraiu por conta de seu viés internacionalista. Existe uma análise sucinta da trajetória adotada por quatro diferentes países sul-americanos em relação à sua dependência exportadora de determinadas commodities - Argentina (agrícolas); Chile (cobre); Venezuela (petróleo); e Brasil (variadas) – para a condução de sua política econômica e industrial de maneira geral, afetando diretamente seu grau de desenvolvimento.

Em resumo: não é um livro de leitura fácil para leigos. Talvez o melhor método para atacá-lo seria escolher, a dedo, os artigos que mais lhes atraem, deixando os demais para uso e suporte para futuros textos. Mas é claro que aí estou me referindo àqueles que se interessam pela produção acadêmica, o que acaba por limitar o seu escopo. Para os que gostam de leituras mais leves, não é a obra indicada.

*IPEA = Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – www.ipea.gov.br . O IPEA possui sedes em Brasília e no Rio de Janeiro.

OBS1 – Foram diversos os trechos, apêndices, etc, que pulei deliberadamente por se tratarem do mais puro economês, com suas fórmulas matemáticas e teorias econométricas que a mim não emocionam. Economia para mim, dissociada do fator humano e com variáveis congeladas, trata-se de mera fantasia. Tais trechos seriam: 124-133, em “O fisco e a inflação: uma interpretação do caso brasileiro”; 185-212, em “Uma interpretação das causas da desaceleração econômica do Brasil”; 242-247, em “Crédito, juros e incerteza jurisdicional: conjeturas sobre o caso do Brasil”; e 254-259, em “Além da tríade: como reduzir os juros?”;

OBS2 – Além dos aspectos do Plano Real em si, me atraiu a perspectiva de ter a visão de um insider no seu processo de implantação, enfrentando os diversos atores e tomadores de decisão envolvidos. Um exemplo disso foi o diálogo com o Fundo Monetário Internacional (FMI – www.imf.org), um dos organismos criados a partir de Bretton Woods para regular a economia internacional, mas que infelizmente encontra-se na esfera de influência dos países desenvolvidos, o que impede sua percepção ampliada das possibilidades e características presentes nos chamados países em desenvolvimento e emergentes:


“O fato do FMI, após longa negociação, não ter apoiado o programa não ajudou a melhorar as expectativas de sucesso. A equipe do Fundo desejava um ajuste fiscal muito mais profundo do que era factível e uma política monetária muito mais apertada do que parecia aconselhável. A equipe do Fundo também estranhava a proposta de uma reforma monetária em dois estágios, não conseguindo ver como a inflação poderia sofrer uma queda abrupta com a introdução da nova moeda se as posturas fiscal e monetária não seriam tão diferentes daquelas observadas na antiga moeda – com a postura fiscal sendo medida pelo déficit operacional e a monetária pelo nível de taxas de juros reais” (pág. 141).

segunda-feira, 23 de junho de 2014

1789

Após a leitura de “1565”, do mesmo autor deste “1789”, Pedro Doria, lançado pela Editora Nova Fronteira no corrente ano, com 272 páginas, cresce a expectativa do leitor com mais um prazer escondido nas palavras que descrevem um cenário e um acontecimento histórico. Naquela primeira obra o descortinar de um Rio de Janeiro nascente, com seus fundadores e desbravadores. Já neste último, a busca por uma imersão no imaginário dos inconfidentes.



Não fui desapontado. Mais uma vez me deleitei com a narrativa apresentada, como se estivesse vendo os acontecimentos à minha frente. Diria a vocês que para aqueles que têm o prazer de viver nas paragens de Minas Gerais – viu Rejane Ritter – este livro servirá como um guia para os tempos de outrora. Para aqueles que ainda não visitaram a terra do ouro, serve para uma breve introdução na cultura que por lá encontrará, gente simples, que tem em suas raízes a tão conhecida mistura entre branco, negro e índio, porém, diferentemente do Rio, que tem o mar a se refestelar em sua frente, houve um cenário de batalha pela terra e pelo que dela podia se extrair, não havendo distração neste objetivo – que não seja pelo amor das Marílias.

Fui avançando nas páginas procurando referências, aqueles pontos que seriam objeto de grande curiosidade e que talvez fossem o veio pelo qual eu deveria seguir a narrativa. A primeira que mexeu com a minha memória foi a respeito das Entradas – tão conhecida palavra que se fixou a partir da expressão “Entradas e Bandeiras”. As bandeiras sabemos que se referem aos bandeirantes, bastiões da abertura de caminhos entre a mata daquele novo país, muitas vezes com violência, muitas vezes pelo puro interesse, sem um pingo sequer de censo cívico de estar fazendo história. Eram outros tempos, e isso vira e mexe Pedro Doria nos lembra, que talvez não devam ser julgados pelos parâmetros de hoje. À reboque, ainda, uma ligeira explicação sobre outra expressão famosa, “Secos e Molhados”.

As Entradas, o imposto sobre circulação de mercadorias, eram pagas quando o produto entrava ou saía de uma capitania. (...) As Entradas eram cobradas de acordo com o peso da mercadoria. Havia uma taxa específica por escravo, outra para cada cabeça de gado, uma terceira pelo quilo de molhados (comida), e ainda um valor pelo quilo de secos (outros produtos).
Pág. 78

Uma economia nascente, sobrevivendo a partir do tacão de uma Metrópole distante, que cobrava seu quinhão da produção obtida a partir do suor de escravos, quer seja na lavoura, quer seja na mineração. Essa miscelânea de coisas teve inúmeras leituras, algumas delas foram transpostas para o nosso tempo via telenovelas, o que não deixou de ser uma romantização daqueles anos. O que falar, por exemplo, de Chica da Silva?

Chica da Silva nasceu no arraial do Milho Verde, não longe de Tejuco, entre 1731 e 1735. Sua mãe era uma escrava africana e o pai, português. Não nasceu Chica da Silva: nasceu Francisca Parda. Assim davam o nome aos escravos. Se vinham da África, ao prenome incluía-se a região de origem: Antônio Mina, Maria da Angola, da Guiné. Quando nascidos no Brasil, os sufixos geográficos eram substituídos por designação de pele. Crioula, Mulata, Parda ou Cabra. As Cabras tinha sangue índio e negro. As Crioulas eram negras. As Pardas, tinham o tom de pele mais claro e as Mulatas, mais escuro. Já na maneira de chamar negavam a escravos e escravas sua identidade.
Pág. 101

Mas o autor não se deteve em Chica da Silva mais do que o necessário. Nesse caso, uma ilustração de que personagens havia aos baldes naquela terra, naqueles tempos. Porém, seu norte era a Inconfidência, e o seu guia maior havia de ser Tiradentes. Há muito sabemos que as imagens que nos chegaram nesse longínquo século XXI são idealizadas. Tiradentes não foi enforcado com longos cabelos e barba brancos. Ele também não era o belo senhor, retratado pelos militares com suas vestes oficiais. Sim era, um militar, mas era feio. Sim, foi enforcado, mas estava barbeado e com os cabelos curtos. Cada imagem foi gerada com um objetivo – o militar para demonstrar sua retidão, reconhecida pelos ideais da República; o barbado uma evangelização daquele que seria o Apóstolo primeiro de nossa Independência. Porém, o autor faz a devida humanização deste personagem, sem lhe tirar o lustro.



Em 21 de abril de 1792, um homem grisalho, barbeado, generoso, corajoso, apaixonado, inconseqüente, ególatra, beberrão, verborrágico, ressentido, subiu derrotado os mais de vinte degraus à forca e pediu três vezes ao carrasco que lhe fosse breve. Tinha os olhos fixos num crucifixo.
Pág. 243

Não foi um personagem solitário. Fez sua história com seus coadjuvantes, homens que tiveram distintos motivos para se envolver na empreitada da Inconfidência, razões estas que vocês descobrirão no decorrer do livro. É de se perceber, pela sua estrutura, que na verdade Doria cria o cenário para nos apresentar suas conclusões – meio que nos abrindo os olhos para a incrível novela lida – ao final, no epílogo iniciado na página 243. Mas o epílogo não seria nada não se estivéssemos sentimentalmente envolvidos com a narrativa presente nas 242 páginas anteriores. Apresenta ainda um resumo das sentenças de todos os condenados, estudantes, políticos, contrabandistas, militares, religiosos e poetas. Interessante observar como construíram seu ideário:

Suas idéias de liberdade eram cosmopolitas, ultrapassavam fronteiras, mas foi em locais específicos que estes homens se reuniam. (...) O processo não foi de imediato, tampouco veio sem traumas. Mas ao romper o elo entre uma instituição e a outra nas mentes de todos [referência ao Estado e a Religião na época do Iluminismo], a ilusão que sustentava o sistema desapareceu. E esses livros, essas idéias, não ficaram trancados nos salões de Paris. (...) No Rio, em Salvador, em Vila Rica. E, neles as mesmas idéias européias eram exploradas com paixão. Um ajudava o outro a desenvolver raciocínios. Livros eram passados de mão em mão. Na casa do advogado Cláudio Manuel da Costa, do ouvidor Tomás Antônio de Gonzaga, na do contratador João Rodrigues de Macedo, também na do tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, (...). Alvarenga Peixoto conta de ter passado na casa do tenente-coronel “para entregar um livro e tirar outro da sua livraria”.
Págs. 124-126.


Ah, as letras, agente da revolução das idéias. Essa riqueza de conhecimento que se agrega ao que antes estava desvirtuado por uma visão que serviu apenas como introdução para este universo, construída a partir dos livros de História da escola e pelas telenovelas de época. É por isso que eu sempre digo: o livro é melhor.

domingo, 27 de abril de 2014

BATTLE ROYALE

- Compreendo – Shogo murmurou, e olhou para baixo. – Bem, os bons nem sempre são salvos, e este jogo não é exceção. Mas tenho inveja daqueles que seguem sua consciência, mesmo cometendo erros e sendo rejeitado pelos outros. (pág. 200).

Quando Tarantino passou a chocar o mundo do cinema com sua leitura violenta do mundo que nos cerca, apresentada de maneira nua e crua na telona, muitos pensaram que seria mais um cineasta que se limitaria a poucos filmes, tal sua restrição em termos de visão. Porém, ele seguiu em frente, produzindo obras e mais obras que passaram a ter um público fiel. O sangue espirrando em seus roteiros, no que parecia ser apenas um retorno aos filmes típicos de Charles Bronson e Chuck Norris, na verdade sempre trouxe mensagens embutidas, escondidas aos olhos do espectador menos atento. A mais simples dela é justamente a ode a uma década por alguns considerada cafona, mas que marcou uma geração, como os anos 70.

Além disso tudo que citei acima, Tarantino passou a influenciar uma geração de artistas. Tive acesso recentemente a uma obra de ficção japonesa chamada Battle Royale, de Koushun Takami – Ed. Globo – 2014 – 663 págs. Nesta, um grupo de 42 estudantes, que vivem num país facista, chamado República da Grande Ásia Oriental – uma paródia ao Japão – participam de um programa que ocorre anualmente e que elege, de maneira aleatória, uma turma qualquer do 9º ano do ensino fundamental (estamos falando de adolescentes de 15 anos), para participar de uma espécie de jogo mortal, em que eles são confinados num determinado lugar, até que somente reste 1. Mas as eliminações não se dão como no Big Brother, por votação, mas sim pelo assassinato de seus oponentes.



Uma vez, disse Shuya Nanahara: “Vivemos sob um regime fascista bem-sucedido. Em que outra parte do mundo há algo tão malévolo?”. Ele tinha razão, o país era louco. Não apenas aquele jogo absurdo: qualquer um que mostrasse o menor sinal de resistência ao governo era eliminado na hora. O sistema não perdoava nem mesmo os inocentes. Por isso, todos continuavam intimidados pela sombra do governo, obedecendo totalmente às suas políticas, e viviam tendo como consolo somente as pequenas felicidades da vida diária. (pág. 214).

Antes que vocês cuspam no chão com asco de uma estória com essa proposta, devo sinalizar algumas coisas: primeiro, que o livro gera um enorme suspense, com recursos interessantes até mesmo em termos gráficos – a ilha onde se passa é dividida em quadrantes, que se tornam proibidos de transitar à medida que passa o jogo. Existe um mapa na contracapa para que os leitores mais desatentos possam acompanhar este desenvolvimento. O autor ainda coloca, ao final de cada capítulo, quantos estudantes restam, dando ritmo à narrativa. E existe ainda vilão detestável – o Sr. Sagamochi – que é quem conduz o programa. Todos os elementos, portanto, de um show que prende atenção estão ali colocados. Postos os preconceitos de lado, os mesmos que se vêem enredados por uma boa estória com espiões da Guerra Fria ficariam motivados a não largar o livro até a última página.



O leitor recebe uma série de avisos sobre o potencial explosivo da obra. O autor, Koushun Takami, é assim apresentado – “(...) nasceu em 10 de Janeiro de 1969 [meu contemporâneo, portanto]. (...) Formado em literatura pela Universidade de Osaka, trabalhou como repórter de política e economia. Deixou o jornalismo para se dedicar a literatura, mas não lançou nenhuma obra além de Battle Royale, que foi desclassificada na fase final do prêmio Japan Grand Prix Horror Novel pelo seu conteúdo polêmico” (grifo nosso). Apesar disso, foi um livro que vendeu mais de 1 milhão de exemplares no Japão e Tarantino “declarou que (...) é a história que ele sempre quis filmar” (1). Curiosa ainda é a dedicatória do autor: “Dedico este livro a todas as pessoas que amo. Embora duvide que elas me agradeçam por isso”.

Devo acrescentar, porém, que apesar de toda mídia girar, aparentemente, em torno da violência ali inserida – o que me parece um apelo muito fácil às mentes dos consumidores ávidos por este tipo de “entretenimento” – a obra apresenta outros aspectos que nos fazem refletir. Não se deve esquecer, por exemplo, que é um autor japonês, contemporâneo, buscando expor as mazelas da sociedade em que vive. Os estereótipos em torno dos japoneses e da juventude retratada nos mangás (2) se faz presente. “Eu sou quem eu sou. E você é você. Mesmo que eu seja bom no basquete ou com computadores, ou popular com as garotas, não é isso que determina o valor de uma pessoa” (pág. 253). Na verdade, no decorrer da leitura fica fácil imaginar os adolescentes japoneses, protagonistas, com seus risos de lado, aquele comportamento contido de algumas meninas. E como jovens do mundo inteiro, que têm também seus romances, desejos, expectativas, sonhos de uma vida sem fim, mas que de repente se vêem confrontados com o ponto final bem próximo. “Pensando nisso, uma sensação gélida lhe correu espinha abaixo. ‘Morrer? Eu? Eu vou morrer?’” (pág. 268).Como eles reagiriam sob pressão, estando tão despreparados para o que a vida lhes reserva?

Outro aspecto é a caracterização e crítica da sociedade em que estamos inseridos. Existe até mesmo descrições, tanto do Japão quanto da China – esta última minha interpretação, pois no texto não são esses os países designados literalmente – que estão próximos, obviamente, do pensamento padrão ocidental. Exemplos:

  Ø  Japão – palavras de um dos protagonistas sobre a República da Grande Ásia Oriental: “Acho que o atual sistema praticado por este país cabe como uma luva aos seus cidadãos. Em outras palavras, sua subserviência aos superiores. Algo do tipo ‘maria vai com as outras’. Dependência de outros e mentalidade de grupo. Conservadorismo e passividade. Se lhe mostram algo que certamente é para o bem público, com motivo nobre, mesmo que seja delação, eles sentem que estão fazendo algo bom. (...) Ou seja, não há lugar para orgulho nem ética. E ninguém pensa por si. Seguimos ordens sem refletir. Isso me enoja” (pág. 245);
  Ø  China – o vilão descreve a República da Grande Ásia Oriental: “Este é um país maravilhoso. Não há no mundo nação mais próspera que a nossa. Bem, existem restrições a viagens ao exterior, mas nosso produtos industriais para exportação são insuperáveis. Nosso PIB per capita é o mais elevado do planeta e isso não é invenção da mídia governamental. E nossa prosperidade existe apenas em virtude de uma população unificada sob um governo central poderoso. Certo grau de controle sempre é necessário. De outra forma declinaríamos à categoria de nação de terceiro mundo, como o império americano. Você sabe disso, não? Aquele país está em turbulência por causa de muitos problemas, como drogas, violência e homossexualidade. Eles vivem de glórias passadas, mas é só uma questão de tempo até se esfalecerem” (pág. 643).

Dessa forma a República da Grande Ásia Oriental poderia ser qualquer país que tivesse tais características. Porém minha percepção se voltou para estes dois acima.

O anseio por fugir para os Estados Unidos também está lá, a terra onde tudo pode, num contraste com um país em que tudo é proibido. Ora, este não é o primeiro autor – e talvez com mais autoridade por ser nipônico – a afirmar que na sociedade japonesa se vive uma opressão latente, ainda mais sobre os jovens, que devem sempre buscar sua afirmação pela superioridade. Mas, lhes pergunto, isso seria uma característica exclusivamente oriental? Será que nós não estamos imersos na mesma roda-viva?

De todo modo, alguns de vocês já sabem que sou fã do Tarantino. Assim, é óbvio que para o meu gosto a obra satisfaz – o final poderia ser melhor, mas entendo que atingiu o objetivo de ser um tanto quanto diferenciado, como os filmes do cineasta americano tão citado nesta resenha. Mas tenho que ser sincero: há que ter estômago. E é como eu costumo dizer: vai encarar?

Battle Royale, o filme.

     (1)   “Em 2000 ganhou uma adaptação para o cinema com o ator Takeshi Kitano e a atriz Chiaki Kuriyama, de Kill Bill”. O livro é originalmente de 1999;
     
     A turma, em sua versão mangá



     (2)   A estagiária no meu trabalho mandou a curiosa mensagem ao meu telefone – “Eu li a versão mangá desse livro XD é muito bom!”. Ao que respondi: “Ainda tenho muito que aprender com a nova geração”.

domingo, 20 de abril de 2014

1565: ENQUANTO O BRASIL NASCIA


Ainda chove em fevereiro e março. Todos os anos.

Uma ode ao Rio de Janeiro. É isto que nos oferece que Pedro Doria em seu “1565 – Enquanto o Brasil Nascia”, Ed. Nova Fronteira – 2012 – 277 págs. Um exemplo disto, mais carioca impossível, é o dito que coloco na abertura desta resenha, exposto na página 137, mesma ponto em que ele indica se localizar o marco de criação da cidade: “Pelos cálculos de João da Costa Ferreira, em seu estudo do início do século XX sobre essa primeira distribuição de terras do Rio de Janeiro, a Casa de Pedra tem endereço. É no Flamengo, esquina das ruas Princesa Januária e Senador Eusébio”.

O Rio nasceu entre o Pão de Açúcar e o morro da Urca, e lá se isolaram os primeiros colonos. “Não há tempo nem oportunidade para recuarmos”, gritou Estácio de Sá aos homens em seu discurso de fundação que um notário registrou, “porque de um lado nos cercam estas penhas, e do outro, as águas do oceano; e pela direita e esquerda os inimigos, só podemos romper o cerco debandando-os.” (pág. 118).

Pedro Doria, jornalista, em seu pósfácio descortina sua inquietude com a ausência de uma obra que apontasse para os primórdios de tão importante localidade, tal sua força enquanto referência do Brasil. Somos, então, a partir de seu trabalho, imersos numa época em que o Rio de Janeiro ainda se formava, não passava de uma vila, e aos poucos, pela força de “portugueses, franceses, índios e negros”, alcança sua singularidade enquanto parâmetro para o desenvolvimento daquele país tão recente em sua história oficial.

O autor, imagens de época, e a capa de sua obra

Para pessoas como eu, que vivem e convivem, caminham entre as ruas do Centro do Rio de Janeiro pelo menos 5 dias por semana, é de um sabor imenso imaginar como se deu sua evolução. “Há um desnível na pista que desce uns palmos numa ladeira ligeira para chegar ao Paço Imperial – onde a Presidente Antônio Carlos muda o nome para Primeiro de Março. Ali, no desnível, o motorista acaba de atravessar o membro desaparecido da cidade. (...) O morro do Castelo ocupou uma área de 184.000 metros quadrados, o equivalente a 18 quarteirões do Rio atual, delimitado em suas partes mais extremas pelas ruas São José, Santa Luzia, México e pelo largo da Misericórdia” (pág. 149). Ficamos a ler as páginas do livro com as cabeças naquele tempo, tentando vislumbrar como seriam ruas e seus passantes, o modo de viver de um povo que tentava se estabelecer em terras hostis. Hostilidade esta natural, para povos indígenas que viviam em guerra pelo seu território, sendo os colonos portugueses e os invasores franceses apenas grupos adicionais neste tabuleiro imenso pela sobrevivência.

Impressionante o retrato que se traça, desmistificando aquela imagem de sobrepujança, pelo menos em seus primeiros 200 anos, da cultura portuguesa. Na verdade existia uma mescla muito grande entre brancos e índios, gerando a mestiçagem necessária para que a coexistência fosse possível. O tupi muitas vezes sendo o idioma corrente, até pela caminhar do desbravamento via bandeiras, adentro do país, ferramenta de contato com outros indígenas.

Somos também levados a compreender como uma família – os Sá, de Estácio, Mém, Salvador (pai e filho) e Martim – predominaram na política do Rio de Janeiro, até que a corte portuguesa percebesse que era chegado o momento de uma virada. Eles, porém, não deixaram de ser a amálgama que uniu gerações e gerações de lutadores e índios, esta última pelo respeito alcançado na luta ombro a ombro contra franceses e holandeses pela proteção da Guanabara.

Eu, niteroiense como sou, ainda vislumbro como um personagem ora coadjuvante, ora de peso, Araribóia, indígena que recebeu as terras de São Lourenço – futura Niterói – como pagamento pelo apoio prestado nas lutas acima citadas. Elas são, portanto, enquadradas no sentido de que este personagem, tão identificado com este lado da baía, tendo sido na verdade mais um daqueles que lutou pela prevalência do comando local e português no Rio de Janeiro. Até mesmo por isso está a olhar para a cidade maravilhosa.

Araí-boia quer dizer cobra da tempestade, nome de uma serpente aquática verde-escura. Era o nome de um índio temiminó que a história lembraria por Arariboia. (...) Porque era fidelíssimo aos portugueses, também excepcional guerreiro – e porque conhecia muito bem o lugar -, Mem de Sá aconselhou Estácio a não partir para a guerra sem ter Arariboia ao seu lado. Quando deixaram a Guanabara, naquele 2 de abril em 1563, Arariboia seguiu para São Vicente, onde foi batizado Martim Afonso. (...) A expulsão dos tamoios teria para Arariboia um gosto muito particular: era o seu retorno, a vitória após a derrota – sempre os conflitos entre franceses e portugueses encontrando paralelos entre as cizânias tupis. Afinal, assim como a maioria dos tamoios era tupinambá, os temiminós eram aliados dos tupiniquins. (págs. 112-113).

Este é o tipo de ensino de História que não vemos nos colégios. Nestes, nossas crianças têm apenas uma pequena semente do que poderão vir a explorar no futuro se tiverem curiosidade – lacuna esta suprida a contento por esta obra que ora avalio e avalizo. São dados aos nossos filhos pequenos nacos de uma vivência muito mais rica, com tramas políticas e de brutalidade, algumas até engraçadas pela ingenuidade e pela inexperiência de muitos que aqui aportaram como encarregados desta terra, jovens recém-saídos da adolescência que de repente se viam à frente de homens para lutar por um Brasil que ainda não tinha sua noção de país, mas que já demonstrava o quão guerreiro – e hospitaleiro - seu povo iria se tornar. Leitura a qual recomendo.

OBS.: De tão gosto me peguei pela prosa de Pedro Doria que mal posso esperar por ler seu próximo livro, “1789”.


Imagens extraídas de http://botequimcultural.com.br/1565-enquanto-o-brasil-nascia/