quinta-feira, 3 de março de 2016

Sr. Holmes

Uma das funções de um crítico de literatura é verificar se o autor da obra entrega aquilo que promete. No caso do uso de um personagem já com uma trajetória, ainda mais quando o autor em questão não é o criador original, a expectativa aumenta, e o desafio se torna mais complexo.

A complexidade estaria centrada em alguns pontos. Personagens revisitados o são normalmente por terem alcançado certo relevo no mundo literário. Esse relevo, por sua vez, está pautado pelo sucesso atingido junto aos leitores, que tem como base a capacidade narrativa do escritor e a anima independente criada, ou seja, muitas vezes a personagem ganha tal força no imaginário do leitor que passa a ter uma persona própria, imune a eventuais tropeços em obras de menor valor – no caso, se for um personagem com uma grande gama de estórias. Se for o personagem de uma única estória, e tem o impacto acima apontado, ele entrou para eternidade – junto com o autor, por supuesto!

Outro aspecto é que tais personagens, por si só, já prometem muita coisa quando incluídos numa trama. Antes de adentrar no mundo daquele que será aqui analisado, o célebre Sherlock Holmes, detetive britânico cuja pousada se dava em Baker Street, podemos exemplificar nos utilizando do mundo cinematográfico. O que esperamos de filmes como do James Bond, Mad Max e Jason Bourne? Ação, muita ação, é o elemento comum a todos. Mas cada um com sua devida sutileza. James Bond necessariamente viria acompanhado das mulheres e de seu savoir faire – o que ganhou certa aspereza com a ascensão Daniel Craig ao papel; com Mad Max imagina-se uma corrida insana em busca da sobrevivência em condições precárias; e com Jason Bourne, um sem número de truques e habilidades na luta corporal garimpadas em meio a uma fuga desesperada por sua liberdade.

Chegamos a então a Sherlock Holmes. Cria original de Sir Arthur Conan Doyle, o personagem surge para o mundo no livro Um Estudo em Vermelho, publicado pela primeira vez em 1887, pela revista Beeton's Christmas Annual (1). Com o passar do tempo suas deduções lógicas, extraídas dos mínimos detalhes observados, acompanhadas das considerações de seu nobre companheiro de aventuras, o Dr. John Watson, tornaram-se marca indelével de seu caráter. Portanto, o que se imagina quando temos Holmes numa trama? Um mistério de resposta insondável a partir do qual somente ele poderá brilhar em sua resolução.

Correndo todos os riscos acima descritos, o escritor Mitch Cullin – “nascido no Novo México, Estados Unidos, em 1968, (...) autor prolífico, com livros traduzidos para mais de 10 idiomas” – se aventura em explorar o famoso detetive britânico na sua obra Sr. Holmes – Ed. Intrínseca, 2015 – 240 páginas. Nesse sentido, de modo a ter mais liberdade, situa a estória em 1947, ano em que Holmes alcança a idade de 93 anos. Uma primeira livre adaptação é a colocação da fama de Sherlock não apenas nos seus dotes enquanto detetive, mas também graças ao sucesso dos livros que descrevem suas aventuras, que teriam sido escritos não por Sir Conan Doyle, mas sim pelo próprio Watson. Além disso, ele encontra-se vivendo numa espécie de chácara, em Sussex, Inglaterra, com o objetivo de se isolar do restante da sociedade, tendo como companhia uma governanta – Sra. Munro – e seu filho, o jovem Roger, sendo sua atividade mais constante cuidar do apiário que possui. Enfim, teríamos como quadro geral um Holmes praticamente aposentado, vivendo do seu amor pelas abelhas.

É neste cenário que Cullin se aproveita, então, para expor ao leitor uma série de questionamentos em forma de roteiro – como seria a vida de alguém que viveu de sua capacidade intelectual a partir do momento em que se vê envolto em falhas de memória? Como lidaria alguém tão independente com a perspectiva solitária do limiar entre a vida e a morte? Ou seja, compramos Holmes, mas recebemos uma tese sobre o impacto do envelhecimento sobre o ser humano.

Posso dizer que não é um livro alegre. Ao contrário, gerou em mim certa tristeza, como um pesar por uma vida desperdiçada, a qual nem mesmo a fama pelos feitos alcançados amenizou a solidão em que se circunscreveu. A favor de Cullin o fato da escrita dele ser suave, quase como um poema. Na verdade diria até que sim, é uma visão poética do tema. Para aqueles que apreciam palavras e observações sutis, que tocam o coração e deixam marcas, não deixa de ser um aprendizado. Mas aí vem o meu questionamento: envelhecer pode até ter seu lado ruim, mas em nenhum momento no livro se apresenta o outro lado, quaisquer benefícios que possam ter sido alcançados, pois o próprio Holmes, em que pese sua afetividade para com o menino que o ladeia, demonstra um amargor, um procurar de uma solução para uma questão intransponível: qual o verdadeiro sentido da vida? Nem ele, o maior detetive de todos os tempos, tem resposta para este enigma. Mas na verdade, será que precisamos ter?

Resumindo: não é uma obra para muitos. Observando o argumento elaborado no início, a expectativa gerada não corresponde ao mérito do personagem. A estória em si tem seu valor, tendo gerado inclusive um filme no qual o personagem é interpretado por Ian Mckellen – o Magneto (velho) de X-Men (2). Uma estória que convida à reflexão. Mas os leitores tradicionais do personagem se verão frustrados, a meu ver (3).

(2)   http://www.adorocinema.com/filmes/filme-223770/criticas-adorocinema/ - “o foco realmente não está no aspecto policial, e sim no potencial emotivo da trama. O possível melodrama (indicado pela amizade frágil entre uma criança órfã e um gênio moribundo) é atenuado por tiradas constantes de humor sarcástico tipicamente britânico, que tornam a obra agradável, embora levemente monótona.
Mr. Holmes pretende ser um filme inofensivo, palatável para todos os públicos, e por isso abre mão de aspectos mais sombrios que seriam pertinentes à psicologia de um homem traumatizado, que nunca experimentou paixões amorosas, guarda rancor do melhor amigo Watson e alimenta uma crescente misantropia”.


(3)   A obra tem, em paralelo, duas estórias investigativas (não necessariamente emocionantes), vistas em flashback pelo personagem principal. Aparentemente apenas uma delas foi aproveitada no filme, mas digo isso sem tê-lo visto. A conferir.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

HARRY POTTER 4-7

Passado algum tempo retomei as estórias do pequeno bruxo britânico Harry Potter. Ataquei de uma vez só os quatro últimos livros – Harry Potter e o Cálice Sagrado; Harry Potter e a Ordem de Fênix; Harry Potter e o Enigma do Príncipe; e Harry Potter e as Relíquias da Morte – lançados aqui no Brasil entre os anos de 2000 e 2007. Estes “episódios” alcançam o protagonista entre os seus 14-17/18 anos, período que deveria cobrir seu último período de formação formal enquanto bruxo.
 
Lembro-me que anteriormente havia indicado o paralelismo entre esta série e os filmes de adolescentes, ambientados em escolas, com todos os seus ingredientes - http://proximideas.blogspot.com.br/2015/01/harry-potter-37.html . Ora, tais fatores permanecem, assim como os crescentes dilemas que envolvem os já citados adolescentes e seus hormônios em ebulição. Outra característica preservada na escrita de J. K. Rowling é a capacidade de reviravoltas na trama. Mas tudo isso eu já havia dito anteriormente, quando abordei os 3 primeiros livros. Outro fator, porém, me saltou aos olhos ao ler os quatro últimos.

Hogwarts, diferentemente do que poderia parecer, a princípio, como sendo somente um cenário onde desfilariam os diferentes enredos de cada uma das tramas – fato que não se dá no último volume, por exemplo - Relíquias da Morte -, muito mais ambientado fora do que dentro da escola – na verdade é um personagem em si mesmo. À parte os aspectos específicos de uma escola de bruxos – a existência de fantasmas, armaduras que se movem, elfos domésticos que trabalham quase como escravos, escadas que somem, passagens secretas (ok, estas podem existir em escolas comuns!), etc – Hogwarts se transforma, ou melhor, se agiganta, como a razão de ser maior da obra.

Opa, espera aí... Não quero tirar a primazia de Potter enquanto protagonista. Ele certamente é o motor que leva adiante a série de livros, que faz com que as coisas ocorram – ou pelo menos que enfrenta os problemas uma vez ocorridos, já que se pode também dizer que Lorde Voldemort é que os causam, trazendo movimento e agito para uma vida que Harry preferia que fosse mais calma, ainda mais num momento em que ele passa lidar com suas paixões pelo sexo oposto. O que eu quero dizer é que a estória não existiria sem Potter, porém Potter não existiria sem Hogwarts.

Fica claro com o passar do tempo e com o desenvolvimento das estórias como a escola marca indelevelmente seus alunos. Logo no quarto volume – O Cálice Sagrado – em que existe uma disputa – O Torneio Tribuxo – com outras duas escolas de bruxaria, vindas do estrangeiro – Durmstrang e Beuxbatons, do leste europeu e da França, respectivamente – a identificação dos alunos com aquilo que é o centro de suas vidas se fortalece como nunca. A escola deixa de ser um meio de passagem para uma vida adulta, mas sim aquele ambiente que marcará para o resto da vida seus alunos, com seus ensinamentos e princípios.

Este aspecto transparece para o leitor ao alcançar o último volume supracitado. A ausência na maior parte do tempo de Hogwarts traz um sentimento de que está faltando algo, um vazio em relação os volumes anteriores. Mas como tudo em Rowling, isso tem um propósito. E este é justamente o de ressaltar a sua importância ao final. Por vezes temi que a escritora estivesse divagando caminhos modernos, com finais em aberto para inúmeras possibilidades. Mas ela nos deixa a clara percepção de que tudo tem um propósito, e que a vida escolar pode ser um momento de resgate do bem viver, emoções indescritíveis durante o crescimento enquanto ser humano.
Amigos indissociáveis - Hermione, Harry e Rony
Eu tive essa oportunidade. Vivi minha vida escolar de maneira intensa no mesmo lugar, um lugar que guardo no meu coração e que para o meu prazer pude franquear a minha filha a mesma oportunidade. É isso que Rowling, com a série Harry Potter, traz como grande prazer, o sentimento de pertencimento a uma comunidade.

OBS 1 – Os volumes 5 e 6 - Ordem de Fênix e Enigma do Príncipe – a meu ver servem como pontes para o gran finale. Eles trazem em seu bojo elementos que serão acessórios ao desenlace final. Além de serem, como é típico de Rowling, complicadores no quebra-cabeça que vai sendo montado. Ou seja, como tudo no mundo da magia, tem algo de ilusionismo aí inserido. Mas tem que se ter fé e acreditar no bem, sempre. No final as coisas se encaixam – até de modo surpreendente;

Personagens crescidos, próximo ao fim da saga - em primeiro plano
Rony, Hermione, Potter, a pequena Lílian e Gina -  já como
rescaldo do impacto da notícia de um possível oitavo volume
em manifestações via Twitter da própria autora
OBS 2 – Diria ainda que o Cálice de Fogo encerraria a primeira parte da obra, a que eu chamaria de etapa “criancinha” de Potter. E isso fica bem marcado com um rito de passagem no seu trecho final. Já os três últimos volumes trazem um Harry Potter amadurecido precocemente, vislumbrando suas responsabilidades enquanto futuro adulto, enfrentando problemas que seriam difíceis até mesmo para um bruxo formado e experiente;

OBS 3 – A tradução de um livro é uma arte, ainda mais quando envolto em jogos de palavras, que podem ser mais fáceis ou não em termos de adaptação para um novo idioma. Duas expressões me chamaram atenção como tendo sido mal aproveitadas:

(a)    Potter tinha um padrinho chamado Sirius Black. Em determinado momento, no último volume, existe um jogo de palavras em que o Primeiro Ministro Inglês, ao tentar se lembrar do nome dele o chama de “sério”, ou seja, no original seria “serious”, que foneticamente seria idêntico à Sirius. Falto criatividade para uma melhor adaptação, afinal, chamar alguém de Sério Black não cabe...;
(b)   Um grupo de alunos se junta para ter aulas de defesa contra a Arte das Trevas. Eles se autodenominam a “Armada de Dumbledore”, em alusão ao diretor da escola, Alvo Dumbledore, que vinha passando por problemas para lá de burocráticos, ao se confrontar como Ministério da Magia. O termo “Armada” não está errado para uma tradução de cunho militar, uma vez que somos sabedores da existência da expressão Forças Armadas. Porém, seria melhor descrito para o português se traduzido de maneira literal a partir do termo “Army”, para o “Exército de Dumbledore”. Talvez a preferência do tradutor, nesse caso, tenha sido por permitir a permanência da sigla com as mesmas letras – A e D – fato este que se demonstrará relevante no restante do livro. e


OBS 4 – Ficou um gostinho de “quero mais” no final, a perspectiva de ver uma versão adulta do pequeno bruxo. Parece que uma adaptação de uma obra teatral com essa ótica está vindo por aí, sob o cunho de 8º volume:
  Harry Potter and the Cursed Child (https://www.pottermore.com/explore-the-story/cursed-child). Somente espero que não seja uma exploração exagerada de um personagem que teve início, meio e fim bem conectados. 
JK Rowling já convivendo com a expectativa de uma
nova estória.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Dias de Inferno na Síria

Observamos no último mês uma crescente ocupação de espaço na mídia pela epidemia do vírus Zika. Tendo alcançado escala global e estando o Brasil envolto à preparação para a realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, a imprensa internacional voltou seus olhos para o país, alardeando o risco que os estrangeiros estariam vivendo.

Em recente debate nas redes sociais coloquei que tal fato – a repercussão negativa – se dá por diferentes motivos que não somente o combate ao vírus em si. Existe um jogo comercial, diplomático e esportivo que vem sendo disputado com antecipação, aproveitando-se do advento e da proliferação da doença via Aedes Aegypit. Existe a não aceitação por determinados países de que seus interesses – no caso, de ser sede dos Jogos Olímpicos, com toda a atração comercial e turística que gera – sejam ameaçados por países em desenvolvimento. No campo esportivo, para que melhor entendam, sugiro a leitura de outro blog - http://sportv.globo.com/site/blogs/especial-blog/blog-do-coach/post/o-terrorismo-olimpico-no-rio-2016.html .

Minha argumentação no debate anterior foi de que enfrentamos todos os anos o combate ao mosquito por conta da Dengue, endêmica em nosso país. Em nenhum momento vimos uma altercação, uma indignação por parte da imprensa mundial em torno de nossa situação. E quer saber? Isso pouco importa. O que devemos fazer é lutar contra as doenças e as condições que as permitem graçar em nosso país por nós mesmos, pela nossa população. Obviamente que os turistas serão beneficiados por tabela, mas não é este o foco principal. O alarmismo de agora vem de outros objetivos ocultos.

E o que esse longo prólogo tem a ver com a análise do livro Dias de Inferno na Síria, do jornalista Klester Cavalcanti? A publicação da editora Benvirá, datada de 2012, com 296 páginas, relata o terror vivido pelo autor ao se ver preso no país árabe que vem sofrendo uma longa guerra civil. Escrito em ritmo de thriller, com grande potencial cinematográfico (1), muito do que está ali descrito é resultado do descaso da comunidade mundial para com um país e uma região que sobrevivem a regimes despóticos. E esses regimes somente se mantém em função de atenderem interesses outros que não os de sua população. De todo modo a história prende o leitor do início ao fim, sem trocadilhos.


Agora, lhes pergunto: entenderam a correlação? Sabemos que vivemos em plena guerra civil velada por aqui. Nos acostumamos a conviver com a cultura da bala perdida. Porém, nosso status quo não afeta em nada a comunidade internacional. Os outros países não estão preocupados com a nossa luta do dia a dia. Esse é um problema nosso. A pergunta que eu faço é: dependemos deles para vencê-la? Ou devemos nós mesmos tomar a dianteira e superar os obstáculos que nos auto-impomos? Nossa luta já gerou alguns sucessos de crítica – Cidade de Deus, Tropa de Elite, etc. Mas somente isso basta para mudar nossa realidade? Não, mas a denúncia é pelo menos um começo.

Na Síria, um país destruído a partir de suas entranhas, Klester pôde identificar e se solidarizar com habitantes que, mesmo tendo suas vidas destroçadas, ainda possuíam coragem e amor no coração para acolher um brasileiro dentre os prisioneiros. Seu livro é dedicado a Ammar Ali, Adnan al-Saad e Walid Ali, sírios que dividiram a cela com ele, além de outros 20 pelo menos, e que tornaram sua breve passagem por lá algo no limite do suportável. É o começo a que ele, como jornalista e autor, se propõe. Sua pequena contribuição para tentar alterar a situação lá existente.

Agora imaginem vocês se conseguirmos erradicar a Zika e no meio desse caminho organizar uma das melhores Olimpíadas de todos os tempos, pelo menos no campo esportivo – como foi a Copa do Mundo de 2014, algo salientado pela imprensa mundial. Já no campo administrativo as denúncias sobre a cúpula do futebol mundial falam por si só – a quem dedicaremos tal glória, fruto do esforço de muitos anônimos? Acho que deveríamos dedicar aos brasileiros, cidadãos que sofrem a partir do momento em que acordam até a hora em que se deitam, após um longo dia de trabalho, driblando trânsito, mosquitos, diarreia, dor de cabeça e febre. E mesmo assim ainda conseguem manter um sorriso no rosto e receber muito bem os estrangeiros. Como Klester foi recebido por seus irmãos de cárcere...


(1)   Algo que de fato ocorrerá, com a direção de Caco Ciocler. Para mais detalhes ver http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-111321/ .

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Criaturas de um Dia

Quando Robin Williams, interpretando o professor John Keating no filme Sociedade dos Poetas Mortos (1), eternizou o bordão Carpe Diem – expressão em latim que, a grosso modo, significa “aproveite o dia” – estava enaltecendo, na verdade, o que deveria ser a frase que deveria estar pregada na porta de cada consultório de psicologia pelo mundo afora. Aproveitar cada momento de nossa vida, como se fosse o último e o mais importante, por mais singelo que seja, é a receita – com suas variações – que deveríamos seguir para fugir da louca ansiedade que nos assola.

Em Criaturas de um Dia – Ed. Agir – Rio de Janeiro – 176 páginas – Irvin Yalom homenageia justamente àqueles que souberam como traduzir isso para suas próprias vidas depois de sofrerem pesados traumas. O que nos serve de lição: pois se grandes traumas podem ser assim tratados, o que dizer dos nossos pequenos traumas do dia a dia?

Desde que levantamos pela manhã, até nos deitarmos ao final do dia, pequenos dramas encenamos: Meu Deus, onde coloquei minhas chaves? / Como é que eu pude esquecer o aniversário de fulano? / Essa porcaria de restaurante não tem um prato grelhado? – e etc, etc, etc. Pequenos aborrecimentos que vão minando, pouco a pouco, nossa capacidade de olhar para o copo meio cheio.

Voltando ao livro e suas lições, observemos qual é o cardápio que nos é apresentado, tendo em comum o fato de que Yalom, enquanto psicanalista, teria como limite máximo 1 ou 2 sessões para “curá-los”:

Capítulo 1 – A Cura Tortuosa – um velho escritor com bloqueio criativo que almeja encontrar um par para dialogar “em alto nível” no fim de sua vida;

Capítulo 2 – Sobre Ser Real – um executivo recheado de uma vida de sucessos, se autodeprecia, se sentindo sufocado por insegurança, recriminações e culpa;

Capítulo 3 – Arabesque – uma ex-bailarina em busca do frescor de uma juventude perdida, a reboque de um amor do passado;

Capítulo 4 – Obrigado, Molly – a assistente de Yalom, Molly, após o falecimento dela, ainda o deslumbra com o efeito que teve sobre um dos seus pacientes, do tipo “acumulador”;

Capítulo 5 – Não Me Aprisione – um senhor de idade, ex-executivo, que não consegue se adaptar à rotina de um asilo de idosos, busca uma saída para melhor curtir a vida;

Capítulo 6 – Mostre Alguma Classe a seus Filhos – uma paciente havia mostrado sua face mais lisonjeira na interpretação do terapeuta Yalom. Porém, isso não era tudo que ela tinha, descobriu posteriormente à morte dela;

Capítulo 7 – Desista da Esperança de um Passado Melhor – toda uma vida dedicada a um fim. Será que teria sido válido? Era mesmo esse o caminho? Inquietudes de uma paciente em dúvida sobre o rumo da sua vida;

Capítulo 8 – Adquira sua Própria Doença Fatal: Homenagem à Ellie – como uma doente terminal de câncer encara o próprio fim, dando uma lição no terapeuta;

Capítulo 9 – Três Choros – uma desilusão com uma amizade que não pode ser recuperada;

Capítulo 10 – Criaturas de um Dia – um homem, duas mulheres, quantos caminhos isso pode proporcionar? E como Marco Aurélio, o imperador romano, ajudou a resolver essa equação.

Para cada um desses casos Yalom adotou uma estratégia. O aprendizado de que esses casos enaltecem, na sua trajetória particular, o fato de que devemos ressaltar os bons momentos que temos em nossa vida é o fio condutor. Certo, errado, direita, esquerda, verdadeiro, falso, esses dilemas sempre estarão aí para serem enfrentados, mas quer seja com uma doença fatal, quer seja com uma desilusão amorosa, quer seja com um passado ou um futuro em perspectiva, o que interessa é valorizar o presente nosso de cada dia. Carpe Diem.


      (1)   http://www.adorocinema.com/filmes/filme-5280/#

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

OS DESAFIOS DA TERAPIA

Seguindo na minha avaliação de quatro obras do psiquiatra Irvin D. Yalom abordo agora um livro escrito pelo menos que foge do relato ora ficcional ora autobiográfico dos dois últimos aqui apresentados – Cada Dia Mais Perto & Mamãe e o Sentido da Vida. Trata-se da obra “Os Desafios da Terapia”, publicada originalmente em 2002. A edição com a qual lido é da Ediouro, datada de 2006, contendo 230 páginas.


A curiosidade e a dicotomia que tal obra levanta começam a partir da tradução do título original para o Português. O título original é The Gift of Therapy, o qual na minha modesta tradução livre seria “O Dom da Terapia”. Por que o tradutor (Vera de Paula Assis) teria escolhido ‘os desafios’ ao invés de ‘o dom’? Sabemos que a publicação de uma obra ou a exibição de um filme estão atreladas diretamente na atratividade que as mesmas podem gerar sobre o seu público consumidor. Quanto mais atrativas forem, maior o público. E essa atratividade se inicia a partir do título. Mas volto à pergunta: por que raios ‘desafios’ é mais atrativo do que ‘dom’?

Por outro lado, no decorrer da obra de Yalom ele sim é confrontado com uma série de desafios, para os quais, um a um, ele vai apresentando sua abordagem como uma solução para os mesmos. Concordar ou não com sua filosofia de trabalho é outro tipo de análise que não cabe aqui. Mas em The Gift ele propõe uma série de atitudes para cada estágio do processo terapêutico a partir de sua própria experiência. Sendo assim, a palavra ‘desafios’ espelharia esta busca incessante por superação nesse encontro a dois – quando nos reportamos a uma terapia simples. Se olhamos para uma terapia de grupo os ‘desafios’ se multiplicam.

Ok, temos uma explicação para ‘desafios’. Mas, então, por que Yalom teria escolhido ‘dom’? Uma das lutas dos terapeutas é não ter a imagem de grande solucionador de todos os problemas. A terapia é um trabalho conjunto entre o terapeuta e o paciente. O terapeuta melhor se encaixaria no perfil de facilitador, por abrir o caminho para que o paciente enxergue a luz no fim do túnel, daquele mesmo longo túnel que ele, paciente, entrou não sabe quando nem como e muito menos porquê. Ele apenas o intui. Mas vê-lo, é outra história. Aliás, enxergar tal luz significará necessariamente ultrapassar a escuridão primeiro, a escuridão da ignorância.

Nesse sentido, sim, é necessário possuir um dom para auxiliar alguém nesta caminhada. O dom de saber ouvir, escutar realmente o outro e seus problemas, saber quando se posicionar – sem aconselhar por uma única saída, mas apontar alternativas, as quais o paciente deverá assumir a responsabilidade de adotar. É estar sem exatamente ser. É ter para com o outro sem possuí-lo. É ser ombro e não ser bengala.

Uma das ferramentas as quais Yalom recorre seguidamente nesta trajetória é o que ele chama do “aqui e agora”. Sendo a terapia um microcosmo da vida do paciente, uma vez que a construção de um relacionamento com um terceiro, não seria ela um espelho do que este mesmo paciente vive no seu dia a dia? Se o paciente tiver um relacionamento bem resolvido com seu terapeuta – e com os dilemas que este profissional lhe propõe, sendo instigador a todo o momento – por que este mesmo paciente não teria a capacidade de superar os dilemas fora do consultório? Por isso Yalom enfatiza:

Para o cientista social e o terapeuta contemporâneo, os relacionamentos interpessoais são tão óbvia e monumentalmente importantes que elaborar a questão é aceitar o risco de pregar para o convertido. Basta dizer que, independentemente de nossa perspectiva profissional – não importa se estudamos nossos parentes primatas não-humanos, culturas primitivas, a história do desenvolvimento do indivíduo ou os padrões de vida atuais -, é evidente que somos criaturas intrinsecamente sociais. Durante toda a vida, nosso ambiente interpessoal circundante – colegas, amigos, professores, bem como família – tem uma enorme influência sobre o tipo de indivíduo que nos tornamos. Nossa auto-imagem é formada, em grande medida, com base nas avaliações refletidas que percebemos nos olhos de figuras importantes em nossas vidas. (Grifo nosso - pág.57)

E qual figura é mais importante para um paciente que não seu terapeuta e como este o enxerga? Porque ali estará o espelho da evolução de cada um.


The Gift serve assim como um guia para uma aceleração, um aprimoramento desta jornada. E serve mutuamente tanto para terapeutas quanto para pacientes. Yalom sabiamente, de modo a evitar o peso de uma obra acadêmica – que não o é, diga-se de passagem – ou dos ditos manuais de auto-ajuda, até mesmo porque este é focado num nicho muito específico, estrutura sua obra em micro-capítulos, às vezes de uma única página, num total de 85, distribuídos pelas 230 páginas acima citadas. Dá, em média, menos de 3 páginas por capítulo. Pílulas do conhecimento. Vagalumes que iluminam o nosso caminho.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Mamãe e o Sentido da Vida

O segundo capítulo da jornada rumo à obra do autor Irvin D. Yalom se dá por intermédio das páginas de “Mamãe e o Sentido da Vida”, obra originalmente publicada em 1999 e da qual me faço valer da edição da Agir, datada de 2008, contendo 248 páginas. Comparada com a obra anteriormente resenhada – Cada Dia Mais Perto – esta apresenta com maior peso e qualidade ficcional os temas cotidianamente trabalhados numa terapia – o sentido da vida, a morte e a influência materna.

Yalom confessa desde o princípio o grande peso que teve o (mau) relacionamento por ele tido com a sua genitora. Logo no primeiro capítulo – a obra é dividida em 6 capítulos, cada um deles uma história independente da outra – que dá título ao livro, isto fica bem patente dado que se trata da descrição de um sonho tido com a mãe e a análise de seu impacto sobre sua persona. A partir daí ele trava um diálogo imaginário com ela, de modo a esclarecer os fatos e a expurgar os demônios. Relevante é sua fala final no próprio sonho, que diz muita coisa: “- Mamãe! Mamãe! Como me saí, mamãe? Como é que eu me saí?”.

Mas não devemos imaginar que o livro trata-se somente de um navegar sobre um dos principais dilemas enfrentado numa análise, que é a influência materna em nossas vidas. Já no segundo capítulo ele parte para outro dos cenários comumente enfrentados pelos psicanalistas, as terapias de grupo. Faz isso girando em torno de um personagem, Paula, que tem câncer terminal e se propõe a administrar, juntamente com ele, um grupo de pessoas num estágio similar, não importando a doença envolvida. Chama a atenção do autor como Paula possui muito mais influência na dinâmica de trabalho que ele próprio. O relacionamento entre os dois começa a se desgastar quando outros fatores externos passam a influenciar o trabalho proposto.

O terceiro capítulo, denominado Consolo Sulista, ainda caminha na seara dos trabalhos em grupo, mas diferentemente do anterior, são daqueles ministrados em hospitais, que têm uma alta rotatividade de pacientes. O problema enfrentado pelo psicanalista passa a ser então como extrair o melhor resultado possível quando a perspectiva é, numa análise conservadora, de se ter somente uma sessão para obtê-lo. Neste capítulo ainda existe a constatação de quão enganosa é a perspectiva de alunos para com o professor mais experiente, no caso ele próprio em relação aos médicos residentes que acompanham a dinâmica. A surpresa está em receber uma lição de um dos pacientes que menos ele esperava. Como bonita é a vida sempre a nos surpreender!

Já o quarto capítulo para mim foi o mais enriquecedor. Trata de como enfrentar o luto, tanto por um ente querido como por si próprio, ou seja, como estar à frente da morte nos confronta com o medo de nosso próprio fim. Chama-se Sete Lições Avançadas na Terapia do Luto, e tem o como personagem central Irene, uma médica que havia perdido o marido, ainda com 35 anos. Cada uma das etapas vividas no tratamento é então retratada e como pode ser útil a todos neste enfrentamento ao qual todos seremos submetidos um dia.

Ele indica a importância do primeiro sonho relatado, aquele que vem sem os vícios da mente em se proteger do terapeuta; passa depois para a relação em si entre terapeuta e paciente, especialmente como este último enxerga aquele no processo de cura; posteriormente a constatação em si sobre a raiva incontida pelo luto imposto pela vida, algo para o qual não estamos preparados, ainda mais quando ocorrido de maneira surpreendente; o fato do paciente começar a ponderar sobre a influência do (mau) destino, como se este fosse algo tangível, que contaminasse todos à sua volta, a ponto de se sentir culpado; a importância de se ter consciência sobre o próprio estado e o contexto em que está inserido, de modo a subjugá-lo – “Minha abordagem terapêutica, portanto, tem sua síntese num comentário de Thomas Hardy (1): ‘Se há um caminho para o Melhor, ele exige um olhar pleno para o Pior’”; o avanço em termos da conscientização e cura tem como primeiro sinal o vislumbre da própria terapia somente como uma ferramenta, e não um fim em si mesmo. O terapeuta passa a ser um especialista que propõe e auxilia na busca conjunta pela cura. O trabalho é em grupo, entre o terapeuta e o paciente! Se este não ajuda, pouco há a fazer. E tantas são as circunstâncias:

É óbvio que enfrentar a própria morte é a mais poderosa das experiências limítrofes, mas existem muitas outras – doenças ou lesões graves, divórcio, fracassos profissionais, eventos marcantes (a aposentadoria, o momento em que os filhos saem de casa, a meia-idade, certos aniversários importantes) e, é claro, a experiência marcante da morte de um ente querido. (pág. 134)

A última lição deste capítulo, a mais óbvia de todas, é quando o paciente se dá conta de que deve seguir em frente. A Irene, em seu processo, por exemplo, foi a única que autorizou a identificação explícita de sua profissão e de seu caso, sem muitos retoques para a confidencialidade, para que Yalom pudesse divulgá-la e ajudar outras pessoas que estivessem passando pela mesma situação. Isso é ou não é seguir em frente?!

Nos dois últimos capítulos Yalom faz uso do terapeuta Ernst Lasch, personagem criado por ele para o romance Mentiras no Divã. Seu reaparecimento pretende demonstrar que essas histórias são intensamente ficcionalizadas (Posfácio, pág. 243). A primeira delas – Dupla Revelação – trata da hipótese de que uma paciente tivesse acesso, acidentalmente, às gravações feitas pelo terapeuta sobre as sessões realizadas, e o seu impacto no restante do tratamento; já A Maldição do Gato Húngaro está mais na linha do romance-fantasia, tão típico dos grandes autores latino-americanos, sendo uma alegoria sobre vidas passadas.

Dessa forma Yalom nos brinda nesta obra com pérolas de elevada qualidade. A mim particularmente agradou o capítulo de Sete Lições, útil não somente para quem passou pelo tormento ali exposto, como também para uma preparação para o porvir e como agir em tais circunstâncias. Destacaria ainda Viagens com Paula, por sua lição para o relacionamento a dois e como este deve ser cultivado com zelo; e o Dupla Revelação, pela sua comicidade. Devo dizer que dentre os quatro livros por mim lidos nesse exercício, este, juntamente com Criaturas de Um Dia, foi dos que mais me agradou. Mas isso é uma outra história para uma outra vez.


(1)   Thomas Hardy – Escritor Inglês - http://educacao.uol.com.br/biografias/thomas-hardy.htm .

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Cada Dia Mais Perto

O ser humano é por natureza um curioso. Este traço característico de nossa espécie é um dos fatores que levaram a nossa evolução, até o domínio das diferentes técnicas que proporcionaram, por sua vez, estarmos, para o bem e para mal, no leme condutor dos rumos de nosso planeta.

Porém, este mesmo traço tem um lado vil, que é quando a curiosidade se presta a mera fofoca. Por outro lado, não seria este – a volúpia pelo comentário sobre a vida alheia – também uma característica indissociável do ser humano? Mesmo aqueles que não a praticam não estariam indo contra sua própria natureza?

Essa introdução um tanto errática está diretamente vinculada a eu não saber como classificar a obra de Irvin Yalom, Cada Dia Mais Perto – Ed. Agir – Rio de Janeiro – 2010 – 296 págs. Yalom é um conhecido psiquiatra norte-americano que criou toda uma bibliografia, entre ficção e não-ficção, em torno dos casos terapêuticos por ele tratados. Como diria meu próprio terapeuta, é uma nova classe literária anteriormente inexistente. Do mesmo autor eu já tinha lido – e comentado – Quando Nietzsche Chorou e O Enigma de Espinosa.

Meu terapeuta – acima já mencionado – propôs como um bom exercício de leitura e compreensão do processo da terapia em si, assim como de tudo que lhe envolve, navegar pelo mundo dos escritos de Yalom. Feita esta proposta adquiri 4 livros distintos de uma vez só, triplicando o número de volumes do referido escritor sob minha posse. Resolvi então lê-los por ordem cronológica de criação e edição original. Desta forma poderia não apenas observar o desenvolvimento do autor enquanto escritor como também de sua filosofia de trabalho.

Esta obra – Cada Dia Mais Perto - foi escrita em conjunto com uma de suas pacientes, apresentadas pelo pseudônimo de Ginny Elkin, e foi primeiramente redigida em 1974, quando Yalom tinha 39 anos. Como proposta de terapia, tendo em vista ela ser uma escritora que sofria de um bloqueio para sua produção literária, pautada nas agonias pregressas que ela própria cultivava em relação à si mesma, “apresentando um comportamento atormentado, autodepreciativo e submisso”, Yalom sugeriu que ambos escrevessem, isoladamente, suas impressões após cada uma das sessões. Passados alguns meses eles trocariam mutuamente seus escritos, de modo a otimizar o auto-conhecimento do processo, buscando algum tipo de avanço. O livro trata, então, da publicação destes escritos, tal qual como foram feitos originalmente.

Yalom confessaria que este processo, além de ser produtivo para a paciente, serviria para que ele próprio alçasse de maneira mais sólida voos literários, testando a si próprio enquanto escritor. Minha curiosidade enquanto leitor foi então aguçada por diferentes canais: o que pretendia meu terapeuta? Eu perceberia uma melhora em minhas atitudes a partir da experiência que seria exposta no livro? O livro em si, enquanto obra literária, é bom ou ruim? E como se deu tal experiência? Foi proveitosa para ambas as partes: o terapeuta e a paciente? E como cada um se manifestou e desenvolveu sua escrita?

Portanto, nesta crítica que a partir de agora faço neste post, algumas das perguntas permanecerão para os demais livros. Outras irão se ater a cada uma das obras. A pretensão do meu trabalho terapêutico – e digo meu, pois se tem uma coisa que aprendi é que esse é um processo conjunto, de construção de um relacionamento mútuo de confiança – seria aproveitar um instrumento – livros – ao qual tenho muito apreço, otimizado pelo fato do autor ser de boa lavra, para que eu aumentasse meu auto-conhecimento. De cara a primeira lição que absorvi foi a humanização do terapeuta. Todo paciente tem pelo seu especialista um sentimento de endeusamento. Ou pelo menos uma expectativa de que ele será o vetor de todas as soluções de sua vida. Porém, essa atitude acaba se revelando falha para o processo, pois não enxergamos o ser humano que está ali para nos escutar, absorver as informações, degluti-las e nos devolvê-las num formato, digamos, mais inteligível, no sentido de que a partir do momento em que as apreendemos por um outro olhar, poderemos trabalhar melhor nossa reação às mesmas. Isto pode ser considerado uma melhora, acredito. Com isso estariam respondidas as duas primeiras perguntas. Mas ainda acredito que existe um algo mais nas obras de Yalom. Isso ficará mais claro nos demais posts.

Em relação a Cada Dia Mais Perto ser uma boa obra literária, eu, que já tinha lido outros dois livros anteriormente, posso lhes dizer que deixa a desejar, apesar de prender a atenção – mais pela curiosidade por mim acima explanada do que pela qualidade em si. Entre os dois textos majoritariamente presentes (acaba por surgir um terceiro autor na “trama”), considerei o de Yalom mais consistente e atrativo. O de Ginny era mais complexo, confuso, não tinha uma linearidade que por vezes complicava sua compreensão. Uma diferença percebida por ambos foi o modo como tratavam o seu interlocutor em seus escritos. Enquanto Yalom usava a 3ª pessoa, Ginny, a paciente, parecia querer tecer uma segunda sessão, um segundo diálogo, com o terapeuta, chamando-o por “você”. Abaixo transcreverei dois trechos de início dos respectivos relatos, para que possam perceber a diferença de estilo:

Yalom

09 de Outubro

Ginny veio hoje, o que significa, no seu caso, que está em relativa
boa forma. Suas roupas não têm remendos, seus cabelos provavelmente foram escovados, seu rosto parece menos decomposto e bem mais distinto. Com certo embaraço, ela descreveu com minha sugestão de pagasse pelas sessões com relatórios escritos em vez de dinheiro dera-lhe um novo impulso na vida. Inicialmente tinha ficado orgulhosa, mas em seguida conseguiu reduzir seu otimismo, fazendo piadas sarcásticas sobre si mesma para outras pessoas. (pág. 27/)

Ginny

09 de Outubro

Deve haver um meio de falar sobre essas sessões que não seja repetindo exatamente o que aconteceu e mesmerizando a mim mesma e a você. Eu tinha criado expectativas, mas me concentrei principalmente na ideia de mudança de horário. Comecei e acabei a sessão com este pensamento ocupando a minha mente. Com inquietação, e não sentimento. (pág. 29)

Percebe-se um contraponto entre objetividade por parte do terapeuta, na busca por caminhos, pistas, que indicassem um indicativo de um campo a ser trabalhado em busca da “cura”; enquanto a paciente, Ginny, trabalha mais a subjetividade, o sentimento inserido no relacionamento entre os dois. É importante ressaltar que não existe um certo ou errado na comparação entre os dois estilos. É apenas como ambos expressam o modo de atingir o mesmo objetivo, a aproximação de visões que propiciaria a alta. O título do livro já remete a esta meta – Cada Dia Mais Perto – inspirada numa música de Buddy Holly (Everyday – letras abaixo), sugerido pela Ginny. Yalom preferia A Twice-Told Therapy, mais uma vez demonstrando a diferença de visões. A abordagem poética da paciente acabou por prevalecer.

Enfim, teria sido alcançado o intento proposto por Yalom para ambos? Aí, somente lendo para que saibam. Importante ressaltar que existem posfácios escritos pelos dois, em separado, outra isca para a curiosidade humana. Para os leitores já conhecedores da obra de Yalom fica a impressão que ele estava realmente numa fase prematura da escrita, que veio a melhorar posteriormente. Para Ginny, a vida seguiu, como deve ser, com ganhos e perdas.

Everyday, it's a gettin' closer,
Goin' faster than a roller coaster,
Love like yours will surely come my way, (hey, hey, hey)
Everyday, it's a gettin' faster,
Everyone says go ahead and ask her,
Love like yours will surely come my way, (hey, hey, hey)
Everyday seems a little longer,
Every way, love's a little stronger,
Come what may, do you ever long for
True love from me?
Everyday, it's a gettin' closer,
Goin' faster than a roller coaster,
Love like yours will surely come my way, (hey, hey, hey)
Everyday seems a little longer,
Every way, love's a little stronger,
Come what may, do you ever long for
True love from me?


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

PROPRIEDADE INTELECTUAL E RELAÇÕES INTERNACIONAIS NOS GOVERNOS FHC E LULA

Obras baseadas em dissertações de Mestrado, teses de Doutorado, ou seja, quaisquer produtos acadêmicos correm sempre o risco de ser um regalo para um determinado nicho objetivado, porém algo considerado como uma black box para os não iniciados. E, portanto, de difícil absorção pelo público em geral. Trata-se de algo natural, dado que os trabalhos acadêmicos têm que obedecer a uma determinada rigidez, pois seu fim prático primeiro é o de ser a demonstração pelo autor do conhecimento absorvido e da geração de sua contribuição para o mundo científico ao qual ele se propôs ser um dos membros.

O livro o qual será objeto de nossa análise neste post sofre de tal característica, o que não retira em nada sua importância para a meta a que se propôs. Trata-se da obra de autoria de Carlos Maurício Ardissone, intitulada Propriedade Intelectual e Relações Internacionais nos Governos FHC e Lula – os rumos das negociações globais e das políticas públicas – Ed. Appris – Curitiba, PR – 2014 – 325 págs.. Como dito anteriormente, ela entrega o que se propõe. Porém seria tal entrega suficiente para almejar voos mais altos? A depender da altura ambicionada, alguns ajustes deverão ser realizados.

Ardissone inicia sua obra, que tem como base sua tese de Doutorado apresentada perante a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) com uma ampla explanação sobre a base teórica em que está assentada. O Capítulo 1 – Aspectos Teóricos: ideias, instituições e lideranças na formulação de políticas públicas – ocupa pouco mais de 1/3 do livro. Temos a exata noção de que esta porta de entrada é absolutamente necessária para o meio acadêmico, dado que se traduz para uma banca examinadora que o candidato a Doutor possui todas as ferramentas para analisar seu objeto de estudo. Um exemplo de tal discurso:

Por conta disso, a literatura desenvolveu e sofisticou cada vez mais abordagens para tratar dos elementos cognitivos que incidem sobre a formulação de políticas. Conceitos diversos foram formulados – como os de “imagens”, “mapas cognitivos”, “sistema de crenças”, “códigos operacionais” e “lições do passado” – todos com a preocupação central de compreender a “brecha” existente entre a realidade, supostamente “objetiva”, do ambiente operacional e a representação “subjetiva” na mente do tomador de decisão. A esse conjunto de abordagens, a literatura costuma se referir como abordagem cognitiva das Relações Internacionais (DE MELLO E SILVA, op. Cit., p. 143). Veja-se, pois, como, a partir da crítica cognitiva ao modelo do ator racional, o conceito de “ideia” impregnou-se na Análise de Política Externa.
(pág. 42).

Mas, o leitor, quando atraído na estante da livraria, se remete imediatamente ao tema proposto no título do livro – Propriedade Intelectual e Relações Internacionais nos Governos FHC e Lula. A colocação dos nomes de Presidentes de tal envergadura histórica na capa traz em seu bojo a geração de uma grande expectativa pelo adquirente da obra. E tal somente vem a ser abordada após ultrapassar, ainda que necessário, o 2º capítulo – O regime internacional de Propriedade Intelectual do Acordo TRIPs: um chute na escada do desenvolvimento. Assim sendo, chegamos à metade do livro com o leitor ávido por entrar no tema proposto no título! De todo modo, este segundo capítulo não pode ser ignorado, uma vez que ele apresenta o cenário internacional em que as diretrizes da Política Externa Brasileira serão inseridas a partir dos capítulos 3 e 4. Como, por exemplo, quando ele cita os limites do alcance que a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), agência especializada das Nações Unidas, apresentou em determinado momento histórico para os interesses dos países desenvolvidos, o que motivou a guinada dos debates sobre a estrutura jurídica internacional sobre os Direitos de Propriedade Intelectual em direção à Organização Mundial do Comércio (OMC), via o acordo TRIPs – Acordo sobre os Direitos de Propriedade Intelectual ligados ao Comércio, um dos constitutivos daquela organização:

Um dos obstáculos para os Estados Unidos atingirem seus objetivos era a percepção de não ser possível reformar o regime internacional de propriedade intelectual por intermédio da OMPI, uma vez que, nesta organização, os Estados Unidos só possuíam um voto e era bastante provável ser sobrepujado pelos países em desenvolvimento.
Pág. 131

O que eu quero dizer com isso tudo: Ardissone se apresenta como um autor essencial para quem busca se aprofundar no estudo dos dois períodos por ele indicados – Governos FHC e Lula – na seara proposta – políticas de Propriedade Intelectual e sua influência nas Relações Internacionais. Seu estudo tem uma base teórica sólida, alcança detalhes que demonstram que a pesquisa foi valorosa em termos quantitativos e qualitativos ao se observar os dados coletados. As conclusões que expõe demonstra a busca pelo equilíbrio do pesquisador, em ser isento, mesmo diante de paradoxos em relação às suas possíveis crenças pessoais – no texto não se percebe, de maneira clara, qual é o viés político do autor, o que não deixa de ser uma qualidade num texto acadêmico, voltado mais ao debate das ideias e conceitos:

Na formulação da política externa, o processo de aprendizado social em que a diplomacia brasileira viu-se envolvida contribuiu para o governo brasileiro dar continuidade e aprimorar algumas políticas do Governo Fernando Henrique Cardoso, como se verificou na questão da licença compulsória do Efavirenz, em 2007. As experiências acumuladas nos contenciosos na OMC favoreceram também estratégias mais ofensivas, como no caso da retaliação cruzada, em 2010. Mas elementos importantes de mudança também podem ser identificados na postura mais afirmativa e contestadora das regras do regime internacional de propriedade intelectual durante o Governo Luiz Inácio Lula da Silva. A “Agenda para o Desenvolvimento” reflete este novo padrão de inserção.
Pág. 300

Por fim, caso o autor almeje que a obra alcance um público mais vasto (ou seria melhor dizer, popular!?), terá que repensar uma nova edição na qual principalmente o primeiro capítulo seria ou suavizado ao até mesmo suprimido, de modo a poupar os leitores não-iniciados de um texto por demais filosófico. Eles querem ver sangue, as entranhas motivadoras das decisões! Ardissone nos brinda com cultura sobre Relações Internacionais com maestria, mas isto aos olhos de um leitor menos afeito a matéria soa como um longo discurso antes de um jantar tão ansiado.

Citações e Glossário

DE MELLO E SILVA, Alexandra (1998) – Ideias e Política Externa: a atuação brasileira na Liga das Nações e na ONU – In: Revista Brasileira de Política Internacional – 41(2) – págs. 139-158

Caso Efavirenz – “A recente decisão do governo brasileiro de aplicar licença compulsória ao Efavirenz respeita as regras nacionais e internacionais, inclusive o Acordo sobre Aspectos de Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPs, sigla em inglês) da OMC. A medida é histórica e inédita na América Latina, embora já tenha ocorrido em outros países como Canadá, Tailândia e Itália, inclusive em relação a medicamentos da própria Merck10. A decisão do governo foi o desfecho de uma longa negociação com o laboratório e foi tomada com responsabilidade, sem desrespeito às legislações nacionais e internacionais em vigor. Foram vários os fatores que influenciaram a decisão do Poder Executivo de emitir a licença compulsória do Efavirenz: a inflexibilidade do laboratório em rever seus preços para o mercado brasileiro; o desgaste da licença compulsória como instrumento de pressão (fato que restou evidente ao observar-se as negociações de 2005); e a pressão da sociedade civil brasileira, sobretudo de grupos ligados à saúde e aos direitos humanos”.

Retaliação Cruzada - Diante do descumprimento da decisão do Órgão de Solução de Controvérsias (OSC) por parte dos Estados Unidos da América (EUA) no caso do algodão, este órgão da Organização Mundial do Comércio (OMC) autorizou a aplicação da retaliação cruzada pelo Brasil. Nesse sentido, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) abriu recentemente consulta pública sobre as medidas que o Brasil poderá tomar na área de propriedade intelectual. Esse quadro representa um teste para a OMC, que pode ver sua legitimidade ameaçada caso os EUA ignorem suas regras e incentivos para o cumprimento destas. A retaliação cruzada pode – e deve ser feita quando se estabelece que a suspensão de concessões no mesmo setor não será eficaz ou quando for mais prejudicial ao país autorizado a estabelecer tais normas. Se o aumento do imposto de importação de alguns bens oriundos dos EUA for mais desfavorável do que positivo para o Brasil, este país tem o direito de suspender concessões e obrigações no setor de propriedade intelectual, isto é, deixar de pagar por direitos de patentes e direitos autorais. Fonte: http://www.ictsd.org/bridges-news/pontes/news/riscos-e-oportunidades-na-retalia%C3%A7%C3%A3o-cruzada-em-propriedade-intelectual – de 21 de Abril de 2010.

Agenda para o Desenvolvimento - A Agenda de Desenvolvimento, proposta por Argentina e Brasil em 2004, visa a tornar o desenvolvimento elemento crucial em todas as negociações levadas a cabo na OMPI e na determinação de políticas de proteção à propriedade intelectual em geral. De acordo com o Grupo de Amigos do Desenvolvimento (GAD) - Argentina, Bolívia, Brasil, Cuba, Equador, Egito, República Islâmica do Irã, Quênia, Peru, Serra Leoa, África do Sul, Tanzânia, Uruguai, Venezuela e República Dominicana, a OMPI, enquanto agência da Organização das Nações Unidas (ONU) deveria pautar-se, completamente, pelos amplos objetivos de desenvolvimento que a ONU fixou para si mesma, em particular, pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, e levar em conta todas as disposições pró-desenvolvimento do Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPs, sigla em inglês) e subseqüentes decisões do Conselho do TRIPs, como a Declaração de Doha sobre TRIPs e Saúde Pública de 2001. Argentina e Brasil tomaram a iniciativa de lançar a Agenda de Desenvolvimento em 2004, e a proposta foi, rapidamente, apoiada por 13 países em desenvolvimento (PEDs).