segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

NOITES LEBLONINAS

Para os que me conhecem sabem que sou um personagem diurno. Dessa forma, minha pouca interação com a noite carioca se deu majoritariamente durante o período da faculdade. Transitei entre os bairros da Tijuca, Laranjeiras e Copacabana, locais de pouso, quando naquela época visitava meus colegas, futuros economistas.

Daquele período guardo ótimas risadas e a sensação de saber curtir a noite com poucos recursos financeiros, algo típico de um estudante. Minha vida se via facilitada ainda mais pelo fato de não beber, o que me poupava um custo relevante para quem se pretende notívago.

Logo se percebe, portanto, que fui um jovem um tanto quanto fora do padrão em termos, digamos, da idade “acadêmica” per si. Posso acrescentar ainda que nunca fui folião. Isso mesmo, acrescido ao fator “estranho” de não beber, ainda não era (sou) chegado ao reinado de Momo. Poderiam vocês pensar: “Que sujeito chato, difícil de agradar! Será que tem muitos amigos?”. Digamos, então, se vocês não estivessem lendo essas linhas, estaria eu redondamente enganado, soube cultivar as amizades pelo sorriso fácil e a mente leve, curtindo os dias com eles e deixando-os à vontade para curtir a noite.

E porque estou fazendo tão grande explanação sobre algumas de minhas próprias características neste que se propõe um blog de crítica literária? Isto está vinculado ao fato de que a obra que analisarei trata-se de algo que se propõe avaliar a noite carioca sob a ótica de um porteiro baiano, a partir do universo singular do Leblon, dado que seu autor – João Ubaldo Ribeiro – era habitante daquele meio ambiente. Seria, portanto uma ousadia da minha parte, já que não vivi as aventuras ali descritas? Não, o ser humano pode ser lido, admirado, ser risível, enfim, sob diversos ângulos. E não necessariamente precisamos viver as mesmas experiências descritas para reconhecê-las. Talvez as minhas características sirvam, ao contrário, para enaltecer a obra de João Ubaldo, dado o meu distanciamento e mesmo assim, encantamento gerado a partir de sua narrativa.

“Noites Lebloninas” – Ed. Alfaguara/Objetiva – 103 págs. – é composto por apenas dois contos – “Noites Lebloninas” e “O Cachorro Falafina e seu Dono Dagoberto”- dado que o nobre imortal demonstrou-se, infelizmente, pelo paradoxo do mundo das letras, um mero mortal ao sucumbir no ano passado com 73 anos. Escritor de 10 romances, 2 livros de contos, 6 de crônicas, 1 de ensaio e 3 infanto-juvenis, mas que acima de tudo parecia onipresente – e assim o será, pois a pré-dita “imortalidade” assim está baseada na permanência de seus textos - em nossas vidas pelas críticas bem-humoradas e mordazes que publicava nos jornais “O Globo” e “O Estado de São Paulo”.


João Ubaldo era, assim, alguém que nos alegrava pela sua visão do cotidiano, sabendo retratar os personagens que conhecia à rua. E assim são estas duas pérolas, que seriam introdutórias para esta sua última obra inacabada. Em “Noites Lebloninas” ele apresenta o narrador principal, um porteiro que relataria no decorrer dos contos, estórias, personagens e cenários do bairro em que trabalhava. Logo neste conto, tudo ao revés do que seria a minha vida, não que eu não pudesse reconhecer os atos e fatos noturnos do sentido comum. Uma noitada carioca mal-conduzida é descrita da maneira singular daquele que por tanto tempo e em diversas formas enalteceu Itaparica, sua terra natal, com as mesmas armas. Já o segundo – “O Cachorro Falafina...” – apresenta, sempre sob a ótica de nossos informantes ocasionais – os porteiros – a vida romântica de um dos moradores, homossexual, que tinha um guardião fiel, o cachorro do título (cachorro no sentido canino de ser, que fique bem claro).


Fica ao leitor um sabor de quero mais. Porém, infelizmente mais não teremos os longos parágrafos, entremeados de pensamentos, num ir e vir adocicado pela linguagem popular usada. Mesmo eu, sendo tão distinto e pouco freqüentador do que nos é apresentado, algo de universal sempre me cativou nos trabalhos de João Ubaldo: saber valorizar uma das principais características do povo brasileiro – o bom humor e a espontaneidade no olhar para o comum, trazendo para o seio da narrativa aqueles que talvez não tivessem oportunidade, se não fosse pelo olhar clínico de um dos melhores escritores brasileiros.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O Pintassilgo

Camadas. Estórias sobrepostas que vão se costurando, ora sendo um ponto mais difícil que outro, dificultando um tanto a fluidez da leitura. Tecnicamente, em resumo, seria este o meu parecer sobre “O Pintassilgo”, obra de Donna Tartt, editada pela Companhia das Letras em 2014. Um livro de peso – literalmente, pois são 726 páginas – e fôlego, um fôlego que por alguns momentos o leitor o busca para seguir adiante, e por outros para ter a capacidade de acompanhar o entremear do enredo.

Saindo um pouco do aspecto técnico para ir para o sentimento. É um livro para os fortes, como gosto de dizer quando topo com obras de densidade acima do normal para sua compreensão e absorção. Digo isto por ela lidar, através de seu protagonista – Theodore Decker, um jovem antiquário – com temas difíceis de digerir, tais como o vício nas drogas (quaisquer drogas), as conseqüências sobre um jovem que passou por um estresse pós-traumático; e a relação de dependência e desespero que se assoma às pessoas quando se agarram a um querer impossível de alcançar. Ou seja, sentimentalmente falando, é um livro triste, uma estória longa, que em dados momentos te envolve, como se fosse uma nesga de ar que um afogado alcança, para logo depois se afundar num mar tortuoso.



E como se dá esse enredo, que tem sua primeira respiração após as 100 primeiras páginas? Isso mesmo, dando a dimensão do esforço, a possibilidade de se entusiasmar com a trama passa por um prólogo de 100 páginas, necessário para se conhecer as raízes dos transtornos por que passa o protagonista. Decker está com sua mãe, se dirigindo para a escola para uma reunião com o diretor. Enquanto se debate sobre as conseqüências de tal encontro, a mãe se desvia ligeiramente do caminho, o que leva a uma catástrofe que a leva à morte. Daí surge a grande asa negra, citada acima, na vida de Decker – já tão conturbada, pois seus pais não são (ou não foram) o modelo de casal perfeito: o chamado estresse pós-traumático.

O transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) é um distúrbio da ansiedade caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas físicos, psíquicos e emocionais em decorrência de o portador ter sido vítima ou testemunha de atos violentos ou de situações traumáticas que, em geral, representaram ameaça à sua vida ou à vida de terceiros. Quando se recorda do fato, ele revive o episódio, como se estivesse ocorrendo naquele momento e com a mesma sensação de dor e sofrimento que o agente estressor provocou. Essa recordação, conhecida como revivescência, desencadeia alterações neurofisiológicas e mentais.

Toda essa situação alcança um garoto de 13 anos de idade, que sem nenhuma base emocional tem que passar a lidar com uma série de não-referências alcançadas.

Mas esta é apenas a camada superficial da estória. Com o desenrolar do enredo, ganha centralidade uma obra prima, um quadro, “O Pintassilgo-Comum”, do pintor holandês Carel Fabritius, que dá nome ao livro em si.

Fabritius criou uma ilusão extraordinária de um pássaro real, com detalhes que nos permitem ver que a ave está acorrentada à sua caixa de alimentos. A sombra da caixa sobre a parede de gesso e a expressão do pássaro são extraordinárias. Muitos pensam que ele vai começar a cantar a qualquer momento.

O quadro passa a ser o norte que de uma certa maneira conduz todos os atos do protagonista, levando-o ao ponto de se envolver com o mercado de arte, ao ter um mentor profissional, James Hobart, um restaurador. Uma nova camada é construída a partir daí.

Porém, em que pese todo o apelo e os ganchos criados por Donna Tartt, talvez o que mais me tenha incomodado é o mergulho nas drogas e a exposição de toda a melancolia e tristeza que cerca esse submundo. Seria algo como se tivessem transposto para aquelas linhas toda a atmosfera do filme “Trainspotting”, de Danne Boyle (1996)¹. Um sentimento lúgubre, como se a vida não tivesse saída, que os amores perdidos, ou quaisquer outras razões, fossem minimamente suficientes para se jogar tudo para o alto e se desfazer em carreiras de pó, no álcool, maconha, comprimidos, um turbilhão de coisas que somente levam ao fundo do poço...

Conviver com esse mar encrespado não é fácil, e como eu já disse anteriormente, quando a autora leva tais digressões a fundo, você, leitor, fica meio que desejando que passe logo, que ganhe uma dinâmica, que saia daquela tristeza reflexiva e que se vá para mais ação. Diria, então, que eu pensaria bem antes de indicar tal livro. O leitor tem que ter o espírito dos bravos para não se deixar envolver pelo clima proposto. Tartt ganhou o Pulitzer com esta obra, não tendo dúvida de que é algo que envolveu um engenho fabuloso, no mínimo de pesquisa sobre os diferentes universos navegados – obras de arte, drogas, jogatina, depressão, etc. Todos eles retratados de uma maneira meticulosa. Seu mérito maior foi ter conseguido costurar tais universos, criando uma estória com início, meio e fim, sem se perder nas saídas fáceis que poderiam ter surgido no meio do caminho.

Pequenos detalhes que às vezes fazem a diferença

Impressionante a ótima escolha da autora para as citações que abrem os capítulos. Vou citar duas, a título de exemplo:

Capítulo II – Arthur Rimbaud
Quando somos muito fortes – quem recua?
Muito felizes – quem nos ridiculariza?
Quando somos muito maus – o que podem fazer conosco?

Capítulo IV – Schiller
Não é a carne e o sangue, mas o coração que faz de nós pais e filhos.

Outro aspecto que me chamou a atenção é o cuidado da autora é enquadrar o livro no uso dos instrumentos modernos de linguagem. Levando-se em conta que o protagonista inicia o livro com 13 anos, e chega ao seu final com vinte e poucos, ela buscou retratar o universo atual de tal geração, citando Harry Potter – Potter foi o apelido com o qual ele foi alcunhado pelo seu melhor amigo, Boris, acompanhando pela maior parte da obra; Facebook e mensagens de texto trocadas, com a nova linguagem gerada a partir daí.

Conclusão

Talvez eu tenha sido muito severo com a obra, mas procurei passar para vocês o quanto ela tecnicamente e sentimentalmente me tocou. De todo modo, quem disse que sou o dono da verdade? De repente me vejo exposto nas palavras de um de seus principais personagens:

E sei como você pensa, ou como gosta de pensar, mas talvez esse seja um exemplo em que não dá pra reduzir tudo a puro ‘bem’ ou ‘mal’, como você sempre quer fazer. Como suas duas pilhas separadas, mal aqui, bem aqui. Talvez não seja assim tão simples. (pág. 694)

É, talvez. Mas só sei que é um livro que eu não daria para a minha filha, pelo menos não enquanto ela não tivesse maturidade suficiente para enfrentá-lo.


1 – http://www.imdb.com/title/tt0117951/ - acessado em 06 de Fevereiro de 2015

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Harry Potter 3.7

No início do ano passado minha filha ganhou os três primeiros livros da série Harry Potter – A Pedra Filosofal; A Câmara Secreta; e O Prisioneiro de Azkaban. Entramos em acordo para que ela os lesse antes de ver os filmes. Este acordo foi baseado em duas convicções, ambas da minha parte – a primeira é de que, como havia uma pressão externa por parte de suas amigas, aumentada desde nossa viagem à Disney, em 2013, de que ela deveria assistir os filmes, de que pudesse verificar, ela própria, como os livros são, na grande parte das vezes, melhores que as adaptações cinematográficas; e segundo o incentivo à leitura em si.

Acordo feito, ela iniciou a leitura do primeiro exemplar, porém a muito custo. Não chegou a terminá-lo, e raras foram as vezes que retomou para tentar avançar. O ano de 2014 passou e já próximo ao seu final ela me confessou ter visto o primeiro filme. Coloquei para ela, então, no auge do meu desassossego, de que ela estava dispensada das leituras dos livros. Propus-me ainda a lê-los, para que pudesse acompanhar sua aventura cinematográfica. Observando minha contrariedade ela retomou o compromisso de leitura, já a partir do segundo volume, tarefa esta, porém, não ainda iniciada.

Chegadas as férias de início de ano, coloquei para ela que durante nossa viagem à Bahia leria os três volumes. Dito e feito – em verdade terminei o último um dia após a minha meta, já tendo retornado à casa – agora me sinto mais tranqüilo quanto à possibilidade de ver os filmes. Após este longo prólogo, vou ao que interessa, qual seja, minhas primeiras impressões sobre a série.

J. K. Rowling fez jus a toda fama que construiu a partir das estórias centradas no personagem-título. Porém nota-se uma clara evolução no enredo em termos de adensamento e complexidade. Diria para vocês que o primeiro volume seria como aqueles filmes de adolescentes, em todos os seus dilemas e querelas, em que o ambiente colegial é apresentado e existem os embates entre os diferentes grupos de estudantes. O diferencial é que ambientação se dá numa escola de bruxos.


Harry assim, um garoto desajustado no mundo dos trouxas – como são denominados os que não são bruxos – tem uma reversão de expectativa sobre a própria pessoa, ao descobrir que é um astro no mundo da bruxaria dada a sua origem. Ele se cerca de dois amigos – Rony e Hermione – que formam o núcleo central da estória, juntamente com Alvo Dumbledore, diretor do colégio; Minerva McGonagall, vice-diretora; e o grande vilão, Lorde Valdemort. Harry e seus amigos tem como contraponto um grupo opositor, formatado no velho clichê de um garoto-bandido, digamos assim – Draco Malfoy – ladeado por dois brutamontes sem cérebro que o acompanham por todo lado – Crabbe e Goyle, acobertados pelo Prof. Snape.

De resto é o velho roteiro de duelos, dificuldades com aulas, matérias e o esporte escolar (Quadribol), as dúvidas constantes da adolescência – Harry entra em Hogwarts, o colégio, com 11 anos recém-completados - etc. O primeiro livro seria, assim, para continuar o paralelismo cinematográfico, uma perfeita Sessão da Tarde, leve como açúcar.

Porém, seguindo seu caminho, cada um dos livros apresenta um dos anos seguintes na formação de bruxo de Harry. E o nível de tensão e dramaticidade aumentam. Já passam a existir cenas mais violentas, e questões mais complexas, que talvez cumpram com o objetivo de inserir, de na maneira sub-reptícia, no universo dos leitores juvenis, temas como a depressão, por exemplo – o que não seria, no 3º livro, o efeito provocado pelos “dementadores” nas pessoas? Com isso, não é de se estranhar diferentes classificações etárias para cada um dos filmes da série. Ou seja, parece que existe um amadurecimento do enredo, como se a autora quisesse acompanhar o crescimento dos seus leitores fiéis – algo factível a partir da periodicidade de produção e lançamento das obras.

Devo ressaltar ainda que um dos grandes méritos de Rowling para alguém, como eu, que foi doutrinado nas obras de Agatha Christie, são as reviravoltas para explicar cada um dos mistérios usados como linha central em cada um dos volumes. O óbvio não prevalece, sempre surgindo uma solução inesperada para os dilemas e questões propostos. Isso aguça a curiosidade do leitor, que busca ler vorazmente as estórias de modo a ter a explicação tão ansiada, e a solução para o sofrimento do pequeno bruxo e seus amigos.

Por último a autora aproveita para passar valores que considera importantes para seu público infanto-juvenil. Nesse sentido, nada melhor do que a voz do personagem que representa a sapiência, o mago-diretor, Alvo Dumbledore:

Harry Potter e a Pedra Filosofal - 223 págs.

Sobre a morte: “(...) para a mente bem estruturada, a morte é apenas a grande aventura seguinte” – pág. 214;

Sobre a verdade: “A verdade (...) é uma coisa bela e terrível, e portanto deve ser tratada com grande cautela. (....) Não vou, é claro, mentir” – pág. 215.

Harry Potter e a Câmara Secreta – 252 págs.

Sobre a lealdade e solidariedade: “Porém (...) você vai descobrir que só terei realmente deixado a escola quando ninguém mais aqui for leal a mim. (...) Hogwarts sempre ajudará aqueles que a ela recorrerem” – pág. 197.

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – 318 págs.

Sobre a saudade: “Você acha que os mortos que amamos realmente nos deixam? Você acha que não nos lembramos deles ainda claramente em momentos de grandes dificuldades? O seu pai vive em você, Harry, e se revela mais claramente quando você precisa dele” – pág. 313.

Em resumo, é uma leitura leve, agradável, que se compreendida em seu intento, percebe-se o seu valor e o porquê de ter alcançado tão grande sucesso. Pós-Potter Rowling iniciou uma trajetória com outros romances, de cunho detetivesco e mais adulto. Mas isto é um tema para outra oportunidade, a confirmar seu talento.


OBS.: todas as edições aqui mencionadas foram publicadas pela Rocco, originalmente no ano de 2000.

sábado, 10 de janeiro de 2015

ETERNIDADE POR UM FIO

Em tempos de repúdio total a intolerância, “Eternidade por um fio”, de Ken Follet – Ed. Arqueiro – 2014 – 1072 págs., terceiro livro que fecha a trilogia “O Século”¹, cai como uma luva para nossa reflexão. A trilogia gira em torno da saga de cinco famílias durante o século XX, tendo os principais acontecimentos históricos como pano de fundo. Essas famílias estão espalhadas no Reino Unido, Rússia, Alemanha e Estados Unidos.


Nos dois primeiros volumes tivemos a atenção centrada em como se interrelacionavam a partir do contexto das duas grandes Guerras Mundiais. Já neste último, temos como cenário a Guerra Fria e a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Pelo que pude perceber, a ênfase maior foi em relação a este último, sendo inclusive o capítulo de fechamento dedicado ao tema. O Vietnã, ponto relevante em termos de Guerra Fria, é utilizado apenas como um detalhe a mais em toda essa dinâmica, servindo mais de subterfúgio para justificar a permanência de um jornalista britânico – o personagem Jasper Williams – num dos principais palcos da história, os Estados Unidos.

A Inglaterra, tão presente nos dois primeiros volumes, é deixada de lado neste último. Tal pode ser debitado ao fato de que nestes, como a grande ênfase foi no desenrolar das duas primeiras Guerras Mundiais, ambientadas na Europa, os Estados Unidos é que esteve como coadjuvante de luxo. Desta feita os papéis estão invertidos.

A Guerra Fria também é demonstrada com requinte pelo olhar europeu. De um lado a Rússia, com suas idas e vindas durante o período em que dominou o mundo comunista enquanto União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). De outro, aquele que por muito tempo foi considerado o possível gancho para uma terceira guerra mundial – o muro de Berlim, e a tensão que separava as então existentes Alemanha Oriental e Alemanha Ocidental.

E é aí que entra forte, mais do que nunca, o tema intolerância. Um dos principais veios da história é o tratamento dado pela polícia política da Alemanha Oriental – a Stasi – para com a família Franck. Esta, reconhecida por ter pensamentos contrários à doutrina comunista então prevalecente, é perseguida de todos os modos, não tendo nenhum de seus anseios permitidos oficialmente. É claro que isso acaba por levar a decisões radicais em suas vidas.

Outro libelo contra a intolerância é a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Como disse anteriormente, este é um dos pilares do terceiro volume. Um personagem surgido ao final do segundo volume – George Jakes - “abre mão de uma carreira promissora para trabalhar no Departamento de Justiça do governo Kennedy e acaba se vendo no turbilhão” desta luta. Negro, ele inicia sua trajetória participando de um movimento que viaja pelos estados do Sul dos EUA, sofrendo graves conseqüências por isso. Mas nada impede que ele se engaje cada vez mais, mesmo tendo que algumas vezes dar dois passos atrás para poder contornar uma sociedade que ainda tem dificuldades para enxergar que a cor da pele não faz a mínima diferença.

O livro se mostra de grande valia para uma compreensão de como um dado movido num campo da política internacional pode afetar outro, em outro extremo do mundo. Em como as ações pela melhoria de nossa sociedade mundial por vezes têm que pagar um preço muito duro para alcançar seus objetivos de bem estar, tomando gerações e gerações em sua luta. Será que veremos ainda uma luz a este respeito? Quando a palavra escrita – e desenhada – ainda é objeto de pena de morte por terceiros vemos que ainda estamos longe. Mas há que perseverar. E deixar que tais histórias bizarras sirvam apenas como argumentos para a escrita de romances, ficando apenas na ficção.

Observações de um crítico chato

·        
Há que se ter clareza que é um livro com o olhar ocidental. Talvez fosse o autor de outra origem a visão fosse distinta. Portanto, condescendência de que a visão é totalmente pró um determinado lado, não se busca a imparcialidade aqui. Ou seja, caso se tenha um olhar diferente, tolerância é solicitada;
·         A tradutora, Fernanda Abreu, por vezes se mostrou confusa quanto aos critérios, ora optando por traduzir literalmente, mantendo a terminologia do original em inglês, ora adaptando – “Observou Evie desenhar, dentro de O de ‘mãos’, o símbolo de quatro braços (...)” – pág. 286 – se no original era ‘hands’ a palavra em que letra ele teria desenhado o tal símbolo? / “George sabia que Tim Tedder estava em Saigon fazendo a ponte entre a CIA e o Exército da República do Vietnã, o ARNV”. Eu teria preferido deixar o nome por extenso em inglês. Pareceria-me mais coerente – pág. 485;
·         No capítulo 42 ela troca os nomes de um personagem. Ora ele é Robert Wharton (págs. 723 e 739), ora ele é Albert Wharton (págs. 734 e 737);
·         Por último, um erro bobo de concordância – “Seus pais nunca falava muito (...)” – pág. 906. Num livro de mais de 1000 páginas realmente deve ser cansativo fazer a revisão! Tolerância, meus caros, tolerância!

(1)  Que contém ainda “Queda de Gigantes” e “Inverno do Mundo”, já comentados neste mesmo blog.

sábado, 3 de janeiro de 2015

História do Brasil para Ocupados

“Os mais importantes historiadores apresentam de um jeito original os episódios decisivos e os personagens fascinantes que fizeram o nosso país”. Sempre prezei muito promessas feitas e cumpridas. O organizador do livro “História do Brasil para Ocupados”, Ed. Casa da Palavra – 2013 – 504 págs, Luciano Figueiredo, cumpre exatamente com a promessa feita na frase acima apresentada no início deste parágrafo. O que não quer dizer exatamente que eu seja somente elogios para o livro.

Reunir 66 historiadores de renome certamente não deve ter sido tarefa fácil. Somente por esse esforço a obra já seria digna de elogio. Num grupo tão grande diversas são as matizes apresentadas. Por mais isentos que queiram ser nos artigos apresentados, as cores de suas ideologias por vezes derrapam e são mostradas. Em outras ocasiões, a depender da personalidade do autor, elas são escancaradas. Mas mesmo esse aspecto de fundo não impede que apreciemos o fato de que temos à mão um compêndio dos principais momentos e temas que giram em torno da História de nosso país desde seu “achamento” – em que pese se circunscrever majoritariamente até a ditadura militar, não indo muito além, e mesmo assim em raras ocasiões.

Entre os 66 autores é óbvio que o leitor irá se surpreender com descrições que nos indicam como a História se repete:
Ao amanhecer, a paisagem era de devastação, e foi assim descrita pelo Jornal do Commercio, na edição do dia 15: “(...) paralelepípedos revolvidos, que serviam de projéteis para essas depredações, coalhavam a via pública; em todos os pontos destroços de bondes quebrados e incendiados, portas arrancadas, colchões, latas, montes de pedras, mostravam os vestígios das barricadas feitas pela multidão agitada” – pág. 353 – “O Povo Contra a Vacina” – José Murilo de Carvalho.

Qualquer semelhança com as recentes manifestações não é mera coincidência, inclusive porque o autor ressalta a multiplicidade de interesses aí envolvida nesta revolta do início do século passado.

Outro aspecto interessante é a identificação de alguns traços que permeiam a nossa sociedade, nem todos belos. Por exemplo, encontrei a melhor definição e explicação sobre como a corrupção se entranhou no Brasil, e da própria corrupção em si enquanto fenômeno da humanidade, em mais um artigo de José Murilo de Carvalho – somente por essa coincidência já posso depreender que dentre todos foi o meu autor favorito:
José M. de Carvalho

Nosso cipoal de leis incita à transgressão e elitiza a justiça. A tentativa de fechar qualquer porta ao potencial transgressor, baseada no pressuposto de que todos são desonestos, acaba tornando impossível a vida do cidadão honesto. A saída que este tem é, naturalmente, buscar meios de fugir ao cerco. Cria-se um círculo vicioso: excesso de lei leva à transgressão, que leva à mais lei, que leva a mais trangressão. “Basta de Corrupção” – José Murilo de Carvalho – pág. 265 (artigo 263-268).

Luciano Figueiredo
Assim Luciano Figueiredo, enquanto organizador, buscou atingir cada leitor, que certamente terá uma predileção específica sobre um determinado tipo de tema. O livro é subdividido em blocos: 1 – Pátria; 2 – Fé; 3 – Poder; 4 – Povo; 5 – Guerra; e 6 – Construtores. Por vezes os temas acabam por se mesclar – ora se está num determinado bloco e acabamos esbarrando com argumentações que facilmente se integrariam com outro, mas que eram necessárias pela lógica do discurso.

Aí se encontra minha principal crítica. Acredito que para uma obra de consulta se deve facilitar a vida de quem a busca. E num livro dedicado a temas históricos não se deveria reinventar a roda: o melhor parâmetro ainda é o temporal. Ou seja, diferentemente de Figueiredo, eu teria preferido seguir uma linha cronológica que propiciasse uma referência de fácil administração para aqueles que gostariam de se aprofundar sobre uma determinada época e um tema a ela circunscrito. Gostaria ainda que a formação dos autores fosse expressa logo na primeira página do artigo, como toda obra acadêmica, e não numa extensa lista ao final. Estes aspectos de forma, de todo modo, não prejudicam demasiado a obra para que esta deixe de ser referenciada como necessária na estante de todo pesquisador. Guardadas as devidas provocações ideológicas existentes, é claro, e se atendo aos fatos. Afinal, estamos falando de História – a Política encontra-se aí mesclada, mas cabe a cada um fazer a interpretação que melhor lhe apetece.

José Murilo de Carvalho é doutor em Ciência Política pela Universidade de Stanford. Foi professor visitante em várias universidades, entre as quais Stanford, Notre Dame, Oxford e École des Hautes Études en Sciences Sociales e, desde 2004, é professor visitante da Escola de Guerra Naval (EGN). É professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro da Academia Brasileira de Letras e Academia Brasileira de Ciências (págs. 491-492).


Luciano Figueiredo é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Coordenou a área de pesquisa, divulgação e editoração do Arquivo Nacional, fundou e dirigiu as revistas Nossa História e Revista da História da Biblioteca Nacional até 2011. Foi pesquisador na John Carter Brown Library (Providence/RI) e no Boston College. Atualmente é professor associado na Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador do CNPq e editor da revista Tempo (pág. 493).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

12 HUELLAS CELESTES

Orgulho. Se tiver um traço que distingue o povo uruguaio é o orgulho por sua própria história. Nós, brasileiros, se temos algo que nos vincula a eles poderíamos dizer o traço máximo com o qual contribuímos para esse sentimento não advém de nenhum conflito bélico, mas sim do esporte: o Maracanazo da Copa do Mundo de 1950 permanece como uma das bandeiras em termos de exemplo do que o Uruguai pode alcançar.

Este sentimento está explícito na obra “12 Huellas Celestes – Uruguay en los Mundiales” (12 Pegadas Celestes – Uruguai nas Copas do Mundo – tradução livre), de Alfredo Etchandy – Ediciones B Uruguay S.A. – 2014 – 191 páginas. Livro produzido e lançado 6 meses antes da última Copa do Mundo realizada no Brasil, peca pelas expectativas, a meu ver exageradas, em relação às possibilidades do selecionado celeste no torneio citado. Porém, esta é uma questão de fundo, a qual abordarei com calma mais para o final. Existem algum poucos erros de forma – traço infelizmente comum das obras literárias dedicadas ao futebol – mas que não atrapalham o excelente resultado de pesquisa histórica sobre o próprio esporte e a participação uruguaia nos Mundiais.

Assim, diria que o grande mérito do autor, alguém extremamente envolvido com os esportes, sendo um dos mais reconhecidos jornalistas esportivos do Uruguai, com sólida formação em Sociologia, Etchandy nos apresenta nos 3 primeiros capítulos – FIFA¹ / Os Jogos Olímpicos / a Copa do Mundo – dados históricos pinçados que nos dão a dimensão exata, mesmo que não detalhada, de cada um dos atos necessários para que o futebol se transformasse no que é hoje em dia. Desta forma, estava construído o cenário no qual o Uruguai brilharia, principalmente na primeira metade do século passado.

Alguns dados interessantes, por exemplo:

·         A origem comum entre o rúgbi e o futebol – (...) el 24 de octubre de 1863, cuando se efectuó uma reunión con participación de varios colegios e instituciones deportivas [britânicas]. La mayoría se pronuncio por la no utilización de las manos, creando las primeras reglas. (...) Los seguidores de la otra corriente , algunos años después, establecieron las reglas del football rugby, por lo que ambos deportes quedaron definitivamente separados y pasaron a transitar caminos diferentes. (pág. 10);
·         O fato da Confederação Sul-Americana, criada em 1916, ser bem mais velha que a União Europeia de Futebol (UEFA), que foi estabelecida somente em 1954 (pág. 13);
·         E o enaltecimento das duas medalhas de ouro olímpicas – 1924 e 1928 ganhas pelo Uruguai - como verdadeiros campeonatos mundiais, uma vez que a Copa do Mundo ainda não havia sido criada naquela ocasião (foi disputada pela primeira vez e ganha pelo país anfitrião – o próprio Uruguai – em 1930) – pág. 14 – com o devido reconhecimento da FIFA de tal entendimento a partir de seu Congresso realizado em 1914.

Este último ponto já faz a ponte direta com o outro aspecto por mim citado com um dos principais elementos da obra, que é a exposição do orgulho uruguaio de sua própria história. O tom vai num crescente nos capítulos seguintes – Uruguai nas Eliminatórias / Uruguai na Copa do Mundo / Brasil 2014 / Análise FOFA² Celeste / Conclusões.

O levantamento histórico feito pelo autor – cada um dos jogadores uruguaios que participou de cada uma das partidas em cada um dos Mundiais, assim como de sua fase eliminatória, uma vez criada – atende aos leitores aficionados pelo tema, principalmente os nascidos naquele país. Ou seja, um livro que caía como uma luva às vésperas do torneio mundial – objetivo que fica claro pelos 3 capítulos finais.


Estes denotam um otimismo imenso com relação às possibilidades uruguaias. O autor chega a elencar uma série de fatores que indicavam o motivo porque acreditava na possibilidade de conquista do campeonato:

·         Na América sempre triunfam os americanos – a Alemanha provou o contrário. Este argumento, estatístico, se perde em meio ao processo evolutivo e de disparidade em termos de organização do atual estágio de administração do negócio futebol. Se perder em meio a história é um grande pecado para um analista;
·         Colocou que entre os sul-americanos somente Brasil, Argentina e Uruguai teriam chances. Em que pese a eliminação precoce de Colômbia e Chile parecerem lhe dar razão, não se pode negar a evolução tática e técnica destas equipes;
·         Utiliza o ranking da FIFA – o Uruguai estava em 6º na ocasião do lançamento do livro – como um referendo para suas possibilidades, quando todos nós sabemos que classificações como essas são mera estatística, sendo o futebol tão querido justamente por ser um esporte em que o mais fraco pode subverter o rumo da História;
·         Ressalta mais de uma vez que o Uruguai já havia sido campeão no Brasil. Uma coisa é ter orgulho de uma façanha. Outra é fazer uma análise fria das possibilidades reais de vitória. Nós, brasileiros, sabíamos não ser os favoritos contra a Alemanha – em que pese não adiantarmos o 7 x 1, marca indelével que teve apenas um fator positivo: ter deixado de lado, para nós, o 2 x 1 de 50 como um mal menor.

Estes foram os principais pontos de uma série de 19 (dezenove)! Porém todos giraram em torno dos raciocínios acima apresentados. Acrescentaria ainda a confiança num grupo de jogadores que já havia apresentado seu valor em torneios anteriores – Uruguai foi o último campeão sul-americano, em 2011, na Argentina, além de ter ficado em 4º lugar no último mundial. Esqueceu-se mais uma vez que alguns anos haviam se passado e nada poderia garantir que tal desempenho se repetiria.

Agora, uma ressalva deve ser feita: fato é que o Uruguai, até o fenômeno da mordida de Suaréz, seu principal atacante, no jogo contra a Itália, ainda pela primeira fase, vinha cumprindo um belo campeonato, eliminando tanto a equipe Azzurra quanto a Inglaterra, favoritas para o grupo, derrubando inclusive o tabu de não vencer equipes européias em Mundiais que já alcançava mais de 40 anos. Enfim, como o próprio autor sinalizou logo no início de sua obra: El optimismo es un componente tradicional antes de cada participación, pero la verdad estará representada con lo que pase en el verde césped (pág. 8).

Observações:

A – A seleção brasileira de 1982, a que encantou minha geração no Mundial da Espanha, deixando sua marca perante todo o resto do mundo, também é citada por Etchandy: Brasil jugó un fútbol exquisito en matéria de ataque, pero con debilidades defensivas. El técnico era Telê Santana que nunca renunció al aspecto ofensivo. Eso le costó muy caro con Italia y cuando parecia que tênia clasificación asegurada perdió por 3 a 2 quedando afuera de torneo. Zico, Falcao, Toninho Cerezo y Sócrates eran las figuras del equipo. (pág. 61). Para aqueles que não conhecem o espanhol, exquisito significa muito bom.
B – Dois erros em termos de informação foram por mim identificados: o primeiro diz respeito às participações do lateral direito Cafu nas finais dos mundiais de 1994, 1998 e 2002. A frase utilizada pelo autor foi – “Cafú logro jugar tres instancias tan trascendentes, pero solamente triunfo en las dos primeras cayendo en la restante” (pág. 91). Na verdade Cafu perdeu a final de 1998 – Brasil 0 X França 3. O Brasil, tendo a sua presença, ganhou as finais de 1994 – vitória nos pênaltis sobre a Itália, após empate no tempo normal e na prorrogação (Cafu entrou no decorrer do jogo, no lugar do lateral titular, Jorginho) – e de 2002 – Brasil 2 x 0 Alemanha.
C – O segundo erro (ou omissão, como preferir) diz respeito às regras de convocação de jogadores para o torneio olímpico de futebol masculino. O autor prefere apontar somente para a mudança de regra a partir do torneio de 1992, disputado em Barcelona, Espanha, quando passou a vigorar a orientação atual – seleções sub-23, tendo a possibilidade de convocação de 3 jogadores acima de 23 anos (págs. 18 e 34). Porém, durante os torneios de 1984 (Los Angeles) e 1988 (Seul) já houve uma mudança em relação à aceitação de jogadores profissionais. Até então não era permitida a participação destes, o que favorecia os países da antiga Cortina de Ferro, que levavam os seus principais plantéis enquanto os países do Ocidente somente podiam comparecer com jogadores juniores. Em 1984 e 1988 os países podiam levar jogadores profissionais, mas desde que eles não tivessem participado de Copas do Mundo - http://www.bolanaarea.com/gal_olimpiadas.htm . O Brasil, por exemplo, em 1988, contava em seu plantel com Andrade (Flamengo). Em 1984 fomos representados praticamente pela equipe do Internacional de Porto Alegre, acrescida de Gilmar Popoca, do Flamengo.
D – Por último, acredito que todo um capítulo dedicado ao número 12 seria dispensável – págs. 155-159.

          (1)  Federação Internacional de Futebol – http://pt.fifa.com

      (2) Análise FOFA – Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças. Metodologia de análise utilizada comumente no campo da Administração de Empresas aqui aplicada ao selecionado uruguaio que se preparava para o Mundial no Brasil.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Casagrande e seus Demônios

Walter Casagrande Júnior, ou como é mais comumente conhecido, Casagrande (ou Casão), não pode ser proclamado, para mim, como um ídolo futebolisticamente falando. Talvez nem pessoalmente falando, uma vez que durante sua vida tomou decisões com as quais não concordo, porém o mesmo afirmou não se arrepender – “Não me orgulho de tudo o que fiz, mas não me arrependo de quase nada” (pág. 231).

 
Por outro lado, não há como deixar de admirar alguém que chegou ao fundo do poço, e cavou ainda um pouco mais, e de lá ressurgiu, não sem ajuda, que prossegue até hoje, para servir de exemplo que existem caminhos tortuosos demais que não devem ser seguidos, por mais prazerosos que pareçam ser. A luta contra o vício das drogas é uma constante na vida deste cara, de opiniões sinceras e de uma fragilidade humana que fica muito clara nessa sua biografia que analisaremos neste post – “Casagrande e seus Demônios – Casagrande e Gilvan Ribeiro – Ed. Globo – 2013 – 248 págs.

Para quem vive do esporte, não deixa de ser contraditório, pelo menos no discurso, se entregar às drogas. Muitos são os casos de atletas de alto nível que, sob a pressão do resultado, cedem ao que se oferece como um alívio momentâneo, sem perceber como estar mordendo uma isca que os levará cada vez mais distantes do seu ideal de bem viver – men sana in corpore sano.

Porém este não foi o caso de Casagrande. Ele já tinha na sua veia a alma do transgressor, seu relacionamento com as drogas surgiu antes mesmo de que o sucesso avassalador o engolfasse. Teve um breve interregno, enquanto jogava na Itália – Ascoli e Torino – porém, ao retornar ao Brasil, até mesmo já como comentarista, sua derrocada foi forte demais, levando-o a ficar internado, recluso, por 1 ano, tendo os vencimentos sempre pagos pela Rede Globo. Fundamental neste processo foi o locutor Galvão Bueno, que o apoiou tanto externamente, junto à emissora, quanto no seu processo de retomada de sua vida.

O livro em si teve a co-autoria de Gilvan Ribeiro, jornalista que o auxiliava nos tempos de escrita para a coluna do Diário de São Paulo, e somente o último trecho dele foi integralmente escrito pelo próprio jogador – talvez o trecho mais revelador de sua personalidade. É como se víssemos, enfim, a persona se revelando inteira. O restante da obra foi produto de inúmeras entrevistas com Gilvan, não somente de Casão, mas também das pessoas que estavam a sua volta e viveram com ele suas derrotas e vitórias.

A história ali retratada está aparentemente dividida em duas partes. Os autores resolveram atacar de cara o trecho mais pesado, o derradeiro mergulho fundo nas drogas que o levou à longa internação de 1 ano, mergulho este que gerou os tais “demônios” do título.

As portas do inferno estavam abertas. Os demônios invadiam a casa, sem qualquer cerimônia, andavam pelos cômodos, apareciam nas paredes, sentavam-se nos sofás. Como se a presença deles fosse algo natural. Eram feios, muito feios, horrendos mesmo. E grandes, enormes, mal cabiam no apartamento localizado na Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo. (...) A confusão se tornava ainda maior pela quantidade de noites e manhãs que se emendavam, sem intervalo de um sono restaurador. Atingira algo em torno de dez dias em claro, sem dormir ou comer (pág. 21).

O trecho acima é o de abertura propriamente dita da narrativa. Daí vocês podem ter a medida de quão pesado o é. Há que ser forte para acompanhar a leitura e entender o quão frágeis somos. E ao mesmo tempo como forte pode ser o ser humano para sair de um transe como o narrado.

Como vinha dizendo anteriormente, o livro é dividido. Na primeira parte – os 10 primeiros capítulos temos no centro a luta contra as drogas:

·         Demônios à solta;
·         Água benta;
·         Overdoses;
·         A primeira internação;
·         Memórias do exílio;
·         A vida lá fora;
·         Os filhos;
·         Domingão do Faustão;
·         Inferno na torre;
·         Prisão em flagrante.

Na segunda parte – os dez capítulos finais – ele se debruça sobre suas outras lutas, futebolísticas e políticas, porque não dizer:

·         Democracia Corintiana;
·         A ditadura do amor;
·         Uma dupla (quase) perfeita;
·         Política em campo;
·         O Leão é manso;
·         Aventura na Europa;
·         Às turras com Telê;
·         Pegadinhas do Casão;
·         Futpopbolista;
·         História sem fim.

Nesta segunda parte se destacam o fenômeno da Democracia Corintiana – início dos anos 80, o Corinthians, grande clube paulista, tendo como jogadores um grupo liderado por Sócrates, Casagrande e Wladimir e o apoio do Diretor de Futebol Adílson Monteiro Alves, implanta um sistema de gerenciamento em que todos são chamados a opinar e votar sobre as principais decisões envolvendo o time (até aquelas nem tanto) em meio a um processo de reabertura democrática pelo qual passava o país – e do qual ele fazia questão de participar ativamente; o relacionamento com Sócrates, o craque recentemente falecido em função do alcoolismo; sua experiência na Europa e um depoimento muito sincero sobre o doping no futebol; e uma surpreendente faceta ditatorial e teimosa de Telê Santana.

Ou seja, muitas foram, e ainda serão, as lutas do cara ali retratado. Um livro, como disse anteriormente, porém com outras palavras, que não é para fracos. Mas que vale a pena ser lido, talvez todo direto, sem paradas – eu o li em 24h, entre Buenos Aires e Niterói. Ele cumpriu, entendo eu, o que se propôs. Basta vocês agora entrarem nessa viagem, no bom sentido, é claro.


Pra gente conseguir viver, a gente precisa ter fome de alguma coisa, tem de ter sede de alguma coisa. A gente não pode ficar no meio-termo. Isso seria pior do que a morte. Eu quero tudo completo, não me contento com nada pela metade. E é assim que espero ter me entregado nesta biografia: por inteiro. (pág. 242).